Florestas plantadas ampliam papel de Minas na produção de aço verde

Minas Gerais possui cerca de 2,3 milhões de hectares de florestas plantadas, distribuídos por mais de 800 dos 853 municípios do Estado. A atividade, além de abastecer setores como celulose e madeira, também sustenta a produção de carvão vegetal utilizado pela siderurgia e ganha importância diante da busca por produtos com menor emissão de carbono. Segundo a presidente-executiva da Associação Mineira da Indústria Florestal (AMIF), Adriana Maugeri, a distribuição da atividade pelo território mineiro contribui para o desenvolvimento de diferentes regiões. “Não existe uma localidade ou outra que está ampliando mais a quantidade de floresta, isso vem sendo distribuído, mas existem segmentos que estão aumentando a demanda”. Além da área destinada à produção, o setor informa manter cerca de 1,3 milhão de hectares conservados em Minas. A cadeia reúne grandes empresas e pequenos e médios produtores. Quase metade da produção está nas mãos de grandes produtores e a outra metade, de produtores de menor porte. A presença em diferentes regiões movimenta uma cadeia que envolve viveiros, plantio, manejo, transporte, beneficiamento e indústrias consumidoras da madeira. Para Adriana, esse modelo contribui para diversificar a economia dos municípios. “Se existem cadeias produtivas em todas as regiões consolidadas pelo setor florestal desde a produção de muda até o final, o beneficiamento dessa madeira, então tenho o setor de transporte, manejo, plantio, os viveiros e as indústrias que consomem essa madeira”. Carvão vegetal O Estado também ocupa posição de destaque na produção de carvão vegetal destinado à indústria. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Minas Gerais respondeu por 88,1% da produção nacional de carvão vegetal proveniente da silvicultura em 2023. O produto é utilizado na fabricação de ferro-gusa, ferroligas e aço. A utilização do carvão vegetal ganhou força em Minas a partir da expansão da siderurgia nas décadas de 1980 e 1990, quando o país também incentivava o plantio de florestas. Com o tempo, a indústria desenvolveu técnicas específicas para utilizar o material em pequenos altos-fornos. “Isso ficou uma especialidade brasileira e hoje ela vem sendo replicada fora do Brasil. A experiência acumulada ao longo de décadas coloca o carvão vegetal entre as alternativas disponíveis para a descarbonização da indústria”, afirma Adriana. A expectativa do setor é de aumento da demanda por produtos de menor pegada de carbono, o que já leva empresas integradas, que atuam tanto na produção florestal quanto na siderurgia, a ampliar áreas de plantio. Porém, o planejamento precisa ser feito com antecedência. “Uma floresta destinada à produção de carvão pode levar cerca de sete anos até a colheita”, reforça a dirigente. A possibilidade de ampliar a produção sem pressionar áreas de vegetação nativa também é defendida pelo setor. Adriana afirma que existem áreas degradadas ou de baixa produtividade que podem receber novos plantios. “Não é preciso derrubar nenhuma árvore para produzir floresta plantada. Basta dar cobertura vegetal a essas áreas já degradadas”. Para a presidente da AMIF, a expansão da cadeia pode contribuir simultaneamente para a atividade produtiva e a conservação. “Quanto mais madeira legal, manejada com sustentabilidade, com os melhores preceitos técnico-científicos for produzida, maior é a proteção de áreas conservadas da pressão pelo desmatamento”, conclui.

