NuBeco amplia circuito de arte urbana em Contagem com diversas pinturas

O bairro Eldorado, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, está recebendo mais de 2 mil metros quadrados de novas pinturas por meio da edição 2026 do NuBeco, projeto que transforma becos e espaços públicos em galerias de arte a céu aberto. As intervenções contemplam quatro vielas da rua dos Jatobás e as quadras esportivas da Praça da Glória. A iniciativa tem conclusão prevista para o início de novembro com um evento para a população. O primeiro mural, “Etnias: Muitos Povos, Muitas Histórias”, já foi concluído. Os demais espaços abordam música, cultura popular brasileira e futuros possíveis. Nas quadras, o tema é “Esporte, Movimento e Cidade”, com referências à prática esportiva, à juventude e aos direitos da infância e da adolescência. A proposta é aliar a transformação visual à transmissão de conhecimentos. Segundo o coordenador artístico do projeto, Alberto Tadeu, conhecido como Tot, os temas são definidos em conjunto com a Move Cultura e divididos entre os artistas participantes, que têm liberdade para desenvolver suas próprias linguagens. “Além de deixar mais bonito e colorido, a ideia é trazer alguma informação coerente para a sociedade”. “Nós estamos reafirmando a ocupação do espaço em volta da Praça da Glória, totalizando agora oito becos, que o pessoal poderá visitar, criando assim um circuito cultural. Esses trabalhos valorizam ainda mais o ambiente que já foi ressignificado desde o ano passado”, acrescenta. Participação dos moradores Realizado desde 2012, o NuBeco surgiu para melhorar as condições de uso das vielas, importantes passagens para pedestres que eram utilizadas para descarte irregular de lixo. A organização começou promovendo mutirões de limpeza com os moradores, seguidos de atividades como exposições, exibições de filmes e intervenções artísticas. “A gente acreditava que a cultura era o melhor caminho para mobilizar essas pessoas em torno dessa causa”, afirma o diretor-executivo da Move Cultura, Rafael Aquino. Ele ressalta que a revitalização também modifica a relação da população com os espaços. Locais antes evitados, especialmente à noite, passaram a receber visitantes e atividades educativas. Os moradores também ajudam a preservar os becos e colaboram com a equipe durante a execução dos murais, fornecendo água, energia e até lanches para os artistas. “Quando fazemos essa melhoria, os moradores passam a fiscalizar o espaço e a chamar a atenção de outras pessoas para que não joguem lixo ali. O beco fica preservado por muito mais tempo”. Aquino lembra que as pinturas também são utilizadas como recursos pedagógicos. Em uma viela revitalizada em 2025, com o tema “Biomas do Brasil”, professores levaram alunos para estudar a diversidade ambiental brasileira a partir dos murais. Estudantes do ensino médio e universitários das áreas de urbanismo e arquitetura também já desenvolveram trabalhos sobre os espaços. Circuito cultural Em 2025, o NuBeco produziu aproximadamente 1,6 mil metros quadrados de murais em quatro becos no entorno da Praça da Glória. Aquino explica que neste ano, o projeto amplia o percurso para outras vielas da rua dos Jatobás e incorpora estruturas do complexo esportivo, fortalecendo a conexão entre arte, lazer e circulação de pedestres. “Já imaginávamos que os becos se tornariam um circuito de visitação, porque são passagens utilizadas por quem vai à praça, à igreja e ao complexo esportivo. A experiência do ano passado deu muito certo”, finaliza.
