Como preservar músculos com o avançar da idade

A partir dos 30 anos, o corpo humano inicia um processo gradual de mudanças fisiológicas que, embora naturais, costumam ser percebidas de forma mais evidente ao longo das décadas seguintes. Entre as alterações mais discutidas por especialistas estão a perda progressiva de massa muscular e a redução da eficiência metabólica, fatores que influenciam diretamente a força, a disposição e a composição corporal. Pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP indicam que esse declínio muscular pode variar entre 3% e 8% a partir dos 30 anos, com aceleração significativa após os 60 anos. O estudo também sugere que o aumento do volume de treinamento pode ajudar a reduzir a falta de resposta ao exercício em pessoas idosas, reforçando a importância da atividade física estruturada ao longo da vida. Esse processo, segundo especialistas, está relacionado a múltiplos fatores biológicos. Dentre eles, destacam-se a diminuição natural da produção de hormônios anabólicos, como testosterona, estrogênio e hormônio do crescimento, além da redução da síntese proteica muscular, que é a capacidade do organismo de reparar e construir tecido muscular. Com o passar do tempo, também ocorre uma perda progressiva de unidades motoras, estruturas responsáveis pela ativação das fibras musculares, o que contribui para a redução de força e desempenho físico. Paralelamente, o metabolismo tende a ficar mais lento não apenas pela idade em si, mas principalmente pela diminuição da massa muscular, já que músculos são tecidos ativos e consomem energia mesmo em repouso. O educador físico Ricardo Menezes explica que esse processo começa de forma silenciosa e muitas vezes passa despercebido no dia a dia. “A partir dos 30 anos, o corpo já não tem a mesma eficiência na recuperação e manutenção muscular. Isso não significa que a perda de massa seja inevitável ou rápida, mas sim que existe uma tendência biológica que pode ser acelerada pelo sedentarismo, pela má alimentação e pelo estresse crônico. Quando a pessoa não treina força, essa perda tende a ser muito mais evidente ao longo dos anos”. Outro fator importante é a mudança no estilo de vida moderno, que reduz o nível de atividade física espontânea. “Hoje, muitas pessoas passam horas sentadas, o que reduz ainda mais o estímulo muscular necessário para manter a massa magra. O corpo funciona por demanda, se não há estímulo, ele economiza energia e reduz tecido muscular”. Além do impacto fisiológico, essas mudanças também influenciam diretamente a saúde metabólica. Com menos massa muscular, o organismo passa a gastar menos energia ao longo do dia, o que pode favorecer o acúmulo de gordura, sobretudo quando a alimentação não acompanha as novas necessidades do corpo. A fisiologista Carla Menezes destaca que é possível intervir positivamente nesse processo por meio de estratégias consistentes de treino e alimentação. “O envelhecimento não deve ser visto como sinônimo de perda inevitável de qualidade de vida. Quando estimulamos o músculo de forma adequada, especialmente com treino de força, conseguimos não só preservar, mas também recuperar massa muscular em diferentes idades. Isso melhora a força, a autonomia e também o metabolismo”. Ela acrescenta que a combinação de exercícios de força com atividades aeróbicas é uma das abordagens mais completas. “O treino de força atua diretamente na manutenção da massa magra, enquanto o aeróbico contribui para a saúde cardiovascular e o gasto calórico. Juntos, formam uma estratégia extremamente eficiente para o envelhecimento saudável”. De acordo com Carla, a alimentação também desempenha papel central nesse processo. A ingestão adequada de proteínas, aliada a um consumo equilibrado de carboidratos e gorduras saudáveis, ajuda a sustentar a síntese muscular e fornece energia para o treino. “Muitas pessoas subestimam a importância da proteína na maturidade. Ela é essencial para reparar microlesões musculares causadas pelo exercício e para manter o tecido ativo. Sem isso, o corpo tende a perder massa mais rapidamente”. Alguns hábitos como sono de qualidade, controle do estresse e regularidade na prática de exercícios são apontados como fundamentais para manter o metabolismo mais ativo e preservar a saúde ao longo dos anos.

