Como as eliminações mudaram a relação do torcedor com a Seleção

Por muitos anos, a Seleção Brasileira foi um dos principais símbolos da identidade nacional. As cinco estrelas na camisa alimentaram a imagem do “país do futebol” e transformaram as Copas do Mundo em um raro momento de união entre brasileiros de diferentes regiões, classes sociais e gerações. Mas, após sucessivas eliminações nas fases decisivas e o maior jejum sem um título mundial, essa relação começa a ganhar novos contornos. Hoje, o impacto das derrotas parece ultrapassar o campo esportivo e influencia a forma como diferentes gerações enxergam o próprio Brasil. A transformação aparece principalmente entre os mais jovens. Embora nunca tenham visto a Seleção levantar a taça, integrantes da geração Z continuam mantendo forte vínculo com o Mundial. Um levantamento do InstitutoZ mostra que 75% afirmam ter alto envolvimento com a Copa do Mundo e 69% ainda consideram o Brasil o “país do futebol”. Para a especialista em inteligência socioemocional, Núria Santos, esse comportamento revela uma mudança na forma de construir pertencimento. “A geração Z não construiu sua relação com a Copa apenas por meio dos títulos, mas pela experiência emocional e social que o evento proporciona. O pertencimento não depende somente da vitória. Ele também nasce da possibilidade de viver uma experiência em conjunto”. Se os mais jovens mantêm o entusiasmo por diversas outras razões, os millennials convivem com um sentimento diferente. Cresceram sob a memória do pentacampeonato de 2002, mas acumularam eliminações traumáticas nas Copas seguintes. Segundo Núria, isso faz com que muitos desenvolvam mecanismos inconscientes de autoproteção. “Quando uma frustração se repete, o sistema emocional cria mecanismos de proteção. A pessoa diminui a expectativa e tenta se convencer de que o resultado já não importa tanto. O problema é que, ao tentar evitar a frustração, também pode diminuir sua capacidade de viver a esperança e o entusiasmo”, explica. Esse comportamento aparece em frases como “já sabia que ia perder” ou “não vou criar expectativa”. Para a especialista, mais do que uma análise racional do futebol, elas podem esconder o receio de acreditar novamente. “O risco é transformar a autoproteção em afastamento. Quando a pessoa tenta controlar totalmente a possibilidade de sofrer, também reduz a possibilidade de se envolver, celebrar e compartilhar”. Entre os integrantes da geração X, que testemunharam os títulos de 1994 e 2002, o impacto é ainda mais simbólico. “A Seleção representava vitória, criatividade, alegria e protagonismo. Não era apenas uma equipe de futebol. Era um símbolo de como o Brasil se apresentava ao mundo”, observa Núria. Ela afirma que as eliminações sucessivas produzem um luto simbólico. “Quando uma pessoa diz que antigamente era diferente, talvez não esteja falando apenas do futebol, mas da maneira como se sentia naquele período e da confiança que aquele time despertava”. Apesar do desgaste, a especialista acredita que o elo entre brasileiros e Seleção ainda pode ser reconstruído. Para isso, o caminho vai além de um eventual hexacampeonato. “A confiança não é reconstruída por um único acontecimento. A Seleção precisa voltar a gerar identificação. O torcedor precisa perceber entrega, verdade, responsabilidade e conexão com o país”, conclui.