Emprego cresce, mas empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas

O Brasil chegou a 103,5 milhões de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em agosto, com taxa de desemprego de 5,3%. Apesar do recorde, empresas continuam enfrentando dificuldades para preencher vagas. Uma pesquisa do ManpowerGroup mostra que oito em cada dez empregadores brasileiros têm problemas para encontrar os profissionais de que precisam. O índice de 80% supera a média global, de 72%, e evidencia o descompasso entre as competências disponíveis e as exigências do mercado. Outro levantamento, da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), mostrou que 62,3% das empresas consultadas enfrentavam dificuldades para contratar ou reter funcionários no fim de 2025, ante 58,7% em 2024. Na construção civil, cerca de sete em cada dez empresas relataram obstáculos. Para o economista Gabriel Vaz, os números não são contraditórios, pois o mercado de trabalho é segmentado por profissão, qualificação, experiência e localização. “Uma empresa pode estar procurando um eletricista qualificado em determinada região, enquanto o trabalhador disponível possui experiência no comércio e reside em outra cidade. Portanto, existe oferta de trabalho e demanda, mas elas não necessariamente se encontram”. Segundo Vaz, a remuneração também influencia esse cenário. “Muitas vezes, a dificuldade de contratação não decorre da inexistência de trabalhadores, e sim de encontrar profissionais dispostos a aceitar as condições oferecidas”. Exigências e qualificação Conforme a CEO da MBRH, Andiara Martins, parte das dificuldades está na forma como as empresas conduzem os processos seletivos. Exigências excessivas, descrições de cargos pouco realistas, salários desalinhados ao mercado e baixa flexibilidade podem afastar candidatos. “Precisamos compreender que o mercado mudou. O profissional qualificado também avalia a empresa, sua cultura, suas lideranças e suas perspectivas de desenvolvimento”. Ela destaca que a escassez varia conforme a área. Tecnologia exige atualização constante diante da transformação digital e da inteligência artificial. Já funções de atendimento e vendas demandam, além de conhecimento técnico, comunicação, adaptabilidade e capacidade de solucionar problemas. “Muitas organizações procuram profissionais prontos para todas as exigências, o que pode não existir. As empresas precisam decidir se continuarão procurando talentos ideais ou se começarão a desenvolver talentos com potencial real. Essa estratégia pode ampliar resultados”, pontua. Na avaliação de Andiara, as empresas precisam avaliar se as vagas permanecem abertas por falta de qualificação ou por condições pouco competitivas. Remuneração, benefícios, jornada e exigências devem ser revistos, assim como a duração dos processos seletivos. “Uma vaga aberta durante meses não representa necessariamente falta de talentos. Pode representar falta de alinhamento entre o que a empresa exige e aquilo que está disposta a oferecer”, afirma. A consultora defende ainda processos ágeis e seleção baseada em competências e potencial, ampliando oportunidades para jovens, profissionais acima dos 50 anos e pessoas em transição de carreira. Também considera investir no desenvolvimento dos funcionários para reduzir a rotatividade. De acordo com Vaz, os desafios vão além de formar trabalhadores. “É preciso tornar as oportunidades compatíveis com as expectativas dos candidatos. A qualificação ajuda, mas sem condições de infraestrutura e salário equivalentes, o trabalhador qualificado escolhe outra oportunidade”, conclui.
Mudanças na jornada de trabalho podem aumentar custos e afetar contratações

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que acaba com a escala de trabalho 6×1, foi aprovada pelo Senado Federal na última semana. O texto prevê dois dias de descanso remunerado por semana e a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial. Também em discussão, a PEC 12/2026 propõe uma modalidade flexível de contratação, com remuneração e direitos proporcionais às horas trabalhadas, como alternativa ao regime tradicional da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Para analisar os efeitos das mudanças, o Edição do Brasil entrevistou o advogado trabalhista Jorge Soares. Quais são os principais impactos do fim da escala 6×1 para as empresas? O grande desafio é estabelecer uma regra uniforme para atividades com necessidades distintas. Reduzir a jornada sem diminuir os salários aumenta o custo da hora trabalhada e pode exigir novas contratações, elevando as despesas das empresas. O repasse desses custos aos consumidores dependerá das condições de cada mercado. A jornada flexível proposta pela PEC 12/2026 pode beneficiar os empregadores? A contratação por hora pode facilitar o ajuste das equipes à demanda. No entanto, a proposta ainda precisa de aperfeiçoamentos para garantir previsibilidade sobre carga horária, custos e condições de adesão. A flexibilidade não significa que o empregado terá autonomia real para escolher sua jornada. Também faltam definições sobre a participação dos sindicatos e a prevalência dos contratos individuais sobre os instrumentos coletivos, o que pode gerar controvérsias jurídicas. Se o trabalhador reduzir as horas, a empresa poderá precisar contratar outra pessoa para completar a jornada. A flexibilidade pode trazer benefícios, desde que existam regras claras e segurança para ambas as partes. Quais setores devem enfrentar mais dificuldades