Torcedor ainda acredita no hexa da Seleção Brasileira

Mesmo com um jejum de quase 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo, a Seleção Brasileira segue mobilizando paixões, consumo e esperança entre os torcedores. É o que aponta a pesquisa “Envolvimento do Brasileiro com a Copa”, realizada pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing (CEAM), da ESPM-SP, com 400 entrevistados de todas as regiões do país. O levantamento mostra que 47% dos brasileiros ainda acreditam no hexa em 2026, enquanto 90% afirmam que vão torcer exclusivamente pelo Brasil durante o torneio. Os números revelam um torcedor dividido entre o amor pela camisa e a desconfiança em relação ao atual momento da Seleção. Ao mesmo tempo em que 72% dizem sentir orgulho da história da equipe nacional, 67% acreditam que a Seleção já foi mais importante no passado. Outros 65% afirmam sentir menos emoção ao assistir aos jogos atualmente. Para o pesquisador do CEAM ESPM, Eduardo Mesquita, o peso da tradição ainda sustenta a confiança do brasileiro. “O futebol no Brasil não é apenas esporte, é cultura, é identidade e parte da formação de quem somos. Crescemos ouvindo histórias dos títulos mundiais e vendo a Seleção como símbolo do país. Essa crença não se apaga com uma geração sem título”. A pesquisa também mostra que a relação do torcedor com a equipe ficou mais crítica. Apenas 34% dizem confiar nas decisões da CBF, e mais da metade considera que os jogadores atuais não demonstram o mesmo comprometimento de gerações anteriores. Segundo Mesquita, a comparação constante com os grandes times do passado ajuda a explicar essa percepção. “Minha geração viu Ronaldo Fenômeno, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Kaká, Roberto Carlos, Cafu e Dunga. Jogadores que dominavam o mundo. Quando você tem essa referência, qualquer coisa abaixo parece insuficiente”. O estudo também aponta a ausência de unanimidades no elenco atual. Neymar aparece como o jogador mais indispensável para 56% dos entrevistados, mas também registra elevada rejeição: 30,5% dizem que não o convocariam. Entre os jovens de 18 a 34 anos, o apoio ao atacante é maior, enquanto os mais velhos demonstram mais resistência. “Quem não viu não tem saudade. As novas gerações têm Neymar como referência máxima e ele é, de fato, o único nome que chega próximo ao nível daqueles jogadores que marcaram os anos 1990 e 2000”, destaca Mesquita. Enquanto nomes experientes enfrentam críticas, jovens como Endrick e Estevão aparecem como símbolos de renovação e esperança. O levantamento mostra que ambos possuem baixos índices de rejeição entre os torcedores. O atacante do Lyon é o caso mais emblemático: 15,5% o querem na Seleção, enquanto apenas 1,8% o rejeitam. Já o jogador do Chelsea aparece com 4,5% de aprovação e apenas 0,8% de rejeição. Evento aquece mercado Mesmo com críticas à equipe, a Copa do Mundo continua sendo um evento de grande impacto emocional e econômico para os brasileiros. Entre os entrevistados que afirmam gastar nos dias de jogos, quase metade estima desembolsar R$ 100 ou mais por partida. O consumo inclui alimentos, bebidas, produtos temáticos e encontros com amigos e familiares. Na avaliação do pesquisador, a Copa é um fenômeno cultural e econômico ao mesmo tempo. “Cada jogo da Seleção é uma festa nos lares brasileiros. Quando o consumo emocional e econômico se encontram, o resultado é esse: quem gasta, gasta de verdade”. A pesquisa revela ainda que, apesar do entusiasmo, o torcedor parece mais cauteloso em relação às chances da equipe. Mais da metade acredita que o Brasil pode ser eliminado antes da final. Para Mesquita, o cenário atual também reflete a transformação na forma como o público acompanha o futebol. “Hoje, a informação circula mais rápido, as críticas chegam mais longe e o torcedor tem mais ferramentas para expressar sua insatisfação. Os dados capturam isso”, conclui.