“Vila Morangal” retrata os diversos dilemas humanos no sertão mineiro

Os conflitos entre desejo, culpa, religião e poder que atravessam gerações no interior do Brasil são o ponto de partida de “Vila Morangal – Livro 1: Desejo e culpa”, romance de estreia do mineiro Francisco Xavier Amaral. Advogado, bacharel em Filosofia e mestre em Teoria Literária, o autor transforma o sertão de Minas Gerais em cenário para discutir questões universais da condição humana. O livro pode ser adquirido na Amazon e na livraria Ipê das Letras. A ideia da obra surgiu durante o período de isolamento provocado pela pandemia. O que inicialmente seria um conto cresceu até se transformar em um romance com mais de 600 páginas, posteriormente dividido em uma trilogia. O segundo volume será lançado ainda neste ano e o terceiro, em 2027. “Eu queria enfocar sentimentos muito comuns, especialmente nas cidades do interior: esse conflito entre o desejo e a culpa. O ser humano vive um sentimento de culpa permanente, um mal-estar que o acompanha e que, muitas vezes, nem consegue identificar”, conta. Ambientada na segunda metade do século 20, a narrativa acompanha diferentes personagens cujas histórias se entrelaçam em um pequeno vilarejo marcado pela religiosidade, pelo conservadorismo e pelas relações de poder. Sem um protagonista único, o romance reúne diversas trajetórias que revelam como as convenções sociais moldam decisões, afetos e destinos. Para Amaral, embora a trama se passe décadas atrás, os temas continuam atuais. “Essa cultura conservadora, influenciada pela religião e pelas convenções sociais, ainda permanece viva, especialmente no interior do Brasil. A sociedade acaba oprimindo o homem e agride, de certa maneira, sua liberdade e sua busca pela felicidade. Foi isso que eu quis mostrar: como esses conflitos atravessam o tempo e continuam presentes na vida das pessoas”. Outro elemento marcante do livro é a presença do coronelismo como símbolo da concentração de poder no meio rural. Segundo o escritor, essa estrutura possui raízes históricas que remontam ao período colonial e ainda influencia o imaginário brasileiro. “Existe uma continuidade desse sentimento de subserviência à autoridade do grande proprietário. Por trás da história permanece essa influência do coronel, daquele dono da grande terra que acaba determinando o modo de viver das pessoas. Achei importante recuperar esse aspecto dentro da narrativa”. A formação em Filosofia também exerce papel decisivo na construção do romance. Inspirado por Friedrich Nietzsche, Amaral explora conceitos como ressentimento, vontade de poder e crítica à moral tradicional por meio dos conflitos vividos pelos personagens. Além disso, sua experiência como pecuarista contribuiu para conferir autenticidade ao universo retratado. “Procurei mostrar a singularidade do pensamento do homem do interior. Convivi muitos anos com trabalhadores rurais, ouvi seus causos, aprendi seu modo de falar e suas convicções. Vi como a religiosidade exacerbada e a cobrança social minam a felicidade das pessoas. Foi desse universo que nasceu a narrativa”. Para o autor, Vila Morangal também convida a fazer uma reflexão sobre a permanência do coronelismo no imaginário e nas relações sociais do interior brasileiro. “Seria interessante que o leitor observasse essa figura do coronelismo. Por trás da história existe a continuidade desse sentimento de subserviência à autoridade oculta do coronel, daquele dono da grande terra que influencia a todos. Acho que são aspectos importantes para quem gosta de história perceber ao longo da narrativa”, conclui.
R$ 750 bilhões em recursos disponibilizados para reerguer a indústria

Lançada em 2024, a Nova Indústria Brasil representa a principal estratégia do governo federal para impulsionar a indústria nacional.
