Número de professores jovens no ensino médio diminui 31,1% em dez anos

A possibilidade de escassez de professores em diferentes etapas da educação básica brasileira, frequentemente denominada “apagão de docentes”, representa um desafio que vem sendo discutido há vários anos. Um levantamento divulgado em 2022 pelo Instituto Semesp, entidade que representa mantenedoras de instituições de ensino superior, estimou que o Brasil poderia registrar um déficit de aproximadamente 235 mil profissionais da docência até 2040. Mesmo após quatro anos, a falta de professores no Brasil permanece como motivo de preocupação. O estudo Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, divulgado pelo Instituto Semesp em setembro de 2026, evidencia um desequilíbrio na composição do magistério: apesar do aumento no número geral de docentes, o ingresso de profissionais mais jovens não ocorre em ritmo suficiente para compensar o envelhecimento daqueles que já exercem a profissão. Os dados referentes ao período de 2015 a 2025 revelam uma mudança significativa no perfil etário dos professores do ensino médio no Brasil. Nesse intervalo, a quantidade de docentes com até 24 anos diminuiu 31,1%, passando de 17,3 mil para 11,9 mil profissionais. Em contrapartida, o contingente de professores com 60 anos ou mais aumentou 104,5%, subindo de 18,2 mil para 37,3 mil. Essa transformação também pode ser observada na relação entre os dois grupos etários. Em 2015, o número de professores mais jovens era praticamente equivalente ao de docentes com 60 anos ou mais. Uma década depois, a proporção passou a ser de aproximadamente três profissionais mais velhos para cada professor com até 24 anos. De acordo com as projeções apresentadas no estudo, essa diferença poderá se ampliar até 2040, quando a relação poderá chegar a seis docentes com 60 anos ou mais para cada profissional da faixa etária mais jovem. Segundo a pesquisa, diversos fatores ajudam a explicar esse cenário, como a redução do interesse dos jovens pela profissão, a remuneração pouco atrativa, a desvalorização social do magistério e as condições inadequadas de trabalho. Soma-se a esses aspectos o envelhecimento dos profissionais que já atuam na área, o que pode intensificar a necessidade de novos docentes para atender à demanda das escolas brasileiras. A coordenadora pedagógica Alessandra Diniz explica que a desvalorização da profissão pesa na decisão dos jovens sobre o futuro profissional. “A escolha de uma carreira envolve perspectivas de crescimento, estabilidade financeira e reconhecimento, quando o jovem percebe que o trabalho docente exige grande responsabilidade, mas oferece condições pouco atrativas, ele pode optar por outras áreas”. Para Alessandra, a dificuldade de retenção também está relacionada ao início da trajetória profissional. “Professores recém-formados precisam conciliar o planejamento das aulas, a avaliação dos estudantes e a gestão de conflitos, muitas vezes sem acompanhamento sistemático. A ausência de programas de acolhimento e orientação pode aumentar a insegurança e contribuir para o abandono precoce da docência”. Na avaliação do especialista em educação Ricardo Mendes, a reversão desse quadro depende de medidas que ultrapassem campanhas de valorização simbólica. “É necessário oferecer salários compatíveis com a responsabilidade da função, planos de carreira consistentes e condições adequadas de trabalho. Também é fundamental garantir que os professores iniciantes tenham apoio pedagógico e oportunidades de desenvolvimento profissional”. “A ampliação de bolsas, a residência docente e as parcerias entre universidades e escolas aproximam os futuros professores da realidade profissional, oferecendo experiências práticas supervisionadas. Além disso, a formação continuada, o acompanhamento inicial e o investimento em infraestrutura e equipes de apoio ajudam a reduzir a sobrecarga e favorecer a permanência dos docentes na carreira”, conclui.