3º Festival de Cultura Popular celebra as raízes ancestrais do samba em Ouro Preto

Entre os dias 19 e 24 de maio, os distritos de Glaura e Antônio Pereira, em Ouro Preto, além de Cachoeira do Brumado, em Mariana, serão palco da terceira edição do Festival de Cultura Popular. Com programação gratuita, o evento reúne shows, oficinas, palestra, cortejo, feira gastronômica e apresentações artísticas que celebram as raízes ancestrais do samba e das culturas populares brasileiras. A cantora Teresa Cristina é a principal atração do festival e apresenta o show “Jessé – As Canções de Zeca Pagodinho”. Outro destaque é Dona Zélia do Prato, referência do samba de roda do Recôncavo Baiano, que sobe ao palco ao lado do grupo belo-horizontino Herança Ancestral. A programação ainda conta com o grupo Samba em Revista, cantora Manu Dias, cortejos e espetáculos voltados ao público infantil. Idealizadora e curadora do festival, Gabriela Gomes diz que o evento nasceu da necessidade de valorizar manifestações populares já existentes nos territórios. A iniciativa é resultado de pesquisas sobre cultura popular desenvolvidas a partir do protagonismo do tradicional bloco carnavalesco Zé Pereira dos Lacaios, de Ouro Preto. “O Festival de Cultura Popular busca aquilo que é tradição, aquilo que é feito pelo povo e pertencente à cultura de um grupo. Quando estamos atentos a essas questões, tentamos fortalecer essas expressões e fazer com que elas também impulsionem produções locais e de outros territórios”, destaca. Nesta edição, o samba foi escolhido como eixo central da programação. Para Gabriela, a homenagem representa o amadurecimento do próprio festival. “Chegou a hora de exaltar esse ritmo, essa dança, esse modo de expressão brasileira tão particular. Não tinha mais como não homenagear as sambadeiras do Recôncavo Baiano e reverenciar essa ancestralidade do samba”. A proposta do festival também aposta no intercâmbio entre diferentes gerações, artistas e tradições culturais. “A ideia é promover uma troca dialógica, algo que ultrapasse gerações. As culturas populares são estruturas vivas, pulsantes, que permanecem pela força do coletivo e da resistência”, ressalta Gabriela. Programação diversa Além dos shows, o evento promove atividades formativas. Entre os dias 19 e 21 de maio, o Museu Boulieu recebe a oficina “Pedagogias Brasileiras do Ritmo”, ministrada por Emília Chamone e Marina Gomes. Já no dia 21, o historiador e escritor Luiz Antônio Simas conduz a palestra “O Espírito do Samba”, na Casa da Ópera, abordando a influência do gênero na identidade brasileira. Já a partir do dia 22, o festival ocupa o distrito de Glaura com feira gastronômica e apresentações musicais. O grupo Samba em Revista divide o palco com a cantora Manu Dias, enquanto o cortejo do bloco Unidos da Boa Viagem promete animar as ruas do distrito. No dia 23, o espetáculo “Eh Boi”, do Grupo mineiro Kabana, será apresentado em Cachoeira do Brumado (Mariana), às 16h. Antônio Pereira (Ouro Preto), recebe o mesmo espetáculo no domingo, dia 24, também às 11h. Com um entrelaçado de causos, cantos e interações com a plateia, o espetáculo apresenta um boi desengonçado, que causa graça e curiosidade nas crianças. Descentralização Outro aspecto destacado pela curadora é a descentralização da programação, levando atividades culturais para distritos historicamente afastados das grandes atrações. “Os distritos recebem muito menos eventos do que as cidades- -sede. Nossa missão é formar público, criar plateia e encontrar outras tradições culturais. Em todo lugar existe expressão cultural, e queremos construir esse diálogo com as comunidades”. Para Gabriela, um dos diferenciais do festival é justamente a construção coletiva junto aos moradores e artistas locais. “Esse não é um evento que chega para a cidade. É um evento construído com a cidade. A missão é trocar experiências, escutar o outro e construir junto”, conclui.