97% dos brasileiros acreditam que o acesso à cultura é dever do Estado

De acordo com a 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, desenvolvida pelo Observatório Fundação Itaú, 97% dos participantes consideram que o acesso à arte e à cultura constitui um direito que deve ser assegurado pelo Estado. O levantamento analisou os padrões de consumo cultural da população brasileira em todas as cinco regiões do país. Ao todo, foram entrevistadas 2.432 pessoas, das quais 40% vivem em capitais ou regiões metropolitanas e 60% residem em municípios do interior ou em áreas litorâneas, evidenciando a preocupação do estudo com a descentralização do acesso à cultura. Em relação ao perfil socioeconômico dos respondentes, 44% pertencem à classe C, 23% às classes A e B, e 31% às classes D e E. Entre os resultados da pesquisa, destacam-se as percepções sobre o acesso à cultura e a relação entre arte e educação como direitos. Cerca de 25% dos entrevistados afirmaram que as aulas de arte nas escolas públicas deveriam ser prioridade para os governos. O estudo também apontou alta adesão a atividades culturais presenciais ao ar livre (86%) e maior interesse em participar de ações culturais quando oferecidas no ambiente escolar (72%). Quando questionados sobre as prioridades das políticas públicas na área cultural, 39% dos entrevistados apontaram a criação ou ampliação de programas que garantam acesso gratuito a atividades como cinema, teatro, música e museus. Além disso, 32% defenderam como prioridade a oferta de ações culturais voltadas para crianças e adolescentes nos bairros, refletindo a preocupação com as desigualdades no acesso a eventos e equipamentos culturais. Entre as demais prioridades apontadas pelos entrevistados estão a melhoria e ampliação de equipamentos culturais já existentes (26%), a oferta de aulas de arte e cultura nas escolas públicas (25%) e o apoio a iniciativas culturais em favelas, periferias e comunidades tradicionais (23%). Também foram mencionados investimentos na formação de artistas e profissionais da cultura (19%), a criação de novos espaços culturais públicos (18%) e o incentivo à produção cultural independente (14%). A professora de artes, Cecília Santana, avalia que os números demonstram uma mudança importante na forma como a população enxerga o papel da cultura no cotidiano. “A cultura amplia horizontes, estimula a criatividade e favorece a compreensão das diferentes realidades que compõem a sociedade brasileira. Quando os cidadãos defendem o acesso à cultura como um direito, estão reconhecendo que ela é tão importante quanto outros serviços públicos. Isso mostra um amadurecimento da percepção coletiva sobre o tema”. Ela destaca ainda a relevância do ambiente escolar como espaço de democratização cultural. “Quando uma escola promove oficinas, apresentações artísticas, visitas a museus ou atividades ligadas ao patrimônio cultural, amplia significativamente as oportunidades de aprendizagem. A cultura ajuda a desenvolver habilidades socioemocionais, fortalece a identidade dos estudantes e contribui para a permanência deles no ambiente escolar”. Para o produtor cultural Rafael Lacerda, os resultados revelam que a população entende a importância da descentralização das políticas culturais. “Durante muito tempo, a oferta cultural ficou concentrada nas capitais e em áreas centrais das cidades. Hoje existe uma demanda crescente para que as ações culturais cheguem aos bairros periféricos, às comunidades tradicionais e aos municípios menores. Isso é fundamental para reduzir desigualdades e promover inclusão social”. Os governos têm diversas ferramentas para ampliar o acesso da população à cultura, destaca Lacerda. “Não basta apenas construir equipamentos culturais. É preciso garantir programação contínua, transporte acessível, divulgação adequada e atividades voltadas às necessidades de cada comunidade. Muitas vezes o espaço existe, mas a população não consegue utilizá-lo por falta de condições ou de informação”. Lacerda acredita que os jovens devem ocupar posição central nas estratégias de democratização cultural. “Investir em cultura durante a infância e a adolescência gera impactos positivos que se refletem ao longo de toda a vida. Jovens que têm acesso a atividades culturais desenvolvem maior capacidade de expressão, senso crítico e participação cidadã. Além disso, a cultura pode representar oportunidades de formação profissional e geração de renda em diversos segmentos da economia criativa”.

