Belo Horizonte registra mais de 13 mil acidentes no início de 2026

Belo Horizonte contabilizou mais de 13 mil ocorrências de trânsito apenas nos dois primeiros meses de 2026. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), a Avenida Cristiano Machado, um dos principais eixos viários da capital, passou a liderar o ranking de acidentes e fatalidades. Com extensão de 11,7 km, a via registrou 596 colisões, cerca de 10 por dia, e três mortes, ultrapassando o Anel Rodoviário, que teve 519 acidentes e um óbito ao longo de seus 22 km, mesmo sendo historicamente o trecho com maiores índices na cidade. Além disso, os registros de combinação entre consumo de álcool e direção seguem em patamar elevado. Em Minas Gerais, foram contabilizadas 546 ocorrências desse tipo, das quais 253 envolveram ao menos uma vítima. Em Belo Horizonte, a capital do estado, houve 47 registros relacionados a essa situação. O cenário na Cristiano Machado é resultado de uma combinação de fatores estruturais, comportamentais e de planejamento urbano. O especialista em segurança viária e trânsito, José Carlos Souza, explica que a via concentra características que aumentam significativamente o risco de acidentes. “A Cristiano Machado funciona como um corredor híbrido: ao mesmo tempo em que é via de trânsito rápido, ela também está inserida em uma área urbana densa, com cruzamentos frequentes, acessos comerciais e grande circulação de pedestres. Essa mistura eleva o conflito viário e reduz a previsibilidade do tráfego”. Segundo Souza, outro ponto crítico é a alta taxa de variação de velocidade ao longo do trecho. “O motorista sai de um segmento de fluxo livre e rapidamente encontra semáforos, entradas de bairros e pontos de ônibus. Essa alternância exige uma atenção constante que nem sempre é respeitada, o que contribui para colisões traseiras e laterais”. A urbanista Fernanda Bastos acrescenta que o desenho urbano da avenida também influencia diretamente os índices elevados de acidentes. “A Cristiano Machado foi estruturada para priorizar a fluidez dos veículos, mas não acompanhou de forma adequada o crescimento populacional e a expansão de atividades comerciais ao longo do seu eixo. Hoje, há uma disputa intensa entre carros, ônibus, motocicletas e pedestres, sem que a infraestrutura tenha sido totalmente adaptada para isso”. Diante do cenário, especialistas defendem que a redução dos acidentes depende de um conjunto integrado de políticas públicas. Entre as medidas mais citadas está o reforço na fiscalização eletrônica e presencial, especialmente em vias de alto fluxo como a Cristiano Machado e o Anel Rodoviário. “A fiscalização precisa ser constante e inteligente, com uso de dados em tempo real para identificar pontos críticos e horários de maior risco”, afirma Souza. No campo da prevenção ao consumo de álcool associado à direção, o especialista defende campanhas educativas contínuas e ações integradas com bares, restaurantes e aplicativos de transporte. “A conscientização precisa ser permanente, não apenas em datas comemorativas. Além disso, políticas que incentivem alternativas seguras de deslocamento após o consumo de álcool são fundamentais para reduzir esse tipo de ocorrência”. Outra estratégia apontada por Fernanda é a requalificação urbana da avenida, com foco na redução de conflitos entre diferentes modais de transporte. Isso inclui a criação de travessias mais seguras para pedestres, reorganização de acessos, melhorias na sinalização e revisão dos limites de velocidade em trechos específicos. “Não basta apenas punir o comportamento inadequado. É necessário redesenhar o espaço urbano para que ele induza comportamentos mais seguros”.