Crédito fácil aquece mercado de veículos seminovos e usados

O mercado de veículos seminovos e usados segue em expansão em 2026 e reforça a expectativa do setor de alcançar um novo recorde de vendas neste ano. Dados divulgados pela Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), mostram que o segmento acumulou 5,9 milhões de unidades comercializadas entre janeiro e abril, resultado 10% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Somente em abril, foram negociados 1.530.108 veículos no país. Mesmo com quatro dias úteis a menos em relação a março, a média diária de vendas alcançou 85.006 unidades, alta de 11,7%. Na comparação com abril do ano passado, o crescimento foi de 2,9% no volume nominal e de 14,3% na média diária. Conforme o presidente da Fenauto, Everton Fernandes, o desempenho demonstra a força do mercado de usados diante do encarecimento dos veículos zero-quilômetro e da busca do consumidor por opções mais acessíveis. “O mercado de seminovos e usados continua sendo a principal alternativa para quem busca melhor relação custo-benefício”. Segundo Fernandes, a ampliação do crédito também tem impulsionado o setor em 2026. “Com maior oferta de financiamento, taxas mais competitivas e aumento da aprovação cadastral, o mercado responde rapidamente”, destaca. O dirigente avalia que o segmento deve manter ritmo positivo ao longo do segundo semestre, sustentado pela entrada gradual de seminovos oriundos de trocas e renovação de frotas. “O mercado está mais profissionalizado, mais transparente e cada vez mais orientado por dados, o que impacta diretamente em um crescimento sustentável”. Entre os modelos mais vendidos do país em abril, o Volkswagen Gol liderou com 61.175 unidades comercializadas. Em seguida aparecem Chevrolet Onix (38.937) e Hyundai HB20 (37.388). Minas Gerais O setor também manteve desempenho positivo. O Estado registrou 183.809 veículos vendidos em abril e acumula 710.286 unidades negociadas no quadrimestre, crescimento de 8,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Na avaliação do presidente da Associação dos Revendedores de Veículos no Estado de Minas Gerais (Assovemg), Glenio Júnior, a alta dos preços dos veículos novos ainda continua impulsionando a procura pelos seminovos, especialmente os modelos com até três anos de uso. “Esse nicho vem se destacando porque reúne veículos ainda na garantia e com baixa quilometragem”. Segundo Júnior, o ambiente de crédito mais favorável também ajudou a aquecer o mercado mineiro. Os financiamentos cresceram cerca de 13% em abril, enquanto os consórcios avançaram quase 9%. Ele destaca ainda que os chamados “velhinhos”, veículos acima de 13 anos de uso, seguem com forte demanda, principalmente entre consumidores das classes C, D e E. “Os dois extremos seguem aquecidos: os seminovos com até três anos de uso e os carros mais antigos”. Para o dirigente, o setor deve encerrar 2026 com um novo recorde de vendas, mesmo diante de instabilidades internacionais e do período eleitoral. “Existe uma grande expectativa de um novo recorde de vendas em 2026, tanto em Minas Gerais quanto no Brasil. Apesar de problemas externos, como guerras e oscilações no preço do petróleo, seguimos confiantes de que o patamar de crescimento continue até o fim do ano”. Em Minas, o Volkswagen Gol liderou as vendas em abril, com 9.330 unidades comercializadas, seguido por Fiat Palio (6.604) e Fiat Uno (6.103). Já em BH, o Fiat Palio ficou na primeira posição, com 1.537 unidades negociadas, à frente do Gol (1.487) e do Hyundai HB20 (1.247). A capital mineira registrou 44.462 veículos vendidos em abril e acumula 178.627 negociações em 2026, alta de 6,2% frente ao período passado.
