Dietas virais divulgadas nas redes sociais podem comprometer a saúde

Basta alguns minutos nas redes sociais para encontrar vídeos que prometem perder vários quilos em poucos dias. Jejum prolongado, corte de carboidratos, dietas “detox” e desafios alimentares fazem sucesso entre influenciadores e atraem milhares de pessoas em busca do corpo ideal. Apesar da popularidade, nutricionistas alertam que essas estratégias podem provocar prejuízos físicos e emocionais e ainda dificultar o emagrecimento no longo prazo. A promessa de resultados rápidos é um dos principais atrativos. “As dietas da moda chamam atenção porque garantem um resultado imediato. Elas são extremamente restritivas, cortam grupos alimentares ou impõem jejuns prolongados, algo que o nosso metabolismo não consegue sustentar por muito tempo”, afirma a nutricionista Priscila Rodrigues. “Na maioria das vezes, o peso eliminado não é gordura. O indivíduo desidrata, perde muita água e acredita que emagreceu. Depois, esse resultado não se mantém e ainda podem surgir compulsão alimentar, fraqueza e desnutrição”, acrescenta. A nutricionista clínica e esportiva, Ana Camila Mininel Liberador, destaca que dietas restritivas favorecem uma espécie de “desnutrição funcional”, causada pela falta de vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais. “Mesmo que o objetivo seja emagrecer, essa carência pode provocar cansaço, tonturas, redução da disposição e perda de massa muscular. Com menos músculos, o metabolismo desacelera e aumenta a chance de recuperar o peso perdido”. Outro problema frequente é a exclusão completa de grupos alimentares, segundo Ana Camila. “Os carboidratos são a principal fonte de energia do corpo e do cérebro. Já as gorduras boas participam da produção de hormônios, da absorção de vitaminas e da saúde cardiovascular. O maior risco está em transformar a alimentação em uma lista de proibições”. As restrições costumam prejudicar o comportamento alimentar. Segundo Priscila, quem elimina determinados alimentos passa a pensar neles o tempo todo. “Chega um momento em que o corpo pede energia e o cidadão acaba ‘chutando o balde’, comendo tudo o que vê pela frente. Depois vem a culpa, inicia outra restrição e esse ciclo se repete. Isso tem agravado muito a saúde mental”. Ela explica ainda que a fome emocional vai além da necessidade fisiológica. “A pessoa termina de almoçar e poucos minutos depois já procura um doce ou continua beliscando. Muitas vezes usa a comida para compensar felicidade, tristeza, ansiedade ou estresse. O chamado efeito sanfona também preocupa. Quando o organismo passa muito tempo ingerindo menos calorias do que precisa, entra em economia de energia. Isso pode gerar cansaço, irritação e metabolismo lento”. Ana Camila ressalta também que a perda de massa muscular agrava esse processo. “Mais importante do que emagrecer rapidamente é preservar os músculos, reduzir gordura de forma gradual e criar hábitos que possam ser mantidos por toda a vida”. “Uma dieta aparentemente inofensiva pode comprometer o controle da diabetes, da hipertensão ou de doenças renais. Além disso, sintomas como fraqueza, tonturas e falta de energia não devem ser encarados como parte normal do emagrecimento”, complementa. As duas especialistas defendem que a perda de peso seja acompanhada por um profissional. “Enquanto as dietas da moda oferecem uma receita genérica, a nutrição personalizada considera a saúde, a rotina e os objetivos de cada indivíduo”, afirma Ana Camila. Priscila reforça que investir em orientação especializada é mais vantajoso do que apostar em soluções milagrosas. “O nutricionista avalia exames, rotina, prática de atividade física e necessidades individuais. O que funciona para alguns não funciona para outros. A alimentação saudável continua sendo o caminho mais seguro para conquistar resultados duradouros e preservar a saúde”, conclui.