e como a mudança afeta as jornadas? As maiores dificuldades tendem a surgir em atividades que funcionam continuamente ou concentram a demanda nos fins de semana, como comércio, restaurantes, hotéis, saúde e logística. Operações offshore também exigem atenção: há profissionais que passam 15 dias embarcados e descansam por igual período, um modelo difícil de adequar às regras uniformes. A PEC que prevê o fim da escala 6×1 admite ajustes por negociação coletiva, mas usa o termo “excepcionalmente” sem definir com precisão em quais situações isso será permitido, o que gera insegurança jurídica. Qual deve ser o papel dos sindicatos e quais os riscos de regras pouco claras? A negociação coletiva precisa ser valorizada para permitir ajustes conforme as particularidades de cada setor. O problema é que não está claro em quais situações será possível negociar jornadas diferentes. Além disso, a proposta prevê prazo curto para a adaptação inicial e perda de validade de cláusulas coletivas incompatíveis com as novas regras. Sem uma transição adequada, as empresas podem enfrentar dificuldades operacionais, custos adicionais e maior exposição a disputas judiciais, comprometendo a segurança jurídica. Como as empresas devem se preparar para essas possíveis mudanças? O ideal é mapear as jornadas atuais, simular escalas e calcular os impactos na folha de pagamento e na operação. Também será necessário revisar normas coletivas, avaliar a necessidade de contratações e preparar ajustes nos sistemas de ponto e nas políticas internas. A reorganização das equipes deve considerar o volume de trabalho para evitar o excesso de horas extras. Uma mudança dessa dimensão exige regras claras, segurança jurídica e discussão aprofundada sobre seus efeitos para empresas e trabalhadores, o que ainda não aconteceu.
CBD no esporte: entre a utilização terapêutica e o risco de doping

A busca de atletas por produtos à base de cannabis para controlar dores, melhorar o sono ou auxiliar na recuperação física ganhou espaço no esporte, mas exige atenção para não transformar um tratamento com finalidade clínica em problema antidopagem. Embora o canabidiol (CBD) não seja proibido pela Agência Mundial Antidoping (WADA), produtos comercializados com esse nome podem conter outros canabinoides, como o THC, que estão sujeitos às regras antidopagem. Segundo o porta-voz da CBD Brasil e especialista em educação sobre cannabis medicinal, Ricardo Guimarães, a primeira distinção é entre o CBD e o produto que o contém. “CBD e ‘produto de CBD’ não são a mesma coisa. Os demais canabinoides naturais ou sintéticos permanecem proibidos em competição”. “Portanto, um produto comercializado como CBD pode também apresentar THC, CBN, CBG, delta-8, delta-9 ou outros compostos, seja pela própria formulação, por contaminação ou por divergência entre o rótulo e a composição real”, acrescenta. O cuidado é ainda maior com produtos de espectro completo (full spectrum), que podem conter THC, e também envolve os de espectro amplo (broad spectrum). Guimarães alerta que a procedência e a composição precisam ser verificadas antes do uso. “CBD puro não é proibido, mas nenhum produto deve ser considerado automaticamente seguro apenas porque traz ‘CBD’ no rótulo”. Controle do produto Para atletas submetidos a exames, um dos principais instrumentos de controle é o Certificado de Análise (COA), que apresenta os resultados de testes laboratoriais. Ainda assim, o documento precisa corresponder ao lote utilizado e trazer informações sobre laboratório, método e concentração dos canabinoides. “Termos comerciais como ‘THC Free’, ‘Zero THC’ ou ‘Broad Spectrum’ não substituem a análise laboratorial. Para um atleta sujeito a testes, o protocolo mais conservador envolve CBD isolado, COA por lote, ausência de THC detectável, produto rastreável, médico responsável, registro de uso e checagem das normas da federação ou liga”, explica Guimarães. Porém, o especialista ressalta que mesmo esses procedimentos não representam risco zero. “Variações entre lotes, estabilidade, transporte, armazenamento e contaminação também podem interferir na composição final. Por isso, a segurança antidoping é um processo de controle e documentação”. Além da questão regulatória, Guimarães lembra a necessidade de avaliar se o tratamento é adequado ao quadro do atleta. A ciência investiga possíveis efeitos do CBD sobre dor, inflamação, sono e ansiedade, mas ainda há poucos estudos clínicos realizados com populações esportivas e resultados não são uniformes. “O CBD vem sendo estudado por sua possível atuação em vias relacionadas à dor, inflamação, sono, ansiedade e recuperação. Porém, a própria literatura reconhece que ainda existem poucos estudos clínicos robustos diretamente realizados em populações esportivas”, afirma. Tratamento não é desempenho Conforme Guimarães, o CBD deve ser encarado como uma possível ferramenta complementar. “Ela não substitui diagnóstico, fisioterapia, nutrição, hidratação, sono, periodização ou reabilitação e não deve ser apresentada como um recurso destinado diretamente a aumentar o desempenho”. A recomendação do especialista é que atletas e equipes considerem simultaneamente saúde, composição do produto, calendário competitivo e regras da modalidade. “O objetivo não é retirar dos atletas o acesso aos canabinoides potencialmente úteis. É criar um sistema que permita utilizá-los, quando clinicamente apropriados, sem colocar em risco a saúde, a elegibilidade ou a carreira esportiva”, conclui.
