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Existe limite para o uso das redes sociais?

Que o Brasil é um país conectado todo mundo já sabe, cerca de 58% da população faz uso da internet. Com isso, cresce a cada dia o uso das mídias digitais. Atualmente, 102 milhões de brasileiros estão no Facebook, o número equivale a quase metade da sociedade. O Instagram tem 35 milhões de usuários e, por fim, estima-se que 76% dos assinantes móveis utilizam o WhatsApp.

Os dados são impressionantes e o nosso vício também. Na quarta, dia 3, o WhatsApp saiu do ar por aproximadamente uma hora. E várias pessoas usaram as redes para manifestar o descontentamento com o ocorrido. O psicólogo e mestre em análise do comportamento, Gustavo Teixeira, conversou com o Edição do Brasil sobre os motivos que levam a pessoa a criar tanta dependência desses meios. A pergunta que não quer calar é: afinal, quais são os limites?

Por que há tantas pessoas usando as redes sociais?
As mídias digitais possibilitam que o ser humano satisfaça duas necessidades básicas: a de se relacionar e a curiosidade. Isso porque ela facilita o contato com outras pessoas e sana a vontade que temos de saber o que se passa na vida do outro. Além disso, as redes trazem uma variedade enorme de assuntos e acesso a coisas divertidas, simples e que servem como entretenimento. A pessoa busca isso a fim de ter algum prazer imediato e fácil, muitas vezes, em detrimento de tarefas que ela faz ao longo do dia que são áridas, difíceis e que necessitam de um esforço para ser executada. E as redes sociais as distrai de tudo isso.

Quando a rede social deixa de ser um entretenimento e passa a ser uma necessidade? Qual é o limite?
Toda atividade humana que dá algum tipo de prazer traz também a possibilidade de excessos. Há aqueles que abusam do sexo, das compras, da comida etc. A rede social é uma atividade humana e traz essa probabilidade. O limite de uso é ultrapassado a partir do momento em que a pessoa deixa de fazer as coisas, como estudar, trabalhar para ficar conectado. Muitas vezes, a pessoa coloca em risco suas tarefas, se distrai no trabalho, vai mal em uma prova. Ela está sensível as consequências do uso que faz, tanto das redes sociais como de qualquer outra atividade.

Hoje, criou-se o hábito de publicar o cotidiano, às vezes, inclusive detalhes íntimos. O que leva a pessoa a fazer isso?
Isso é mais uma fonte de satisfação. Por exemplo, se eu fui a um show e publico isso, eu terei o prazer de ter ido ao evento e também o de ver as pessoas reconhecendo aquilo como algo interessante. E isso é para muitos uma característica que o faz ser admirável. A pessoa pode ser reconhecida por sua beleza, roupas, festas que foi, companhias, viagens etc. E ser admirado é, culturalmente, construído como algo que é fonte de prazer e a todo momento o ser humano busca se sentir bem.

No entanto, o caminho que o indivíduo busca para conseguir isso varia com o tempo, cultura e história de cada um. Após o surgimento das redes sociais, as pessoas utilizam esses espaços para conseguirem satisfações. Um exemplo disso é são os aplicativos de relacionamento, que torna tudo mais fácil e aumenta as possibilidades. Antigamente esses meios eram para os considerados desesperados e que não conseguiam se relacionar com ninguém. Agora não, até quem é considerado bacana, bonito e bem sucedido se relaciona usando essas mídias.

Para muitos, quanto mais popular nas redes sociais, melhor. Isso pode ser prejudicial de alguma forma? Por que elas agem assim?
Isso vai do repertório de cada um, de sua bagagem cultural e nível de sofisticação. Algumas pessoas gostam mais de um tipo de música do que outras, por exemplo. Isso está relacionado a essas situações e é o que acontece na vida geral. As mídias são uma amostra dos gostos e preferências que a pessoa tem na vida. Um ser muito requintado em vinhos, vai postar sobre isso e quem gosta vai curtir, assistir e compartilhar.

E a partir do momento em que a pessoa recebeu retorno daquilo, ela começa a exagerar. Se o indivíduo posta uma foto que teve muita visualização, ele vai postar mais, porque curtidas e seguidores é sinal de aprovação social. Então, de alguma forma, ele quer repetir isso só que, às vezes, não tem coisas interessantes para publicar e acaba publicando qualquer coisa.

Isso pode fazer com que as pessoas finjam ser o que não são?
Sim, até porque, de alguma forma, as redes sociais facilitam isso. Por exemplo, a pessoa vai a um casamento, se produz, coloca uma roupa bonita e tira umas fotos. Ela, geralmente, vai escolher aquela que ficou mais bonita, que o ângulo ficou melhor, que a luz ficou boa etc. Só que quando você a vê pessoalmente nota que ela é diferente do que aparenta na fotografia, simplesmente porque não vive assim todos os dias. Em alguma medida, são as personas. Tem um ditado que diz “não compare os seus bastidores com o palco de ninguém”. As mídias são como um palco, todos se mostram.

Essa dependência que as pessoas acabam criando podem ter consequência no convívio delas fora das redes sociais?
Muita. Com as redes sociais a vida ficou mais pública e facilitou muitos encontros, mas também gerou muitos conflitos. Alguns relacionamentos se iniciam por causa delas, mas outros tantos são desfeitos. Hoje, nós vemos brigas políticas, religiosas que terminam amizades, porque como a resposta é pública e quem vai ler não está frente a frente com quem escreve, a pessoa tende a ser mais rigorosa e agressiva. Isso acaba deixando todo mundo mais corajoso e menos sensível as consequências, porque qualquer coisa é só bloquear o outro. Só que isso gera uma repercussão na roda de amigos, trabalho, família etc. Mesmo porque as pessoas discutem pela internet e depois não querem conversar mais.

Outro ponto é que as mídias digitais acabam por ser um facilitador para saber as coisas, uma vez que tudo está público. A pessoa passa a ter cada detalhe de sua vida registrado. É mais fácil descobrir as mentiras. São questões complicadas, já que não podemos calcular quem vai ver o que postamos, vai curtir ou comentar e isso gera mais problemas para o convívio humano.

Natália Macedo
Belo-horizontina, 22 anos. Graduanda em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá, fez cursos de Consultoria de Imagem e Design de Moda. Há 3 anos criou um blog voltado para o público feminino. Interessada em assuntos relacionados à minoria, gosta de dar visibilidade as pequenas causas voltadas a inclusão e empoderamento destes nichos.