Mais de 70% dos nanoempreendedores no Brasil permanece na informalidade

Criada pela reforma tributária para contemplar trabalhadores com faturamento anual de até R$ 40,5 mil, a categoria dos nanoempreendedores reúne cerca de 19 milhões de brasileiros. Apesar da relevância desse contingente para a geração de renda, especialmente entre famílias mais humildes, a informalidade ainda predomina: 71,9% atuam sem o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), segundo estudo encomendado pela Natura e divulgado pela Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD). O levantamento mostra que os nanoempreendedores possuem características distintas das observadas entre os microempreendedores individuais (MEIs). A renda média mensal dos informais é de R$ 1.480, enquanto 81,5% vivem com até dois salários mínimos. Além disso, 31,5% não concluíram o ensino fundamental. Para a presidente da ABEVD, Adriana Colloca, o perfil socioeconômico ajuda a explicar os elevados índices de informalidade. “Em grande parte, são trabalhadores de baixa renda que empreendem em pequena escala, e muitas vezes têm nessa atividade uma forma de complementar o orçamento familiar. A baixa escolaridade e as dificuldades de inclusão digital e acesso a dados também costumam tornar mais complexo o cumprimento de rotinas burocráticas”. Na última semana, a Receita Federal e o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (CGIBS) anunciaram a suspensão da exigência de CNPJ e emissão de nota fiscal para os nanoempreendedores até o fim de 2028. A medida foi recebida positivamente pela ABEVD, mas a presidente da entidade considera que o adiamento não resolve definitivamente a questão. “Ela atende parcialmente uma demanda nossa, mas não representa uma solução definitiva. É preciso evitar que uma iniciativa criada para simplificar e incentivar o início de uma atividade econômica termine gerando novas obrigações e incertezas para milhões de brasileiros”. Burocracia e inclusão produtiva Segundo a dirigente, exigir o CNPJ e a emissão de nota fiscal de trabalhadores que faturam até R$ 40,5 mil por ano e já estão dispensados do recolhimento do IBS e da CBS criaria uma barreira incompatível com a realidade da categoria. “Imagine se uma pessoa que vende bolo para complementar a renda da família vai registrar um CNPJ ou emitir nota fiscal para isso. Quem possui menor escolaridade, baixo letramento digital e pouco acesso a informações, essas exigências podem deixar de ser um detalhe e se tornar um impedimento para exercer a atividade”. Adriana defende que o controle do limite de faturamento seja realizado por mecanismos automatizados de cruzamento de dados, sem transferir aos trabalhadores obrigações consideradas excessivas. Além disso, a manutenção de um ambiente simplificado pode ampliar a inclusão produtiva e estimular a geração de renda. “Ao retirar obrigações desproporcionais à capacidade dessa parcela da população, a medida pode criar condições para que esses trabalhadores cresçam, se desenvolvam e avancem gradualmente para categorias como MEI e Simples Nacional”. Mesmo com a suspensão das exigências até 2028, Adriana demonstra preocupação com futuras regulamentações. “O adiamento é um paliativo. Esse público terá o mesmo perfil e as mesmas características em 2029. O ideal seria a revogação definitiva dessas exigências para que a figura do nanoempreendedor cumpra sua função de estímulo ao empreendedorismo e de justiça tributária”, conclui. Nanoempreendedor ou MEI O nanoempreendedor é voltado a quem tem faturamento anual de até R$ 40,5 mil e exerce atividade econômica de pequena escala, geralmente como forma de complementar a renda. Já o microempreendedor individual (MEI) é uma categoria formalizada, com CNPJ, que permite faturamento de até R$ 81 mil por ano em 2026, além da contratação de até um empregado pelas regras atuais.

Desigualdade marca acesso ao trabalho formal no país

A entrada dos jovens de 16 a 29 anos no mercado de trabalho brasileiro é marcada por diferenças de renda, escolaridade, raça e região. É o que mostra a pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, realizada pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva. A formalização chega a 58% no Sul e a 55% no Sudeste, mas cai para 29% no Norte e apenas 20% no Nordeste. As diferenças também aparecem entre as classes sociais. Enquanto 43% dos jovens das classes A/B e 49% da classe C têm carteira assinada, o percentual é de 35% entre aqueles das classes D/E. A escolaridade também influencia o tipo de inserção profissional. Os “bicos” são realidade para 34% dos jovens com ensino fundamental, contra 9% daqueles com ensino médio e 3% entre os que possuem ensino superior. Entre os jovens brancos, 49% estão em empregos formais, ante 41% dos negros. Além disso, 12% dos jovens negros recorrem aos “bicos”, mais que o dobro do percentual registrado entre os brancos (5%). Para entender melhor os dados, o Edição do Brasil conversou com a coordenadora do Observatório Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso. Quais fatores explicam as desigualdades na formalização do trabalho entre os jovens? Essas diferenças estão relacionadas a fatores sociais, raciais, regionais e educacionais. Jovens de territórios e grupos mais vulnerabilizados têm menos oportunidades de continuidade dos estudos, qualificação e acesso a empregos formais. A necessidade de geração de renda também faz com que muitos ingressem mais cedo no mercado, o que pode dificultar a permanência na escola. Por que jovens negros e de baixa renda estão mais presentes em trabalhos informais e “bicos”? Isso é porque a necessidade de geração de renda é um fator importante. Esses jovens podem entrar mais cedo no mercado e ter dificuldades para conciliar trabalho e estudo. A menor escolaridade está diretamente associada à informalidade. Também pesam a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado, as dificuldades de deslocamento, o território onde vivem e o racismo estrutural. O fato de 77% dos jovens conseguirem emprego por indicação revela uma dificuldade para quem não possui rede de contatos? Sim. A indicação funciona como uma ponte de acesso ao mercado de trabalho, especialmente diante da falta de experiência, apontada por 49% dos jovens como a principal dificuldade. O grande problema é que as redes de contato não estão distribuídas de maneira igual. Jovens das classes mais altas e brancos têm maior acesso a essas conexões, o que pode reproduzir desigualdades. Como a formação técnica pode contribuir para ampliar o acesso ao emprego formal? A educação profissional e tecnológica é percebida por 91% dos jovens como um caminho mais rápido para ingressar no mercado de trabalho. Ela aproxima formação e prática e pode ajudar a enfrentar uma das principais barreiras apontadas pelos jovens: a falta de experiência. Quando articulada às necessidades locais e ao setor produtivo, essa modalidade de ensino pode ampliar as chances de inserção formal. Como facilitar a entrada dos jovens no mercado de trabalho? É necessária uma atuação coordenada entre políticas públicas, escolas, instituições de ensino e setor produtivo. É importante ampliar oportunidades de aprendizagem e estágio, fortalecer a educação profissional e tecnológica e aproximar os jovens das empresas. A escola também precisa prepará-los para a transição ao mundo do trabalho, com orientação, mentoria e desenvolvimento de competências. Também é importante descentralizar e fiscalizar as oportunidades de aprendizagem e estágio. Redes públicas de apoio, como a ampliação do acesso a creches, podem reduzir a sobrecarga de cuidados. Além disso, processos seletivos inclusivos e ações afirmativas podem contribuir para diminuir as desigualdades de gênero e raça.

