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Dividir a casa pode dividir “a causa”

Crédito: Alan Santos / PR

Parodiando a antiga série da TV Globo “Entre Tapas e Beijos”, parece que o governo está usando a tática de “Entre Rusgas e Afetos” não só com deputados e senadores, como, inclusive, com os seus mais ferrenhos adeptos.

Errar é humano – diz o velho ditado. Mas, o capitão-presidente parece querer passar do limite. Pena que não se lembre ou talvez não conheça um célebre pronunciamento de Abraham Lincoln, que liderou o país que ele idolatra, os Estados Unidos. Foi em junho de 1868 e já se vão 161 anos, quando Lincoln, deputado, tentou se eleger (foi derrotado) senador. Observando uma citação do Novo Testamento (Mateus 12:25) disse que: “Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer”. Na realidade, Lincoln também adaptou seu pensamento a outro, de Sam Houston, que 8 anos antes, num debate no Senado norte-americano, afirmou que: “Uma nação não pode ficar dividida contra si mesma”.

No Brasil de hoje, marcado pelo antagonismo da esquerda de Lula (PT) versus o antipetismo, o capitão-presidente vem dividindo ainda mais a casa (país), contrariando até parcela considerável dos seus admiradores. Ao invés de focar todos os esforços na reforma da Previdência, a aparente causa-maior de seu governo ou de sua plataforma de campanha, acirra os ânimos, confundindo a opinião pública sobre o que é realmente importante e dando trabalho extra para o Congresso, arranjando mil e um fatos para o debate, seja popular ou institucional. Mistura o necessário pacote anticrime de Sergio Moro com esdrúxulas medidas – como a péssima pretensão de eliminar a obrigatoriedade de cadeirinhas de segurança para crianças nos carros – até (e essa também é incrível) ideia de acabar com as tomadas de energia de três pinos e retornar com as de dois. Como se isso fosse assunto para um presidente da República considerar primordial em momentos de instabilidade sócio-econômico-política!

Desde que resolveu se insurgir contra verbas da educação e da pesquisa, esquecendo-se da importância estudantil e científica, não se passam 24 horas sem que fale algo que crie conflitos entre os poderes, não “uma pérola”, e sim uma ostra sem recheio. Logo após praticamente se lançar, sorridente e confiante, como candidato à reeleição, esquecendo-se do que combateu veementemente quando em campanha e que lhe angariou quantidade expressiva de votos, veio a público para criticar iniciativa semelhante de parlamentares. Agora incentivados pela postura do presidente da República de já sonhar com um novo mandato, alguns congressistas querem aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), para que os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado possam ser votados e permaneçam nos cargos na próxima legislatura, “recondução” que hoje é proibida pela Constituição. Ora, ora, o capitão-presidente chegou a dizer textualmente, como se só para ele não deva valer: “Qualquer eleição de quem já tem mandato, o candidato já sai com a máquina na mão”. E completou (dando como exemplo a Câmara Municipal do Rio de Janeiro): “O cara fica eternamente lá”!

Não dá para entender porque ele se empenha (talvez “aconselhado” por filhos fascinados com redes sociais) em tantos embates com os congressistas que vão votar a reforma da Previdência, chegando a lamentar que na Câmara Federal há quem o queira transformar em Rainha da Inglaterra, “que reina, mas não governa”.

Menos mal que, após sofrer sucessivas derrotas no nosso também combalido Parlamento, como a da Medida Provisória da posse e porte de armas, o capitão-presidente admitiu o “mea-culpa” ao reconhecer problemas no poder de articulação entre o Planalto e o Congresso. Mas não basta atribuir as dificuldades à sua própria inexperiência, ou, como já dizem muitos, imperícia ao transparecer que está picado pela “mosca azul” do poder central, já pensando em reeleição ainda em início de mandato.

Seguidor das ideias e modo de agir de outro presidente dos Estados Unidos, o atual e instável Donald Trump, o nosso chefe da Nação não soube escolher muitos da sua equipe. Assim, passou a ser história de todo dia demitir/exonerar/trocar ministros e auxiliares diretos. É estranho, mas permanecem intocáveis os que mais precisam ser afastados com urgência, como integrantes da sua assessoria de comunicação que não o alertam sobre o risco de falar sem medir as consequências. A profusão de escolhas erradas nos trazem à memória outra advertência de Abraham Lincoln: “Se desde o primeiro momento conseguirmos determinar onde nos encontramos e aonde nos dirigimos, poderemos julgar muito melhor o que temos de fazer e como fazê-lo”.