Pesquisa aponta que 8 em cada trabalhadores não estão engajados

A baixa conexão dos profissionais com suas atividades tem se consolidado como um dos principais desafios das empresas em todo o mundo. Dados do relatório State of the Global Workplace 2026, da consultoria Gallup, revelam que apenas 20% dos trabalhadores estão engajados em suas funções. Em outras palavras, oito em cada dez profissionais não demonstram envolvimento significativo com o trabalho que realizam. O impacto econômico desse cenário gera perdas estimadas em US$ 10 trilhões para a economia global. Embora o problema seja frequentemente associado a fatores como remuneração, benefícios ou condições de trabalho, a economista e especialista em cultura organizacional, Carine Leal Fraga, avalia que muitas empresas ainda tratam a cultura corporativa como um conjunto de valores, sem que eles estejam presentes nas decisões e comportamentos do cotidiano. “Quando a cultura deixa de orientar as decisões e passa a existir apenas no discurso institucional, a empresa cria um ambiente de desalinhamento que compromete sua capacidade de executar estratégias e alcançar resultados”, afirma. Carine destaca que o problema costuma se manifestar de forma silenciosa. Metas deixam de ser alcançadas, conflitos internos aumentam e as lideranças passam a atuar de maneira desconectada dos objetivos organizacionais. “Boa parte dos problemas atribuídos à produtividade ou à gestão de pessoas tem origem em culturas organizacionais desalinhadas, que premiam comportamentos diferentes daqueles defendidos pela empresa”. Mudanças que não saem do papel Os reflexos da cultura organizacional também aparecem nos processos de transformação corporativa. Estudos apontam que cerca de 70% das iniciativas de mudança não atingem os resultados esperados. De acordo com a especialista, isso ocorre porque nenhuma transformação depende apenas de novos processos ou tecnologias. “Mudanças organizacionais exigem que líderes e equipes adotem novas formas de pensar e agir. Quando a cultura continua reforçando práticas antigas, mesmo os melhores planejamentos encontram dificuldades para se concretizar”. O desafio se torna ainda maior em um cenário marcado pela digitalização dos negócios, pela adoção crescente de inteligência artificial e pela necessidade constante de adaptação às mudanças de mercado. Nesse contexto, empresas que não conseguem alinhar comportamento e estratégia tendem a perder competitividade. Papel das lideranças Outro aspecto apontado pela economista é a influência direta das lideranças na construção da cultura organizacional. “Gestores têm papel decisivo na consolidação dos valores corporativos, seja por meio das decisões que tomam, seja pelos comportamentos que incentivam. Os profissionais observam menos o que está escrito nos valores da empresa e muito mais aquilo que é reconhecido, promovido ou tolerado no dia a dia”. Segundo Carine, organizações que apresentam alinhamento entre propósito, liderança e cultura costumam ter maior capacidade de adaptação, retenção de talentos e execução estratégica. O resultado é um ambiente mais preparado para enfrentar períodos de instabilidade econômica. Cultura como estratégia de negócio Ela defende que a discussão sobre cultura organizacional deve ultrapassar os limites do setor de recursos humanos e ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas. “Cultura não é uma pauta exclusiva do RH. Ela precisa estar na mesa onde são tomadas as decisões de negócio, porque influencia a capacidade da organização de crescer, inovar e sustentar resultados ao longo do tempo”. “O primeiro passo é compreender a cultura real da organização, observando critérios de promoção, formas de reconhecimento e a maneira como erros e conflitos são tratados. Somente a partir desse diagnóstico é possível promover mudanças consistentes”, conclui.
Dietas virais divulgadas nas redes sociais podem comprometer a saúde

Basta alguns minutos nas redes sociais para encontrar vídeos que prometem perder vários quilos em poucos dias. Jejum prolongado, corte de carboidratos, dietas “detox” e desafios alimentares fazem sucesso entre influenciadores e atraem milhares de pessoas em busca do corpo ideal. Apesar da popularidade, nutricionistas alertam que essas estratégias podem provocar prejuízos físicos e emocionais e ainda dificultar o emagrecimento no longo prazo. A promessa de resultados rápidos é um dos principais atrativos. “As dietas da moda chamam atenção porque garantem um resultado imediato. Elas são extremamente restritivas, cortam grupos alimentares ou impõem jejuns prolongados, algo que o nosso metabolismo não consegue sustentar por muito tempo”, afirma a nutricionista Priscila Rodrigues. “Na maioria das vezes, o peso eliminado não é gordura. O indivíduo