NR-1: empresas deverão monitorar riscos à saúde mental

A entrada em vigor da fase de fiscalização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), a partir de 26 de maio, marca uma mudança significativa na forma como as empresas brasileiras devem lidar com a saúde mental no ambiente de trabalho. Após um período de adaptação, o Ministério do Trabalho e Emprego passa a exigir, na prática, a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), com possibilidade de autuações imediatas. Segundo a advogada trabalhista Naiara Insauriaga, o momento representa a transição definitiva de um modelo burocrático para uma gestão efetiva. “A partir desta data, a fiscalização passa a ser plena. Empresas que negligenciarem a inclusão dos riscos psicossociais em seu inventário do PGR estarão expostas a sanções imediatas. O risco aqui não é apenas a multa, mas a fragilidade jurídica e o impacto direto no bem-estar e na produtividade das equipes”. Um dos principais desafios, de acordo com Naiara, é romper com a visão de que saúde mental no trabalho se resume a ações pontuais de bem-estar. Ela explica que há uma diferença clara entre iniciativas isoladas e o cumprimento da norma. “Enquanto o bem-estar é uma escolha de marca empregadora, a NR-1 exige uma atuação técnica, direcionada e preventiva”. “No Judiciário e na fiscalização, o que protege o patrimônio da empresa não é a intenção generosa, mas a evidência de uma gestão de riscos precisa e individualizada”, acrescenta. Nesse contexto, a advogada alerta que um dos principais erros é a adoção de soluções genéricas, criando uma falsa sensação de segurança e podem ser consideradas ineficazes em fiscalizações. “Muitas organizações estão utilizando análises que falham ao não espelhar a realidade específica de cada cargo e as nuances que são parte do ambiente organizacional“. Ela lembra que a exigência vale para empresas de todos os portes. Embora micro e pequenas possam contar com simplificações administrativas, a cobrança por resultados efetivos é a mesma. “O fiscal não quer saber apenas se a empresa tem o PGR, mas se esse documento foi atualizado para contemplar a saúde mental”. Ambiente e liderança no centro A psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho, Janaína Fidelis, afirma que muitos ambientes já apresentam sinais claros de adoecimento. “O aumento do absenteísmo, a rotatividade elevada e equipes silenciosas, com medo de se posicionar, são indicativos de que o ambiente não é psicologicamente seguro. O burnout é o estágio final de um processo que já vinha dando sinais há muito tempo”. Para a psicóloga, a nova exigência pode contribuir para a redução desses quadros, desde que aplicada de forma consistente. “A regulamentação obriga as organizações a reconhecerem que riscos psicossociais existem e precisam ser gerenciados. Mas o que faz diferença é o que a empresa faz com essa exigência”. Um ponto central é o papel da liderança. “O problema não é a cobrança por resultados, mas como ela é feita. Desempenho saudável existe quando há clareza de metas, recursos e espaço para diálogo. Já a gestão tóxica aparece quando a pressão é constante, desorganizada e desproporcional”, afirma Janaína. Ela acrescenta que líderes despreparados tendem a potencializar problemas estruturais. “A insegurança prolongada é um dos principais gatilhos do adoecimento emocional”. Além disso, a participação dos trabalhadores depende de um ambiente seguro. “Não existe prevenção real sem segurança para falar. Se há medo de retaliação, isso já é um indicador de risco psicossocial”, finaliza Janaína.
60% das mortes por câncer de testículo são em homens jovens

Embora seja considerado um tumor raro, o câncer de testículo tem impacto desproporcional entre homens jovens no Brasil. Um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com base em dados do Ministério da Saúde, revela que 61,67% das mortes pela doença em 2024 ocorreram entre homens de 20 a 39 anos. Ao todo, foram registrados 527 óbitos no período, sendo que mais de 76% atingiram pacientes com até 49 anos. Os números reforçam uma característica marcante da doença. Sua maior incidência está justamente na faixa etária mais produtiva da vida. De acordo com o cirurgião oncológico Renato Almeida Rosa de Oliveira, esse padrão acompanha o comportamento natural do tumor. “É uma doença típica de homens jovens, geralmente entre o fim da adolescência e os 40 anos. Por isso, a mortalidade acaba acompanhando essa mesma faixa etária”. Apesar do impacto, Oliveira destaca que o câncer de testículo apresenta altas taxas de cura, especialmente quando diagnosticado precocemente. Ainda assim, o atraso na busca por atendimento médico segue como um dos principais desafios. “A descoberta na fase inicial está diretamente relacionada à maior chance de cura. O que leva ao diagnóstico tardio é negligenciar alterações no testículo, seja por medo ou preconceito”. Entre os principais sinais de alerta estão o aparecimento de nódulos endurecidos, aumento do volume testicular e mudanças na consistência do órgão, geralmente sem dor. “A