Exportações mineiras batem US$ 10,2 bilhões no primeiro trimestre deste ano

No primeiro trimestre de 2026, Minas Gerais registrou importações de US$ 4,5 bilhões e obteve um saldo positivo de US$ 5,7 bilhões na balança comercial. Segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o volume total de comércio exterior do Estado atingiu US$ 14,7 bilhões entre janeiro e março, crescimento de 0,5% em comparação com igual período do ano anterior. Em março, as vendas externas de Minas Gerais alcançaram US$ 3,5 bilhões, colocando o Estado na terceira posição entre os maiores exportadores do país, com participação de 11,1% no total nacional no período. Dessa forma, o acumulado das exportações mineiras no primeiro trimestre de 2026 chegou a US$ 10,2 bilhões. O principal destaque do período foi o ouro, cujas exportações cresceram US$ 519,6 milhões, um avanço de 85,3% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Já o segmento de outros veículos aéreos teve incremento de US$ 101,2 milhões (983,7%), enquanto as ferroligas registraram aumento de US$ 70,0 milhões (14%) no valor exportado. No mês passado, os itens mais exportados por Minas Gerais foram o café (US$ 757,9 milhões, equivalente a 21,7% do total), os minérios de ferro (US$ 743,4 milhões e 21,2%), o ouro (US$ 421,1 milhões e 12%), a soja (US$ 364 milhões e 10,4%) e as ferroligas (US$ 202,6 milhões e 5,8%). No período, os produtos do Estado chegaram a 157 destinos internacionais. Entre os principais compradores estão China (32,8%), Estados Unidos (9,9%), Canadá (5,5%), Reino Unido (4,9%) e Argentina (3,9%). Além disso, houve expansão para novos mercados, com 20 países que ainda não haviam importado no mesmo intervalo de 2025, como Palestina, Haiti, Senegal, Aruba e Azerbaijão. Para especialistas, os números refletem não apenas a força produtiva de Minas Gerais, mas também a importância estratégica das exportações para a economia estadual. A economista Laura Mendes afirma que o superávit comercial tem impacto direto na geração de empregos e na arrecadação. “Quando o Estado exporta mais do que importa, há entrada líquida de divisas, o que fortalece a moeda, estimula investimentos e dinamiza cadeias produtivas inteiras, especialmente no interior”. Ela destaca ainda que os setores como mineração e agronegócio possuem grande capacidade de encadeamento econômico. “O café e o minério de ferro, por exemplo, não movimentam apenas as empresas exportadoras, mas também logística, transporte, armazenagem e serviços financeiros. Isso cria um efeito multiplicador relevante para o Produto Interno Bruto (PIB) estadual”. O analista de mercado exterior, Pedro Vieira, chama atenção para o crescimento do ouro e de produtos industrializados, como veículos aéreos. “Esse avanço indica uma diversificação gradual da pauta exportadora, o que é extremamente positivo. Quanto mais diversificada a exportação, menor a vulnerabilidade do Estado a oscilações de preços internacionais”. Apesar do cenário favorável, os especialistas alertam para desafios importantes. Entre eles, estão a dependência de commodities, a infraestrutura logística ainda limitada e a volatilidade do mercado internacional. “Minas Gerais ainda depende fortemente de produtos com baixo valor agregado, o que expõe o Estado às variações de preço no mercado global. Uma queda no valor do minério ou da soja, por exemplo, pode impactar a balança comercial”, observa. A infraestrutura também aparece como gargalo. Segundo Vieira, problemas em rodovias, ferrovias e portos elevam custos e reduzem a competitividade. “O produtor mineiro muitas vezes paga mais caro para escoar sua produção do que concorrentes internacionais. Isso precisa ser enfrentado com investimentos consistentes”. Outro ponto de atenção é o cenário geopolítico e econômico global. Tensões comerciais, mudanças em políticas de importação e desaceleração econômica em grandes mercados consumidores podem afetar a demanda pelos produtos mineiros. “A forte dependência da China é uma vantagem em momentos de crescimento, mas pode se tornar um risco em períodos de desaceleração”, destaca Laura. Diante desse contexto, a economista defende a adoção de políticas públicas e estratégias voltadas à ampliação e qualificação das exportações. Entre as principais medidas sugeridas estão o incentivo à industrialização, a diversificação de mercados e o fortalecimento da infraestrutura logística. “É fundamental agregar valor aos produtos exportados, investindo em tecnologia e inovação. Exportar produtos industrializados gera mais renda e empregos do que commodities”.