Julho Amarelo reforça a importância de prevenir as hepatites virais

Consideradas um importante problema de saúde pública, as hepatites virais podem evoluir de forma silenciosa durante anos, aumentando o risco de complicações graves, como cirrose e câncer de fígado. A campanha Julho Amarelo busca ampliar o conhecimento da população sobre as diferentes formas de transmissão, incentivar a realização de testes e reforçar que a doença pode ser tratada com sucesso. Elas são inflamações no fígado provocadas por diferentes vírus, classificados principalmente como hepatites A, B, C, D e E. Embora todas afetem o mesmo órgão, elas apresentam características distintas quanto à forma de transmissão, à gravidade e às possibilidades de prevenção e tratamento. Em muitos pacientes, especialmente nas B e C, a infecção pode não causar sintomas por um longo período, o que favorece a evolução silenciosa da doença. Segundo a hepatologista Mariana Almeida, “as hepatites A e E costumam ser transmitidas principalmente por água e alimentos contaminados, estando relacionadas às condições de saneamento e higiene. Já as hepatites B, C e D são transmitidas pelo contato com sangue contaminado e outros fluidos corporais, podendo ocorrer durante relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de seringas, materiais perfurocortantes ou, em alguns casos, da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto. A hepatite D depende da presença do vírus da hepatite B para infectar uma pessoa”. Ela explica que cada tipo da doença apresenta evolução diferente. “A hepatite A geralmente provoca uma infecção aguda, da qual a maioria das pessoas se recupera completamente. A hepatite E também costuma ser autolimitada, embora possa representar maior risco para gestantes. Já as hepatites B e C podem se tornar crônicas, permanecendo no organismo por décadas e aumentando significativamente o risco de cirrose, insuficiência hepática e carcinoma hepatocelular quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente”. Entre os principais sintomas das hepatites virais estão cansaço excessivo, febre, mal-estar, perda de apetite, náuseas, vômitos, dor abdominal, urina escura, fezes claras e pele e olhos amarelados, quadro conhecido como icterícia. Entretanto, os especialistas alertam que boa parte das infecções, principalmente pelas hepatites B e C, não apresenta manifestações clínicas nas fases iniciais. Por esse motivo, muitas pessoas descobrem a doença apenas durante exames de rotina ou quando surgem complicações decorrentes do comprometimento do fígado. O infectologista Marcelo Azevedo destaca que a falta de sintomas não significa ausência de danos ao organismo. “O vírus pode permanecer ativo por muitos anos, causando inflamação progressiva no fígado sem que o paciente perceba qualquer alteração. Isso reforça a necessidade de realizar testes, especialmente entre pessoas que apresentam fatores de risco ou que nunca fizeram o exame. O diagnóstico precoce permite iniciar o acompanhamento antes que ocorram lesões irreversíveis”. De acordo com Azevedo, o diagnóstico das hepatites virais é realizado por exames laboratoriais. “Eles estão disponíveis em diversos serviços públicos de saúde, permitem identificar as hepatites B e C em poucos minutos. Quando o resultado é reagente, testes complementares confirmam o diagnóstico, avaliam a atividade do vírus e o comprometimento do fígado. Também podem ser solicitados exames de sangue para avaliar a função hepática e exames de imagem”. A prevenção é uma das principais estratégias para reduzir as hepatites virais. “A vacinação contra as hepatites A e B, disponível no Programa Nacional de Imunizações, é a medida mais eficaz para evitar essas infecções. Como a hepatite D depende do vírus B, a vacina contra a hepatite B também oferece proteção indireta. Outras medidas incluem o uso de preservativos e a não reutilização ou compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas, alicates de unha e materiais para tatuagens ou piercings sem esterilização adequada”, explica o infectologista.