Livro finalista do Jabuti discute relações humanas e adolescência

Os desafios de crescer, compreender as próprias emoções e encontrar um lugar no mundo estão no centro de “A descoberta que mudou minha vida”, livro de Ingrid Haas que foi um dos cinco finalistas do Prêmio Jabuti 2026, na categoria Juvenil. Com uma narrativa inspirada em histórias reais, a obra aborda questões presentes na vida de adolescentes, como conflitos interpessoais, aceitação das diferenças, saúde emocional e construção de relações mais respeitosas. Publicado pela Editora InVerso, o livro integra a 68ª edição de uma das principais premiações literárias do país, organizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). A seleção reconhece obras de diferentes gêneros e áreas do conhecimento, valorizando a produção editorial brasileira. A aproximação com o universo adolescente surgiu de uma inquietação pessoal da autora. Formada em Letras e Direito, Ingrid conta que o interesse pelo tema cresceu enquanto acompanhava o desenvolvimento dos próprios filhos e observava os desafios dessa fase da vida. A experiência se somou à trajetória dedicada aos direitos humanos, à diversidade e à inclusão. “À medida que meus filhos foram crescendo, os conflitos e os desafios da adolescência, tão presentes na vida dos jovens, começaram a me inquietar. Foi então que decidi escrever para este público”. Para construir a narrativa, a escritora conversou com adolescentes, ouviu experiências e reuniu relatos que contribuíram para dar forma aos personagens. O processo aproximou a história de situações vividas pelos jovens e permitiu explorar dilemas que envolvem a convivência familiar, as amizades e a maneira como cada pessoa se percebe diante dos outros. Entre os temas abordados está a Comunicação Não Violenta, abordagem que propõe escuta atenta, expressão de sentimentos e necessidades e busca por soluções para desentendimentos sem recorrer à agressividade. A proposta dialoga com situações comuns na adolescência, período marcado por mudanças, descobertas e pela necessidade de construir vínculos e afirmar a própria identidade. A obra também incorpora reflexões sobre terapia, mindfulness, gestão de conflitos e aceitação da diversidade. Ao reunir esses elementos, o livro destaca a importância de reconhecer as próprias emoções, respeitar diferenças e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar divergências. O pertencimento também ganha espaço, especialmente diante da necessidade de ser ouvido, compreendido e acolhido nos diferentes ambientes sociais. A chegada à etapa final do Jabuti representou o reconhecimento de um trabalho construído a partir da escuta e do interesse pelas experiências dos jovens. Segundo Ingrid, a trajetória da publicação não foi livre de obstáculos. “Lembro da intuição que me levou a escrever para adolescentes, e os vários ‘nãos’ que recebi. Não foi fácil, mas eu não desisti”. Para Ingrid, a conquista também é resultado da participação de pessoas que acompanharam o desenvolvimento do livro, desde os adolescentes que compartilharam suas histórias até a editora, os leitores, os familiares e os amigos que apoiaram o projeto. “Chegar à final do Prêmio Jabuti, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira, é algo que jamais imaginei viver, nem nos meus sonhos mais ousados”. “Quero agradecer a todos que passaram pela minha trajetória e contribuíram, de alguma forma, para que eu chegasse até aqui. Aos adolescentes que compartilharam suas histórias comigo, a editora InVerso que sempre acreditou nesse projeto, aos leitores, à minha família, aos amigos e a todos que me apoiaram, foram nos lançamentos, me incentivaram e não me deixaram desistir”, conclui.
Previsão de Super El Niño exige planejamento estratégico do agronegócio

A possibilidade de um El Niño de forte intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027 reforça a necessidade de aprimorar a gestão da água e preparar o agronegócio brasileiro para eventos climáticos extremos. O fenômeno pode alterar a distribuição das chuvas, provocar estiagens em algumas regiões e precipitações intensas em outras. Associado à elevação das temperaturas, esse cenário pode afetar o abastecimento, o desenvolvimento das lavouras e a criação de animais. Para o sócio de uma greentech especializada em eficiência hídrica, Felipe Mendes, o principal desafio está na imprevisibilidade do regime de chuvas. “O El Niño não vai secar o Brasil inteiro. Ele desorganiza o regime de chuvas de uma forma desigual e acaba causando uma imprevisibilidade. E é justamente essa imprevisibilidade que torna o cenário perigoso para quem opera baseado em médias históricas”. Segundo Mendes, atividades que dependem de abastecimento regular, como o agronegócio, a indústria e a geração de energia, precisam se preparar para diferentes cenários. Uma das primeiras medidas é monitorar o consumo para identificar desperdícios. Embora a conta de água informe o volume utilizado, ela não permite localizar perdas. A recomendação é acompanhar os gastos por setor e unidade, preferencialmente em tempo real. “Tudo aquilo que você não consegue medir, você não pode melhorar. O primeiro passo é sair da fatura de água. Para identificar o desperdício, é necessário começar a medir esse consumo por área, por unidade e, preferencialmente, em tempo real”, orienta. Após o diagnóstico, a recomendação é corrigir vazamentos, ajustar equipamentos e avaliar o reuso em atividades que não exigem água potável, além de estabelecer planos de contingência. Impactos no campo Na agropecuária, as temperaturas elevadas podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, enquanto a irregularidade das chuvas interfere no calendário de plantio e colheita. Em regiões mais secas, aumenta a necessidade de irrigação. Já em áreas com precipitações intensas, podem ocorrer erosão, encharcamento do