maioria das alterações relacionadas ao câncer não dói, e isso pode fazer com que o paciente demore a procurar ajuda”, ressalta o médico. Autocuidado é importante Nesse contexto, o autoexame surge como uma ferramenta essencial. A recomendação de Oliveira é que homens, especialmente a partir da adolescência, conheçam o próprio corpo e observem possíveis mudanças. “Apalpar os testículos durante o banho, identificar o que é normal e perceber alterações pode fazer toda a diferença. Muitas vezes não é nada, mas quando é, pode ser o fator decisivo para um diagnóstico precoce”. Outro ponto de atenção na avaliação do cirurgião oncológico envolve barreiras culturais. Vergonha, desinformação e até o receio de julgamento ainda dificultam que jovens relatem sintomas ou procurem atendimento. “Muitos associam alterações a traumas ou infecções e evitam falar sobre o assunto. Isso atrasa a investigação e o início do tratamento”, completa. Avanços recentes na medicina têm permitido abordagens mais eficazes e menos agressivas. Oliveira destaca que a cirurgia para retirada do testículo afetado (orquiectomia) segue como tratamento inicial padrão, mas novas estratégias têm reduzido a necessidade de quimioterapia em determinados casos. “Hoje, em algumas situações, é possível apenas observar o paciente após a cirurgia, evitando efeitos colaterais desnecessários”. Além disso, técnicas minimamente invasivas, como cirurgias laparoscópicas e robóticas, têm contribuído para preservar funções importantes, como a ejaculação. A preservação da fertilidade também ganhou destaque no cuidado com esses pacientes. “Antes de iniciar o tratamento, orientamos o congelamento de sêmen, já que alguns procedimentos comprometem a fertilidade”, finaliza Oliveira.
Assembleia debate redução de profissionais no Samu de BH

A redução do número de trabalhadores no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Belo Horizonte foi tema de debate na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Em audiência pública marcada por críticas e relatos de profissionais, parlamentares, gestores e representantes da sociedade civil apontaram riscos à assistência e possíveis violações ao direito fundamental à saúde. A presidente da Comissão e autora do requerimento, deputada Bella Gonçalves (PT), destacou que a medida impacta a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS). “Estamos falando de um serviço de urgência, que não pode esperar e não pode falhar. Quando se corta no Samu, compromete o atendimento e coloca vidas em risco”, afirmou. Para a parlamentar, a redução das equipes integra um processo mais amplo de “sucateamento” da rede de urgência e emergência. O vereador Bruno Pedralva (PT) também criticou a decisão da prefeitura. “A demissão não partiu de uma necessidade técnica, foi uma decisão política. Estão cortando justamente quem está na linha de frente, salvando vidas”, disse. Ele ainda ressaltou que a mudança na composição das equipes pode comprometer a qualidade do atendimento e aumentar o tempo de resposta. Representando o Conselho Estadual de Saúde, Erika de Oliveira Santos chamou atenção para a realidade enfrentada pelos profissionais. “A gente não quer discutir números frios, mas a realidade. O que está acontecendo é que o mínimo necessário para garantir um atendimento seguro não está sendo assegurado, o que dificulta o atendimento em ocorrências mais graves”. A diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde), Núbia Roberta Dias, também alertou para os impactos da medida, podendo gerar efeitos em toda a rede de saúde. “Estamos falando de um serviço que atua no limite entre a vida e a morte. Reduzir equipes aumenta o risco e piora o tempo-resposta. Não há justificativa para isso”. Pela gestão municipal, o gerente do Samu de Belo Horizonte, Bruno Maia de Resende, reconheceu a grande complexidade do cenário e a alta demanda do serviço. “É um desafio enorme conduzir um sistema dessa magnitude. As decisões passam por critérios técnicos, especialmente na regulação, que define o tipo de atendimento e o envio das equipes”. Já a diretora da Diretoria de Atenção às Urgências e Emergências da Secretaria Municipal de Saúde, Renata Mourão Alves, destacou a importância do debate. “Essa é uma discussão necessária para aprimorar o serviço e garantir que a população continue sendo atendida”. Durante a audiência, trabalhadores e conselheiros também relataram que a redução de profissionais pode afetar não apenas o atendimento de urgência, mas toda a rede assistencial, incluindo Unidades Básicas de Saúde e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Houve ainda críticas à priorização orçamentária do município, considerada incompatível com a necessidade de investimentos em saúde. Como encaminhamento, Bella Gonçalves informou que os apontamentos serão levados ao Judiciário, que analisa uma ação sobre as demissões. “Não podemos aceitar retrocessos. O Estado tem o dever de garantir atendimento universal e contínuo, e isso passa pela valorização dos trabalhadores e pela manutenção das equipes completas”, concluiu.