Síndrome do olho seco é frequente no inverno e exige atenção

Com a chegada do inverno, cresce também a preocupação de especialistas em saúde ocular com uma condição frequentemente subestimada, mas cada vez mais comum na população urbana: a síndrome do olho seco. É nesse contexto que o mês de julho passa a ser associado à campanha Julho Turquesa, uma iniciativa voltada à prevenção, diagnóstico e tratamento dessa doença que afeta a qualidade de vida de milhões de pessoas. A síndrome do olho seco ocorre quando há uma instabilidade ou insuficiência do filme lacrimal, responsável por manter a superfície ocular lubrificada. Essa deficiência pode acontecer tanto pela baixa produção de lágrimas quanto pela evaporação excessiva delas. Entre os sinais mais comuns estão ardor, sensação de areia nos olhos, vermelhidão, coceira, visão embaçada e lacrimejamento paradoxal, quando o olho produz lágrimas em excesso como resposta à irritação. A oftalmologista Helena Monteiro explica que o aumento dos casos durante o inverno não é coincidência. “No frio, o ar tende a ficar mais seco e as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados, muitas vezes com aquecedores ou ar-condicionado, que reduzem ainda mais a umidade do ambiente. Isso acelera a evaporação da lágrima e agrava os sintomas do olho seco, além disso, o uso prolongado de telas faz com que o paciente pisque menos, o que compromete a distribuição lacrimal”. O diagnóstico da síndrome do olho seco é clínico, baseado na avaliação dos sintomas relatados pelo paciente e em exames oftalmológicos específicos. “Entre os testes mais utilizados estão a avaliação do tempo de ruptura do filme lacrimal, a coloração da superfície ocular com corantes especiais e o teste de Schirmer, que mede a produção de lágrimas. Em muitos casos, o diagnóstico precoce é essencial para evitar complicações como inflamações crônicas da córnea e até lesões na superfície ocular”, completa. Na avaliação do oftalmologista Renato Ferreira, não ignorar os sinais iniciais é muito importante. “Muita gente acha que olho seco é apenas um desconforto passageiro, mas estamos falando de uma condição inflamatória crônica. Se não tratada, ela pode impactar significativamente a visão e a qualidade de vida, o paciente começa a evitar leitura, uso de computador e até atividades ao ar livre por conta do incômodo”. O tratamento da síndrome do olho seco varia conforme a gravidade do quadro. Nos casos leves, o uso de lágrimas artificiais é geralmente suficiente para aliviar os sintomas e restaurar o equilíbrio do filme lacrimal. Já em situações mais moderadas ou graves, podem ser indicados colírios anti-inflamatórios, suplementação com ácidos graxos, terapias para estimular a produção lacrimal e procedimentos para oclusão dos pontos lacrimais, que reduzem a drenagem das lágrimas e prolongam sua permanência na superfície ocular. Segundo Ferreira, a adesão ao tratamento é um dos maiores desafios. “Como os sintomas podem oscilar, muitos pacientes abandonam o processo quando se sentem melhor, mas o olho seco exige acompanhamento contínuo. A regularidade no uso dos colírios e a mudança de hábitos são tão importantes quanto a medicação”. Quando se fala em prevenção, pequenas mudanças na rotina podem fazer grande diferença. Os especialistas recomendam pausas regulares durante o uso de telas, seguindo a regra 20-20-20, a cada 20 minutos, olhar para algo a 20 pés de distância (cerca de seis metros) por pelo menos 20 segundos, além de piscar conscientemente com mais frequência. A hidratação adequada do corpo, o uso de umidificadores de ar em ambientes secos e a proteção contra vento frio também são medidas importantes, durante o inverno. Ele reforça ainda o impacto do estilo de vida moderno no aumento dos casos. “O olho seco deixou de ser uma condição exclusiva de idosos. Hoje vemos muitos jovens e adultos com os sintomas, principalmente por causa do uso intenso de smartphones, computadores e ambientes com ar-condicionado. O Julho Turquesa é importante justamente para alertar que esse problema está mais perto do que se imagina”.