96% das pequenas empresas aceitam Pix como modalidade de pagamento

De acordo com o estudo Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios, desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Ipespe, o Pix já está amplamente presente nas operações dos pequenos empreendimentos. A pesquisa aponta que 96% dessas empresas disponibilizam essa modalidade como forma de pagamento para seus clientes. Além disso, cerca de 60% dos proprietários utilizam o Pix como principal canal para receber valores de vendas, enquanto 53% também recorrem a essa ferramenta para realizar pagamentos a fornecedores e parceiros comerciais. Entre os microempreendedores individuais (MEIs), a adesão a esse meio de pagamento é ainda mais elevada. Cerca de 97% deles utilizam o Pix em suas atividades comerciais. Além disso, para aproximadamente 28% desses empreendedores, essa forma de recebimento representa mais de 75% do total do faturamento obtido. O Pix ganhou destaque na última semana após ser citado em um relatório do United States Trade Representative (USTR) sobre barreiras comerciais no Brasil, o que poderia resultar na imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. No documento, o órgão norte-americano classifica a modalidade como “injusta”, alegando que o Banco do Brasil poderia apresentar conflito de interesses por atuar simultaneamente como regulador e operador do sistema de pagamentos instantâneos. Do ponto de vista econômico, especialistas apontam que o Pix contribuiu para a redução da informalidade, aumento da eficiência nas transações e diminuição da dependência de intermediários financeiros. Para a consultora de pequenos negócios, Mariana Tavares, os impactos vão além da praticidade cotidiana. “O Pix não é apenas uma inovação tecnológica, ele reorganizou a circulação de dinheiro no país. Pequenos negócios passaram a ter acesso imediato ao valor das vendas, o que melhora o fluxo de caixa, reduz a necessidade de crédito e fortalece a sobrevivência das empresas”. Ela também destaca efeitos indiretos no mercado de trabalho. “Quando uma microempresa ganha eficiência financeira, tende a reinvestir mais rapidamente, contratar com maior segurança e expandir suas operações. Isso cria um ciclo positivo que se reflete na geração de vagas de emprego”. Na mesma linha, o economista Rafael Campos avalia que críticas externas ao sistema brasileiro precisam ser analisadas com cautela. “O Pix é um modelo de infraestrutura pública de pagamentos que ampliou a inclusão bancária e reduziu custos de transação em larga escala. Questionar sua estrutura sem considerar seus resultados sociais e econômicos é ignorar o impacto positivo que ele teve, especialmente para a população de baixa renda e para os pequenos empreendedores”. O sistema também fortaleceu a competitividade interna, ressalta Campos. “Antes do Pix, as transferências dependiam de taxas e horários bancários. Hoje, o dinheiro circula em tempo real, isso aumentou a eficiência do comércio e ajudou a dinamizar setores inteiros da economia”. Em relação às críticas presentes no relatório do USTR, os especialistas ouvidos defendem que o debate deve ser tratado no campo técnico e regulatório, sem comprometer a autonomia do modelo brasileiro. Eles salientam que o Pix representa uma experiência bem-sucedida de inovação pública que pode, inclusive, servir de referência internacional. Segundo Campos, o debate também revela uma disputa mais ampla sobre soberania tecnológica e modelos de infraestrutura financeira. “Quando um país desenvolve uma solução pública que reduz custos, amplia a inclusão e aumenta a eficiência do sistema de pagamentos, isso naturalmente altera equilíbrios de mercado. O Pix incomoda alguns atores internacionais porque ele demonstra que é possível ter um sistema eficiente sem depender exclusivamente de intermediários privados tradicionais”. Ainda assim, o tema deve permanecer em discussão no cenário diplomático e econômico, especialmente diante de possíveis impactos comerciais. Enquanto isso, no cotidiano dos brasileiros, o Pix segue consolidado como peça central das transações financeiras, tanto para consumidores quanto para empresas de todos os portes, reforçando seu papel na modernização do sistema financeiro nacional.

Exclusão LGBTQIA+ no mercado de trabalho custa bilhões

A marginalização de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho brasileiro gera prejuízos econômicos anuais calculados em cerca de R$ 94,4 bilhões, valor que corresponde a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Essa informação foi apresentada no estudo intitulado “O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de Trabalho Brasileiro”. Para além dos prejuízos econômicos imediatos, o estudo calcula que a exclusão da comunidade também resulta em perdas fiscais anuais de R$ 14,6 bilhões, considerando tanto a redução na arrecadação quanto os custos públicos associados. A pesquisa destaca ainda que esse grupo enfrenta maiores índices de desemprego, menor inserção no mercado de trabalho e recorrentes episódios de discriminação no ambiente profissional. Entre os participantes LGBTQIA+, a taxa de desemprego foi estimada em 15,2%, quase o dobro da média nacional, fixada em 7,7%. Já o índice de inatividade alcançou 37,4%, superando os 33,4% observados na população em geral. O relatório associa a exclusão econômica às dificuldades enfrentadas antes mesmo da entrada no mercado de trabalho. De acordo com os dados apresentados no estudo, cerca de 70% das pessoas trans e travestis não finalizaram o ensino médio e 0,02% conseguiram acessar o ensino superior. Para a psicóloga Carla Silva, a exclusão começa muito cedo e se acumula ao longo da vida. “Muitas pessoas LGBTQIA+, principalmente trans, enfrentam rejeição familiar, violência psicológica e bullying ainda na infância e adolescência. Isso afeta diretamente a permanência escolar. Quando o ambiente educacional deixa de ser seguro, aumentam os índices de evasão, e a consequência aparece depois no mercado de trabalho”. Ela ressalta que a baixa escolaridade reduz drasticamente as oportunidades profissionais e empurra parte dessa população para trabalhos informais e precários. “Existe uma cadeia de exclusão. A pessoa sofre discriminação na escola, abandona os estudos, encontra dificuldade para conseguir emprego formal e acaba ficando mais vulnerável à pobreza, à insegurança alimentar e à marginalização social”. O preconceito continua presente nos processos seletivos e dentro das empresas, destaca Carla. “Ainda há organizações que reproduzem estereótipos e tratam diversidade apenas como marketing institucional. Muitas pessoas LGBTQIA+ escondem sua identidade por medo de demissão, assédio ou limitação de crescimento profissional. Isso gera impactos emocionais e reduz a produtividade e a qualidade de vida no trabalho”. A consultora de diversidade e inclusão corporativa, Patrícia Nunes, afirma que os dados demonstram como a discriminação também compromete o desenvolvimento econômico do país. “Quando uma parcela da população é impedida de estudar, trabalhar e crescer profissionalmente, toda a economia perde. O Brasil desperdiça talentos, reduz sua capacidade produtiva e aumenta desigualdades sociais históricas”. “A exclusão da população LGBTQIA+ também gera impactos indiretos nos sistemas públicos. A dificuldade de acesso ao emprego formal aumenta a dependência de políticas assistenciais e agrava problemas ligados à saúde mental, moradia e vulnerabilidade social. É uma questão de direitos humanos, mas também de desenvolvimento econômico”, complementa. As especialistas defendem que a ampliação de oportunidades para a comunidade depende de ações integradas entre governos, escolas, universidades e empresas privadas. Entre as principais medidas apontadas estão políticas permanentes de combate à discriminação, programas de permanência escolar, qualificação profissional e incentivo à contratação de pessoas LGBTQIA+. Na avaliação da psicóloga, a transformação precisa começar na educação básica. “As escolas precisam se tornar ambientes seguros e acolhedores. Isso passa pela formação de professores, pelo combate à violência e pela construção de políticas pedagógicas que respeitem a diversidade. Garantir permanência escolar é uma das formas mais eficazes de romper o ciclo de exclusão”. Já Patrícia reforça a criação de programas específicos de inclusão no mercado de trabalho. “Empresas precisam estabelecer metas concretas de diversidade, investir em treinamento de lideranças e criar mecanismos de proteção contra discriminação interna. Além disso, políticas públicas de incentivo à qualificação profissional e ao acesso ao ensino superior podem ampliar as oportunidades dessa população”.