“Nuances da Exclusão” revela desafios por trás do discurso de inclusão plena

A distância entre o discurso de inclusão e a realidade de pessoas com deficiência é o ponto de partida de “Nuances da Exclusão”, autobiografia do escritor Felipe Afonso. Usuário de aparelhos auditivos desde a adolescência, ele reúne experiências pessoais e reflexões sobre obstáculos presentes na saúde, na educação e no mercado de trabalho. Com 13 capítulos e 188 páginas, a obra aborda isolamento social, custos das tecnologias assistivas, falta de acessibilidade e a dificuldade de transformar direitos previstos em lei em acesso efetivo. Segundo o autor, a escrita em primeira pessoa é combinada a referências históricas e bibliográficas para expor situações que ainda passam despercebidas no cotidiano. “Quando comecei a escrever, ainda na adolescência, não tinha uma noção completa do que significava ser uma pessoa com deficiência no Brasil. Após me tornar adulto e precisar ganhar meu próprio dinheiro é que passei a conhecer de verdade as barreiras estruturais das pessoas com deficiência. Foi essa realidade que deu forma ao livro”, afirma. Um dos aspectos abordados é a exclusão que não aparece como uma proibição direta. Felipe Afonso explica que no caso da deficiência auditiva, dificuldades de comunicação podem transformar situações corriqueiras em experiências de desgaste e afastamento. “Pode haver dez pessoas surdas com o mesmo grau de perda auditiva, mas com necessidades completamente diferentes. Às vezes, só precisamos que a pessoa fale de frente para nós, reformule uma frase ou escreva uma informação. Mas, em vez de ajustar a comunicação, muitas vezes nos infantiliza”. A saúde é apontada no livro como uma das áreas em que a diferença entre o direito previsto e a realidade fica mais evidente. Para Felipe Afonso, o acesso às tecnologias assistivas pode determinar a possibilidade de estudar, trabalhar e se relacionar com autonomia. “Dependendo do modelo, o custo pode chegar a R$ 20 mil por ouvido e R$ 40 mil para quem precisa usar nos dois. O direito existe, mas a vida da pessoa não pode ficar suspensa até que ele seja atendido”. Na educação, o capítulo “Pontos cegos” relaciona os desafios da inclusão às fragilidades da rede pública. Para o escritor, não basta garantir a presença do estudante com deficiência em sala de aula se a escola não dispõe de condições básicas para oferecer ensino de qualidade. “Quando tivermos uma educação digna, aí sim poderíamos começar a falar de educação inclusiva”. No mercado de trabalho, Felipe Afonso aborda profissionais inseridos, mas com limitações para desenvolver suas competências. Formado em Engenharia da Computação e desenvolvedor de software, ele aponta a oferta de cargos pouco valorizados e salários baixos como parte de um problema mais amplo. “O maior obstáculo talvez seja a normalização disso. É como se as pessoas com deficiência já tivessem seu lugar marcado no mercado de trabalho, antes mesmo de demonstrarem suas competências. Minha esperança é que um dia as empresas enxerguem potencial nas pessoas com deficiência, em vez de tratá-las quase sempre como um risco”, relata. “Após a leitura de ‘Nuances da Exclusão’, espero que o leitor consiga enxergar por conta própria a realidade das pessoas com deficiência e questionar as ideias vazias que são propagadas aos montes em belas campanhas de inclusão. Este livro é apenas uma gota num oceano de informações, mas tenho esperança de que cada vez mais pessoas se interessem por ele e pelo que essas páginas procuram tornar visível”, conclui.