Dor nas pernas nem sempre está associada a problema no nervo ciático

Sentir uma dor que percorre a perna costuma ser motivo suficiente para muitas pessoas associarem o problema ao nervo ciático. Embora a ciática seja uma das causas mais conhecidas desse tipo de desconforto, dores musculares, tendinites e até alterações vasculares podem provocar sintomas parecidos. A semelhança entre os quadros faz com que muitos pacientes iniciem tratamentos inadequados, prolongando o sofrimento e retardando a recuperação. Segundo o fisioterapeuta e osteopata Laudelino Risso, a principal diferença está na forma como o incômodo se manifesta. “Uma dor filiforme do nervo vai pegar todo o trajeto do nervo. Já a dor muscular é difusa e afeta uma área mais ampla”. A chamada dor ciática acontece quando o nervo ciático sofre algum tipo de compressão, geralmente causada por problemas na coluna, como hérnia de disco ou estenose vertebral. Nesses casos, o desconforto costuma seguir um trajeto específico, irradiando da região lombar para os glúteos, a coxa, a panturrilha e, em alguns casos, até os pés. Já os quadros musculares apresentam características distintas. Além de serem mais espalhados, costumam piorar quando a musculatura afetada é exigida durante movimentos do dia a dia. “A dor muscular normalmente se agrava no movimento quando aquele músculo é acionado. O nervo fica constante. É uma posição que causa grande alívio”, afirma Risso. Semelhanças que confundem A confusão ocorre porque algumas estruturas musculares podem reproduzir sinais muito parecidos com os da ciática. Entre elas estão os músculos glúteo médio, glúteo mínimo, piriforme e tensor da fáscia lata, além de tendões da região posterior da coxa. “Dores musculares descem pela perna, bem como também a dor nervosa e outras alterações vasculares também podem gerar dores no local”, destaca o especialista. Uma das condições que mais gera dúvidas é a síndrome do piriforme. Nela, um músculo localizado na região glútea pode comprimir o nervo ciático e provocar sintomas semelhantes aos de uma ciatalgia. Segundo Risso, existem diferenças importantes. “Uma ciática que pode trazer compressão no nervo por tensão da musculatura é uma patologia de variação anatômica mais rara, chamada Síndrome do Piriforme, mas provoca uma dor somente no posterior da coxa, não descendo para a região da panturrilha ou pés”. Perigo da automedicação Na tentativa de aliviar o desconforto, muitas pessoas recorrem a massagens, compressas quentes ou pomadas sem saber exatamente qual é a origem do problema. O fisioterapeuta alerta que, embora essas medidas possam ajudar em alguns casos, nem sempre são totalmente indicadas. “Uma dor muscular pode ter um componente de contratura, onde compressas e massagens costumam trazer bom auxílio para o alívio dos sintomas. Às vezes, o músculo está gerando processos de tendinites, onde o calor e a massagem podem agravar o caso mesmo sendo muscular”. Outro grande fator dificultante do diagnóstico é que alterações nervosas e musculares podem ocorrer simultaneamente. Segundo o osteopata, uma compressão do nervo ciático pode enfraquecer a musculatura ao longo do tempo, favorecendo inflamações e sobrecargas. “Muitas vezes o nervo gera uma compressão e faz com que o músculo gere uma hipotonia e fragilidade muscular”. “A escolha de um profissional especializado vai fazer muita diferença para o diagnóstico e encaminhamento para o devido tratamento”, finaliza.