Uso inadequado de hormônios é prática que pode ser fatal

A morte do fisiculturista e influenciador brasileiro Gabriel Ganley, aos 22 anos, provocou comoção nas redes sociais e reacendeu um debate delicado dentro do universo do fisiculturismo: os limites do corpo humano diante do uso intenso de hormônios e substâncias para ganho de massa muscular. Informações divulgadas pela imprensa apontam que exames preliminares indicaram cardiomiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. Embora a causa definitiva ainda dependa da conclusão dos laudos periciais, a morte do jovem atleta colocou novamente em evidência um problema antigo e crescente no meio esportivo, o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento e até insulina por praticantes de fisiculturismo, inclusive entre jovens que buscam resultados rápidos para ganhar espaço nas redes sociais e nas competições. O endocrinologista Gilberto Assunção explica que os anabolizantes são usados no fisiculturismo porque aceleram processos fisiológicos ligados ao ganho de massa muscular e à recuperação física. “Esses hormônios aumentam a síntese proteica e permitem que o atleta treine mais pesado e com menor tempo de recuperação. O problema é que alguns utilizam doses muito superiores às terapêuticas e combinam várias substâncias ao mesmo tempo, sem qualquer controle médico”. Segundo o especialista, o uso contínuo desses compostos pode provocar uma série de alterações graves no organismo. Entre elas estão hipertensão arterial, aumento do colesterol ruim, sobrecarga do fígado, infertilidade, alterações psiquiátricas e crescimento anormal do músculo cardíaco. “Muitos atletas enxergam apenas o ganho estético imediato, mas ignoram que o coração também é um músculo e sofre impacto direto. Em casos extremos, podem ocorrer arritmias, infarto e morte súbita”. Nos últimos anos, outro hormônio passou a chamar atenção no universo da musculação extrema: a insulina. Medicamento essencial para pessoas com diabetes, ela vem sendo usada ilegalmente por atletas para potencializar o ganho muscular. A substância ajuda a transportar glicose e nutrientes para dentro das células, aumentando a capacidade de recuperação e crescimento dos músculos. “O problema é que seu uso inadequado pode causar hipoglicemia severa, uma queda abrupta dos níveis de açúcar no sangue, levando a desmaios, convulsões, coma e até morte”, alerta Assunção. A nutricionista Cristina Souza afirma que muitos jovens acabam influenciados por conteúdos publicados nas redes sociais sem compreender os riscos envolvidos. “Existe uma romantização do corpo extremo. O adolescente vê um influenciador musculoso, com milhões de seguidores, carros, contratos e fama, e acredita que aquilo é apenas resultado de treino e disciplina. Poucos falam sobre as substâncias usadas nos bastidores e, principalmente, sobre as consequências”. Cristina explica que o uso de insulina por pessoas não diabéticas representa um dos cenários mais perigosos da atualidade no fisiculturismo. “A insulina pode derrubar rapidamente a glicemia. Se o atleta erra a dose ou não faz a ingestão correta de carboidratos, ele pode perder a consciência em minutos. É uma prática extremamente arriscada e que, infelizmente, vem sendo banalizada em fóruns e grupos clandestinos da internet”. Ela destaca que o crescimento das redes sociais intensificou a pressão estética e aumentou a busca por resultados rápidos. “Influenciadores fitness transformaram o corpo musculoso em símbolo de sucesso e reconhecimento, enquanto jovens cada vez mais cedo passam a consumir conteúdos sobre ‘ciclos’, ‘bulking’ e protocolos hormonais sem orientação profissional. Em muitos casos, adolescentes têm acesso facilitado a substâncias ilegais vendidas pela internet ou em academias”. Para Assunção, o combate ao problema exige uma combinação de informação, fiscalização e educação. “Não basta apenas proibir. É necessário explicar, desde cedo, como essas substâncias afetam o organismo. Muitos jovens acreditam que são invencíveis e que os efeitos colaterais só acontecem com os outros. A conscientização precisa começar nas escolas, academias e dentro da própria família”.