Paixão pelo futebol pode ser uma ferramenta no combate ao sedentarismo

Grandes campeonatos de futebol costumam movimentar torcedores dentro e fora dos estádios. Além de reunir amigos para assistir aos jogos, o clima de competição também desperta em muitas pessoas a vontade de voltar a praticar esportes, como o futebol. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos realizem entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada ou entre 75 e 150 minutos de exercícios vigorosos, além de atividades de fortalecimento muscular em dois ou mais dias por semana. Para a ortopedista e traumatologista do esporte Ana Paula Simões, a motivação gerada pelo futebol pode servir como ponto de partida para uma mudança de hábitos. “Durante grandes eventos esportivos, as pessoas se identificam com atletas, equipes e histórias de superação. Isso pode funcionar como um gatilho positivo para quem deseja abandonar o sedentarismo e começar a se movimentar. O importante é transformar essa motivação inicial em uma rotina consistente”. Cuidados Apesar do estímulo positivo, a especialista alerta que a empolgação não deve levar a excessos. Muitas pessoas passam meses ou até anos sem praticar atividades físicas e, motivadas pelo momento, decidem participar de partidas de futebol ou realizar exercícios intensos sem preparação adequada. “Um dos erros mais comuns é querer compensar o tempo parado em poucos dias. O corpo precisa de um período de adaptação. Quando a retomada acontece de forma abrupta, aumentam os riscos de lesões musculares, entorses, tendinites e sobrecargas articulares”. Segundo a médica, a recomendação é iniciar com atividades leves ou moderadas, respeitando os limites individuais e aumentando gradualmente a intensidade e a duração dos exercícios. Caminhadas, por exemplo, podem ser uma boa porta de entrada para quem deseja construir condicionamento físico antes de migrar para modalidades mais exigentes. No caso do futebol, esporte que exige acelerações, mudanças rápidas de direção e contato físico, alguns cuidados são fundamentais para quem está retomando a prática. “É importante realizar aquecimento, utilizar calçados adequados, manter uma boa hidratação e respeitar os períodos de descanso. Além disso, exercícios de fortalecimento muscular preparam o corpo para as exigências da modalidade e reduzem o risco de lesões”, destaca Ana Paula. A especialista também recomenda atenção aos sinais emitidos pelo organismo após a atividade física. Dores musculares leves podem ser esperadas, especialmente nos primeiros dias de adaptação. Entretanto, alguns sintomas merecem avaliação médica. “Dor intensa, localizada ou persistente, acompanhada de inchaço, perda de força ou limitação de movimento, não deve ser considerada normal. Nesses casos, é importante procurar orientação profissional para evitar o agravamento do quadro”. Como manter a motivação Transformar a empolgação passageira em hábito é um dos principais desafios para quem decide abandonar o sedentarismo. Para a médica, a escolha de atividades prazerosas aumenta as chances de adesão. “Faça uma atividade que lhe dê satisfação. Quando existe prazer na prática, a continuidade se torna mais fácil. Também ajuda estabelecer metas realistas e contar com a companhia de amigos ou familiares, porque o apoio mútuo funciona como um incentivo extra”. Ela reforça que o mais importante é dar o primeiro passo. “Não é necessário começar com grandes desafios. O fundamental é criar uma rotina de movimento. Pequenas mudanças, quando mantidas ao longo do tempo, produzem benefícios significativos para a saúde física e mental”, finaliza.

