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Bolsonaro, nu e cru

No Brasil, os conceitos de políticas de Estado, de governo e de gestão pública são muito difusos e pouco compreendidos. Associado a isso, temos cerca de 35 partidos políticos, mas nenhum deles apresenta e representa uma ideologia clara e concreta.

Mesmo em meio a essa desinformação e confusão ideológica, nosso país já experimentou, em diversas fases históricas e estranhas, a dicotômica polarização política da sociedade. Cenário fértil para oportunismos de grupos – representados por seus protagonistas – venderem a ideia de que as soluções para um país como o Brasil se resumem a uma ideologia, e não à disposição ética, moral e intelectual de homens dotados de diversas virtudes e notável altruísmo; muito embora a história da humanidade demonstre que em todos, todos os modelos de governo, de políticas e de ideologias, existam exemplos de retumbante sucesso e equivalente fracasso.

O Brasil também nos dá exemplos disso em sua história moderna: no início do governo militar nosso país experimentou um enorme crescimento, comparado inclusive ao chinês, da mesma forma como experimentou enorme repressão aos direitos individuais, intolerância, extrema violência e ao final, forte recessão econômica, duramente acentuada no governo Sarney; com Collor, viveu as “belezas” da democracia, bem como a recessão e os escândalos de corrupção; no socialismo do governo tucano o país experimentou a estabilidade econômica, mas sentiu na pele uma das mais profundas desigualdades sociais, além do “ensurdecedor silêncio” do Ministério Público e das polícias na constitucional função de fiscalizar a administração pública; no governo do PT, o Brasil vivenciou a maior revolução social de sua história, no entanto, pagou caro com o grande desgaste e com os escândalos recentes de corrupção, além do estrondoso barulho do Ministério Público.

Hoje, nosso país vive uma sutil retomada da economia, mas se surpreende com a inesgotável desfaçatez do grupo que se esconde no superacessível Jaburu.

Infelizmente nosso sistema eleitoral pouco possibilita aos eleitores avaliarem a verdade sobre cada candidato que, na maioria das vezes, são manipulados por grupos motivados exclusivamente por seus próprios interesses, como é o caso do deputado Jair Bolsonaro (PSC). Não que Bolsonaro seja inadequado somente por representar a ala mais conservadora da sociedade, pois há momentos em que a nação precisa de freios, da mesma forma como há momentos em que necessita que se aliviem as rédeas e aumentem a velocidade e, de igual modo há momentos que se impõe inovar os caminhos. Não se trata de se opor às ideologias, mas sim às essências e propósitos.

Bolsonaro nasceu e iniciou sua carreira de militar paraquedista, na cidade de Campinas (SP) e sua trajetória política no Estado do Rio de Janeiro. Casou-se pela segunda vez sob as bênçãos do milionário/ultra-conservador/pastor Silas Malafaia. Bolsonaro é reconhecido e exposto pela mídia internacional como uma figura hostil, colecionador de desafetos e que dá provas de ignorância e truculência desde a juventude.

Fato comprobatório desse comportamento foi explicitado pelo seu superior no Exército Brasileiro, coronel Carlos Alfredo Pellegrino, quando emitiu um relatório sobre o paraquedista, dizendo que: “Bolsonaro apresentava comportamento agressivo contra seus subalternos, bem como falta de lógica, racionalidade e equilíbrio em suas argumentações”.

Bolsonaro sempre se mostrou um militar indisciplinado, foi preso em 1986 pelo Exército por publicar matéria contra os militares e, em 1988, por arquitetar e assumidamente planejar um protesto que previa a explosão dos banheiros em alguns quartéis militares. Abusando da contradição, hoje defende veementemente a ditadura militar e diz publicamente que o erro da ditadura no Brasil foi só torturar e não matar aqueles que dela discordavam, e arremata declarando que se eleito vai dar um golpe de estado e fechar o Congresso. Em seu entendimento, “a democracia é uma porcaria”.

Talvez, o candidato a presidente da República, seja um caso para estudo psiquiátrico. As falas dele demonstram isso. Sem a menor cerimônia ele diz que uma deputada que se opusesse a ditadura deveria ser estuprada; muito embora o Brasil seja um país, em sua maioria de negros, ele declara que considera promiscua a hipótese de um filho seu se relacionar com uma mulher negra; apesar de sermos quase todos descendentes indígenas, ele afirma que índio é fedorento, ignorante e deveria comer capim para retornar às origens; muito embora sejamos livres em relação às nossas crenças, ele pronuncia que o cristianismo deve imperar e que os demais entendimentos e crenças deveriam se curvar a ele. Sua “coerência” ideológica o fez passar pelos PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e, agora, é filiado ao PEN, que mudará seu nome para a arrogante, presunçosa e excludente marca: PATRIOTA.

Suas diversas, frequentes e absurdas declarações homofóbicas e racistas lhe proporcionam mídia espontânea além de inúmeras ações judiciais, Bolsonaro não oferece posições definidas ao longo de seus mandatos. Se declara um nacionalista devoto e vota pela entrega do pré-sal ao mercado. Diz que o livre mercado é a mãe da liberdade, muito embora tenha condenado o ex-presidente FHC pelas privatizações, dizendo que ele (o Tucano Mor) deveria ser fuzilado e ainda declara contraditoriamente que irá privatizar tudo que puder.

Apesar dos inflamados e midiáticos discursos contra a corrupção, Bolsonaro figura na lista de beneficiários de Joesley Batista e sua JBS, conforme publicação recente da Operação Carne Fraca. Demonstrando uma capacidade rara para os negócios, apenas entre 2010 e 2014 o patrimônio do paraquedista/deputado/pré-candidato a presidente teve crescimento de 140%, conforme sua própria declaração de IR apresentada à Receita Federal.

É indiscutível que alguns dos pré-requisitos básicos para um gestor público é a sensatez, coerência, experiência administrativa e o conhecimento profundo das necessidades da nação e, também, do cenário geopolítico e econômico mundial. Recentemente numa entrevista à TV Bandeirantes, Bolsonaro foi perguntado pelo jornalista qual sua posição sobre o déficit fiscal primário.

A resposta imediata refletiu seu “inegável preparo” para o cargo que pretende: “Isso eu preciso perguntar aos meus economistas” e, quando replicado pelo entrevistador de que esse é um dos maiores problemas da atualidade no Brasil, a réplica foi vergonhosamente evasiva, dando sinais claros de ser ele fruto da receita típica dos políticos oportunistas: populismo, desprovido de competência e inteligência.

Por mais desgastados e incrédulos que estejamos com nosso momento político, o Brasil não merece e não deve ser entregue a um desses oportunistas retóricos e insanos, que vazio de competências, de valores de si mesmo, se vale do sofrimento, do medo e da descrença da população para criar um cenário que lhe dê existência e justificativa. Isso não serve para o nosso país.

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