Projeto abre portas para participação de mulheres no segmento da tecnologia

Em um mercado cada vez mais estratégico para empresas, governos e cidadãos, a participação feminina ainda está longe do ideal. No Brasil, as mulheres representam apenas 17% da força de trabalho em cibersegurança. Para enfrentar essa desigualdade e incentivar novas trajetórias profissionais, o projeto Mulheres de Exatas em Cibersegurança (METIS), idealizado por professoras do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha com meninas de escolas públicas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana. Coordenada pela pesquisadora Michele Nogueira, a iniciativa atende 35 alunas de sete escolas públicas, do ensino fundamental ao médio em Belo Horizonte e Região Metropolitana. O foco está na formação prática em cibersegurança, mentorias, criação de rede de contatos e aproximação com o mercado de trabalho. Segundo Michele, o afastamento feminino dessas áreas está ligado a fatores históricos e culturais que ainda persistem no país. “As meninas e mulheres ainda enfrentam preconceito em relação à sua capacidade. Existe uma mentalidade muito mais masculina quando se fala de força de trabalho, e isso não é algo específico da tecnologia. Mas, nessa área, os preconceitos acabam afastando as meninas”. Ela ressalta que o desafio não se resume ao acesso à formação técnica, mas também à forma como mulheres são vistas e se posicionam profissionalmente. “Esses preconceitos não vêm só dos homens. Também aparecem na mentalidade feminina, na maneira como muitas mulheres pensam e se colocam no mercado de trabalho”. A experiência pessoal da pesquisadora em ambientes predominantemente masculinos ajudou a moldar o projeto. Para Michele, muitas ferramentas que hoje são parte do METIS fizeram falta em sua própria trajetória. “Muito da concepção metodológica e dos objetivos do projeto veio do que nós sentimos ausência no nosso processo de formação. Um programa de mentoria que pudesse orientar, indicar caminhos e apoiar em situações difíceis teria ajudado. Não tivemos isso, e hoje buscamos oferecer às meninas exatamente esse suporte”. O projeto ainda está em fase inicial, com pouco mais de um ano de atividade, e por isso, os resultados de longo prazo ainda estão em construção. Mesmo assim, a expectativa é de impacto crescente nos próximos anos, tanto na escolha profissional das participantes quanto na permanência delas em cursos e carreiras ligadas à tecnologia. Além das estudantes diretamente atendidas, a pesquisadora destaca um efeito multiplicador dentro das famílias e comunidades. “Estamos formando sementinhas de futuras profissionais. Essa conscientização chega também às famílias, aos amigos e ao entorno dessas meninas. Isso pode despertar o interesse de outras pessoas e fortalecer a competitividade e a soberania digital do país”. Parcerias Outro diferencial do METIS é a integração com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial para Cibersegurança (INCT-IACiber), sediado na UFMG. A conexão permite mais contato com pesquisadores, empresas e lideranças do setor. Para Michele, ampliar a presença feminina exige também políticas públicas voltadas ao ingresso e à permanência dessas profissionais. “Esperar apenas a mudança natural de comportamento levaria muito mais tempo. As políticas públicas podem acelerar esse processo de inserção e permanência das mulheres na tecnologia e na cibersegurança”, conclui.