solo e dificuldades nas operações agrícolas. “O problema não está apenas no aumento das temperaturas, mas na combinação entre calor, irregularidade das chuvas e disponibilidade de água. Teremos um efeito cumulativo dos impactos do calor e quebras de produção devido às mudanças climáticas”, afirma o engenheiro especialista em soluções contra o calor, Ricardo Valentini. A criação de animais também é afetada. O estresse térmico pode reduzir o consumo de ração, prejudicar o ganho de peso das aves e diminuir a produção de leite, além de elevar os riscos de doenças e mortalidade em situações extremas. Valentini ressalta que a redução das chuvas, por sua vez, compromete a disponibilidade e a qualidade das pastagens. “Na produção animal, conforto térmico não é luxo. É uma condição importante para a saúde, o bem-estar, a produtividade e a eficiência econômica da atividade”. Entre as medidas preventivas, o engenheiro destaca o isolamento térmico, a ventilação, o sombreamento e a garantia de acesso à água. Coberturas expostas à radiação solar podem transferir calor para o interior dos galpões, o que torna necessário considerar as condições das instalações no planejamento. O especialista também recomenda consultar previsões meteorológicas e ferramentas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), além dos boletins da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), para orientar decisões sobre plantio, manejo e infraestrutura. “Não podemos continuar projetando as estruturas do futuro considerando apenas as condições climáticas do passado. O clima mudou e os produtores e gestores devem se adaptar a essa nova realidade”, finaliza.
Brasil desperdiça mais de 55 milhões de toneladas de comida por ano

O Brasil perde 55,4 milhões de toneladas de alimentos por ano, da produção agrícola ao consumo doméstico. O volume equivale a cerca de um terço dos 161,3 milhões de toneladas produzidos anualmente no país, segundo o Relatório Diagnóstico sobre a Fome e Desperdício de Alimentos no Brasil, elaborado pela Integration Consulting em parceria com o Pacto Contra a Fome. Em 2021, cada pessoa já desperdiçava uma média de 60 kg de alimentos por ano. Atualmente, estudos mostram que este número aumentou para 94 kg. Ao todo, são quase 20 milhões de toneladas de comida jogadas no lixo. O Brasil é o 10º país no mundo que mais desperdiça alimentos. A gerente de Relações Institucionais e Políticas Públicas do Pacto Contra a Fome, Rafaela Vieira, explica que o desperdício continua elevado porque é um problema de raízes estruturais e complexas. “Enfrentamos diversos desafios para a redução das perdas e do desperdício de alimentos (PDA), a começar pela falta de dados e metodologias oficiais integradas que analisem a questão em suas diversas dimensões na cadeia produtiva”. Rafaela ressalta ainda que esse número revela que o problema possui dimensões críticas não apenas no âmbito social, mas também ambiental e econômico. “A comida que vai para o lixo impacta fortemente o clima: de 8% a 10% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa vêm do desperdício de alimentos, o que representa cinco vezes mais do que as emissões de todo o setor de aviação”. “Isso sem falar nas perdas financeiras globais que atingem a marca de US$ 1 trilhão e, no orçamento das famílias brasileiras, que pode chegar a um custo invisível de R$ 1.600 a R$ 1.700 por ano. Ou seja, estamos falando de um problema social, ambiental e também econômico”, acrescenta. Custo do desperdício De acordo com a projeção da Avery Dennison, o custo do desperdício de alimentos ao longo da cadeia global de suprimentos pode alcançar US$ 540 bilhões em 2026. O valor representa um crescimento de 2,7% frente aos US$ 526 bilhões registrados no ano anterior. Os resultados do estudo mostram ainda que, no Brasil, em média, os custos associados ao desperdício de alimentos equivalem a 32% da receita anual total na cadeia de suprimentos do varejo alimentício, desde a colheita até o ponto de venda. O fundador e CEO da Donos de Restaurantes, Marcelo Marani, esclarece que nos restaurantes, o desperdício ocorre em toda a cadeia interna. “Se concentra no recebimento da mercadoria que chega fora de padrão, no estoque, no pré-preparo, na produção e no salão”. Quando o estabelecimento reduz o desperdício, o ganho financeiro aparece no Custo da Mercadoria Vendida (CMV), pontua o CEO. “Cada quilo que deixa de ser perdido é uma compra que não precisa ser refeita. Como o desperdício não gera venda, cada ponto percentual recuperado cai quase integralmente no lucro”. “Desperdício é o maior ladrão invisível do restaurante. Ele não aparece na nota fiscal nem no extrato, mas está todo dia na lixeira. É um dos poucos custos que o dono controla quase por completo, com método e equipe engajada. Reduzir desperdício não é só economizar, é respeitar o alimento, o trabalho de quem produziu e o dinheiro do negócio”, complementa. Soluções O Brasil tem avançado tanto na construção de marcos legais e políticas públicas quanto na implementação de iniciativas concretas. Segundo Rafaela, o debate público e a ação governamental precisam focar fortemente no que antecede o descarte: a prevenção. “Nossas prioridades devem ser criar uma metodologia oficial do Estado para mensurar o desperdício em todas as etapas de forma padronizada, pois não é possível gerenciar o que não medimos de maneira contínua”. “Fortalecer e subsidiar infraestruturas logísticas, modernizar modais de transporte, centros de armazenamento e investir na cadeia de refrigeração no escoamento de safras pode contribuir fortemente para a redução das perdas no início da cadeia de produção. É crucial também fortalecer a agricultura familiar por meio de circuitos mais curtos de comercialização. E ampliar, de forma sistêmica, as redes de Bancos de Alimentos para os territórios desassistidos”, finaliza.