desidrata, perde muita água e acredita que emagreceu. Depois, esse resultado não se mantém e ainda podem surgir compulsão alimentar, fraqueza e desnutrição”, acrescenta. A nutricionista clínica e esportiva, Ana Camila Mininel Liberador, destaca que dietas restritivas favorecem uma espécie de “desnutrição funcional”, causada pela falta de vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais. “Mesmo que o objetivo seja emagrecer, essa carência pode provocar cansaço, tonturas, redução da disposição e perda de massa muscular. Com menos músculos, o metabolismo desacelera e aumenta a chance de recuperar o peso perdido”. Outro problema frequente é a exclusão completa de grupos alimentares, segundo Ana Camila. “Os carboidratos são a principal fonte de energia do corpo e do cérebro. Já as gorduras boas participam da produção de hormônios, da absorção de vitaminas e da saúde cardiovascular. O maior risco está em transformar a alimentação em uma lista de proibições”. As restrições costumam prejudicar o comportamento alimentar. Segundo Priscila, quem elimina determinados alimentos passa a pensar neles o tempo todo. “Chega um momento em que o corpo pede energia e o cidadão acaba ‘chutando o balde’, comendo tudo o que vê pela frente. Depois vem a culpa, inicia outra restrição e esse ciclo se repete. Isso tem agravado muito a saúde mental”. Ela explica ainda que a fome emocional vai além da necessidade fisiológica. “A pessoa termina de almoçar e poucos minutos depois já procura um doce ou continua beliscando. Muitas vezes usa a comida para compensar felicidade, tristeza, ansiedade ou estresse. O chamado efeito sanfona também preocupa. Quando o organismo passa muito tempo ingerindo menos calorias do que precisa, entra em economia de energia. Isso pode gerar cansaço, irritação e metabolismo lento”. Ana Camila ressalta também que a perda de massa muscular agrava esse processo. “Mais importante do que emagrecer rapidamente é preservar os músculos, reduzir gordura de forma gradual e criar hábitos que possam ser mantidos por toda a vida”. “Uma dieta aparentemente inofensiva pode comprometer o controle da diabetes, da hipertensão ou de doenças renais. Além disso, sintomas como fraqueza, tonturas e falta de energia não devem ser encarados como parte normal do emagrecimento”, complementa. As duas especialistas defendem que a perda de peso seja acompanhada por um profissional. “Enquanto as dietas da moda oferecem uma receita genérica, a nutrição personalizada considera a saúde, a rotina e os objetivos de cada indivíduo”, afirma Ana Camila. Priscila reforça que investir em orientação especializada é mais vantajoso do que apostar em soluções milagrosas. “O nutricionista avalia exames, rotina, prática de atividade física e necessidades individuais. O que funciona para alguns não funciona para outros. A alimentação saudável continua sendo o caminho mais seguro para conquistar resultados duradouros e preservar a saúde”, conclui.
Redução do Parque Cercadinho provoca debate na Assembleia Legislativa

A proposta do Governo de Minas de reduzir a área da Estação Ecológica do Cercadinho foi pauta de audiência pública na Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Parlamentares, representantes do Estado, órgãos federais, especialistas, ambientalistas e moradores discutiram o Projeto de Lei (PL) nº 3.334/2025, que reduz a unidade de conservação de 224,8 hectares para 165,9 hectares. O principal ponto de divergência é se a mudança representa apenas uma adequação territorial para viabilizar obras de mobilidade ou se abre caminho para a expansão urbana em uma área estratégica para o abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ambientalistas ressaltaram a importância histórica e ecológica do Cercadinho. A representante do Movimento Cercadinho, Carla Magna, lembrou que a área abriga o primeiro sistema de captação de água utilizado na construção de Belo Horizonte e integra a Serra do Curral e a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço. “O que é mais importante hoje do que a água? Nada justifica reduzir uma unidade de conservação que produz água e abastece Belo Horizonte. Não estamos lutando apenas pelo Cercadinho da região Oeste de Belo Horizonte. Estamos falando de uma área de importância para o planeta”. O engenheiro ambiental Felipe Correia de Souza apresentou mapas e estudos técnicos para contestar os limites previstos no projeto. Na avaliação dele, a área desafetada é superior ao necessário para atender às intervenções viárias previstas. “Como engenheiro ambiental, fazendo uma análise do projeto, não consegui descobrir outra justificativa, a não ser a especulação imobiliária”. Souza também criticou o licenciamento da via de integração em Nova Lima, alegando que ela poderá aumentar significativamente o fluxo de