Indisciplina em voos supera 1.700 casos e novas regras entram em vigor

Entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 881 casos de indisciplina no transporte aéreo, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Em todo o ano de 2025, foram 1.764 episódios, média de quase cinco ocorrências por dia. Em setembro, entrou em vigor a Resolução nº 800 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que estabelece novas regras para o tema. A norma estabelece como devem ser tratados passageiros que têm condutas inadequadas em aeroportos ou dentro das aeronaves. Entre as novidades estão a classificação das infrações em três níveis de gravidade, com multa de até R$ 17,5 mil e a criação de uma lista de impedimento de embarque, por período de até 12 meses. Com a medida, passam a ser considerados atos de indisciplina aqueles praticados nas dependências de aeroporto ou a bordo de aeronave que violem, desrespeitem ou comprometam a segurança ou a dignidade de pessoas. O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, afirma que essa medida é importante para proteger a segurança do voo, a tripulação e todos os passageiros. “Comportamentos indisciplinados, que são minoria, não podem colocar em risco a operação nem prejudicar o ambiente de respeito, tranquilidade e segurança que sempre deve existir a bordo”. “A nova regulamentação fortalece esse compromisso e estabelece limites para comportamentos que afetam a coletividade. Nosso objetivo é mostrar que existem regras a serem cumpridas e que a segurança depende da atitude de cada um”, acrescenta. O diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein, ressalta que essa nova regulamentação é um avanço. “Deixa claro que determinadas ações realizadas dentro de uma aeronave podem colocar a operação em risco e também impactar a viagem dos demais passageiros, inclusive com atrasos na chegada ao destino final”, destaca. Mudança na prática O advogado especialista em Direito do Consumidor, com atuação na defesa dos direitos dos passageiros aéreos, Lucas Anastasia Maciel, explica que a principal mudança é que agora existem regras mais claras sobre quais punições podem ser aplicadas. “A suspensão é destinada a situações realmente graves, como agressões contra tripulantes, tentativa de acesso à cabine ou atos que coloquem em risco a segurança do voo”. “A suspensão do direito de voar pode ser aplicada imediatamente ou em até cinco dias após a ocorrência. Nesse caso, o passageiro deve ser comunicado sobre os motivos e informado sobre como poderá contestar a decisão. Já a multa não é automática. Ela depende de um processo administrativo conduzido pela Anac, no qual o passageiro poderá apresentar sua defesa”, complementa. Direito do consumidor Maciel alerta ainda que a nova regra não retira do consumidor o direito de reclamar. “O passageiro continua podendo questionar qualquer falha da companhia aérea. Exigir seus direitos não é a mesma coisa que ameaçar ou colocar em risco a segurança do voo. Uma reclamação firme ou uma discussão mais acalorada não pode ser automaticamente tratada como uma conduta grave. É preciso analisar concretamente o que aconteceu”. Sobre as punições, o passageiro tem direito de saber qual comportamento está sendo atribuído a ele, qual o fundamento da punição e ter garantido o direito de defesa, destaca o advogado. “Além disso, a companhia aérea precisa manter registros que comprovem a ocorrência e sua autoria. Uma punição tão séria não pode ser aplicada de forma arbitrária”. Segundo o especialista, se o viajante foi punido injustamente, o primeiro caminho é contestar formalmente a decisão junto à própria companhia aérea, que tem até cinco dias para responder à reclamação relacionada à suspensão. O passageiro também poderá procurar a Anac e os órgãos de defesa do consumidor. “A nova regra deve ser utilizada para enfrentar situações efetivamente graves, especialmente aquelas envolvendo violência ou risco à segurança. O desafio será garantir esse objetivo sem permitir que uma reclamação legítima do consumidor seja confundida com indisciplina”, finaliza.