Livro “O Homem-Máquina de Taruã” transforma ficção em debate social

A desigualdade social, o preconceito racial e a exploração do trabalho são temas centrais de “O Homem-Máquina de Taruã”, romance do escritor mineiro Eliander A. Costa. Por meio de uma narrativa de ficção científica direcionada ao público jovem, o autor constrói uma história que combina aventura, tecnologia e reflexão sobre problemas ainda presentes na sociedade brasileira. A trama se passa em um condomínio dividido em duas realidades opostas. No chamado “Lado de Lá” vivem os ricos e poderosos. Já o “Lado de Cá” abriga trabalhadores submetidos a condições degradantes e a um sistema marcado pela desigualdade. Quem desafia as regras impostas pelas elites enfrenta punições severas, em uma estrutura social que se perpetua ao longo das gerações. Segundo Costa, o cenário fictício dialoga diretamente com situações observadas no cotidiano. “Em várias circunstâncias, vejo os privilegiados se sobrepondo aos explorados. Ainda temos crianças que trabalham exaustivamente, quando o lugar delas deveria ser na escola. Temos adultos que dedicam a maior parte do tempo de suas vidas em fazendas ou em campos de larga produção agrícola, em troca de míseros salários”. A mudança começa quando surge Taruã, um jovem morador do “Lado de Cá” que se destaca por sua inteligência e criatividade. Inconformado com a realidade que condena sua mãe e seus vizinhos a uma vida de privações, decide criar uma invenção capaz de desafiar o sistema vigente. Ao longo da jornada, o protagonista enfrenta obstáculos, descobre alianças e fortalece sua busca por justiça. Para o autor, a principal mensagem da obra está relacionada ao poder transformador da educação. “Jamais podemos deixar os nossos objetivos de lado. Concomitante às nossas lutas, precisamos continuar buscando conhecimento por meio da educação. Isso porque a educação transforma e nos dá armas cognitivas para mudarmos a realidade a qual nos encontramos”. Embora trate de temas complexos, como racismo, concentração de poder e exploração do trabalho, Costa afirma que buscou construir uma narrativa acessível aos jovens leitores. “A obra trata desses assuntos com leveza. Busco construir uma narrativa romântica, muitas vezes com uma veia poética, em paralelo aos mistérios que instigam a curiosidade e que só são revelados ao final do livro”. Além dos elementos tecnológicos característicos do gênero ficção científica, a obra também valoriza a sensibilidade humana. O autor procurou unir poesia e tecnologia para estimular reflexões sobre empatia e dignidade. “Ao longo da narrativa, busquei casar ainda diversos elementos da poesia com a ficção científica. A poesia vai de encontro com os nossos sentimentos mais profundos e nos leva a exercitar a humanidade que existe dentro de cada um de nós”. Na avaliação de Costa, a literatura pode contribuir para a formação de leitores mais críticos e conscientes. “A boa leitura busca exercitar a nossa humanidade. A prosa poética, a poesia e os romances não vêm do nada. Eles buscam denunciar e provocar, convidando à mudança”, finaliza.