Produtores de alho pedem revisão imediata nas regras de importação do item

As entidades representativas dos produtores de alho, a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) e a Associação Mineira dos Produtores de Alho (Amipa), solicitaram a revisão das condições de importação do produto no país. Durante encontro com autoridades, defenderam a adoção de ações mais rigorosas para resguardar o setor nacional diante das importações, especialmente por meio do fortalecimento das medidas antidumping. A demanda foi apresentada em reunião da Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O dumping é uma prática comercial considerada prejudicial à concorrência, caracterizada pela venda de produtos a preços artificialmente reduzidos e inferiores aos custos de produção. Essa estratégia tem como objetivo ampliar a participação no mercado e dificultar a atuação de concorrentes. Durante o debate, participantes defenderam a revisão ou o cancelamento dos acordos comerciais firmados com a China e a Argentina, sob o argumento de que eles comprometem a sustentabilidade da cadeia produtiva do alho no Brasil. Segundo os convidados, a competitividade nacional é prejudicada tanto pelas condições de comércio desses acordos quanto por decisões judiciais que têm beneficiado empresas importadoras. Eduardo Sequita de Oliveira, vice-presidente da Anapa, afirmou que a área cultivada com alho no Brasil tem diminuído em razão da concorrência de produtos importados. Além da China e da Argentina, ele citou a entrada crescente de alho oriundo do Egito. Conforme o dirigente, os baixos custos da mão de obra chinesa ajudam a explicar os preços mais competitivos do produto. “Outro problema é o chamado custo Brasil, com mais impostos cobrados no país em relação a outros. O governo deveria desenvolver uma política de defesa comercial, pois nosso setor é muito importante e emprega muitas pessoas”. Segundo Flávio Ferreira Silva, presidente da Amipa, o Alto Paranaíba é responsável por mais de 60% da produção mineira de alho. Introduzida por imigrantes japoneses, a cultura ocupa cerca de 8 mil hectares e movimenta R$ 2,5 bilhões por safra, conforme dados da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa). Silva alertou que o enfraquecimento do setor pode provocar o fechamento de empresas, a perda de empregos e até riscos de desabastecimento de alho no país. “Hoje, o Brasil atende em torno de 60% do mercado brasileiro, então acaba sendo necessária a vinda de alho, mas é preciso que o governo federal coloque regras, para colocar o produto no mercado na hora certa”. O aumento das exportações argentinas de alho para o Brasil é um dos fatores que têm dificultado a competitividade dos produtores nacionais, apontou Ferreira. “O custo do alho da Argentina é muito inferior ao nosso; por isso, nossa reivindicação é de que seja revogado o acordo com esse país e também com a China. Uma caixa de 10 kg de alho chinês chega ao Brasil por menos de R$ 100, enquanto o custo de produção em Minas Gerais fica entre R$ 140 e R$ 150. “É impossível concorrer com essas importações”, criticou. A deputada Lud Falcão (Republicanos) anunciou um projeto na ALMG para garantir maior igualdade entre o alho mineiro e o importado, além de levar ao governo federal pedidos de revisão de acordos com China e Mercosul e de decisões judiciais sobre o tema. “Vimos aqui uma casa cheia, com muitas pessoas em pé, que trouxeram as dores dos produtores de alho; e por que sofrem tanto? O acordo do Mercosul pode ser chamado de Mercovem, porque só vem para cá, nenhuma riqueza daqui sai”. Sobre o alho chinês, a parlamentar lembrou que ele tem qualidade inferior ao produto brasileiro. “O nosso alho brasileiro tem qualidade nutricional altíssima, o sabor dele é espetacular, diferente dos demais alhos, como o chinês e o argentino”. O ex-deputado Hely Tarqüínio, do Alto Paranaíba, classificou a atual situação como uma injustiça social e também como um entrave ao desenvolvimento regional. “Desde 1966, o Superior Tribunal de Justiça regulamentou a questão das importações, mas depois os tribunais regionais permitiram liminares através de importadores brasileiros com interesses escusos, dando prejuízo ao alho”. Ele completou que, no caso do alho, o problema é o dumping, uma empresa vendendo produtos abaixo do custo de produção. “Temos que ter leis antidumping e que elas sejam respeitadas e não colocadas em xeque por liminares”.