Uso de inteligência artificial nas atividades escolares exige equilíbrio

Uma análise recente da OCDE, baseada nos dados do Pisa, indica que o uso frequente de chatbots de inteligência artificial (IA) nas atividades escolares pode estar associado a resultados acadêmicos mais baixos. Alunos que utilizam essas ferramentas diariamente apresentam desempenho inferior ao de estudantes que fazem uso moderado da tecnologia ou não recorrem a ela. Em ciências, a diferença pode alcançar 28 pontos, resultado comparável a cerca de um ano e meio de aprendizagem. O levantamento contou com a participação de mais de 760 mil estudantes, distribuídos por 91 países. Entre os brasileiros, quase metade (48%) afirma utilizar ferramentas de inteligência artificial nos estudos ao menos uma vez por semana. Apesar dessa adesão, o desempenho dos alunos do país permanece inferior à média dos integrantes da OCDE nas áreas de ciências, matemática e leitura. O relatório aponta que o problema está menos na tecnologia e mais na forma como ela é utilizada. Alunos orientados a questionar e verificar as respostas da inteligência artificial apresentam melhor desempenho. O uso moderado, uma vez por semana, também se mostra mais positivo do que não usar ou recorrer à ferramenta diariamente. Para a psicopedagoga Carla Silva, o princípio deve ser fazer da inteligência artificial uma ferramenta de apoio, e não uma substituta do estudante. “O aluno pode pedir à IA que explique um conceito de outra maneira, apresente exemplos ou ainda ajude a identificar erros em um exercício. O que não deve acontecer é entregar à ferramenta a tarefa de pensar por ele, pois a aprendizagem depende do esforço de compreender, testar hipóteses e até mesmo errar”. Uma das estratégias recomendadas é utilizar a IA depois de uma primeira tentativa independente. “Em vez de pedir diretamente a resposta de um problema de matemática, por exemplo, o estudante pode apresentar seu próprio raciocínio e solicitar uma explicação sobre onde errou. Em trabalhos de pesquisa, a ferramenta também pode ajudar na organização de ideias, desde que as informações sejam conferidas em fontes confiáveis”, explica. O acompanhamento dos pais é importante, não precisa significar vigilância constante ou proibição completa. Para Carla, os responsáveis devem estabelecer limites de tempo e conversar com os filhos sobre o motivo pelo qual estão utilizando a ferramenta. “Melhor do que perguntar se a criança usou IA é questionar de que forma utilizou. Os pais podem pedir que o estudante explique o que aprendeu, quais respostas conferiu e o que fez sozinho. Isso ajuda a perceber quando a tecnologia está facilitando o estudo e quando está substituindo o aprendizado”. Nas escolas, o desafio é transformar a inteligência artificial em objeto de educação digital. Para o professor de informática Osvaldo Mendes, simplesmente proibir os chatbots não resolve o problema. “Os estudantes precisam aprender que uma resposta produzida por IA não é automaticamente verdadeira, sendo necessário ensinar a verificar informações, comparar fontes, identificar erros e compreender os limites dessas ferramentas”. Professores podem incorporar esse aprendizado às próprias atividades. “Em vez de apenas impedir o uso de IA em trabalhos, podem propor exercícios em que os alunos analisem uma resposta produzida por um chatbot, encontrem possíveis erros e expliquem como chegariam a uma conclusão diferente. Dessa forma, a tecnologia passa a ser utilizada como objeto de análise e não apenas como mecanismo para obter respostas rápidas”, sugere. Segundo Mendes, a orientação também deve considerar a idade dos estudantes. “Crianças mais novas precisam de acompanhamento mais próximo dos adultos e de regras claras sobre quando e para que utilizar ferramentas de IA. Já entre os adolescentes, a escola pode ampliar gradualmente a autonomia, mas mantendo critérios para o uso responsável, especialmente em tarefas avaliativas”.