Novo Desenrola do governo federal muda negociação de dívidas

O Desenrola Brasil 3.0 deve alterar a forma de tratamento das dívidas antigas ao permitir que a União compre carteiras de créditos inadimplidos e depois renegocie os débitos com os consumidores. A medida ocorre em um cenário de forte reincidência. Em agosto, 86,72% dos consumidores que entraram na inadimplência já haviam passado pelo cadastro nos 12 meses anteriores, segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Pela Medida Provisória 1.393, publicada no fim de setembro, a regra geral considera dívidas de pessoas físicas com valor original inferior a R$ 10 mil e inadimplência superior a 720 dias e inferior a 1.645 dias. As carteiras deverão ser ofertadas com desconto mínimo de 90% sobre o valor original dos créditos. Propostas com descontos maiores poderão ter vantagem no procedimento. A norma também determina a oferta da totalidade dos créditos elegíveis de cada devedor, evitando a seleção de apenas alguns débitos. Conforme o especialista em Direito Empresarial, Thiago do Amaral Santos, a diferença central está na compra das carteiras. “O programa passa a comprar as próprias carteiras de dívidas antigas. Primeiro, a União adquire esses créditos dos credores e depois, são renegociados com os devedores”. O desconto de 90%, porém, não significa que o consumidor terá automaticamente esse abatimento. Santos explica que é preciso separar o valor original da dívida do preço pelo qual a carteira foi adquirida. “A Medida Provisória permite que a renegociação tenha desconto de até o mesmo percentual obtido na compra”. Para Amaral, o alcance efetivo do programa ainda depende da regulamentação. A União está autorizada a destinar até R$ 15 bilhões para a aquisição das carteiras ou para fundos, limite condicionado à disponibilidade orçamentária e financeira. “A Medida Provisória define a estrutura, mas ainda precisamos saber como serão formadas as carteiras, quem poderá participar, como os créditos serão validados e quais serão as condições oferecidas ao consumidor”. Alcance ainda depende de regras A ampliação para credores não bancários pode aumentar o alcance da medida, mas também traz desafios para empresas menores. “Se o governo conseguir incluir também o pequeno varejo, o potencial de recuperação é muito grande. O problema é que essas empresas muitas vezes não têm estrutura tecnológica para integrar seus sistemas ao programa”, afirma o CEO da Acerte Aqui, Osni Monteiro. Apesar da expectativa em torno da nova edição, Monteiro orienta que o consumidor não precisa esperar pela abertura das renegociações diretas, previstas para acontecer a partir de fevereiro de 2027. “Grandes campanhas com descontos foram feitas assim que o programa foi lançado. Até chegar a data, o consumidor pode já ter saído com a dívida resolvida”. “Quando o governo compra essa dívida, o dinheiro volta rapidamente para o comércio, para os bancos e para as empresas que tinham esses créditos parados. Isso ajuda a movimentar novamente esse recurso que estava preso em dívidas antigas”, complementa. Ciclo ainda preocupa A reincidência mostra o desafio. Dos consumidores que voltaram à inadimplência em agosto, 68,96% ainda tinham pendências antigas, enquanto 17,76% haviam saído do cadastro e retornaram. O intervalo médio entre vencimentos foi de 69,2 dias, de acordo com a CNDL. Para o presidente da CNDL, José César da Costa, os números mostram que a estabilidade financeira é algo frágil. “Quando o consumidor limpa o nome, mas continua com o orçamento apertado, qualquer imprevisto ou o peso contínuo do custo de vida faz com que ele recorra novamente ao crédito. Descontos, prazos maiores e juros menores só funcionam se a parcela couber no orçamento, depois das despesas essenciais”, explica. Segundo Costa, o desafio é fazer com que a renegociação não seja apenas uma solução momentânea. “Se a renegociação não vier acompanhada de uma mudança estrutural na gestão financeira da família e de uma oferta de crédito mais consciente por parte do mercado, corre- -se o risco de apenas zerar o passado sem interromper o ciclo”.