Jovens negras são principais vítimas da adultização precoce

Na adolescência, muitas mulheres negras brasileiras já são levadas a assumir tarefas domésticas, contribuir para o sustento da família e, em muitos casos, deixar de lado aspectos da própria individualidade. Essa é uma das conclusões da pesquisa “Jovens”, divulgada pela Globo durante o evento Negritudes, realizado em São Paulo. O estudo aponta que essas jovens frequentemente vivenciam responsabilidades típicas da vida adulta de forma precoce. Em vez de viver plenamente a juventude, muitas passam a desempenhar funções de cuidado e a participar do suporte financeiro e emocional do lar. De acordo com a pesquisa, essa realidade não se restringe à adolescência, podendo acompanhar essas mulheres ao longo de diferentes etapas da vida, inclusive na fase idosa. O relatório relaciona seus resultados aos dados do Censo do IBGE, que indicam que cerca de 60% dos jovens no Brasil são negros, sendo 49% pardos e 11% pretos. O levantamento também aponta que mulheres negras apresentam os maiores índices de maternidade precoce entre a população jovem. Atualmente, aproximadamente 32% das mulheres jovens já são mães. Para muitas dessas jovens, a fase da juventude é frequentemente encurtada pela necessidade de assumir responsabilidades como o cuidado de irmãos, a contribuição com as despesas domésticas e a realização de tarefas normalmente associadas ao universo adulto. Em contraste, entre homens brancos, esse tipo de responsabilidade costuma surgir apenas na vida adulta, enquanto entre mulheres brancas tende a aparecer mais tardiamente, ao final da juventude. Especialistas destacam que essa realidade não pode ser explicada por escolhas individuais, mas sim por um conjunto de fatores históricos e sociais que perpetuam desigualdades no Brasil. A socióloga Andreia Lima explica que o fenômeno está diretamente ligado à forma como o racismo estrutural organiza as oportunidades desde a infância. “Existe uma naturalização da ideia de que meninas negras são mais maduras, mais responsáveis e, portanto, podem assumir funções de cuidado mais cedo. Isso faz com que famílias, muitas vezes sem alternativas econômicas, depositem sobre elas uma carga que deveria ser coletiva ou dos adultos”. Segundo Andreia, a desigualdade também se reproduz no acesso à educação de qualidade, à renda e a políticas de proteção social. “Quando faltam políticas públicas efetivas de apoio às famílias em situação de vulnerabilidade, essas jovens acabam sendo absorvidas por uma lógica de sobrevivência. Isso interrompe trajetórias escolares e limita a possibilidade de mobilidade social”. Já o antropólogo Carlos Menezes aponta que a desigualdade de renda e a precarização do trabalho são fatores determinantes para a entrada precoce de jovens negras em responsabilidades adultas. “Muitas famílias dependem do trabalho informal e da renda instável. Nesse contexto, a jovem negra é colocada como parte fundamental da estratégia de sobrevivência doméstica. Isso não é uma escolha individual, é uma imposição das condições sociais”. “A maternidade precoce, quando ocorre, intensifica esse ciclo. Sem acesso adequado à saúde reprodutiva, educação sexual e apoio social, a maternidade na juventude se torna mais um fator de interrupção de projetos de vida. Isso reduz ainda mais as chances de permanência na escola e no ensino superior”, completa. Eles apontam que a reversão desse quadro depende de políticas públicas integradas e de longo prazo. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento da rede de proteção social às famílias em vulnerabilidade, ampliação de creches públicas em tempo integral, políticas de permanência escolar e maior acesso à educação sexual e reprodutiva. Para Andreia, também é fundamental desconstruir estereótipos que naturalizam a sobrecarga das meninas negras. “É preciso enfrentar a ideia de que elas são ‘naturalmente mais maduras’. Isso é um mecanismo simbólico que legitima a desigualdade. A infância e a juventude dessas meninas precisam ser protegidas com o mesmo rigor dedicado a outros grupos sociais”. Menezes reforça a importância de políticas de renda e inclusão produtiva. “Transferência de renda, qualificação profissional e acesso ao ensino superior são ferramentas essenciais para quebrar esse ciclo. Sem isso, continuaremos reproduzindo a mesma estrutura de desigualdade geração após geração”.