Número de empresas em recuperação judicial tem avanço de 65,8%

O Brasil vive uma escalada dos processos de recuperação judicial e das renegociações extrajudiciais de dívidas. Pressionadas por juros elevados, crédito mais seletivo e passivos acumulados nos últimos anos, empresas de diversos setores têm recorrido a mecanismos de reestruturação para evitar a falência e preservar as operações. Um levantamento do Monitor RGF-BizDoc mostra que o país encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, o maior patamar da série histórica. Alta de 6,2% na comparação com o fim de 2025 e um avanço de 65,8% em relação ao segundo trimestre de 2023. Ao mesmo tempo, a recuperação extrajudicial ganha espaço. Dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre) indicam que os pedidos saltaram de 16 em 2021 para 84 em 2025. Somente neste ano, as dívidas renegociadas por essa modalidade já ultrapassam R$ 109 bilhões. “O crescimento das recuperações empresariais é o resultado da combinação entre elevado custo financeiro, endividamento acumulado, necessidade de refinanciamento de passivos, maior seletividade do crédito e dificuldades específicas de determinados setores. Os juros são um dos fatores centrais, mas não são os únicos”, conforme afirma o economista do Corecon-MG, Wallace Marcelino Pereira. Muitas empresas contraíram dívidas durante o período de juros baixos na pandemia e passaram a enfrentar dificuldades quando precisaram refinanciá-las em um cenário de Selic alta, observa Pereira. “Uma empresa pode ter passado por 2021, 2022 ou 2023 com uma estrutura financeira administrável e começar a enfrentar dificuldades somente quando uma parcela significativa de suas obrigações passa a ser renovada em condições muito mais caras”. Recuperação extrajudicial ganha força O advogado especialista em Direito Empresarial, Caio Klouba, observa que a recuperação extrajudicial deixou de ser uma alternativa secundária. “Ela permite uma negociação mais direcionada, especialmente quando a maior parte do problema está concentrada em determinados credores. Em muitos casos, isso proporciona uma solução mais rápida, mais flexível e com menor impacto sobre a operação da empresa”. De acordo com Klouba, a escolha entre a via judicial e a extrajudicial depende da gravidade da crise. “Quando a companhia continua operacionalmente viável e a crise está concentrada em determinados credores, a recuperação extrajudicial pode ser bastante eficiente. Já quando existe uma pulverização maior da dívida, bloqueios judiciais ou dificuldade relevante de negociação, a recuperação judicial pode se tornar necessária”. O especialista destaca ainda que os dois mecanismos têm o mesmo pressuposto: a viabilidade econômica da empresa. “Esses instrumentos reorganizam dívidas, mas não substituem um modelo de negócio sustentável”, ressalta. Prevenção ainda é desafio Embora os números estejam em alta, Klouba defende que a recuperação não deve ser encarada apenas como último recurso. “Muitas empresas ainda procuram uma solução apenas quando a situação já está deteriorada, com restrição de crédito, atrasos e execuções. Nesse estágio, o número de alternativas já é muito menor”. Pereira observa que o avanço das recuperações não significa, necessariamente, uma crise generalizada da economia. “Não é possível equiparar recuperação judicial à falência. Os dados mostram uma economia que continua crescendo, mas com empresas enfrentando dificuldades para lidar com o custo do capital e o refinanciamento de suas dívidas”. Se entrar em recuperação é difícil, sair dela também representa um desafio. Após a aprovação do plano, as empresas precisam reconquistar a confiança de bancos, fornecedores e também investidores. “A firma precisa demonstrar disciplina financeira, geração de caixa, cumprimento das obrigações assumidas anteriormente, melhoria da governança e previsibilidade. Essa confiança é reconstruída ao longo do tempo”, afirma Klouba. Na avaliação de Pereira, a recuperação jurídica não elimina automaticamente as restrições financeiras. “Dessa forma, uma empresa pode superar a crise e continuar enfrentando uma restrição financeira. Isso ajuda a explicar porque a retomada do investimento e do crescimento pode ser mais lenta do que a própria reorganização formal das dívidas”, conclui.