veículos na região e pressionar ainda mais a unidade de conservação. “A legislação que criou a estação ecológica determina que novas intervenções dependem da regularização fundiária da área, ponto que, em sua avaliação, ainda necessita de esclarecimentos”. Representando a Prefeitura de Nova Lima, o procurador-geral do Município, Arthur de Araújo Souza e Soares, afirmou que a administração recebeu as contribuições apresentadas durante a audiência e defendeu que o projeto pode ser aperfeiçoado sem comprometer a preservação ambiental. “Identificamos que são possíveis alternativas ao PL que contemplem a mobilidade, mas sem perder a essência do Cercadinho. Nunca foi propósito da Prefeitura que a estação ecológica se enfraquecesse. Queremos contemplar a questão da mobilidade”. Ele acrescentou que o projeto é resultado de uma atuação conjunta entre União, Estado e municípios e garantiu que as contribuições apresentadas na audiência serão analisadas. Próximos passos O PL 3.334/2025 continua em tramitação na ALMG. A proposta ainda deverá passar por outras comissões antes de seguir para votação em Plenário. Apesar das divergências entre os participantes, a audiência evidenciou um ponto de consenso: a necessidade de ampliar a transparência sobre os impactos ambientais, urbanísticos e hídricos decorrentes da eventual redução da Estação Ecológica do Cercadinho. O tema deve continuar mobilizando movimentos ambientais, especialistas e parlamentares ao longo da tramitação do projeto. Autor do pedido de audiência e relator do projeto na Comissão de Participação Popular, o deputado Jean Freire (PT) afirmou que solicitou vista da proposta após considerar insuficientes as informações apresentadas pelo Executivo. “O debate mostrou a necessidade de aprofundar a discussão. Ouvir as comunidades é de fundamental importância”, afirmou o parlamentar ao encerrar a reunião.
Projeção estima que PIB de Minas Gerais deve crescer até 1,2%

Apesar de um início de ano marcado por retração econômica, Minas Gerais deve encerrar 2026 e 2027 com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), ainda que em ritmo mais lento. A projeção é do Departamento Econômico do Santander, que estima expansão de 1,2% para este ano e de 0,8% para 2027, desempenho alinhado ao cenário nacional de desaceleração da atividade econômica. Segundo o estudo, o setor de serviços continuará sendo o principal motor da economia mineira, enquanto a agropecuária deve manter resultados acima da média nacional. Já a indústria segue pressionada pela política monetária restritiva e juros elevados. “Nós verificamos que a política monetária restritiva segue impactando a indústria mineira, mas o setor de serviços vem puxando o crescimento. O agro segue resiliente, com crescimento acima da média nacional”, afirma Henrique Danyi, economista e um dos autores do levantamento. Os números divulgados recentemente pela Fundação João Pinheiro (FJP), referentes ao primeiro trimestre de 2026, ajudam a explicar o cenário de crescimento mais moderado projetado para os próximos anos. No período, o PIB mineiro registrou retração real de 0,7% frente ao mesmo trimestre de 2025, e a economia estadual movimentou R$ 285,7 bilhões. De acordo com a FJP, o resultado negativo foi provocado principalmente pela queda da agropecuária (-15,6%), da construção civil (-3,7%), das utilidades públicas (-2,2%) e da indústria de transformação (-0,3%). Em contrapartida, o setor de serviços apresentou crescimento de 1,5%, amenizando uma retração ainda maior da atividade econômica. Agro pesa no resultado A forte queda da agropecuária foi o principal fator para o desempenho negativo do trimestre. A retração está relacionada à menor produção de soja, arroz e sorgo, além de um evento pontual que afetou a atividade florestal. “A redução no volume de produção da agricultura no período não foi acompanhada por queda equivalente dos insumos, o que potencializou a queda em termos de volume no primeiro trimestre de 2026. Além disso, houve a redução da produção florestal associada à paralisação da Cenibra para modernização e adequação de segurança em sua unidade produtiva”. Apesar da retração observada no início do ano, a expectativa da Fundação é de melhora nos próximos trimestres. Isso porque 2026 é considerado um ano de bienalidade positiva para o café arábica, uma das principais culturas do Estado. “A produção do grão deve crescer mais de 20% em Minas Gerais, afetando positivamente os resultados dos próximos trimestres e o consolidado do ano, tendo em vista o peso e a importância do café na estrutura agrícola mineira”. Desaceleração Embora o PIB acumulado em quatro trimestres ainda apresente crescimento real de 0,8%, a FJP observa perda gradual de dinamismo da economia estadual. “Percebemos claramente uma perda