Brasileiros não devem investir em eletrônicos para a Copa do Mundo 2026

A maioria dos brasileiros não deve investir na troca de eletrônicos para assistir à Copa do Mundo. Um levantamento da Equifax BoaVista, em parceria com a Acordo Certo, aponta que 62,3% dos participantes não têm intenção de adquirir novos aparelhos para acompanhar os jogos de 2026, indicando uma postura mais cautelosa em função do elevado comprometimento da renda das famílias. De acordo com o levantamento, o nível médio de comprometimento da renda chegou a 86,1% no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 5 pontos percentuais em comparação ao mesmo período de 2025. Esse contexto tem feito com que os consumidores adotem uma postura mais cautelosa, reduzindo gastos mesmo em períodos ligados ao crescimento do consumo. A postura de cautela também aparece na maneira como o público deve acompanhar os jogos. Segundo o levantamento, 91,6% dos brasileiros devem assistir às partidas em casa. Já 5,3% afirmam que pretendem ver os jogos em bares, enquanto 3,1% devem optar por eventos como as fan fests. Os gastos associados à Copa também afetaram a situação financeira de parte dos brasileiros. De acordo com a pesquisa, 30,8% relataram ter acumulado dívidas após despesas com produtos e eventos relacionados ao torneio. Já 7,6% esperam ter dificuldades para manter as contas em dia. Entre aqueles que já tiveram algum tipo de gasto ligado à competição, 61,1% afirmaram não ter enfrentado problemas financeiros. Para especialistas, o conjunto desses dados revela não apenas um momento de maior prudência, mas também um reflexo do encarecimento do custo de vida e da redução da margem de renda disponível para consumo discricionário. A economista Laura Mendes explica que o endividamento elevado tem sido um dos principais fatores para a mudança de hábitos. “Quando a maior parte da renda já está comprometida com despesas fixas e dívidas anteriores, qualquer evento adicional de consumo passa a ser reavaliado com muito mais rigor. A Copa, que antes era vista como uma oportunidade de compra de novos produtos, agora entra na categoria de gasto secundário para muitas famílias”. Ela também frisa que o comportamento mais doméstico no consumo do entretenimento é uma tendência que deve se manter. “Assistir aos jogos em casa se tornou não apenas uma escolha de conforto, mas uma estratégia de economia. Isso reduz gastos com alimentação fora, deslocamento e até compras impulsivas que costumam ocorrer em ambientes de socialização”. Já o consultor financeiro Ricardo Faria, reforça que o momento exige organização e disciplina orçamentária. Na avaliação dele, o principal desafio dos consumidores é evitar que eventos sazonais, como a Copa do Mundo, desestabilizem o planejamento financeiro já comprometido. “É comum que datas especiais gerem uma sensação de urgência de consumo, mas é justamente nesses períodos que o planejamento faz mais diferença. O ideal é definir um limite de gastos para o evento e evitar compras por impulso, especialmente de eletrônicos e itens de maior valor”. O cenário apontado pela pesquisa reforça que, embora a Copa do Mundo continue sendo um evento de grande apelo popular, o consumo dos brasileiros está cada vez mais guiado pela necessidade de controle financeiro. Entre cautela, endividamento e adaptação de hábitos, o que se observa é um consumidor mais atento ao próprio orçamento e menos disposto a comprometer sua renda com despesas extras, mesmo em ocasiões de mobilização nacional.

11,5 mil adolescentes cumprem medidas socioeducativas

Até o final de abril, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contabilizava 11.542 adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas de internação ou semiliberdade no Brasil. Esses números voltam a ganhar destaque em meio à discussão sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. A proposta, apresentada em 2015 pelo então deputado Gonzaga Patriota (PSB) e relatada pelo deputado Coronel Assis (PL), é um tema que reaparece com frequência no Congresso Nacional. Recentemente, ela voltou a ser debatida após ser desmembrada da PEC da Segurança Pública para tramitação separada. Especialistas, porém, contestam a proposta. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade da UFMG, Ludmila Ribeiro. Em sua avaliação, propostas como essa podem ter um caráter simbólico ou eleitoral? A redução da maioridade penal tem forte apelo simbólico e eleitoral, baseada na ideia de que diminuiria os atos infracionais cometidos por adolescentes. Contudo, dados recentes apontam queda no número de jovens apreendidos e internados, influenciada também pela redução da população juvenil. Assim, não há evidências de que penas mais duras reduzam a criminalidade. O problema exige menos foco no agravamento das punições e mais investimento em políticas de prevenção. As prisões brasileiras teriam condições de receber adolescentes de 16 e 17 anos? O sistema prisional brasileiro não possui estrutura adequada nem para os adultos encarcerados, muito menos para adolescentes de 16 e 17 anos. Em alguns estados, a ocupação das prisões ultrapassa 200%, revelando grave superlotação. Além disso, há poucas oportunidades de educação e trabalho, já que apenas parte dos presos tem acesso a atividades laborais. As políticas de saúde, assistência social e educação ligadas ao sistema prisional são precárias, dificultando a ressocialização. O sistema socioeducativo brasileiro consegue cumprir seu papel de ressocialização? Ainda há poucos estudos conclusivos sobre a eficácia do sistema socioeducativo na ressocialização de adolescentes. Pesquisas do Instituto Sou da Paz e de Valéria Oliveira apontam três fatores principais ligados à reincidência. O primeiro é a prática de atos infracionais em idade muito precoce, o que evidencia a necessidade de políticas preventivas. O segundo é a internação ainda muito jovem, já que o contato precoce com ambientes violentos tende a reforçar trajetórias criminosas. O terceiro fator é o apoio familiar após a saída da privação de liberdade: famílias acolhedoras aumentam significativamente as chances de reintegração e mudança de vida. Qual o peso de fatores como pobreza, evasão escolar e ausência de políticas públicas nesse cenário? O debate sobre criminalidade juvenil deve ir além da pobreza e focar no papel da escola. Em um contexto dominado pela tecnologia, muitos jovens consideram a escola pouco atrativa, inclusive os de classes médias e altas. Casos de violência sexual e contra a mulher envolvendo estudantes de boa condição social mostram que o problema não se resume à desigualdade econômica. É necessário repensar o modelo educacional e enfrentar padrões de gênero que reforçam masculinidades violentas. A escola é fundamental nesse processo, mas precisa atuar junto a políticas de saúde e assistência social, especialmente no cuidado ao uso de drogas e à saúde mental. Como equilibrar proteção integral da juventude e responsabilização por crimes graves? O período máximo de internação no sistema socioeducativo é de três anos, diferença não tão grande em relação à média de cinco anos no sistema prisional. Ainda assim, a sociedade brasileira mantém uma visão punitivista, associando a responsabilização apenas ao sofrimento e ao encarceramento. Porém, adolescentes já podem cumprir longos períodos de privação de liberdade nessa fase de desenvolvimento. Por isso, o debate deve priorizar também medidas de proteção e reintegração. Isso inclui políticas de educação, saúde, assistência social e apoio psicológico, além de combater a resistência de escolas em receber jovens que cumprem medidas socioeducativas.