Pesquisa revela que felicidade dos brasileiros caiu 28,4 pontos em sete meses

A felicidade do brasileiro mudou de percepção ao longo de 2026. É o que aponta o “Mapa da Felicidade Real no Brasil”. Em fevereiro, 89,5% dos entrevistados se consideravam felizes. Seis meses depois, o percentual caiu para 61,1%, uma diferença de 28,4 pontos percentuais. Na observação da especialista em Ciência da Felicidade e responsável pelo estudo, Renata Rivetti, o resultado é expressivo, mas precisa ser interpretado com cautela. “Estamos falando de uma queda na percepção declarada de felicidade e não afirmando que os brasileiros ficaram mais infelizes”. A mudança veio acompanhada de outros indicadores. A parcela que afirma contar com amigos ou familiares como rede de apoio caiu de 87,2% para 78,3%. Ao mesmo tempo, aumentou de 50,5% para 66,1% o percentual de pessoas que já se sentiram tristes ou infelizes ao utilizar redes sociais. Entre os trabalhadores, também recuou de 76,6% para 70,8% a parcela que considera o trabalho uma fonte de felicidade. Segundo Renata, outro ponto de atenção está nos vínculos. “Felicidade não é apenas uma experiência individual. Ela também é construída na relação com outras pessoas. Ter alguém para procurar quando a vida aperta, alguém com quem dividir uma conquista, uma dificuldade ou simplesmente estar junto produz algo que nenhuma tecnologia substitui completamente: pertencimento, segurança e reciprocidade”. Sobre as redes sociais, a especialista reforça que é necessário tomar cuidado para não transformar as redes sociais em uma explicação única para um fenômeno muito mais complexo. “As redes não são apenas ferramentas neutras. Elas organizam aquilo que vemos, comparam nossas vidas às vidas de outras pessoas, estimulam uma exposição permanente e podem nos colocar diante de um volume grande de conflitos, notícias negativas, denúncias e opiniões divergentes”. Dinheiro traz felicidade? Se relações, trabalho e ambiente digital ajudam a explicar as diferentes dimensões do bem-estar, a situação financeira também interfere nessa equação. Uma pesquisa da Ipsos realizada em 2025 mostrou que 35% dos brasileiros consideravam sua situação financeira difícil ou muito difícil, enquanto outros 28% afirmavam estar apenas “se virando como podem”. Conforme o especialista em felicidade e gestão financeira, Claudio Santana, a frase “dinheiro não traz felicidade” precisa ser relativizada. “Dinheiro traz felicidade até um certo ponto. A falta dele traz infelicidade”. De acordo com Santana, o problema aparece quando ganhar mais passa a alimentar uma busca sem fim. Ele chama atenção para a comparação estimulada pelas redes sociais. “Acaba se vendo um retrato da vida do outro e acha que aquilo ali vai te fazer feliz. Isso cria uma corrida pelo próximo bem ou experiência que ainda não tem e quando conquista, você não tem o mesmo desejo”. Nesse ponto, o especialista defende uma mudança na forma de utilizar os recursos. Em vez de direcionar o dinheiro exclusivamente para bens materiais, experiências e relacionamentos podem produzir benefícios mais duradouros. “Viagens, momentos com a família e encontros com amigos permanecem nas lembranças, enquanto a satisfação proporcionada por muitos objetos tende a diminuir”. O dinheiro também pode comprar algo que, na avaliação de Santana, é mais valioso do que novos bens: tempo. “Contratar alguém para realizar uma tarefa doméstica ou um serviço profissional, por exemplo, pode liberar horas para atividades consideradas importantes”. “Outra possibilidade é utilizar os recursos para fortalecer relacionamentos e ajudar outras pessoas. Conhecer os próprios gastos, organizar dívidas e estabelecer objetivos ajuda a diminuir a sensação de descontrole”, acrescenta. Para Renata, existe uma espécie de infraestrutura humana do bem-estar, formada por vínculos, pertencimento, segurança, saúde, trabalho sustentável, tempo, autonomia e perspectiva de futuro. “A felicidade é individual na experiência, mas também é coletiva nas condições que a tornam possível”, conclui.