Pessoas com deficiência ainda enfrentam barreiras na carreira profissional

Um levantamento realizado pela startup Egalite revela que somente 1,5% das oportunidades voltadas a pessoas com deficiência (PcD) correspondem a cargos técnicos ou de gestão. A análise foi baseada em informações de 116 mil profissionais cadastrados e em mais de 19 mil vagas disponíveis no portal Inclui PcD, mantido pela própria empresa. A maior parte das oportunidades oferecidas pelas empresas a pessoas com deficiência está concentrada em funções operacionais, que correspondem a 98,5% dos postos disponíveis. Em contrapartida, 31% das candidaturas espontâneas feitas por esses profissionais têm como foco cargos técnicos ou de gestão. Para a especialista em Diversidade e Inclusão, Carla Souza, essa diferença está relacionada a uma visão ainda limitada sobre a capacidade profissional dessas pessoas. “Durante muito tempo, a inclusão foi tratada pelas empresas principalmente como uma questão de cumprimento de cotas. O profissional entra na organização, mas nem sempre existe um planejamento para que ele desenvolva competências, assuma novas responsabilidades e tenha acesso às mesmas possibilidades de promoção que os demais funcionários”. A legislação brasileira estabelece que empresas com 100 ou mais empregados devem reservar entre 2% e 5% de seus postos de trabalho para pessoas com deficiência e beneficiários reabilitados da Previdência Social. O cumprimento da cota, porém, não garante por si só uma trajetória de crescimento dentro das organizações. “Essa dificuldade também pode continuar depois da contratação. Mesmo quando conseguem ingressar nas empresas, profissionais com deficiência podem encontrar ambientes sem acessibilidade adequada, falta de recursos assistivos e pouca preparação das equipes para lidar com diferentes necessidades”, ressalta Carla. Apesar desse desequilíbrio, os resultados da pesquisa também revelam sinais positivos entre as empresas que vêm adotando práticas voltadas à inclusão e ao desenvolvimento profissional de PcD. De acordo com o levantamento, 50% das organizações avaliadas no portal Inclui PcD oferecem a totalidade de suas oportunidades, das funções de entrada a posições de especialistas e liderança, também para candidatos com deficiência. O estudo também chama atenção que a média da remuneração pretendida por candidatos com deficiência é de R$ 1.450, quantia inferior ao salário mínimo vigente, de R$ 1.621. O resultado sugere que parte desses profissionais pode ingressar em processos seletivos com expectativas de remuneração abaixo do piso legal. Para a consultora de Recursos Humanos, Renata Oliveira, a baixa presença de PcD em posições de liderança também está relacionada à falta de representatividade dentro das empresas. “Quando uma organização não possui profissionais com deficiência em funções de decisão, é mais difícil perceber quais barreiras estão impedindo a progressão dessas pessoas. A empresa pode contratar, mas continuar reproduzindo processos que dificultam a promoção”. Conforme destaca a especialista, a inclusão precisa fazer parte da estratégia de carreira. Entre as medidas estão programas de mentoria, capacitação, avaliações de desempenho acessíveis, planos de desenvolvimento individual e critérios transparentes para promoções. “Não basta adaptar uma estação de trabalho, é necessário garantir que o profissional tenha acesso a treinamento, projetos relevantes, contato com lideranças e oportunidades reais de assumir novos desafios”. As oportunidades de trabalho remoto também aparecem como um obstáculo. Dados da Inclui PcD indicam uma forte redução na oferta de vagas nessa modalidade: enquanto as posições remotas e híbridas representavam 28,4% das oportunidades em 2024, esse índice caiu para 0,8% em 2026. A inclusão efetiva depende de uma mudança que vai além da porta de entrada das empresas. Criar ambientes acessíveis, revisar processos seletivos, oferecer remuneração compatível com as funções e estabelecer caminhos claros de desenvolvimento são medidas que podem contribuir para transformar a presença de pessoas com deficiência no mercado de trabalho em uma trajetória profissional completa.