Assédio eleitoral no ambiente de trabalho exige cuidados nas empresas

Com a aproximação das eleições, empresas e gestores devem redobrar os cuidados para garantir a liberdade política dos trabalhadores. O chamado assédio eleitoral ocorre quando a relação de trabalho é utilizada para pressionar, constranger ou influenciar a escolha eleitoral de empregados, prática que pode gerar consequências nas esferas trabalhista, eleitoral e até criminal. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), até 1º de setembro foram registradas 252 denúncias de assédio eleitoral no Brasil. Em Minas, o MPT-MG contabilizou 15 reclamações relacionadas ao tema. Entre as condutas que podem caracterizar assédio eleitoral estão ameaças de demissão, promessas de benefícios vinculados ao apoio a candidatos, pressão para participação em atos políticos e o uso da estrutura da empresa para promover campanhas. A advogada especialista em Direito do Trabalho e Empresarial, Débora Cursine, ressalta que a prática nem sempre ocorre de forma explícita. “O assédio eleitoral não se limita àquela situação explícita em que o empregador diz ‘vote em determinado candidato’. Ele pode ocorrer de maneira mais sutil, por meio de reuniões, mensagens, promessas de vantagens, ameaças sobre o futuro da empresa ou do emprego e utilização de informações para tentar controlar ou fiscalizar a escolha eleitoral”, afirma. Segundo Débora, o ponto central é identificar quando o poder econômico ou a posição hierárquica passam a ser utilizados para interferir na liberdade política do trabalhador. Ela destaca que o empregador pode ter posicionamento político, mas não pode transformar essa opinião em pressão sobre os funcionários. A preocupação ganhou ainda mais relevância neste ano. A Resolução do TSE nº 23.755/2026 passou a vedar expressamente a propaganda eleitoral e o assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos e privados. Para a advogada especialista em Direito e Processo do Trabalho, Juliana Mendonça, a norma amplia a responsabilidade das empresas. “A principal mudança é que a empresa deixa de poder se esconder atrás da neutralidade passiva. Antes, o foco recaía mais sobre casos de coação direta; agora, mesmo a simples veiculação de propaganda eleitoral dentro do ambiente de trabalho já é considerada infração”, explica. Apesar das restrições, conversar sobre política não é proibido. Débora observa que o limite está no respeito à liberdade individual e na ausência de pressão ou constrangimento. “Dois colegas podem conversar sobre política, discordar e defender candidatos diferentes. O problema é quando desaparece a espontaneidade e entram a intimidação, constrangimento, ameaça ou discriminação”. Prevenção e canais de denúncia A orientação de Débora é que as empresas adotem medidas preventivas antes que ocorram situações de conflito. Entre as recomendações estão treinamentos específicos para lideranças, políticas internas claras, revisão dos canais corporativos e criação de mecanismos seguros para denúncias. “Cargo de chefia não dá autorização para direcionar a escolha política dos subordinados. Eles não devem utilizar reuniões, grupos corporativos, e-mails ou outros canais institucionais para campanha eleitoral, nem questionar empregados sobre suas preferências políticas”. Juliana acrescenta que a prevenção precisa ser estruturada. “As medidas mais eficazes são uma política interna formal de neutralidade eleitoral, treinamento específico para lideranças, um canal de denúncia acessível e um fluxo claro de apuração para que qualquer denúncia tenha resposta rápida”. Para Débora, os canais de denúncia só funcionam quando o trabalhador confia que haverá confidencialidade e proteção contra retaliações. “Canal de denúncia sem cultura de proteção não funciona. Se o trabalhador acredita que será perseguido por denunciar, ele simplesmente não utilizará o mecanismo”. Caso uma denúncia seja confirmada, a omissão também pode trazer consequências. “A empresa precisa agir rápido e de forma isenta. Hoje, a omissão pode gerar responsabilização tão séria quanto a prática direta da conduta”, conclui Juliana.