Nove em cada dez mortes de gestantes são evitáveis no Brasil

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em 2024, foram registrados 1.347 óbitos de gestantes, sendo que a maioria dessas mortes, nove em cada dez, era evitável. De acordo com os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus), consultados no Observatório da Saúde Pública da Umane, a Razão de Morte Materna (RMM) no país é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos. Conforme o Ministério da Saúde, as quatro principais causas de óbito materno no Brasil, entre as obstétricas diretas, são as síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações do aborto. Esses motivos são responsáveis por 66% das mortes de gestantes no país. O ginecologista e obstetra da Unimed-BH, Marcos Roberto Taveira, esclarece que diagnóstico tardio pode contribuir para um desfecho desfavorável. “E para melhorar essa situação, é preciso criar protocolos assistenciais bem rigorosos e de atendimento no tempo mais curto possível”. Ele acredita que as altas taxas de mortalidade materna no Brasil possuem alguns fatores. “Um deles é a qualidade de assistência para o pré-natal, que oscila muito nas populações mais carentes. Outra questão é o alto índice de cesarianas realizadas no país. Somos um dos campeões mundiais e isso eleva a taxa de complicações com hemorragia, infecções e intercorrências cirúrgicas”. “Além disso, há um grande volume de consultas médicas que os profissionais de saúde precisam atender atualmente. São atendimentos agendados entre 15 e 20 minutos, e, às vezes, o tempo não é o suficiente para avaliar a gestante e nem mesmo escutar de forma adequada. Também podemos citar a estrutura das unidades primárias e secundárias de saúde, e seguir mais fielmente os protocolos existentes nos níveis municipal, estadual e federal”, acrescenta. A reportagem entrou em contato com o Ministério da Saúde para ter um posicionamento sobre o tema, mas não obtivemos resposta até o fechamento da edição. Mais suporte O enfermeiro obstétrico, Renné Costa, ressalta que além dos médicos, uma equipe de diferentes profissionais é importante para garantir o atendimento adequado às mulheres. “Precisamos acreditar muito na multidisciplinaridade das profissões. Cada um fazendo o seu papel, mas todo mundo centrado nos objetivos que são a mãe e o bebê”. Taveira destaca ainda que para melhorar esses índices, é necessário investir na capacitação das equipes dos hospitais para estarem aptos a atender a gestante de risco. “Com protocolos bem definidos e treinamentos técnicos que são fundamentais para melhorar a assistência. E também que as maternidades estejam com seu parque tecnológico atualizado o máximo possível”. Para o ginecologista, é preciso maior suporte do governo na esfera municipal, estadual e federal para as unidades básicas, secundárias e terciárias de saúde pública. “Isso vai garantir que elas tenham cada vez mais uma proximidade de recurso com relação ao serviço privado”. “Acredito que no nível terciário é um pouco melhor, porém, os níveis secundários e primários, às vezes, faltam recursos, como insumos e profissionais capacitados. Melhorar a estrutura das equipes multiprofissionais, em todos os níveis, com certeza, vai impactar na mortalidade materna”, finaliza. Meta brasileira A meta do país é chegar a 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030. No âmbito federal, em 2024, o governo lançou programa para reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027. Em relação a mulheres pretas, a intenção é reduzir a mortalidade em 50% no mesmo período. Chamado de Rede Alyne, a iniciativa é uma reestruturação da antiga Rede Cegonha, de cuidados a gestantes e bebês na rede pública. O programa homenageia a jovem negra Alyne Pimentel, que morreu aos 28 anos, grávida de seis meses, por falta de atendimento adequado. O objetivo do projeto é beneficiar mulheres com cuidado humanizado e integral, observando as desigualdades étnico-raciais e regionais.
Uso inadequado de hormônios é prática que pode ser fatal