Artesanato em cerâmica do Vale do Jequitinhonha ganha espaço em Paris

Durante décadas, as mãos dos artesãos do Vale do Jequitinhonha moldaram o barro para preservar tradições, contar histórias e garantir renda para famílias da região. Em setembro, esse patrimônio cultural ultrapassará fronteiras e ganhará espaço na Paris Design Week, um dos principais eventos mundiais de design e arte. Entre os dias 10 e 14 de setembro, cerca de 150 esculturas produzidas por artesãos de quatro comunidades do Jequitinhonha serão apresentadas na Maison & Objet Paris 2026, considerada uma das mais importantes feiras internacionais de decoração, design, arte e lifestyle. As peças serão exibidas para compradores, galeristas, arquitetos, designers e curadores de diversos países. As obras também integrarão a exposição “A Terra Modelada pela Arte – Exclusiva Vale do Jequitinhonha”, na Ricardo Fernandes Gallery, no bairro Marais, entre os dias 8 e 18 de setembro. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Sebrae Minas e o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede). Para a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa da Costa, a missão vai além da promoção comercial. “Vocês representam 21 milhões de mineiros, a cultura do nosso Estado e um patrimônio cultural imaterial que faz parte da identidade de Minas. O artesanato é capaz de unir desenvolvimento econômico, inclusão social e valorização cultural”. Uma trajetória de valorização A presença em Paris é resultado de um trabalho de longo prazo. De acordo com gerente regional do Sebrae Minas, Rogério Fernandes, são mais de duas décadas de ações voltadas ao fortalecimento da identidade, da gestão e do acesso a mercados para os artesãos da região. “Hoje atendemos cerca de 150 artesãos, sendo 96% mulheres, em quatro comunidades que se tornaram referência na produção cerâmica”. O trabalho ganhou força em 2019, com o projeto “Identidade e Origem”, que culminou no lançamento da Marca Território Vale do Jequitinhonha, em 2021. Quatro comunidades são beneficiadas pela iniciativa: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado. Desde então, os artesãos participaram de exposições em espaços como o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro. Outro marco foi a criação da “Viagem para a Origem”, iniciativa que leva compradores para conhecer as comunidades artesãs. Segundo Fernandes, a ação movimentou mais de R$ 450 mil em compras e encomendas em 2025. “Quando levamos os compradores para a região, eles conhecem a história por trás das peças e criam uma conexão direta com os artesãos. Isso gera valor e abre novas oportunidades de negócios”. Identidade que ganha o mundo A curadoria da exposição na Maison & Objet é assinada por Marco Aurélio Pulchério, que vê no artesanato do Jequitinhonha uma oportunidade de apresentar ao mundo uma produção singular. “Essa feira reúne aproximadamente 70 mil visitantes e 2.300 expositores de cerca de 140 países”. De acordo com Pulchério, a mostra permitirá revelar ao público internacional muito mais do que as tradicionais bonecas de barro. “Estamos contando a história de comunidades que resistiram, preservaram seus saberes e transformaram sua cultura em arte”. Participarão das exposições em Paris os artesãos Andréia Andrade, Augusto Ribeiro, Alice Costa, Anísia Lima e Adriana Xavier. Juntos, levarão à França obras inspiradas no cotidiano, na ancestralidade e na identidade cultural do Vale do Jequitinhonha. Trabalho que passa de gerações Filha e neta de artesãs, Anísia começou a modelar o barro ainda criança. “Eu tinha oito anos de idade, brincando junto com a minha mãe, fazendo as peças. É uma tradição de muitos anos”. Ela lembra que no passado, as peças eram transportadas no lombo de animais para serem vendidas nas feiras da região. Hoje, vê o artesanato alcançar mercados que suas antepassadas jamais imaginaram. “É um sentimento de muita alegria e satisfação. Penso que as nossas avós sonhavam em ver o artesanato expandir, mas talvez não imaginassem que chegaria tão longe”.

Casos de sarampo acendem alerta e reforçam a importância da vacinação

O registro de 24 casos de sarampo no Brasil até agosto, todos no Estado de São Paulo, reacendeu o alerta sobre a importância da vacinação e da manutenção de uma cobertura elevada contra a doença. Embora o país tenha eliminado a transmissão sustentada do vírus, a ocorrência de casos importados pode resultar em novos registros e pequenos surtos quando encontra pessoas sem proteção. Para o acadêmico titular da Academia Nacional de Medicina (ANM), Celso Ramos Filho, o cenário atual não significa o retorno do sarampo como doença de transmissão sustentada no país. Ele avalia que a elevada cobertura vacinal ainda funciona como uma barreira para que os casos não se multipliquem. “O Brasil tem níveis muito elevados de cobertura vacinal. Existem pessoas e grupos que não estão adequadamente imunizados, culminando na reintrodução do sarampo. Nós podemos ter alguns surtos, como estamos tendo em São Paulo, mas não espero grandes cataclismas”, afirma. A doença está entre as mais infecciosas e contagiosas, sendo transmitida por secreções respiratórias. Por isso, a proteção coletiva é fundamental para interromper as cadeias de transmissão. De acordo com o médico, é necessário manter um nível de imunização de aproximadamente 90% da população para reduzir significativamente a possibilidade de que um caso gere novas infecções. Vacinação ao longo da vida A enfermeira Elisa Lino destaca que a atualização da carteira de vacinação não deve ser encarada como uma preocupação restrita à infância. No caso do sarampo, a vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Conforme o calendário de vacinação, a primeira dose é indicada aos 12 meses e o reforço aos 15 meses. Pessoas que não completaram o esquema também podem buscar a atualização. “Caso não tenha nenhum comprovante que fez a aplicação da vacina, pode buscar essa informação em qualquer unidade de saúde pública. Se não houver um documento, iniciamos o esquema e seguimos a recomendação do médico”, orienta. Elisa ressalta que a imunização precisa acompanhar as diferentes fases da vida. “É importante manter o calendário vacinal em dia, tanto crianças quanto adolescentes, adultos e idosos precisam acompanhar os reforços. Temos também públicos que requerem um cuidado maior, como imunocomprometidos e gestantes, para os quais existem recomendações específicas”. Diagnóstico rápido Além da vacinação, a identificação precoce dos casos é considerada essencial para evitar a disseminação do vírus. Segundo Filho, o desafio é que muitos profissionais de saúde em atividade nunca tiveram contato com pacientes com sarampo, justamente porque a vacinação reduziu drasticamente o número de casos. “Não reconhecem necessariamente aquela enfermidade e não notificam, porque pensam se tratar de dengue, chikungunya e outras doenças febris agudas acompanhadas de manchas e vermelhidão no corpo”. Entre os sinais que merecem atenção estão febre alta, tosse, coriza, irritação ou vermelhidão nos olhos e manchas avermelhadas pelo corpo. “Se houve contato com alguém que já teve a doença ou está manifestando sintomas, é importante ficar em alerta. Temperatura muito alta que não consegue baixar e pintas ou marquinhas avermelhadas pelo corpo são sinais relevantes”, orienta Elisa. Para Filho, a vacinação continua sendo a principal ferramenta para impedir que casos isolados avancem. “A pessoa com sarampo tem alta possibilidade de infectar outras. É preciso ter um nível elevado de imunidade coletiva, algo em torno de 90%, porque aí a possibilidade de transmissão secundária é muito pequena”, conclui.