Pesquisa revela que felicidade dos brasileiros caiu 28,4 pontos em sete meses

A felicidade do brasileiro mudou de percepção ao longo de 2026. É o que aponta o “Mapa da Felicidade Real no Brasil”. Em fevereiro, 89,5% dos entrevistados se consideravam felizes. Seis meses depois, o percentual caiu para 61,1%, uma diferença de 28,4 pontos percentuais. Na observação da especialista em Ciência da Felicidade e responsável pelo estudo, Renata Rivetti, o resultado é expressivo, mas precisa ser interpretado com cautela. “Estamos falando de uma queda na percepção declarada de felicidade e não afirmando que os brasileiros ficaram mais infelizes”. A mudança veio acompanhada de outros indicadores. A parcela que afirma contar com amigos ou familiares como rede de apoio caiu de 87,2% para 78,3%. Ao mesmo tempo, aumentou de 50,5% para 66,1% o percentual de pessoas que já se sentiram tristes ou infelizes ao utilizar redes sociais. Entre os trabalhadores, também recuou de 76,6% para 70,8% a parcela que considera o trabalho uma fonte de felicidade. Segundo Renata, outro ponto de atenção está nos vínculos. “Felicidade não é apenas uma experiência individual. Ela também é construída na relação com outras pessoas. Ter alguém para procurar quando a vida aperta, alguém com quem dividir uma conquista, uma dificuldade ou simplesmente estar junto produz algo que nenhuma tecnologia substitui completamente: pertencimento, segurança e reciprocidade”. Sobre as redes sociais, a especialista reforça que é necessário tomar cuidado para não transformar as redes sociais em uma explicação única para um fenômeno muito mais complexo. “As redes não são apenas ferramentas neutras. Elas organizam aquilo que vemos, comparam nossas vidas às vidas de outras pessoas, estimulam uma exposição permanente e podem nos colocar diante de um volume grande de conflitos, notícias negativas, denúncias e opiniões divergentes”. Dinheiro traz felicidade? Se relações, trabalho e ambiente digital ajudam a explicar as diferentes dimensões do bem-estar, a situação financeira também interfere nessa equação. Uma pesquisa da Ipsos realizada em 2025 mostrou que 35% dos brasileiros consideravam sua situação financeira difícil ou muito difícil, enquanto outros 28% afirmavam estar apenas “se virando como podem”. Conforme o especialista em felicidade e gestão financeira, Claudio Santana, a frase “dinheiro não traz felicidade” precisa ser relativizada. “Dinheiro traz felicidade até um certo ponto. A falta dele traz infelicidade”. De acordo com Santana, o problema aparece quando ganhar mais passa a alimentar uma busca sem fim. Ele chama atenção para a comparação estimulada pelas redes sociais. “Acaba se vendo um retrato da vida do outro e acha que aquilo ali vai te fazer feliz. Isso cria uma corrida pelo próximo bem ou experiência que ainda não tem e quando conquista, você não tem o mesmo desejo”. Nesse ponto, o especialista defende uma mudança na forma de utilizar os recursos. Em vez de direcionar o dinheiro exclusivamente para bens materiais, experiências e relacionamentos podem produzir benefícios mais duradouros. “Viagens, momentos com a família e encontros com amigos permanecem nas lembranças, enquanto a satisfação proporcionada por muitos objetos tende a diminuir”. O dinheiro também pode comprar algo que, na avaliação de Santana, é mais valioso do que novos bens: tempo. “Contratar alguém para realizar uma tarefa doméstica ou um serviço profissional, por exemplo, pode liberar horas para atividades consideradas importantes”. “Outra possibilidade é utilizar os recursos para fortalecer relacionamentos e ajudar outras pessoas. Conhecer os próprios gastos, organizar dívidas e estabelecer objetivos ajuda a diminuir a sensação de descontrole”, acrescenta. Para Renata, existe uma espécie de infraestrutura humana do bem-estar, formada por vínculos, pertencimento, segurança, saúde, trabalho sustentável, tempo, autonomia e perspectiva de futuro. “A felicidade é individual na experiência, mas também é coletiva nas condições que a tornam possível”, conclui.