900 mil ataques virtuais à imprensa foram registrados em 2025

Em 2025, o relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) registrou 66 casos de violência não letal contra cerca de 80 jornalistas e veículos. Apesar da queda nos números, a imprensa ainda sofre ataques, em média, a cada cinco dias. As agressões físicas lideraram as ocorrências, com 39% dos casos (26 registros), atingindo ao menos 35 profissionais, alta em relação ao ano anterior. Segundo a Abert, políticos e agentes públicos lideram as agressões, seguidos por torcedores de times de futebol. Os casos de intimidação somaram 10 registros, com aumento expressivo em relação a 2024. Já um estudo da Bites aponta cerca de 900 mil ataques virtuais à imprensa em 2025, média de 2,5 mil por dia, ou quase dois por minuto. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Lina Rocha. Qual é o impacto desse cenário de ataques virtuais e físicos na liberdade de imprensa e na cobertura jornalística no Brasil? A violência, seja física ou digital, tem um impacto muito grande na produção jornalística, visto que gera uma insegurança no profissional, que por temer os ataques, preferem não lidar com pautas que possam gerar essas reações. E nesse sentido, a liberdade de imprensa sofre um golpe, já que temas que devem ser abordados socialmente deixam de ter a cobertura e debate necessários para a manutenção do Estado de Direito. Existe relação entre polarização política e aumento da violência contra jornalistas? A polarização política tem intensificado a violência contra jornalistas, sobretudo em períodos eleitorais, quando disputas ideológicas alimentam perseguições. Dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), divulgados em 2025 sobre 2024, indicam que a violência política segue como principal causa desses ataques no Brasil. Nesse período, mais de 40% das agressões partiram de políticos, assessores ou apoiadores diretos, que lideram o ranking de agressores, seguidos por militantes e cidadãos comuns em contextos de engajamento político. Há indícios de que a cultura de hostilidade contra jornalistas esteja aumentando ou mudando de forma significativa nos últimos anos? De acordo com a Fenaj, a violência física contra os jornalistas caiu recentemente, enquanto que o assédio virtual se tornou o principal meio de perseguição, com crescimento de 35% de 2024 para 2025. Além disso, o assédio judicial tem se intensificado como forma de intimidação financeira e psicológica, levando à autocensura. Dados da Abraji indicam aumento de quase 20% nos processos contra jornalistas no mesmo período, afetando a autonomia da profissão. Qual é a importância de o profissional denunciar essas agressões? As agressões, sejam elas físicas ou verbais, ocorrendo de forma presencial ou no ambiente digital, não devem ser aceitas em nenhuma circunstância. A ausência de denúncias contribui para o agravamento e a repetição desses atos de violência. Por isso, é essencial que os casos sejam formalmente reportados, permitindo a devida apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, o que também ajuda a desestimular agressores e eventuais mandantes. Os ataques direcionados a jornalistas são inaceitáveis, e o Sindicato se mantém à disposição de toda a categoria para receber denúncias e adotar medidas que contribuam para coibir essas práticas. Como é a atuação do Sindicato referente a esses atos de violência? O Sindicato acompanha de perto a atuação dos profissionais da categoria, com o objetivo de receber denúncias e combater situações de abuso, tanto na defesa dos direitos trabalhistas quanto diante de atitudes hostis dirigidas aos trabalhadores. Nenhuma forma de desrespeito pode ser aceita, e a atuação da entidade segue justamente nesse sentido: mobilizar as empresas empregadoras para que garantam a proteção de seus profissionais, além de acionar os órgãos competentes para a apuração e responsabilização dos casos de agressão.

Calor empurra milhões de pessoas para o sedentarismo

O aquecimento global decorrente das mudanças climáticas pode gerar um efeito pouco esperado e preocupante para a saúde mundial: o aumento do sedentarismo. De acordo com uma pesquisa internacional divulgada na revista The Lancet Global Health, a elevação das temperaturas tende a diminuir a prática de exercícios físicos, o que pode resultar em até 700 mil mortes adicionais por ano até 2050. O estudo avaliou informações de 156 países no período de 2000 a 2022 e apontou que cada mês extra com temperaturas médias superiores a 27,8 °C eleva a taxa de sedentarismo global em aproximadamente 1,44 ponto percentual. Nos países de baixa e média renda, que geralmente dispõem de menos estrutura para lidar com o calor, esse efeito é ainda mais acentuado, alcançando cerca de 1,85 ponto percentual. A inatividade física já é reconhecida como um dos principais fatores de risco para doenças crônicas, estando relacionada ao aumento da probabilidade de problemas cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Além disso, é responsável por cerca de 5% das mortes entre adultos, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 47% dos adultos são sedentários, índice que chega a 84% entre os mais jovens. O educador físico Ricardo Menezes explica que o corpo humano foi feito para o movimento. “Quando há uma quebra nesse padrão, surgem alterações metabólicas importantes, como aumento da pressão arterial, resistência à insulina e acúmulo de gordura corporal. Mesmo pequenas mudanças na rotina já podem trazer benefícios significativos”. Ele também destaca que a falta de atividade também afeta diretamente a saúde mental. “Pessoas sedentárias tendem a apresentar mais sintomas de ansiedade e depressão, além de dificuldades no sono e na concentração. A prática de exercícios libera substâncias que promovem bem-estar, como a endorfina, o que reforça a importância de uma rotina ativa”. Apesar dos riscos amplamente conhecidos, a adoção de hábitos mais saudáveis ainda esbarra em uma série de barreiras estruturais, sociais e econômicas. Em muitas regiões do país, especialmente nas periferias urbanas e áreas rurais, faltam espaços públicos adequados e seguros para a prática de atividades físicas, como praças, parques e ciclovias. Além disso, a rotina de trabalho intensa, muitas vezes associada a longos deslocamentos, reduz o tempo disponível para o lazer e o autocuidado. “Existe uma falsa ideia de que praticar atividade física exige investimento financeiro, quando, na verdade, muitas atividades podem ser realizadas gratuitamente. No entanto, a falta de informação e de políticas públicas eficazes acaba limitando essas possibilidades”, ressalta Menezes. Para reverter esse quadro, o cardiologista Renato Farias diz que a mudança de hábitos deve começar de forma gradual e adaptada à realidade de cada pessoa. “A OMS recomenda que adultos pratiquem entre 150 e 300 minutos de atividade física moderada por semana, o que pode incluir caminhadas, ciclismo, dança ou qualquer outra atividade que eleve a frequência cardíaca”. No entanto, qualquer movimento já é melhor do que nenhum. Entre as estratégias mais indicadas estão substituir o elevador por escadas, caminhar pequenas distâncias em vez de utilizar transporte motorizado, fazer pausas ativas durante o trabalho e incorporar atividades prazerosas à rotina. “O segredo não está em começar com treinos intensos, mas em criar consistência. A regularidade é o que traz resultados a longo prazo”, conclui. Além disso, políticas públicas são fundamentais para promover mudanças em larga escala. Investimentos em infraestrutura urbana, campanhas de conscientização e programas comunitários de incentivo à prática esportiva podem contribuir para tornar a atividade física mais acessível e inclusiva. Sem essas iniciativas, o sedentarismo tende a se agravar, ampliando desigualdades e pressionando os sistemas de saúde.