A morte do fisiculturista e influenciador brasileiro Gabriel Ganley, aos 22 anos, provocou comoção nas redes sociais e reacendeu um debate delicado dentro do universo do fisiculturismo: os limites do corpo humano diante do uso intenso de hormônios e substâncias para ganho de massa muscular. Informações divulgadas pela imprensa apontam que exames preliminares indicaram cardiomiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. Embora a causa definitiva ainda dependa da conclusão dos laudos periciais, a morte do jovem atleta colocou novamente em evidência um problema antigo e crescente no meio esportivo, o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento e até insulina por praticantes de fisiculturismo, inclusive entre jovens que buscam resultados rápidos para ganhar espaço nas redes sociais e nas competições. O endocrinologista Gilberto Assunção explica que os anabolizantes são usados no fisiculturismo porque aceleram processos fisiológicos ligados ao ganho de massa muscular e à recuperação física. “Esses hormônios aumentam a síntese proteica e permitem que o atleta treine mais pesado e com menor tempo de recuperação. O problema é que alguns utilizam doses muito superiores às terapêuticas e combinam várias substâncias ao mesmo tempo, sem qualquer controle médico”. Segundo o especialista, o uso contínuo desses compostos pode provocar uma série de alterações graves no organismo. Entre elas estão hipertensão arterial, aumento do colesterol ruim, sobrecarga do fígado, infertilidade, alterações psiquiátricas e crescimento anormal do músculo cardíaco. “Muitos atletas enxergam apenas o ganho estético imediato, mas ignoram que o coração também é um músculo e sofre impacto direto. Em casos extremos, podem ocorrer arritmias, infarto e morte súbita”. Nos últimos anos, outro hormônio passou a chamar atenção no universo da musculação extrema: a insulina. Medicamento essencial para pessoas com diabetes, ela vem sendo usada ilegalmente por atletas para potencializar o ganho muscular. A substância ajuda a transportar glicose e nutrientes para dentro das células, aumentando a capacidade de recuperação e crescimento dos músculos. “O problema é que seu uso inadequado pode causar hipoglicemia severa, uma queda abrupta dos níveis de açúcar no sangue, levando a desmaios, convulsões, coma e até morte”, alerta Assunção. A nutricionista Cristina Souza afirma que muitos jovens acabam influenciados por conteúdos publicados nas redes sociais sem compreender os riscos envolvidos. “Existe uma romantização do corpo extremo. O adolescente vê um influenciador musculoso, com milhões de seguidores, carros, contratos e fama, e acredita que aquilo é apenas resultado de treino e disciplina. Poucos falam sobre as substâncias usadas nos bastidores e, principalmente, sobre as consequências”. Cristina explica que o uso de insulina por pessoas não diabéticas representa um dos cenários mais perigosos da atualidade no fisiculturismo. “A insulina pode derrubar rapidamente a glicemia. Se o atleta erra a dose ou não faz a ingestão correta de carboidratos, ele pode perder a consciência em minutos. É uma prática extremamente arriscada e que, infelizmente, vem sendo banalizada em fóruns e grupos clandestinos da internet”. Ela destaca que o crescimento das redes sociais intensificou a pressão estética e aumentou a busca por resultados rápidos. “Influenciadores fitness transformaram o corpo musculoso em símbolo de sucesso e reconhecimento, enquanto jovens cada vez mais cedo passam a consumir conteúdos sobre ‘ciclos’, ‘bulking’ e protocolos hormonais sem orientação profissional. Em muitos casos, adolescentes têm acesso facilitado a substâncias ilegais vendidas pela internet ou em academias”. Para Assunção, o combate ao problema exige uma combinação de informação, fiscalização e educação. “Não basta apenas proibir. É necessário explicar, desde cedo, como essas substâncias afetam o organismo. Muitos jovens acreditam que são invencíveis e que os efeitos colaterais só acontecem com os outros. A conscientização precisa começar nas escolas, academias e dentro da própria família”.
Novas diretrizes reforçam tratamento da fibromialgia no país

A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) publicou novas diretrizes para o tratamento da fibromialgia no Brasil, atualizando recomendações que estavam em vigor desde 2010. O documento traz evidências científicas recentes e reforça a importância do acompanhamento contínuo, do uso racional de medicamentos e das abordagens não farmacológicas para o cuidado aos pacientes. A fibromialgia afeta entre 2,5% e 3% da população brasileira e é caracterizada por dor crônica generalizada, fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas e impactos significativos na qualidade de vida. Segundo a SBR, o manejo da doença exige uma atuação interdisciplinar, envolvendo médicos, fisioterapeutas, psicólogos e educadores físicos. O presidente da SBR, José Eduardo Martinez, explica que a atualização era necessária diante do avanço das pesquisas sobre a síndrome. “As últimas recomendações já eram antigas e muita literatura internacional e nacional foi publicada desde que o nosso consenso foi apresentado. Havia a necessidade dessa atualização”. De acordo com o