de fôlego e desaceleração da economia mineira. Analisando as taxas trimestrais com ajuste sazonal, a economia completou três trimestres consecutivos sem apresentar crescimento econômico”. Para os próximos meses, a avaliação da FJP é de que fatores internos e externos serão determinantes para o comportamento da economia mineira. Entre eles estão o cenário geopolítico, possíveis impactos sobre as exportações de commodities, as condições de crédito e o desempenho do setor de serviços, responsável por mais de 60% do PIB estadual. Mesmo diante desses desafios, Henrique avalia que o crescimento continuará disseminado pelo país. “O desafio à frente passa a ser manter maior consistência no crescimento, em contexto de heterogeneidade regional e sensibilidade a choques climáticos e financeiros”, conclui.
Número de ocorrências de violência digital contra mulheres sobe 188%

Dados do Ministério das Mulheres mostram que entre janeiro e maio de 2026, o Ligue 180 recebeu 16.725 denúncias relacionadas a crimes praticados no ambiente virtual, 188,6% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 5.795 ocorrências. Embora as informações indiquem um aumento expressivo, o promotor de Justiça Mauro Ellovitch, especialista em Direito Digital e Investigação Cibernética, em entrevista ao Edição do Brasil, avalia que a subnotificação continua sendo uma das principais barreiras para dimensionar o problema. O aumento das denúncias representa mais violência ou maior conscientização das vítimas? Esse aumento reflete, principalmente, a melhor divulgação desse tipo de crime e das novas possibilidades de punição aos seus autores. Acredito que o número de ocorrências seja muito maior do que o revelado. A subnotificação de crimes digitais continua sendo a regra geral, porque muitas vítimas ainda deixam de procurar as autoridades por diversos fatores. Segundo a pesquisa, redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos on-line têm sido utilizados para perseguir, intimidar, constranger e expor mulheres. A violência digital, que em 2025 ocupava a sétima posição entre as denúncias registradas pelo Ligue 180, passou para a quinta colocação neste ano. Quais são as formas mais comuns de violência digital atualmente? As ocorrências mais recorrentes são a perseguição em redes sociais, conhecida como cyberstalking, injúrias misóginas relacionadas a questões de gênero, ameaças, sextorsão e a divulgação não autorizada de conteúdos íntimos. A inteligência artificial vem agravando esse cenário, especialmente por meio dos deepnudes, imagens e vídeos falsos de nudez e sexo criados a partir de fotos reais. Esse tipo de material é extremamente degradante para a honra, a autoestima e a intimidade das vítimas. Como a questão racial se relaciona com a violência digital? O levantamento também revela que quase metade das vítimas é composta por mulheres negras, evidenciando que diferentes formas de discriminação podem ocorrer simultaneamente. A questão racial pode se somar à questão de gênero. Grupos de ódio frequentemente concentram em um mesmo ataque, ofensas dirigidas a mulheres negras, pessoas LGBT e outros grupos. É um triste “combo” de agressões que ocorre com frequência nas redes sociais. Além dos danos emocionais, a violência virtual pode provocar o afastamento das mulheres dos espaços digitais e comprometer sua participação no debate público. Quais são os impactos dessa violência na presença feminina na internet? A violência digital constrange as mulheres e faz com que muitas tenham receio de manter perfis nas redes sociais ou de publicar conteúdos livremente. Infelizmente, esses ambientes ainda são espaços onde ataques gratuitos acontecem, muitas vezes praticados por pessoas que acreditam estar protegidas pelo anonimato e pela falsa sensação de impunidade. Recentemente, entrou em vigor o Decreto nº 12.976/2026, que estabelece deveres para as plataformas digitais e determina um prazo para remoção de conteúdos íntimos divulgados sem consentimento. Essas novas regras são suficientes para proteger as vítimas? As medidas são altamente positivas, especialmente a fixação de prazo para retirada desses conteúdos. Porém, a eficácia dependerá da aplicação prática da norma. As punições pelo descumprimento precisam ser rápidas e efetivas. Se as plataformas não sentirem financeiramente as consequências da omissão, continuarão demorando para agir. Que medidas podem contribuir para reduzir esse problema? Ainda vivemos uma fase de amadurecimento digital. A população precisa compreender melhor o funcionamento do ambiente online, seus riscos e consequências. O melhor caminho é investir em educação digital desde o ensino fundamental, ampliar campanhas de conscientização e fortalecer políticas públicas de inclusão digital. Informação é a melhor proteção.