Brasil ganhou mais 3 milhões de consumidores de livros em 2025

O total de pessoas que compraram livros no Brasil aumentou em 2025, segundo levantamento realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em conjunto com a Nielsen BookData. A pesquisa indica que 18% dos brasileiros com mais de 18 anos adquiriram pelo menos um exemplar, físico ou digital, ao longo do ano passado. Esse percentual representa um crescimento de dois pontos percentuais em comparação com 2024, o equivalente a cerca de 3 milhões de novos consumidores. O levantamento Panorama do Consumo de Livros reuniu cerca de 16 mil entrevistas realizadas em outubro de 2025, contemplando tantas pessoas que adquiriram livros quanto aquelas que não fizeram compras no período de um ano. De acordo com o estudo, as mulheres correspondem a 61% dos consumidores de livros no Brasil. Ao analisar fatores como raça, classe social e gênero, os dados mostram que mulheres negras pertencentes à classe C formam o principal grupo de leitores no país, representando 15% do total. O levantamento também destacou que o avanço mais significativo foi observado entre os jovens. Entre pessoas de 18 a 34 anos, houve um crescimento de 3,4 pontos percentuais em comparação ao ano anterior. Para a socióloga Mariana Tavares, a popularização das redes sociais e de comunidades digitais de leitura tem desempenhado um papel relevante. “Nos últimos anos, vimos o surgimento de influenciadores literários e clubes de leitura on-line que aproximam principalmente o público jovem dos livros. Isso cria um senso de pertencimento e torna a leitura mais atrativa. Além disso, a diversidade de formatos, como e-books e audiolivros, também contribui para ampliar o acesso e adaptar o consumo às rotinas”. O bibliotecário Rafael Mendes aponta ainda o impacto de estratégias comerciais adotadas pelo mercado editorial. “Promoções em plataformas digitais, programas de assinatura e maior presença de livros em marketplaces ajudaram a reduzir barreiras de entrada para novos leitores. Embora o preço dos livros ainda seja considerado alto por parte da população, iniciativas de descontos e facilidades de pagamento têm incentivado a compra”. Entre os que não compraram livros em 2025, aproximadamente 35 milhões de brasileiros (28%) apontaram a ausência de livrarias ou pontos de venda próximos como fator desmotivador. Já 35% desse grupo consideram os livros caros. Dentro desse mesmo público, 16,3% afirmaram que optaram por baixar obras digitais gratuitas, enquanto 16,1% disseram ter acesso a arquivos em PDF sem custo. Para Mendes, esses dados revelam desigualdades estruturais no acesso ao livro. “O problema não é apenas o preço, mas também a distribuição. Muitas regiões do país carecem de livrarias, bibliotecas atualizadas e políticas de incentivo à leitura. Isso limita o contato das pessoas com os livros desde a infância e a pirataria, embora seja um problema para o setor editorial, também reflete a dificuldade de acesso a conteúdos legais e acessíveis”. Diante desse cenário, os especialistas defendem a adoção de políticas públicas e estratégias integradas para democratizar o acesso à leitura. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento de bibliotecas públicas e escolares, a ampliação de programas de incentivo fiscal para o mercado editorial e a criação de políticas de distribuição de livros em regiões com menor oferta. “É fundamental investir em bibliotecas como espaços vivos, com acervo atualizado e atividades culturais que atraiam a comunidade”, afirma Mariana. Outra proposta envolve parcerias entre o setor público e privado para estimular a leitura, como programas de vouchers para compra de livros, feiras literárias itinerantes e incentivo à produção de conteúdo nacional. Ela também destaca a importância de campanhas de valorização da leitura. “Não basta facilitar o acesso físico ao livro, é preciso construir uma cultura leitora, mostrando que a leitura pode ser prazerosa e relevante no cotidiano das pessoas”. Ainda segundo a socióloga, os dados da pesquisa reforçam que, embora haja sinais de crescimento, persistem desafios relacionados à desigualdade de acesso, ao custo e à infraestrutura. “Superar essas barreiras exige esforços contínuos de governos, setor editorial e sociedade civil para garantir que o livro chegue a todos os brasileiros”.