Mesada pode ensinar educação financeira desde a infância

Em um país onde guardar dinheiro ainda é desafio para grande parte da população, especialistas defendem que a educação financeira precisa começar na infância. E uma ferramenta simples, comum em muitas famílias, pode fazer diferença nesse processo: a mesada. Dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que mais da metade dos brasileiros não possui reserva financeira ou tem recursos suficientes para se manter por apenas um mês. E 31% da população não têm nenhum valor guardado, enquanto 20% contam com uma reserva limitada a até 30 dias. Para a especialista em comportamento financeiro, Ana Leoni, esse cenário está ligado à ausência de aprendizado prático sobre dinheiro ao longo da vida. “A dificuldade de formar reserva não começa na vida adulta. Muitas vezes, ela é reflexo de hábitos que não foram desenvolvidos na infância”. Nesse contexto, a mesada pode funcionar como um primeiro contato da criança com noções de planejamento, organização e responsabilidade financeira. Mais do que entregar uma quantia periódica, a proposta é usar esse recurso como ferramenta educativa. Segundo Ana, ao administrar o próprio dinheiro, a criança aprende a fazer escolhas, lidar com limites e entender que nem todo desejo pode ser atendido de imediato. “A mesada precisa vir acompanhada de orientação. Ela é uma oportunidade para ensinar autonomia e mostrar consequências das decisões”. De acordo com a especialista, o ideal é que o valor seja compatível com a realidade da família e que exista regularidade no pagamento, para que a criança consiga se planejar. Também é recomendável estimular a divisão do dinheiro em três partes: gastar, guardar e doar. Outra estratégia importante é criar metas simples. Juntar para comprar um brinquedo, um livro ou outro item desejado ajuda a desenvolver paciência e disciplina, além de mostrar na prática como funciona o hábito de poupar. Mais pessoas economizaram Os dados da Anbima revelam que apenas 33% dos brasileiros conseguiram guardar algum dinheiro em 2025, índice superior aos 27% registrados em 2021. Entre quem conseguiu guardar recursos, a principal medida adotada foi reduzir gastos, especialmente com lazer. Na avaliação de Ana, isso mostra que a reserva financeira não depende apenas de renda alta, mas principalmente de comportamento. “A reserva não é construída só quando sobra dinheiro. Nasce quando a pessoa cria o hábito de separar uma parte do que recebe, mesmo que seja pouco”. Ela lembra que antes de falar sobre investimentos mais sofisticados, como fundos ou títulos privados, é necessário consolidar a cultura de poupar. Sem esse passo inicial, qualquer estratégia financeira tende a perder força no longo prazo. “O exemplo dos pais também conta. Crianças observam hábitos cotidianos e aprendem com atitudes simples, como planejamento de compras, controle de despesas e conversas transparentes sobre consumo”, destaca. Quando esse aprendizado começa cedo, aumentam as chances de formar adultos mais preparados para lidar com imprevistos, realizar objetivos e manter uma relação equilibrada com o dinheiro. “Educação financeira é educação para a vida. Ensinar uma criança a guardar dinheiro é ensinar sobre escolhas, planejamento e tranquilidade no futuro”, conclui Ana.
Lei da Escuta Protegida ainda enfrenta desigualdades no Brasil

Sancionada em 2017, a Lei nº 13.431, conhecida como Lei da Escuta Protegida, instituiu no Brasil um novo modelo de atendimento voltado a crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. A norma criou mecanismos para evitar a revitimização – situação em que a vítima precisa repetir diversas vezes relatos traumáticos em ambientes inadequados – e estabeleceu procedimentos específicos, como a escuta especializada e o depoimento especial. A legislação também determinou a atuação articulada entre os setores de saúde, assistência social, educação, segurança pública e Justiça, com foco na proteção integral, no acolhimento humanizado e na responsabilização dos agressores. Nove anos depois, a lei é considerada um marco na defesa da infância, embora ainda enfrente obstáculos para sua plena implementação em todo o país. Em entrevista ao Edição do Brasil, o superintendente de Advocacy da Childhood Brasil, Itamar Gonçalves, analisa os avanços e os desafios desse processo. Nove anos após a sanção da lei, o Brasil conseguiu incorporar o princípio de evitar a revitimização? Houve um avanço real no campo normativo e também na conscientização. Hoje existe maior entendimento sobre os efeitos perversos da revitimização, que é uma forma de violência institucional. Profissionais da saúde, educação, assistência social, segurança pública e Justiça passaram a reconhecer a importância de métodos mais adequados. Mas, na prática, ainda enfrentamos limitações estruturais importantes. Quais