Indisciplina em voos supera 1.700 casos e novas regras entram em vigor

Entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 881 casos de indisciplina no transporte aéreo, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Em todo o ano de 2025, foram 1.764 episódios, média de quase cinco ocorrências por dia. Em setembro, entrou em vigor a Resolução nº 800 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que estabelece novas regras para o tema. A norma estabelece como devem ser tratados passageiros que têm condutas inadequadas em aeroportos ou dentro das aeronaves. Entre as novidades estão a classificação das infrações em três níveis de gravidade, com multa de até R$ 17,5 mil e a criação de uma lista de impedimento de embarque, por período de até 12 meses. Com a medida, passam a ser considerados atos de indisciplina aqueles praticados nas dependências de aeroporto ou a bordo de aeronave que violem, desrespeitem ou comprometam a segurança ou a dignidade de pessoas. O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, afirma que essa medida é importante para proteger a segurança do voo, a tripulação e todos os passageiros. “Comportamentos indisciplinados, que são minoria, não podem colocar em risco a operação nem prejudicar o ambiente de respeito, tranquilidade e segurança que sempre deve existir a bordo”. “A nova regulamentação fortalece esse compromisso e estabelece limites para comportamentos que afetam a coletividade. Nosso objetivo é mostrar que existem regras a serem cumpridas e que a segurança depende da atitude de cada um”, acrescenta. O diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein, ressalta que essa nova regulamentação é um avanço. “Deixa claro que determinadas ações realizadas dentro de uma aeronave podem colocar a operação em risco e também impactar a viagem dos demais passageiros, inclusive com atrasos na chegada ao destino final”, destaca. Mudança na prática O advogado especialista em Direito do Consumidor, com atuação na defesa dos direitos dos passageiros aéreos, Lucas Anastasia Maciel, explica que a principal mudança é que agora existem regras mais claras sobre quais punições podem ser aplicadas. “A suspensão é destinada a situações realmente graves, como agressões contra tripulantes, tentativa de acesso à cabine ou atos que coloquem em risco a segurança do voo”. “A suspensão do direito de voar pode ser aplicada imediatamente ou em até cinco dias após a ocorrência. Nesse caso, o passageiro deve ser comunicado sobre os motivos e informado sobre como poderá contestar a decisão. Já a multa não é automática. Ela depende de um processo administrativo conduzido pela Anac, no qual o passageiro poderá apresentar sua defesa”, complementa. Direito do consumidor Maciel alerta ainda que a nova regra não retira do consumidor o direito de reclamar. “O passageiro continua podendo questionar qualquer falha da companhia aérea. Exigir seus direitos não é a mesma coisa que ameaçar ou colocar em risco a segurança do voo. Uma reclamação firme ou uma discussão mais acalorada não pode ser automaticamente tratada como uma conduta grave. É preciso analisar concretamente o que aconteceu”. Sobre as punições, o passageiro tem direito de saber qual comportamento está sendo atribuído a ele, qual o fundamento da punição e ter garantido o direito de defesa, destaca o advogado. “Além disso, a companhia aérea precisa manter registros que comprovem a ocorrência e sua autoria. Uma punição tão séria não pode ser aplicada de forma arbitrária”. Segundo o especialista, se o viajante foi punido injustamente, o primeiro caminho é contestar formalmente a decisão junto à própria companhia aérea, que tem até cinco dias para responder à reclamação relacionada à suspensão. O passageiro também poderá procurar a Anac e os órgãos de defesa do consumidor. “A nova regra deve ser utilizada para enfrentar situações efetivamente graves, especialmente aquelas envolvendo violência ou risco à segurança. O desafio será garantir esse objetivo sem permitir que uma reclamação legítima do consumidor seja confundida com indisciplina”, finaliza.