Atacarejo mineiro cresce 10% e alcança faturamento de R$ 26 bilhões

As quatro maiores redes de atacarejo em Minas Gerais alcançaram, em 2025, um faturamento conjunto de R$ 26,1 bilhões, valor 10,13% superior ao obtido no ano anterior, quando somaram R$ 23,7 bilhões. Além disso, essas empresas contabilizaram 301 unidades em operação e empregaram 41.162 trabalhadores no Estado. As informações integram o Ranking Abaas 2026, elaborado pela NielsenIQ em parceria com a Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas). São elas o Grupo Mart Minas (R$ 12,5 bilhões); Grupo ABC (R$ 5,5 bilhões); Grupo Bahamas (R$ 4,5 bilhões); Villefort (R$ 3,6 bilhões). De acordo com o relatório, o faturamento dessas quatro empresas com atuação em Minas Gerais representa 7,06% do total obtido pelas 24 companhias vinculadas à Abaas no país, que encerraram o último ano com receita de R$ 369,5 bilhões. O estudo também aponta que as 301 unidades das redes mineiras correspondem a 13,75% do total nacional, que soma 2.189 lojas. Já o número de funcionários, 41.162, equivale a 9,54% do contingente registrado por todos os associados, que juntos empregam 431.536 pessoas. Segundo o economista Eduardo Moreira, o crescimento do faturamento pode ser atribuído a diversos fatores, como a consolidação do modelo de vendas de atacarejo, que combina preços competitivos com variedade de produtos. “O consumidor está cada vez mais atento ao custo-benefício, especialmente após o período de inflação elevada nos últimos anos. O atacarejo consegue oferecer produtos em grandes quantidades a preços mais baixos, atraindo desde pequenos comerciantes até famílias que compram em volume para reduzir gastos mensais”. O levantamento indica que a receita movimentada nacionalmente no último ano foi 11% superior ao de 2024, e equivalente a cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No mesmo período, houve avanço no número de empregos diretos e de lojas, com altas de 12% e 11%, respectivamente. Moreira reforça a relevância social do setor. “O atacarejo é estratégico para a economia, pois além de movimentar bilhões em faturamento, cria oportunidades de emprego em diferentes níveis, desde funções administrativas até operacionais. Em regiões com menor acesso a supermercados de grande porte, essas lojas se tornam essenciais para abastecer a população e fortalecer o comércio local”. Ainda conforme a sondagem, o consumo das famílias brasileiras cresceu 1,3% em 2025, com projeção de alta de 1,5% para 2026. No atacarejo, o volume comercializado avançou 1,7%, enquanto o varejo independente e as mercearias registraram retração de 5,2%. Já os bares apresentaram queda de 6,8% ao longo do ano passado. Para Moreira, essa tendência indica que o consumidor está cada vez mais buscando formas de economizar sem abrir mão da quantidade e da qualidade dos produtos, o que favorece diretamente o modelo de atacarejo. A analista econômica Laura Pires acredita que a perspectiva para 2026 é de continuidade no crescimento, especialmente se houver investimentos em infraestrutura e estratégias de marketing voltadas ao consumidor final. “Muitos estão investindo em tecnologia para melhorar a experiência de compra e em logística para ampliar a cobertura no Estado e no país. A expectativa é que o faturamento continue em alta, acompanhando a demanda por produtos mais acessíveis e em maior quantidade”. O setor de atacarejo também desempenha papel importante no fortalecimento de cadeias produtivas. Segundo Laura, o aumento da demanda por produtos em grandes volumes também impacta fornecedores, produtores e distribuidores, gerando efeito multiplicador em toda a economia. “A competitividade do setor estimula ainda melhorias na eficiência operacional, na qualidade do atendimento e na diversificação de produtos, beneficiando o consumidor”. Apesar dos números positivos, Laura alerta que o crescimento do setor depende de fatores estruturais, como o desenvolvimento de centros urbanos com infraestrutura, políticas públicas que incentivem a formalização de pequenos comerciantes e investimentos em capacitação da mão de obra.