Copa do Mundo ainda resiste como fenômeno global de atenção

Em um cenário de atenção fragmentada por plataformas digitais e algoritmos, a Copa do Mundo ainda resiste como um dos últimos grandes fenômenos de comunicação de massa da contemporaneidade. A leitura é do especialista em comunicação estratégica Wagner Batizelli, para quem o torneio continua sendo capaz de sincronizar bilhões de pessoas em torno de uma mesma narrativa global, algo cada vez mais raro na economia da atenção. Para o especialista, essa centralidade não é acidental. Ela nasce da própria arquitetura do evento e da forma como ele impõe urgência ao consumo. “A Copa opera na lógica da escassez e da urgência. Em um mundo sob demanda, ela obriga o público a assistir ao vivo para participar da conversa”, afirma. O ciclo de quatro anos, segundo ele, intensifica a expectativa coletiva e amplia o caráter excepcional da competição. Além da temporalidade, Batizelli destaca o poder narrativo do torneio. “A Copa é perfeitamente desenhada para o melodrama: há risco alto, prazo curto, heróis instantâneos e vilões dramáticos. Isso conecta qualquer cultura”. Mesmo quem não acompanha o esporte acaba inserido na dinâmica do evento. Para Batizelli, isso ocorre porque a experiência foi expandida para além do campo. “A comunicação digital transformou a Copa em um reality show global interativo. A bola virou pano de fundo para uma grande engrenagem de entretenimento”. Segundo Batizelli, essa expansão se intensifica nas redes sociais, onde o consumo se tornou simultaneamente coletivo e participativo. “O jogo é só metade do espetáculo. A outra metade acontece nas redes, com memes, reações e comentários em tempo real. O público deixou de assistir e passou a produzir a própria versão da Copa”. Nesse ambiente, a figura do torcedor também se transforma. A mediação tradicional dá lugar a uma experiência distribuída entre múltiplas telas e vozes. “O meme virou a tradução imediata do sentimento coletivo. Em segundos, uma jogada vira linguagem global”, afirma o especialista, ao destacar o papel dos influenciadores na humanização da cobertura. O fenômeno, no entanto, exige equilíbrio. Batizelli destaca que a mesma força que constrói pertencimento pode alimentar antagonismos. “O pertencimento é positivo quando celebra a diversidade. O problema surge quando o rival vira inimigo. O antagonismo precisa morrer no apito final”. Ele avalia que a disputa por visibilidade durante o torneio também revela seu peso econômico e simbólico. Marcas, governos e veículos entram em uma corrida por relevância. “Ficar de fora da Copa é aceitar a invisibilidade por um mês. É uma disputa pela memória afetiva das pessoas”. No centro dessa dinâmica, a Copa do Mundo segue demonstrando sua singularidade como plataforma global de atenção compartilhada. Para Batizelli, seu maior valor está justamente na capacidade de suspender a fragmentação contemporânea, ainda que temporariamente, e recolocar milhões de pessoas diante de uma mesma história. “As pessoas não se engajam com dados ou produtos. Elas se engajam com histórias humanas e com a sensação de fazer parte de algo maior”, finaliza.