Feijoada do Maranhão completa 35 anos com grande festa no Clube Jaraguá

A Feijoada do Maranhão completa 35 anos de história em 2026. O evento, que começou com um almoço organizado por amigos para ajudar o repórter fotográfico Valdez Maranhão após o roubo de sua câmera, transformou-se em uma festa realizada em diferentes cidades do Brasil e também no exterior. A primeira edição ocorreu em 1991 e reuniu cerca de 200 pessoas. Sensibilizados com a situação de Maranhão, amigos das áreas do jornalismo e do turismo organizaram o encontro para arrecadar recursos para a compra de um novo equipamento, sua principal ferramenta de trabalho. O objetivo foi alcançado e a iniciativa acabou dando origem à tradicional festa que se mantém até hoje. Maranhão afirma que não imaginava que o encontro chegaria às três décadas e meia de existência. “Nunca pensei que o evento fosse crescer tanto. A feijoada é um dos pratos mais conhecidos na culinária nacional, e essa iguaria é importante para o meu restaurante”. Ao longo dos anos, a Feijoada do Maranhão deixou de ser um encontro local para ganhar projeção nacional e internacional. A festa passou por diferentes locais de Belo Horizonte e do interior de Minas Gerais, como o Estádio Mineirão e a cidade histórica de Tiradentes. Em 2011, chegou a São Luís, no Maranhão, terra natal do fundador. Cinco anos depois, em 2016, teve sua primeira edição internacional, em Lisboa, Portugal. O repórter fotográfico conta que sempre teve o desejo de levar a festa para fora do Brasil. “Levamos os brasileiros para Portugal e realizamos a feijoada com essa mistura de mineiros e portugueses”, relembra Maranhão. Grande festa A edição comemorativa dos 35 anos será realizada no dia 12 de setembro, às 13h, no Clube Jaraguá, na região da Pampulha, em Belo Horizonte. A programação terá apresentações da cantora Amanda Alves, da Banda Kayambá e participações especiais, como Joice Índia. O evento também contará com a tradicional feijoada, open bar e camisa personalizada. Os ingressos para a festa e outras informações podem ser obtidos pelo telefone e WhatsApp do Buteco do Maranhão, (31) 99235- 3540, responsável pela organização do evento. A trajetória da Feijoada, no entanto, já tem o destindo seguinte definido. De acordo com Maranhão, a próxima edição será realizada em São Luís, no Maranhão, no Hotel Rio Poty, em 31 de outubro.

Plataforma Discord recorre contra suspensão de lives determinada pela ANPD

A plataforma Discord suspendeu por prazo indeterminado o recurso que permitia aos usuários realizarem transmissões de vídeo pelo aplicativo. A decisão ocorreu após uma determinação preventiva da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), emitida no dia 12 de agosto. Segundo a medida, a restrição busca impedir situações de violência e práticas de coerção envolvendo menores de idade. Entre os casos que motivaram a intervenção está o de uma adolescente de 13 anos, residente em Naviraí (MS), que morreu por suicídio em 22 de julho após ser vítima desse tipo de situação. De acordo com a plataforma, a restrição atinge apenas as funções relacionadas às transmissões ao vivo e ao envio de vídeos, sem interferir nas conversas por texto, nas chamadas de áudio ou nas demais ferramentas. A empresa também informou que mantém tratativas com a ANPD para encontrar uma alternativa que possibilite a retomada das transmissões de vídeo entre os usuários no Brasil. No dia 24 de agosto, a plataforma recorreu da decisão da ANPD. No pedido, a empresa requer que a medida seja suspensa imediatamente para permitir a retomada das lives e também solicita a revogação da decisão cautelar. Entre os argumentos apresentados estão a suposta ausência de competência da agência para impor a restrição, possíveis irregularidades no procedimento e o entendimento de que a penalidade aplicada seria excessiva. Para a psicóloga em educação digital Carla Silva, a intervenção da ANPD é considerada necessária diante da dimensão dos riscos envolvidos. “Quando uma plataforma apresenta dificuldades para impedir situações que podem colocar menores em perigo, é legítimo que o poder público cobre mudanças concretas. A prioridade deve ser garantir um ambiente digital mais seguro, principalmente para quem ainda está em fase de desenvolvimento”. Essa decisão, porém, também abre espaço para uma discussão sobre os limites da atuação do Estado na internet. Conforme o advogado de direito digital Victor Ferreira, medidas de proteção precisam estar acompanhadas de fundamentação jurídica e de critérios claros. “A proteção dos adolescentes é indispensável, mas uma restrição dessa natureza precisa observar competência legal, devido processo e proporcionalidade. A questão não é escolher entre segurança e liberdade, mas encontrar uma forma de preservar as duas”. Segundo Carla, a controvérsia mostra a importância crescente da ANPD na proteção de dados e na fiscalização de práticas que podem afetar a privacidade e a segurança dos brasileiros. “Criada pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a autoridade tem entre suas atribuições orientar, regulamentar e fiscalizar o cumprimento das regras relacionadas à proteção de dados pessoais. Quando o assunto envolve crianças e adolescentes, a preocupação ganha uma dimensão adicional, já que esse público pode estar mais vulnerável à manipulação, ao assédio e à exposição indevida no ambiente virtual”, alerta a psicóloga. A atuação da autoridade também reforça uma mudança na relação entre empresas de tecnologia e órgãos públicos. “Durante anos, plataformas digitais cresceram em ritmo acelerado, enquanto governos e legisladores buscavam acompanhar os novos problemas provocados por esses serviços. Hoje, questões como privacidade, segurança de menores, moderação de conteúdo e responsabilidade das empresas estão no centro do debate sobre a utilização das redes e aplicativos”, ressalta Ferreira. Ele comenta ainda que o recurso apresentado pelo Discord deverá levar essa discussão adiante. “Caso a empresa consiga reverter a decisão, as transmissões poderão ser restabelecidas, possivelmente acompanhadas de novas exigências de segurança. Se a ANPD mantiver a medida, o episódio poderá estabelecer um precedente importante sobre a capacidade da autoridade de determinar restrições temporárias a funcionalidades de grandes plataformas quando identificar riscos à proteção de dados e à segurança dos usuários”.