Intolerância: ataques às religiões de matriz africana crescem

Os dados mais recentes do Disque Direitos Humanos, canal oficial de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, revelam um cenário preocupante de intolerância religiosa no Brasil. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o serviço registrou 2.774 ocorrências relacionadas a práticas discriminatórias motivadas por religião. O levantamento chama atenção, sobretudo, para a concentração de casos envolvendo religiões de matriz africana, historicamente alvo de preconceito no país. De acordo com o relatório, entre as religiões explicitamente identificadas nas denúncias, a Umbanda aparece com 228 registros, seguida pelo Candomblé, com 161 ocorrências. Há ainda 47 casos classificados como Umbanda e Candomblé e outros 40 enquadrados em categorias diversas, mas também vinculados a tradições afro-brasileiras. Especialistas avaliam que esses números refletem não apenas episódios isolados, mas um padrão estrutural de discriminação enraizado na sociedade brasileira. Para a socióloga Andreia Lima, a predominância dessas tradições entre os alvos de intolerância não é coincidência. “As religiões de matriz africana carregam um histórico de marginalização que remonta ao período escravocrata. Durante séculos, práticas culturais e religiosas de origem africana foram criminalizadas ou associadas a estigmas negativos, o que ainda reverbera no imaginário coletivo. Mesmo com avanços legais que garantem a liberdade religiosa, o preconceito persiste em formas explícitas e veladas”. Além disso, há um componente social e territorial relevante. Muitas casas de culto de Umbanda e Candomblé estão localizadas em áreas periféricas, o que as torna mais vulneráveis a ataques e menos protegidas pelo poder público. Ela ressalta que a desigualdade social agrava o problema. “Quando somamos racismo estrutural, desigualdade econômica e intolerância religiosa, temos um cenário em que determinados grupos ficam mais expostos à violência e têm mais dificuldade de acessar mecanismos de proteção e justiça”. Os tipos de ocorrências registradas no Disque Direitos Humanos variam desde agressões verbais e ameaças até depredação de espaços religiosos e violência física. Em muitos casos, as vítimas relatam medo de denunciar, o que indica que os números podem ser ainda maiores. “Existe uma subnotificação significativa, muitas pessoas não acreditam que haverá resposta efetiva ou temem represálias”, acrescenta. Diante desse cenário, especialistas defendem uma abordagem multifacetada para enfrentar a intolerância religiosa no Brasil. Há a necessidade de fortalecer a aplicação das leis já existentes. A Constituição Federal garante a liberdade de crença, e a legislação prevê punições para crimes de discriminação religiosa. No entanto, segundo o antropólogo Carlos Menezes, é preciso avançar na efetividade dessas normas. “Não basta ter leis, é fundamental que haja investigação adequada dos casos registrados, responsabilização dos agressores e principalmente apoio às vítimas”. No âmbito educacional, Menezes cita a inclusão de conteúdos sobre diversidade religiosa nos currículos escolares como uma medida essencial. “O combate ao preconceito começa na formação das novas gerações, precisamos ensinar desde cedo que o Brasil é um país plural, com múltiplas tradições religiosas que merecem respeito. Isso ajuda a desconstruir estigmas e a promover uma cultura de tolerância”. Já no campo social, iniciativas de diálogo inter- -religioso e campanhas de conscientização são apontadas como caminhos promissores. O antropólogo ressalta a importância de envolver diferentes setores da sociedade. “É necessário que líderes religiosos, organizações civis, mídia e poder público atuem juntos para combater narrativas de ódio e promover o respeito mútuo”. Na avaliação de Andreia, o fortalecimento de políticas públicas específicas para proteção de comunidades religiosas vulneráveis é necessário. Isso inclui desde a criação de canais mais acessíveis de denúncia até ações de segurança para templos e terreiros. “Garantir que esses espaços possam funcionar sem medo é uma questão de direitos humanos”.