Nutricionistas cobram melhor estrutura para o PNAE na Assembleia Legislativa

A falta de nutricionistas e de profissionais nas cozinhas, a precariedade da infraestrutura e as condições de trabalho foram apontadas como obstáculos para a execução adequada do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) em Minas Gerais. Os problemas foram debatidos em 18 de agosto, durante audiência pública da Comissão de Administração Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a partir de requerimento do presidente do colegiado, deputado Adalclever Lopes (PV). Conforme destacou a nutricionista Elisabeth Chiari Rios Neto, existem discrepâncias entre as responsabilidades atribuídas aos profissionais e as condições oferecidas para cumpri-las. “O PNAE é referência mundial e nos orgulha muito. Essa política nos pede alimentação adequada e saudável, segurança alimentar, respeito à cultura, atenção às necessidades, agricultura familiar, educação alimentar e equidade”. “É uma das políticas mais bem construídas do país. A pergunta que nos traz aqui é outra: nós estamos dando condições para que ela seja cumprida? Existe uma diferença enorme entre ter responsabilidade técnica e ter condição técnica para exercê-la”, acrescentou. Ela citou um levantamento do Observatório de Alimentação Escolar, realizado em 2025. De acordo com os dados apresentados, 83% consideram insuficiente o número de profissionais nas redes onde atuam, enquanto 47% afirmam que os municípios não têm condições adequadas para cumprir as exigências do PNAE. A nutricionista criticou ainda a mudança no caráter da exigência de composição do quadro técnico. “A maior parte dos municípios de Minas Gerais hoje não conta com o quadro técnico de nutricionista. Não podemos falar em fortalecer o PNAE e aceitar um retrocesso que permita que o programa funcione sem gente suficiente para executar”. Déficit A presidente do Conselho Regional de Nutrição da 9ª Região (CRN-9), Deyrilucy Ferreira, afirmou que a execução do programa exige mais do que a elaboração dos cardápios. “Também somos responsáveis pelas compras. Fazemos os termos de referência para as aquisições da licitação, os alimentos da agricultura familiar e fazemos treinamento da nossa mão de obra. Então são responsabilidades que exigem tempo, equipe e estrutura compatíveis”. O levantamento do CRN-9 apontou déficit de profissionais em diferentes regiões do Estado. Entre janeiro de 2025 e julho de 2026, o conselho informou ter enviado 158 ofícios a gestores municipais para adequação do quadro técnico. Entre os problemas identificados nas fiscalizações estão estruturas físicas inadequadas, falta de equipamentos, cozinhas pequenas e mal ventiladas, estoques inadequados, falta de capacitação das merendeiras, dificuldades para visitas técnicas, interferência de gestores no planejamento dos cardápios e sobrecarga administrativa dos nutricionistas. Propostas O CRN-9 defendeu o fortalecimento do quadro técnico de nutricionistas, a realização de concursos e a criação de mecanismos para acompanhar o déficit de profissionais. Também propôs ampliar e valorizar as equipes das cozinhas, criar um programa estadual para melhoria da infraestrutura e oferecer assistência técnica aos municípios. A coordenadora técnica estadual da Emater-MG, Rhamillye Bartels Van de Pol, ressaltou que o nutricionista também é fundamental para aproximar a alimentação escolar da agricultura familiar. “É um processo construído a muitas mãos. Temos agricultores, nutricionistas, administrativos das escolas que envolvem todo esse processo e os resultados com esse trabalho vêm sendo verificados ao longo desse tempo”. Para Elisabeth, a discussão ultrapassa a valorização profissional e está diretamente ligada ao direito dos estudantes. “Alimentação escolar é defender a saúde dos estudantes. Quando temos condições de trabalho, autonomia e equipe suficientes, quem ganha é o estudante. No final, tudo volta para o estudante”.