Uso de inteligência artificial nas atividades escolares exige equilíbrio

Uma análise recente da OCDE, baseada nos dados do Pisa, indica que o uso frequente de chatbots de inteligência artificial (IA) nas atividades escolares pode estar associado a resultados acadêmicos mais baixos. Alunos que utilizam essas ferramentas diariamente apresentam desempenho inferior ao de estudantes que fazem uso moderado da tecnologia ou não recorrem a ela. Em ciências, a diferença pode alcançar 28 pontos, resultado comparável a cerca de um ano e meio de aprendizagem. O levantamento contou com a participação de mais de 760 mil estudantes, distribuídos por 91 países. Entre os brasileiros, quase metade (48%) afirma utilizar ferramentas de inteligência artificial nos estudos ao menos uma vez por semana. Apesar dessa adesão, o desempenho dos alunos do país permanece inferior à média dos integrantes da OCDE nas áreas de ciências, matemática e leitura. O relatório aponta que o problema está menos na tecnologia e mais na forma como ela é utilizada. Alunos orientados a questionar e verificar as respostas da inteligência artificial apresentam melhor desempenho. O uso moderado, uma vez por semana, também se mostra mais positivo do que não usar ou recorrer à ferramenta diariamente. Para a psicopedagoga Carla Silva, o princípio deve ser fazer da inteligência artificial uma ferramenta de apoio, e não uma substituta do estudante. “O aluno pode pedir à IA que explique um conceito de outra maneira, apresente exemplos ou ainda ajude a identificar erros em um exercício. O que não deve acontecer é entregar à ferramenta a tarefa de pensar por ele, pois a aprendizagem depende do esforço de compreender, testar hipóteses e até mesmo errar”. Uma das estratégias recomendadas é utilizar a IA depois de uma primeira tentativa independente. “Em vez de pedir diretamente a resposta de um problema de matemática, por exemplo, o estudante pode apresentar seu próprio raciocínio e solicitar uma explicação sobre onde errou. Em trabalhos de pesquisa, a ferramenta também pode ajudar na organização de ideias, desde que as informações sejam conferidas em fontes confiáveis”, explica. O acompanhamento dos pais é importante, não precisa significar vigilância constante ou proibição completa. Para Carla, os responsáveis devem estabelecer limites de tempo e conversar com os filhos sobre o motivo pelo qual estão utilizando a ferramenta. “Melhor do que perguntar se a criança usou IA é questionar de que forma utilizou. Os pais podem pedir que o estudante explique o que aprendeu, quais respostas conferiu e o que fez sozinho. Isso ajuda a perceber quando a tecnologia está facilitando o estudo e quando está substituindo o aprendizado”. Nas escolas, o desafio é transformar a inteligência artificial em objeto de educação digital. Para o professor de informática Osvaldo Mendes, simplesmente proibir os chatbots não resolve o problema. “Os estudantes precisam aprender que uma resposta produzida por IA não é automaticamente verdadeira, sendo necessário ensinar a verificar informações, comparar fontes, identificar erros e compreender os limites dessas ferramentas”. Professores podem incorporar esse aprendizado às próprias atividades. “Em vez de apenas impedir o uso de IA em trabalhos, podem propor exercícios em que os alunos analisem uma resposta produzida por um chatbot, encontrem possíveis erros e expliquem como chegariam a uma conclusão diferente. Dessa forma, a tecnologia passa a ser utilizada como objeto de análise e não apenas como mecanismo para obter respostas rápidas”, sugere. Segundo Mendes, a orientação também deve considerar a idade dos estudantes. “Crianças mais novas precisam de acompanhamento mais próximo dos adultos e de regras claras sobre quando e para que utilizar ferramentas de IA. Já entre os adolescentes, a escola pode ampliar gradualmente a autonomia, mas mantendo critérios para o uso responsável, especialmente em tarefas avaliativas”.
Assédio eleitoral no ambiente de trabalho exige cuidados nas empresas

Com a aproximação das eleições, empresas e gestores devem redobrar os cuidados para garantir a liberdade política dos trabalhadores. O chamado assédio eleitoral ocorre quando a relação de trabalho é utilizada para pressionar, constranger ou influenciar a escolha eleitoral de empregados, prática que pode gerar consequências nas esferas trabalhista, eleitoral e até criminal. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), até 1º de setembro foram registradas 252 denúncias de assédio eleitoral no Brasil. Em Minas, o MPT-MG contabilizou 15 reclamações relacionadas ao tema. Entre as condutas que podem caracterizar assédio eleitoral estão ameaças de demissão, promessas de benefícios vinculados ao apoio a candidatos, pressão para participação em atos políticos e o uso da estrutura da empresa para promover campanhas. A advogada especialista em Direito do Trabalho e Empresarial, Débora Cursine, ressalta que a prática nem sempre ocorre de forma explícita. “O assédio eleitoral não se limita àquela situação explícita em que o empregador diz ‘vote em determinado candidato’. Ele pode ocorrer de maneira mais sutil, por meio de reuniões, mensagens, promessas de vantagens, ameaças sobre o