Brasil pode somar 1,2 milhão de pessoas com doença de Parkinson em 2060

A doença de Parkinson, condição neurológica progressiva que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, ainda é cercada por dúvidas. Caracterizada principalmente por alterações motoras, como tremores e rigidez muscular, ela também impacta aspectos cognitivos e emocionais. Um levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), aponta que mais de 500 mil brasileiros com 50 anos ou mais convivem atualmente com a doença. As projeções, no entanto, indicam um crescimento expressivo nas próximas décadas: até 2060, esse contingente pode ultrapassar 1,2 milhão de pessoas. O estudo também revela que a maioria dos casos é identificada apenas em fases mais avançadas, o que sugere que os sinais iniciais da doença frequentemente não são reconhecidos ou acabam sendo ignorados. Segundo a neurologista Helena Duarte, o Parkinson tem origem complexa e multifatorial. “A doença está associada à degeneração de neurônios produtores de dopamina em uma região do cérebro chamada substância negra. A dopamina é fundamental para o controle dos movimentos, e sua redução causa os sintomas característicos”. Ela ressalta que fatores genéticos e ambientais podem contribuir para o desenvolvimento da doença, embora, na maioria dos casos, não haja uma causa única. Os sintomas vão muito além dos tremores, que são frequentemente vistos como sua principal marca. Helena destaca que “os primeiros sinais podem ser sutis, como diminuição do olfato, alterações no sono e uma leve lentidão nos movimentos. Com o tempo, surgem rigidez muscular, instabilidade postural e dificuldades na fala e na escrita”. Além disso, sintomas não motores, como depressão, ansiedade e comprometimento cognitivo, também são comuns e muitas vezes negligenciados. O diagnóstico ainda é essencialmente clínico, baseado na avaliação dos sintomas e no histórico do paciente. “Não existe um exame único que confirme o Parkinson de forma definitiva, os exames de imagem podem ser usados para descartar outras condições, mas a observação médica especializada continua sendo o principal instrumento diagnóstico”, explica. Essa realidade pode levar a atrasos na identificação da doença, especialmente em fases iniciais. Em relação ao tratamento, embora ainda não exista cura, há diversas abordagens capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes. O uso de medicamentos que aumentam ou substituem a dopamina é a base do tratamento. “A levodopa continua sendo o padrão ouro, mas hoje contamos com outras opções terapêuticas e até intervenções cirúrgicas, como a estimulação cerebral profunda, em casos selecionados”, explica o neurocirurgião Ricardo Tavares. Ele enfatiza também a importância de terapias complementares, como fisioterapia, fonoaudiologia. A prevenção do Parkinson ainda é um campo em desenvolvimento, mas estudos indicam que hábitos saudáveis podem reduzir riscos ou retardar o aparecimento dos sintomas. “Atividade física regular, alimentação equilibrada e estímulo cognitivo são aliados importantes para a saúde do cérebro”, afirma. Tavares ressalta que, para além dos aspectos médicos, muitos pacientes enfrentam preconceito e isolamento, principalmente devido às manifestações motoras visíveis. “É fundamental que a sociedade compreenda que o Parkinson não define a pessoa. É possível manter uma vida ativa e digna”. Campanhas de conscientização, acessibilidade em espaços públicos e políticas de inclusão no mercado de trabalho são algumas das medidas apontadas como essenciais para reduzir a marginalização. Além disso, o suporte familiar e comunitário desempenha papel crucial no bem- -estar dos pacientes. “O acolhimento faz toda a diferença. Quando a pessoa se sente compreendida, ela enfrenta a doença com mais autonomia e confiança”, conclui.

Excesso de mineração preocupa autoridades e comunidades

Durante a abertura da audiência pública promovida pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que aborda os episódios de extravasamento nas minas da Fábrica e da Viga, pertencentes à Vale, em Ouro Preto, bem como a falha registrada no Dique do Fraille, na Mina Casa de Pedra, operada pela CSN, em Congonhas, na região Central do Estado, a deputada Bella Gonçalves (PT) sintetizou. “Estamos falando de como podemos adaptar estruturas de mineração para o cenário de chuvas extremas”. De acordo com Sandoval Pinto Filho, diretor de Meio Ambiente e Saúde da União das Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccon), a atividade minerária ocupa cerca de 40% a 50% da área territorial do município de Congonhas, o que, segundo ele, transforma a região em uma “típica zona de sacrifício”. Filho afirmou que há episódios de intimidação dirigidos a pessoas que se mobilizam em defesa da vida. Também criticou a ausência de transparência e as barreiras que dificultam o engajamento da população. Além disso, mencionou problemas nos equipamentos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Os moradores das áreas de risco são sujeitos de direitos e não meros espectadores. Não queremos morar debaixo da lata de lixo da mineração”. “O pavor e o medo tomaram conta dos moradores. Nós nem sequer tínhamos acesso à informação, não sabíamos se a falha na drenagem era na mina, se era no dique. Todos são atingidos”, desabafou a moradora da Comunidade Santa Quitéria, em Congonhas, Aline Soares Marcos. Ela também atua como integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e mencionou ocorrências de problemas respiratórios, além do uso frequente de medicamentos ansiolíticos. “Sofremos diariamente com a poeira contaminando nossa saúde física e com o medo comprometendo nossa saúde mental”. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Extração de Ferro e Metais Básicos de Congonhas, Belo Vale e Ouro Preto, Rafael Ávila, ressaltou que, para além da exploração da mão de obra, marcada por demissões e ampliação das jornadas, as empresas provocam impactos negativos ao meio ambiente. “O trabalhador gera R$ 1 milhão de riquezas por ano e recebe em torno de 5% desse valor”. O sindicalista afirmou que a origem do problema está na relação entre o setor privado e o Estado. Como exemplos desse vínculo prejudicial, citou os incentivos fiscais concedidos e a flexibilização nos processos de licenciamento. “Temos que impor limites a esse sistema”. Na avaliação do secretário de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Congonhas, João Luis de Castro, é preciso estabelecer normas, em nível estadual e federal, para as pilhas de rejeitos e estéreis. Ele também destacou a necessidade de fortalecer a fiscalização dos sumps, estruturas auxiliares da mineração que atuam como pequenas bacias para captação de água e prevenção de alagamentos. Castro apontou ainda como avanço o acordo de reparação firmado entre a Prefeitura e a Vale em 13 de março. Pelo termo, a empresa deverá investir R$ 25 milhões na ampliação do Museu de Congonhas e R$ 200 milhões na construção de um hospital para tratar problemas de pele, respiratórios e de saúde mental relacionados à exposição a danos ambientais. O procurador da República e coordenador do Grupo de Trabalho Rio Doce do Ministério Público Federal, Eduardo Henrique Aguiar, alertou para a proximidade entre as estruturas que se romperam e a Barragem de Forquilha, considerada uma das maiores do mundo em área de mineração e classificada no nível 3 de emergência, o mais alto. No Brasil, apenas outra barragem se encontra nessa mesma condição, localizada em Itatiaiuçu, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Aguiar ressaltou a importância de revisar e atualizar os parâmetros meteorológicos diante dos impactos provocados pelas mudanças climáticas. “As barragens que existem não foram projetadas para suportar os novos volumes de chuvas que estão cada vez mais frequentes”. Segundo o procurador, o episódio da Mina da Viga serve como alerta para evitar o licenciamento fragmentado, que não considera os impactos acumulativos e integrados das atividades ao redor. Ele também enfatizou a necessidade urgente de modernizar a legislação, incluindo normas para a operação de outras estruturas de mineração, como cavas e sumps. “Essas estruturas precisam ter normas rígidas de segurança, não apenas as barragens”.