Esporte feminino cresce e mira patamar global

De acordo com um estudo divulgado pela Deloitte, a receita mundial do esporte feminino deve atingir US$ 3 bilhões (cerca de R$ 15,3 bilhões) em 2026. A projeção indica um avanço de 25% na comparação com o ano anterior. Em 2025, o segmento gerou US$ 2,4 bilhões, acumulando um crescimento de 248% no período entre 2022 e 2025. Segundo a empresa, o futebol, o futebol americano e o basquete femininos devem responder, individualmente, por aproximadamente 35% da receita global do setor em 2026. A América do Norte deve permanecer na liderança do mercado, com faturamento estimado em US$ 1,64 bilhão, o que representa 54% do total. Já a Europa ocupa a segunda posição, com cerca de US$ 434 milhões, valor equivalente a 14%. No Brasil, o futebol feminino vem ganhando mais destaque e exposição. Em 2025, um levantamento do Ibope apontou que 92 empresas passaram a exibir suas marcas nos uniformes das 16 equipes do Brasileirão Feminino. Um estudo da Nielsen Sports, realizado em parceria com a empresa PepsiCo, indica que o futebol feminino deve figurar entre os cinco esportes mais acompanhados globalmente até 2030. A pesquisa também estima aumento de 38% na audiência, alcançando mais de 800 milhões de espectadores. Na avaliação da especialista em marketing Brenda Simões, o avanço está ligado a uma mudança estrutural no consumo esportivo. “O público está mais aberto à diversidade e as marcas perceberam que o esporte feminino entrega engajamento real. Não é apenas uma questão de justiça, mas de oportunidade de negócio, quando há investimento consistente, a audiência responde rapidamente”. O crescimento também é resultado de uma combinação de fatores culturais e tecnológicos, afirma Brenda. “A maior cobertura midiática, o acesso facilitado por plataformas digitais e o fortalecimento das ligas femininas criaram um ambiente mais favorável. Antes, faltava visibilidade, hoje, falta consolidar essa alta com estrutura”. Para a educadora física Ana Paula Neto, apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. “Entre os principais obstáculos das atletas mulheres estão a diferença salarial em relação ao esporte masculino, menor investimento em categorias de base, calendário competitivo irregular e menor exposição na mídia tradicional. Além disso, muitas jogadoras ainda precisam conciliar treinos e competições com outras atividades profissionais para garantir sustento”. A profissional ressalta que a valorização passa por políticas contínuas e não apenas ações pontuais. “Não basta investir em grandes eventos ou torneios específicos. É necessário criar um ecossistema sustentável, com os campeonatos estruturados, formação de base e contratos mais estáveis. Sem isso, o crescimento pode estagnar”. Brenda complementa que a visibilidade também depende de narrativa. “É preciso contar histórias, humanizar as atletas e ampliar a cobertura. Quando o público conhece as jogadoras, a conexão aumenta e o interesse se mantém”. Elas destacam que sem uma estrutura sólida desde cedo, o crescimento do esporte feminino pode perder força a médio prazo. “A ampliação de escolinhas, a criação de competições regionais regulares e o apoio financeiro a clubes formadores são vistos como medidas essenciais para garantir uma renovação constante de talentos e elevar o nível técnico das competições”, explica a educadora física. Além disso, a presença de mulheres em cargos de liderança dentro do esporte também é considerada fundamental para acelerar mudanças estruturais. “A maior participação feminina em comissões técnicas, diretorias e entidades esportivas contribui para decisões mais alinhadas às necessidades das atletas e para a construção de políticas mais inclusivas”, conclui Ana Paula.