Artesanato em cerâmica do Vale do Jequitinhonha ganha espaço em Paris

Durante décadas, as mãos dos artesãos do Vale do Jequitinhonha moldaram o barro para preservar tradições, contar histórias e garantir renda para famílias da região. Em setembro, esse patrimônio cultural ultrapassará fronteiras e ganhará espaço na Paris Design Week, um dos principais eventos mundiais de design e arte. Entre os dias 10 e 14 de setembro, cerca de 150 esculturas produzidas por artesãos de quatro comunidades do Jequitinhonha serão apresentadas na Maison & Objet Paris 2026, considerada uma das mais importantes feiras internacionais de decoração, design, arte e lifestyle. As peças serão exibidas para compradores, galeristas, arquitetos, designers e curadores de diversos países. As obras também integrarão a exposição “A Terra Modelada pela Arte – Exclusiva Vale do Jequitinhonha”, na Ricardo Fernandes Gallery, no bairro Marais, entre os dias 8 e 18 de setembro. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Sebrae Minas e o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede). Para a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa da Costa, a missão vai além da promoção comercial. “Vocês representam 21 milhões de mineiros, a cultura do nosso Estado e um patrimônio cultural imaterial que faz parte da identidade de Minas. O artesanato é capaz de unir desenvolvimento econômico, inclusão social e valorização cultural”. Uma trajetória de valorização A presença em Paris é resultado de um trabalho de longo prazo. De acordo com gerente regional do Sebrae Minas, Rogério Fernandes, são mais de duas décadas de ações voltadas ao fortalecimento da identidade, da gestão e do acesso a mercados para os artesãos da região. “Hoje atendemos cerca de 150 artesãos, sendo 96% mulheres, em quatro comunidades que se tornaram referência na produção cerâmica”. O trabalho ganhou força em 2019, com o projeto “Identidade e Origem”, que culminou no lançamento da Marca Território Vale do Jequitinhonha, em 2021. Quatro comunidades são beneficiadas pela iniciativa: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado. Desde então, os artesãos participaram de exposições em espaços como o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro. Outro marco foi a criação da “Viagem para a Origem”, iniciativa que leva compradores para conhecer as comunidades artesãs. Segundo Fernandes, a ação movimentou mais de R$ 450 mil em compras e encomendas em 2025. “Quando levamos os compradores para a região, eles conhecem a história por trás das peças e criam uma conexão direta com os artesãos. Isso gera valor e abre novas oportunidades de negócios”. Identidade que ganha o mundo A curadoria da exposição na Maison & Objet é assinada por Marco Aurélio Pulchério, que vê no artesanato do Jequitinhonha uma oportunidade de apresentar ao mundo uma produção singular. “Essa feira reúne aproximadamente 70 mil visitantes e 2.300 expositores de cerca de 140 países”. De acordo com Pulchério, a mostra permitirá revelar ao público internacional muito mais do que as tradicionais bonecas de barro. “Estamos contando a história de comunidades que resistiram, preservaram seus saberes e transformaram sua cultura em arte”. Participarão das exposições em Paris os artesãos Andréia Andrade, Augusto Ribeiro, Alice Costa, Anísia Lima e Adriana Xavier. Juntos, levarão à França obras inspiradas no cotidiano, na ancestralidade e na identidade cultural do Vale do Jequitinhonha. Trabalho que passa de gerações Filha e neta de artesãs, Anísia começou a modelar o barro ainda criança. “Eu tinha oito anos de idade, brincando junto com a minha mãe, fazendo as peças. É uma tradição de muitos anos”. Ela lembra que no passado, as peças eram transportadas no lombo de animais para serem vendidas nas feiras da região. Hoje, vê o artesanato alcançar mercados que suas antepassadas jamais imaginaram. “É um sentimento de muita alegria e satisfação. Penso que as nossas avós sonhavam em ver o artesanato expandir, mas talvez não imaginassem que chegaria tão longe”.