BH é reconhecida como “Cidade Árvore do Mundo” pelo terceiro ano seguido

Pelo terceiro ano seguido, Belo Horizonte foi reconhecida como “Cidade Árvore do Mundo” devido às diversas iniciativas ambientais implementadas recentemente. A capital permanece entre os municípios premiados pela Arbor Day Foundation e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), que atualmente inclui 283 cidades em 24 países. Em 2025, Belo Horizonte realizou mais de 50 mil plantios e lançou o Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU), desenvolvido com a participação da sociedade civil. O programa busca expandir e preservar a cobertura arbórea de forma planejada, combinando ações imediatas e estratégias de longo prazo, com manejo adequado, monitoramento constante e priorização de áreas estratégicas. Para 2026, a meta é repetir o volume de plantios alcançado no ano anterior. Para que uma cidade seja reconhecida, é necessário cumprir cinco critérios: possuir equipe técnica e servidores designados para gestão das árvores urbanas; manter políticas e regulamentações ambientais locais; ter mapeamento e conhecimento detalhado do patrimônio arbóreo; garantir recursos financeiros para o manejo; e promover datas ou eventos voltados à celebração das árvores. “Ser reconhecida como ‘Cidade Árvore do Mundo’ vai além de um selo ambiental. Significa compromisso com a qualidade de vida, sustentabilidade urbana e resiliência frente às mudanças climáticas. Árvores reduzem a poluição do ar, baixam a temperatura urbana e proporcionam sombra e bem-estar à população. Não se trata apenas de plantar árvores, trata-se de integrar a vegetação ao tecido urbano de forma planejada, garantindo sombra, qualidade do ar e absorção de água da chuva”, afirma a urbanista Michele Silveira. O impacto desse trabalho é sentido no cotidiano da população. Ela explica que árvores nas ruas e parques contribuem para a redução das temperaturas urbanas, atuando como “ares-condicionados naturais”; melhoram a qualidade do ar ao filtrar poluentes e partículas suspensas; contribuem para a gestão de águas pluviais, reduzindo alagamentos e erosão; além de proporcionar espaços de convivência mais agradáveis. “Quando caminhamos sob árvores, sentimos imediatamente um ambiente mais acolhedor e saudável. Isso influencia desde a nossa saúde física até o bem-estar psicológico”. Apesar dos avanços, o paisagista Leonardo Magalhães aponta desafios e áreas que demandam melhorias e investimentos mais robustos. Um dos pontos críticos é a manutenção e longevidade das árvores já plantadas, especialmente em bairros periféricos onde serviços públicos de poda, irrigação e cuidado mais intensivo ainda são insuficientes. “O grande obstáculo não é só plantar, mas garantir que essas árvores cresçam e cumpram seu papel por décadas, isso exige não apenas recursos, mas também uma gestão integrada entre secretarias, sociedade civil e comunidades locais”. Outro ponto de atenção é a desigualdade na distribuição da arborização pela cidade. Zonas centrais e bairros de maior poder aquisitivo tendem a ser mais arborizados, enquanto áreas periféricas ainda carecem de cobertura vegetal adequada, deixando seus moradores mais expostos ao calor e com menor acesso aos benefícios ambientais. Ele ressalta a importância de que a Prefeitura invista em projetos que priorizem essas regiões. A educação ambiental também aparece como um campo a ser fortalecido. “Embora a gestão já promova projetos de conscientização, muitos cidadãos ainda desconhecem aspectos importantes sobre o ciclo de vida das árvores, espécies adequadas a cada tipo de solo e clima, ou os cuidados durante períodos de seca ou fortes ventos”, explica Magalhães.