Selic apresenta redução e mercado mantém cautela com a inflação

Adecisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros da economia para 14,25% ao ano trouxe um sinal positivo para o mercado, mas está longe de representar uma mudança significativa no cenário econômico brasileiro, embora o corte de 0,25 ponto percentual já fosse esperado pelos agentes financeiros. A avaliação é de que os juros permanecerão elevados por mais tempo, em razão da inflação ainda resistente, das incertezas fiscais internas e do ambiente internacional marcado por tensões geopolíticas e pelos rumos da política monetária dos Estados Unidos. “A decisão já estava no preço. O que mexeu mais com o mercado foi o comunicado, a ata e a perspectiva futura de atuação do Banco Central”, destaca o CEO da iHUB Investimentos, Paulo Cunha. “Os investidores estão atentos às próximas decisões da autoridade monetária. O que ficou meio que dado é que agora não vamos ter mais movimentações, provavelmente, na próxima reunião. O mercado está olhando para as decisões futuras”, completa. Na prática, a percepção é de que o Banco Central deverá adotar uma postura cautelosa até que haja maior convergência da inflação para a meta. O cenário fiscal brasileiro e a proximidade do período eleitoral entram na conta dos analistas ao projetar os próximos passos da política monetária. Sem uma melhora consistente das contas públicas ou um cenário externo mais favorável, o espaço para novos cortes permanece limitado, conforme avalia Cunha. “Hoje, quando se olha a curva de juros, ela praticamente indica que não haverá novos cortes relevantes. Apesar da redução da Selic, o mercado elevou os juros futuros”. Crédito continuará pressionado Apesar de qualquer redução na taxa básica impactar o custo do dinheiro, o diretor de crédito da Quartzo Capital, Pedro Reis, alerta que o crédito continuará caro para empresas e consumidores nos próximos meses. “A desaceleração no ritmo de queda dos juros é o principal motivo de preocupação. Qualquer redução gera um impacto imediato no mercado de crédito como um todo. A Selic é o principal balizador das operações de crédito, e uma baixa de 0,25 já impacta diretamente no custo”. Ele lembra que a expectativa do mercado era de cortes sucessivos ao longo do ano. “Temos uma notícia boa, que é a baixa de 0,25 ponto percentual, mas também uma não tão boa, porque a expectativa era que essa redução estivesse acontecendo em uma velocidade maior”. De acordo com Reis, a manutenção da Selic em patamares elevados prolonga o chamado “arrasto” dos juros altos sobre a economia. “O dinheiro vai continuar mais caro por mais tempo. As empresas estão sofrendo muito com isso. Temos visto níveis elevados de endividamento, entrando em recuperação judicial e dificuldades para manter as operações”. “Setores que dependem fortemente de financiamento tendem a ser os mais afetados. O varejo é um deles, já que opera com margens reduzidas e elevada necessidade de capital de giro. Quando temos juros elevados e margens apertadas, isso acaba estrangulando a empresa”, acrescenta. Cunha também cita a construção civil, aviação e empresas altamente endividadas entre as mais expostas ao cenário atual. “São setores que precisam constantemente rolar dívidas e por isso, acabam sofrendo mais em períodos de juros elevados”. Cautela no segundo semestre Para ambos, o restante do ano exigirá prudência de empresários e investidores. A combinação entre inflação acima da meta, incertezas fiscais e eleições tende a manter o ambiente econômico desafiador. “Vai ser um segundo semestre com bastante cautela. As empresas precisam colocar o pé no chão e talvez não seja o momento de assumir riscos excessivos”, avalia Reis. Enquanto isso, os investimentos em renda fixa seguem atraindo grande parte dos recursos do mercado. De acordo com o CEO da iHUB Investimentos, os juros elevados mantêm o interesse dos investidores por títulos públicos e outros ativos atrelados à taxa básica. “Hoje existe muita pouca disposição para investimentos mais arrojados. A maior parte dos recursos continua direcionada para a renda fixa”, conclui.