Tratamento da obesidade com canetas emagrecedoras avança no SUS

A possível inclusão das chamadas canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) avançou mais uma etapa. O Ministério da Saúde protocolou na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) um pedido de análise para a incorporação de medicamentos à base de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade. A proposta prevê a avaliação da oferta desses medicamentos para pacientes com obesidade. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o Brasil já possui 14 medicamentos registrados para o tratamento da obesidade. “É hoje o país com a maior diversidade de medicamentos registrados para o combate à obesidade, as chamadas canetas emagrecedoras e essa oferta derrubou o preço para a população. Agora queremos colocar essa medicação no SUS como um direito e vamos fazer isso de forma responsável”. A incorporação ainda depende de avaliação técnica e da definição de critérios para determinar quais pacientes poderão receber os medicamentos na rede pública. O Ministério da Saúde também acompanha o estudo Real-Bari, realizado pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, que avalia o uso da semaglutida em 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras comorbidades. A pesquisa também analisa o uso da medicação em pessoas que aguardam cirurgia bariátrica. Para o médico clínico com atuação em endocrinologia e metabologia, Igor Viana, a eventual oferta pelo SUS precisa estar associada a uma estratégia mais ampla de cuidado. “A obesidade é uma doença crônica e o tratamento precisa ser individualizado. Os medicamentos que atuam sobre o GLP-1 podem ser uma ferramenta importante para determinados pacientes, mas não devem ser encarados como uma solução rápida para perda de peso ou como um recurso exclusivamente estético”. Viana ressalta que a indicação deve considerar as características de cada paciente. “Não basta disponibilizar a medicação. É necessário avaliar indicação, contraindicações, possíveis efeitos adversos e a resposta de cada pessoa. O medicamento precisa estar associado a uma estratégia de cuidado que inclua alimentação, atividade física e acompanhamento clínico”. A preocupação com o uso inadequado ganha relevância diante da popularização dos medicamentos para emagrecimento. Para Viana, o estabelecimento de critérios no SUS também é uma forma de direcionar os recursos públicos aos indivíduos que precisam. “Existe uma diferença entre tratar uma doença e utilizar um medicamento apenas para atingir determinado padrão estético. Quando falamos em SUS, a definição de critérios é ainda mais importante para garantir que os recursos sejam destinados aos pacientes que apresentam maior necessidade clínica”. Padilha também reforça que a incorporação não terá como objetivo atender à busca estética por perda de peso. Segundo o ministro, o governo avalia o uso dos medicamentos em pessoas que estavam na fila da cirurgia bariátrica, pacientes com obesidade e problemas cardíacos e mulheres que tiveram câncer de mama. “São pessoas que precisam do medicamento, com orientação médica. Vamos deixar pronto o protocolo para disponibilizá-lo no SUS, em todo o Brasil e de forma responsável”. Na avaliação de Viana, o objetivo final deve ultrapassar a redução do peso corporal. “O maior ganho não está simplesmente em oferecer uma caneta, mas em ampliar o acesso a um tratamento adequado para uma doença que pode estar associada a diabetes, doenças cardiovasculares e outras complicações. O objetivo deve ser melhorar a saúde e a qualidade de vida do paciente, e não apenas reduzir o número na balança”, finaliza.
Centro Cultural Lá da Favelinha junta doações para festa do Dia das Crianças

O Centro Cultural Lá da Favelinha, no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, já iniciou os preparativos para mais uma edição de sua tradicional celebração do Dia das Crianças. Marcado para 17 de outubro, o evento gratuito deve reunir centenas de crianças e famílias da comunidade em uma programação que inclui brinquedos infláveis, pintura facial, atividades recreativas e distribuição de alimentos e lembrancinhas. Realizada desde os primeiros anos de atuação da instituição, a iniciativa chega à sua 12ª edição e se consolidou como uma das principais ações comunitárias promovidas pelo espaço cultural. A expectativa dos organizadores é atender cerca de 500 crianças e impactar aproximadamente 300 famílias da região. Para o fundador do Centro Cultural Lá da Favelinha, Kdu dos Anjos, a proposta vai além da diversão. “A data representa uma oportunidade de garantir momentos de lazer para crianças que não têm acesso a esse tipo de experiência. O Dia das Crianças é uma invenção do capitalismo para vender bola e boneca, mas as crianças da nossa região não entendem isso, elas só querem se divertir. Muitas vezes, as famílias não têm condição de dar um presente. A gente consegue levar um pouco de alegria para elas nesse momento tão especial”, afirma. De acordo com Kdu dos Anjos, a programação deste ano ocupará o espaço do centro cultural