Uso de rebite por caminhoneiros expõe riscos nas rodovias do país

Cerca de 27% dos caminhoneiros admitem utilizar algum tipo de substância psicoativa para enfrentar a jornada. Entre esses usuários, 35,4% citam o rebite. A 3ª Pesquisa Nacional da CNTA – Realidade do Transportador Autônomo de Cargas (2025) aponta também que o uso dessas substâncias está diretamente ligado às condições de trabalho. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) fez a maior apreensão de anfetaminas registrada pela instituição em 2026, no final de julho. Aproximadamente 93.753 comprimidos de rebite foram confiscados durante fiscalização na BR-153, em Tocantins. Até então, a maior ocorrência do ano havia sido registrada em junho, cerca de 45 mil comprimidos, da mesma substância, na BR-153, em Goiás. Dados da PRF apontam também para um aumento de quase 450% nas apreensões no primeiro semestre. O coordenador-geral de Segurança Viária da PRF, Stênio Pires Benevides, salienta que um dos desafios da fiscalização é que esse problema possui várias dimensões. “Existe a questão da circulação e comercialização irregular dessas substâncias, que exige atuação policial, inteligência e fiscalização. Mas há também o consumo pelo próprio condutor”. “Por isso, nossa atuação precisa olhar não apenas para a substância encontrada, mas também para os fatores de risco. Para a segurança viária, é fundamental identificar situações de fadiga, excesso de jornada e outras condições que possam comprometer a capacidade do motorista de conduzir com segurança”, acrescenta. O Médico do Tráfego e Diretor de Qualidade Profissional da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Alysson Coimbra, ressalta que esses números são um sinal de alerta. “O problema vai muito além da droga em si. O chamado rebite é utilizado de forma indevida para prolongar o estado de vigília. E isso transforma a saúde do motorista em uma questão de segurança coletiva”. Coimbra destaca ainda que o aumento nas apreensões não significa automaticamente um crescimento do consumo. “Pode existir maior circulação da substância, mas também mais operações, melhor inteligência policial ou grandes apreensões pontuais que elevam muito o total”. Incentivo perverso Segundo Coimbra, estudos com caminhoneiros relacionam o uso de anfetaminas justamente à tentativa de permanecer acordado durante as viagens. “Quando a remuneração ou a pressão econômica estimula jornadas excessivas, temos um incentivo perverso: o motorista passa a lutar biologicamente contra o sono para conseguir cumprir uma exigência profissional”. Para o especialista, o enfrentamento do problema passa pelo combate à fadiga do caminhoneiro. “Com fiscalização da jornada e das substâncias psicoativas; cumprimento efetivo dos períodos de descanso; saúde integral do motorista profissional; e responsabilização de toda a cadeia de transporte por condições seguras de trabalho”. Saúde do profissional O diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL), Litti Dahmer, explica que encontrar alternativas para a resolução desse problema é difícil. “É uma decisão e uma pressão individual influenciada por vários fatores, que envolvem a jornada de trabalho, a dificuldade econômica e questões emocionais e pessoais”. Precisamos de uma política pública realmente eficaz no âmbito da saúde, afirma Dahmer. “Esses programas precisam visualizar essa categoria para oferecer condições de atendimento médico e psicológico, para uma assistência em conjunto com a família”. O acesso a esse público é difícil, porque o usuário precisa admitir o problema e querer fazer uma mudança no seu comportamento, complementa o diretor. “A solução tem que envolver tanto políticas públicas de saúde quanto questões econômicas, e ainda um suporte da família. É tratar o profissional, dar condições adequadas de tratamento, de auxílio e de ajuda para quem precisa. A luta é de todos”. “O rebite não vence o sono, apenas mascara temporariamente um sinal de que o organismo precisa parar. Quando discutimos esse problema, não estamos falando somente da vida do caminhoneiro. Existem famílias que viajam ao lado de veículos que podem pesar dezenas de toneladas. Precisamos substituir a cultura de chegar a qualquer custo pela de chegar com segurança”, finaliza Coimbra.