futuro da empresa ou do emprego e utilização de informações para tentar controlar ou fiscalizar a escolha eleitoral”, afirma. Segundo Débora, o ponto central é identificar quando o poder econômico ou a posição hierárquica passam a ser utilizados para interferir na liberdade política do trabalhador. Ela destaca que o empregador pode ter posicionamento político, mas não pode transformar essa opinião em pressão sobre os funcionários. A preocupação ganhou ainda mais relevância neste ano. A Resolução do TSE nº 23.755/2026 passou a vedar expressamente a propaganda eleitoral e o assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos e privados. Para a advogada especialista em Direito e Processo do Trabalho, Juliana Mendonça, a norma amplia a responsabilidade das empresas. “A principal mudança é que a empresa deixa de poder se esconder atrás da neutralidade passiva. Antes, o foco recaía mais sobre casos de coação direta; agora, mesmo a simples veiculação de propaganda eleitoral dentro do ambiente de trabalho já é considerada infração”, explica. Apesar das restrições, conversar sobre política não é proibido. Débora observa que o limite está no respeito à liberdade individual e na ausência de pressão ou constrangimento. “Dois colegas podem conversar sobre política, discordar e defender candidatos diferentes. O problema é quando desaparece a espontaneidade e entram a intimidação, constrangimento, ameaça ou discriminação”. Prevenção e canais de denúncia A orientação de Débora é que as empresas adotem medidas preventivas antes que ocorram situações de conflito. Entre as recomendações estão treinamentos específicos para lideranças, políticas internas claras, revisão dos canais corporativos e criação de mecanismos seguros para denúncias. “Cargo de chefia não dá autorização para direcionar a escolha política dos subordinados. Eles não devem utilizar reuniões, grupos corporativos, e-mails ou outros canais institucionais para campanha eleitoral, nem questionar empregados sobre suas preferências políticas”. Juliana acrescenta que a prevenção precisa ser estruturada. “As medidas mais eficazes são uma política interna formal de neutralidade eleitoral, treinamento específico para lideranças, um canal de denúncia acessível e um fluxo claro de apuração para que qualquer denúncia tenha resposta rápida”. Para Débora, os canais de denúncia só funcionam quando o trabalhador confia que haverá confidencialidade e proteção contra retaliações. “Canal de denúncia sem cultura de proteção não funciona. Se o trabalhador acredita que será perseguido por denunciar, ele simplesmente não utilizará o mecanismo”. Caso uma denúncia seja confirmada, a omissão também pode trazer consequências. “A empresa precisa agir rápido e de forma isenta. Hoje, a omissão pode gerar responsabilização tão séria quanto a prática direta da conduta”, conclui Juliana.
Feijoada do Maranhão completa 35 anos com grande festa no Clube Jaraguá

A Feijoada do Maranhão completa 35 anos de história em 2026. O evento, que começou com um almoço organizado por amigos para ajudar o repórter fotográfico Valdez Maranhão após o roubo de sua câmera, transformou-se em uma festa realizada em diferentes cidades do Brasil e também no exterior. A primeira edição ocorreu em 1991 e reuniu cerca de 200 pessoas. Sensibilizados com a situação de Maranhão, amigos das áreas do jornalismo e do turismo organizaram o encontro para arrecadar recursos para a compra de um novo equipamento, sua principal ferramenta de trabalho. O objetivo foi alcançado e a iniciativa acabou dando origem à tradicional festa que se mantém até hoje. Maranhão afirma que não imaginava que o encontro chegaria às três décadas e meia de existência. “Nunca pensei que o evento fosse crescer tanto. A feijoada é um dos pratos mais conhecidos na culinária nacional, e essa iguaria é importante para o meu restaurante”. Ao longo dos anos, a Feijoada do Maranhão deixou de ser um encontro local para ganhar projeção nacional e internacional. A festa passou por diferentes locais de Belo Horizonte e do interior de Minas Gerais, como o Estádio Mineirão e a cidade histórica de Tiradentes. Em 2011, chegou a São Luís, no Maranhão, terra natal do fundador. Cinco anos depois, em 2016, teve sua primeira edição internacional, em Lisboa, Portugal. O repórter fotográfico conta que sempre teve o desejo de levar a festa para fora do Brasil. “Levamos os brasileiros para Portugal e realizamos a feijoada com essa mistura de mineiros e portugueses”, relembra Maranhão. Grande festa A edição comemorativa dos 35 anos será realizada no dia 12 de setembro, às 13h, no Clube Jaraguá, na região da Pampulha, em Belo Horizonte. A programação terá apresentações da cantora Amanda Alves, da Banda Kayambá e participações especiais, como Joice Índia. O evento também contará com a tradicional feijoada, open bar e camisa personalizada. Os ingressos para a festa e outras informações podem ser obtidos pelo telefone e WhatsApp do Buteco do Maranhão, (31) 99235- 3540, responsável pela organização do evento. A trajetória da Feijoada, no entanto, já tem o destindo seguinte definido. De acordo com Maranhão, a próxima edição será realizada em São Luís, no Maranhão, no Hotel Rio Poty, em 31 de outubro.