e a rua em frente ao local, que será fechada para receber as atividades. “Além dos brinquedos que elas levam para casa, a gente enche a rua de atrações infláveis, futebol de sabão, pula- -pula, pintura facial, cachorro-quente e refrigerante. Elas se sentem muito abraçadas e já virou tradição”. Mobilização coletiva A realização da festa depende da participação de voluntários, parceiros e doadores. De acordo com o fundador da instituição, todo o evento é viabilizado por meio de contribuições da sociedade civil, seja com recursos financeiros, brinquedos ou trabalho voluntário. “Desde o ano zero da Favelinha a gente realiza esse evento e nunca falhamos. Tudo o que nós arrecadamos vem de voluntários e doações”. Os organizadores recebem brinquedos novos ou usados em bom estado, além de doces e alimentos. “As principais necessidades são os brinquedos e o Pix, que paga as contas, o transporte e o aluguel das demais atrações”, explica Kdu. Quem deseja colaborar pode realizar doações diretamente ao Centro Cultural Lá da Favelinha ou contribuir via Pix, utilizando o CNPJ 34.863.832/0001-53. Também é possível atuar como voluntário na organização das atividades. “Quem for de Belo Horizonte pode levar os brinquedos para o Centro Cultural ou até organizar arrecadações, que nós buscamos. É uma campanha que todo mundo pode participar”, finaliza Kdu dos Anjos. ServiçoDia das Crianças – Centro Cultural Lá da Favelinha Data: 17 de outubroHorário: das 10h às 14hLocal: Rua Doutor Argemiro Rezende Costa, 191 – Aglomerado da SerraEntrada gratuita
Cenário de incerteza da eleição pode travar R$ 62 bilhões no varejo

A proximidade de uma eleição presidencial altamente acirrada pode adiar até R$ 62 bilhões em vendas do varejo brasileiro no trimestre das urnas, entre agosto e outubro. O alerta vem de um levantamento do IBEVAR-FIA Business School, que analisou duas décadas de vendas do setor cruzadas com a atividade econômica geral. O estudo aponta que 2026 reúne o maior nível de incerteza de política econômica: 238 pontos, o maior registrado no início de um ano eleitoral. O presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, Claudio Felisoni, explica a reação do consumidor diante do cenário indefinido. “A decisão de compra de um bem durável embute uma aposta sobre o futuro como juros, câmbio, regras tributárias, política de crédito. Quando o resultado está indefinido, o consumidor não sabe qual política econômica vigorará em janeiro e prefere esperar a urna decidir por ele”. Historicamente, os anos de disputa presidencial costumam favorecer o comércio devido a estímulos governamentais. Contudo, esse padrão se inverteu nas duas únicas eleições decididas por menos de cinco pontos percentuais no segundo turno (2014 e 2022). Nesses cenários de empate técnico, o varejo ampliado rodou 5,8 pontos percentuais abaixo do seu desempenho esperado em relação à economia, gerando a perda potencial de até R$ 62 bilhões em faturamento acumulado no período. Sobre esse montante, Felisoni detalha a dimensão do impacto. “Na prática, é uma demanda que não desaparece, mas se desloca no tempo. Parte é recuperada no trimestre seguinte após as eleições. Mas parte fica perdida, em 2014 e 2022 esse rebote ficou abaixo do padrão histórico. Para a economia, é um trimestre de atividade mais fraca na reta final do ano, pressionando emprego no comércio, giro de estoque e arrecadação em um período que deveria puxar o resultado anual”. Os segmentos mais afetados pela cautela do consumidor são os de bens duráveis, veículos, motos e peças (-12,8 pontos percentuais), móveis e eletrodomésticos (-11,2 pontos percentuais) e material de construção (-7,4 pontos percentuais). Já no varejo de bens essenciais, do dia a dia, houve queda de 2,4 pontos percentuais. “Esses três setores têm em comum tíquete alto, financiamento longo e possibilidade de adiamento sem custo imediato. Ninguém deixa de comprar arroz, mas pode adiar a troca do carro por três meses sem prejuízo prático”, ressalta o professor. Em 2026, o setor de material de construção já dá sinais de desaceleração adiantada, rodando 2,7 pontos percentuais atrás da economia no acumulado do ano. “Ver o mesmo setor descolar do padrão antes mesmo da campanha eleitoral entrar em ritmo de disputa sugere que o mercado já está precificando a incerteza”, analisa Felisoni. A situação ganha complexidade pelo calendário de 2026, já que um eventual segundo turno ocorrerá muito próximo da Black Friday e do Natal, consideradas as principais datas do comércio. Para Felisoni, o lojista precisará antecipar estratégias. “O calendário de 2026 é o mais desfavorável possível, pois um eventual segundo turno em 25 de outubro termina direto nas duas datas que mais pesam no ano do varejo, dando pouco tempo para o ‘alívio pós-eleição’ se converter em vendas antes dessas datas”. “A resposta indicada pelo próprio estudo é antecipar a operação. Adiantando estoque, crédito pré-aprovado e campanha prontos antes do resultado. Porque quem esperar para reagir corre o risco de perder as duas datas mais importantes do ano”, conclui.