avanços mais concretos podem ser destacados nesse período? Um dos principais indicadores é o crescimento das salas de depoimento especial. Saímos de apenas duas salas em 2003 para mais de 1.800 em 2025. Também houve criação de comitês de gestão colegiada e maior mobilização social em torno da proteção da infância. Por que a implementação segue desigual entre as regiões do país? Principalmente por falta de infraestrutura adequada e ausência de equipes capacitadas. Em muitas comarcas, especialmente no Norte e Nordeste, ainda faltam espaços apropriados e profissionais treinados no Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense. Isso revela que o país ainda precisa de investimento contínuo e coordenação federativa efetiva. A integração entre os órgãos que compõem a rede de proteção ainda é um desafio para que a lei funcione de forma plena e articulada? Sem dúvida. A lei pressupõe fluxos e protocolos unificados entre conselhos tutelares, escolas, saúde, delegacias e Justiça. Porém, a maioria dos crimes contra crianças e adolescentes ainda é investigada por delegacias comuns, muitas vezes sem preparo técnico para lidar com vítimas dessa faixa etária. Sem rede integrada, a eficácia da lei fica comprometida. Além da desigualdade regional e da falta de integração, que outros gargalos ainda preocupam na aplicação da lei? Falta estrutura pericial em muitos municípios, faltam protocolos nos Institutos Médico-Legais e a coleta de vestígios pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não se tornou realidade em todo o país. Além disso, muitas vítimas são ouvidas muito tempo depois do fato ocorrido, o que prolonga o sofrimento das famílias. O que precisa ser prioridade daqui para frente para que a legislação avance de forma efetiva em todo o país? Precisamos fortalecer o Pacto Nacional pela Implementação da Lei da Escuta Protegida e ampliar os esforços de estados e municípios. Mais do que reconhecer avanços, é necessário universalizar essas práticas, com compromisso institucional, monitoramento e investimento contínuo. A violência contra crianças e adolescentes é prevenível e pode ser enfrentada por uma rede verdadeiramente integrada e humanizada.
Comissão técnica: fator decisivo nos esportes

O que define uma vitória no esporte de alto rendimento nem sempre está restrito ao que o torcedor vê em quadra. No vôlei, modalidade marcada por intensidade e decisões rápidas, existe um “segundo jogo” acontecendo paralelamente e, muitas vezes, ele é determinante para o resultado final. Trata-se da atuação da comissão técnica, responsável por interpretar, ajustar e redefinir estratégias em tempo real. Antes mesmo do apito inicial, equipes entram em quadra com um plano de jogo estruturado. No entanto, a dinâmica da partida impõe variáveis imprevisíveis. É nesse contexto que a comissão técnica ganha protagonismo. “Os times têm planos táticos definidos quando vão para a partida e durante a partida são feitos ajustes, porque na verdade cada jogo tem a sua história, e em função do que está acontecendo no jogo, se muda a estratégia”, explica o auxiliar técnico da Seleção Brasileira Feminina de Vôlei, Paulo Coco. Ele aponta que essas mudanças nem sempre são perceptíveis para o público. Alterações no direcionamento do saque, reposicionamento de bloqueio ou até substituições pontuais fazem parte desse processo contínuo de leitura. “Se muda, por exemplo, no vôlei o direcionamento do saque, se muda a estratégia de bloqueio, então existe isso que a gente considera como segundo jogo nas estratégias que são decisivas”, completa. O limite entre manter o planejamento inicial e promover mudanças depende diretamente do desempenho da equipe em quadra. O auxiliar técnico revela que quando o plano funciona, a tendência é mantê-lo. Caso contrário, ajustes se tornam inevitáveis. “Se você, dentro do seu planejamento de jogo, as coisas estão funcionando bem e está levando vantagem sobre seu adversário, não requer mudança. Mas quando isso não acontece, é obrigado a fazer ajustes”. A tomada de decisão, porém, não é baseada apenas na intuição. Ele afirma que indicadores objetivos, como desempenho individual e coletivo, orientam a comissão técnica. “O resultado e a performance da sua equipe fazem com que nós tenhamos que intervir, seja mudando alguma estratégia ou posicionamento, e até substituindo aquele jogador”. Segundo ele, o conhecimento aprofundado das atletas também pesa nesse processo, já que algumas conseguem se recuperar ao longo da partida. Em competições de alto nível, como as disputadas pela Seleção Brasileira, a atuação da comissão técnica vai além das decisões táticas. A integração entre os profissionais é vista como peça-chave para o sucesso. “A comissão técnica hoje é multidisciplinar, e isso faz com que as atletas consigam desempenhar a mais alta performance”, finaliza Paulo Coco.