CURA se despede da Praça Raul Soares e propõe uma reflexão sobre descanso

Entre os dias 19 e 30 de agosto, a Praça Raul Soares, em Belo Horizonte, será palco do CURA – Festival de Arte Urbana. Depois de cinco anos de ocupação, o evento se despede do local, onde construiu um dos principais conjuntos de arte pública a céu aberto do país. As pinturas começam em 19 de agosto e poderão ser acompanhadas pelo público diretamente da praça. A programação será realizada de 26 a 30 de agosto, com atrações que unem arte, música, esporte e convivência, incluindo o highline entre os prédios do hipercentro. A programação completa e os nomes dos artistas serão divulgados ainda em agosto. O tema deste ano, “Descansar Enquanto”, propõe uma reflexão sobre o descanso como direito e posicionamento diante de uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, informações e urgências. A ideia é tratar o descanso não apenas como uma pausa, mas como uma forma de resistência às estruturas que produzem exaustão e afetam de maneira desigual diferentes grupos sociais. A escolha também está relacionada à própria trajetória do CURA na Raul Soares. Para a idealizadora do festival, Priscila Amoni, a presença prolongada no local permitiu construir uma relação que vai além da realização de um evento. Segundo ela, a atuação do projeto contribuiu para chamar a atenção para as necessidades da praça e estimular mudanças no entorno. “Acho que é muito visível a transformação que causa um festival estar presente em um território da forma que a gente está. Aconteceu isso na Rua Sapucaí, conseguimos enxergar com muita nitidez quando tem um projeto cultural atuando em um território de forma mais profunda do que simplesmente um evento”. Priscila destaca que o festival passou também a solicitar melhorias para a praça, como áreas de lazer, arborização e mobiliário urbano. “A gente reivindica as falhas do poder público naquele ponto, o CURA está pedindo que ali seja usado como um parque com mais árvores e mobiliário urbano”. Na avaliação da idealizadora, os efeitos da ocupação podem ser percebidos também na movimentação do entorno. “Nós percebemos que desde a chegada do CURA, multiplicou o número de estabelecimentos e a movimentação cultural na Raul Soares. Vemos que o poder público está olhando ali”. Curadoria coletiva Outra novidade de 2026 é a construção do conceito da edição por uma Comissão Criativa, formada por artistas, pesquisadores, produtores e agentes culturais que atuam em Belo Horizonte, com participação da curadora convidada Luciara Ribeiro. Segundo Priscila, a iniciativa representa uma ampliação de um processo de democratização que o festival desenvolve desde suas primeiras edições. “Buscamos horizontalizar os processos e trazer a diversidade desde o início. A gente traz mesas de conversa sobre o que a cidade estava reivindicando. Depois, trouxemos isso para a seleção de artistas”. “O diferencial da Comissão Criativa é que isso se amplia radicalmente. Selecionamos 10 pessoas que estão pensando a cidade em diversos setores culturais e colocamos nessa comissão, que propôs o que o CURA vai debater este ano. Isso é um ato democrático radical de trazer escuta ao que a cidade tem a dizer”, complementa. Uma etapa na trajetória Embora seja a última edição na Raul Soares, Priscila não trata a saída como o fim da relação com o território. Para ela, o festival segue acompanhando as demandas da capital e poderá ocupar diferentes espaços ao longo de sua trajetória. “O CURA é muito mais do que um evento, é um projeto que deixa legado, transforma a paisagem, deixa obras de arte em grande escala na cidade, interfere no turismo e valoriza um território para ter movimentação turística e cultural ali”, conclui.