Castigo físico em crianças ainda faz parte da rotina de muitas famílias

Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Futuro é Infância Saudável, vinculado à Fundação José Luiz Setúbal, em parceria com a Quaest, revelou uma discrepância entre o que os brasileiros consideram ser a forma mais adequada de educar crianças e adolescentes e a maneira como parte da população efetivamente reage em situações de desobediência ou conflito. Segundo o levantamento, 91% dos brasileiros acreditam que conversar com a criança e explicar o erro é a melhor forma de educar. Na prática, 93% afirmaram já ter adotado essa estratégia ao menos uma vez. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que medidas mais severas ainda são comuns. Gritar com a criança foi admitido por 62% dos entrevistados, enquanto 49% disseram já ter dado tapas e 39% relataram ter ameaçado bater. O uso de objetos, como chinelos, foi citado por 27% dos participantes. Além disso, 48% afirmaram já ter aplicado castigos que restringem momentos de lazer. Outros 22% disseram ter beliscado ou puxado a orelha de uma criança, e 18% reconheceram ter recorrido a xingamentos ou ofensas. A pesquisa também investigou como os brasileiros reagiriam ao presenciar agressões contra crianças em espaços públicos. Entre os entrevistados, 32% disseram que não fariam nada por considerarem que se trata de um assunto particular. Outros 30% afirmaram que até gostariam de intervir, mas se sentiriam constrangidos. Já 21% responderam que conversariam diretamente com o responsável, enquanto 15% recorreriam a terceiros ou acionariam a polícia. Para a psicóloga educacional Carla Silva, a permanência dos castigos físicos está ligada a padrões culturais transmitidos entre gerações. “Muitos adultos reproduzem a forma como foram educados, acreditando que a punição física ensina respeito. No entanto, a ciência mostra que bater pode gerar medo e obediência momentânea, mas não favorece a compreensão do erro nem o desenvolvimento do autocontrole”. Segundo a especialista, a violência pode comprometer o vínculo entre pais e filhos e aumentar a probabilidade de problemas emocionais e comportamentais. “Quando a criança aprende pelo medo, ela deixa de desenvolver habilidades, como resolver conflitos, reconhecer emoções e assumir responsabilidades por suas atitudes”. Ela ressalta que momentos de desobediência fazem parte do desenvolvimento infantil e precisam ser compreendidos como oportunidades de aprendizagem. “A criança ainda está formando sua capacidade de controlar impulsos e entender limites. Por isso, uma reação agressiva do adulto pode transmitir a mensagem de que a força é uma forma aceitável de resolver conflitos”. A pedagoga Beatriz Lima destaca que estabelecer limites continua sendo essencial, mas isso não significa recorrer à agressão. “Educar com firmeza é diferente de educar com violência. Os responsáveis precisam definir regras claras, coerentes e adequadas à idade da criança, explicando as consequências de cada comportamento”. Entre as estratégias mais eficazes, Beatriz recomenda manter o diálogo, reforçar comportamentos positivos, aplicar consequências proporcionais às atitudes inadequadas e servir de exemplo no controle das próprias emoções. “Os filhos observam muito mais o comportamento dos adultos do que os discursos. Quando os pais conseguem manter a calma e agir com respeito diante das situações, aumentam as chances de que a criança também aprenda a lidar melhor com as frustrações”. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante que crianças e adolescentes sejam educados e cuidados sem sofrer castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes. A Lei nº 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, considera castigo físico qualquer ação com uso de força que cause sofrimento ou lesão, além de proibir humilhações, ameaças graves e ridicularizações. Casos de suspeita ou confirmação de violência podem ser denunciados ao Conselho Tutelar ou pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violações de direitos.