especialista, embora não tenham ocorrido mudanças radicais no tratamento, as novas diretrizes reforçam medidas consideradas fundamentais. “Educação em saúde e exercícios físicos são os pilares do tratamento. Estudo após estudo aponta que as abordagens não farmacológicas são as mais eficazes”. Entre as recomendações com maior nível de evidência científica estão programas de exercícios aeróbicos e fortalecimento muscular, terapias psicológicas, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), além de práticas complementares como acupuntura e Tai Chi Chuan. As diretrizes também passam a incluir com mais força técnicas de estimulação transcraniana para controle da dor. “Nós temos uma literatura suficiente para recomendar modalidades que combinam exercício físico e também combate ao estresse, como o Tai Chi Chuan, que vem aparecendo de forma evidente nos estudos”, explicou Martinez. Outro destaque do documento é a recomendação do uso de instrumentos padronizados para monitorar a evolução clínica dos pacientes, como o Revised Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQR) e o Fibromyalgia Survey Questionnaire (FSQ). Segundo analisa o presidente da SBR, essas ferramentas ajudam a fazer uma avaliação se o paciente está melhorando, piorando ou permanecendo estável ao longo de todo o tratamento. Remédios As novas diretrizes também fazem alertas importantes sobre medicamentos frequentemente utilizados sem respaldo científico. Conforme Martinez, o documento não recomenda o uso rotineiro de opioides, anti-inflamatórios, benzodiazepínicos e canabinoides para o tratamento da fibromialgia. “Os opioides não só não têm eficácia como trazem efeitos colaterais significativos, como risco de dependência, problemas psiquiátricos e risco de quedas em idosos”, ressalta. Sobre os canabinoides, o médico afirma que ainda faltam evidências conclusivas. “Os estudos científicos são conflitantes. Alguns mostram benefício, outros não. Ainda não há dados para que se recomende o uso dos canabinoides”. A SBR também tenta combater informações incorretas sobre a doença. O presidente da entidade reforça que a fibromialgia não é uma doença autoimune nem puramente emocional. “Ela pode ser influenciada por questões emocionais, mas não é uma doença inflamatória”, conclui.
Dormir poucas horas pode impactar a saúde dos adolescentes

Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA, conduzida com 120 mil jovens, apontou que 76,8% dos adolescentes apresentam privação de sono, dormindo sete horas ou menos por noite. O levantamento também mostrou que cerca de 25% descansam somente cinco horas diariamente. No Brasil, informações da Fundação Oswaldo Cruz indicam que aproximadamente metade dos jovens não alcança a quantidade mínima de sono recomendada. A privação de sono entre adolescentes tem sido associada a uma série de problemas de saúde e dificuldades no cotidiano. Alterações de humor, dificuldade de concentração, baixo rendimento escolar, ansiedade e aumento do risco de doenças cardiovasculares estão entre as consequências mais comuns. Além disso, o uso excessivo de telas e a rotina intensa de estudos e atividades extracurriculares aparecem como alguns dos principais fatores responsáveis pela redução das horas de descanso. Para a neurologista Helena Duarte, o organismo dos adolescentes sofre impactos profundos quando o descanso adequado deixa de fazer parte da rotina. “O sono é um processo biológico essencial para a consolidação da memória, para o equilíbrio hormonal e para a recuperação do corpo. Quando um jovem dorme menos do que precisa, ele passa a apresentar sinais claros de desgaste físico e mental, mesmo que não perceba”. Segundo a médica, a privação contínua de sono interfere diretamente na capacidade de aprendizado. “Muitos adolescentes acreditam que estudar até tarde da noite melhora o desempenho escolar, mas ocorre o contrário. Sem dormir adequadamente, o cérebro perde eficiência na retenção de informações, na criatividade e na capacidade de resolver problemas”. Além dos prejuízos cognitivos, os impactos emocionais também chamam atenção. A irritabilidade e a dificuldade em lidar com frustrações tendem a aumentar em jovens que dormem pouco. “Existe uma relação forte entre privação de sono e transtornos emocionais, como ansiedade e depressão. O cérebro cansado reage de forma mais intensa aos estímulos negativos do cotidiano”, destaca Helena. Outro ponto de preocupação é o risco de acidentes. Jovens sonolentos apresentam mais dificuldade de atenção no trânsito, em atividades físicas e até em tarefas simples do dia a dia. “O déficit de sono reduz os reflexos e a capacidade de tomar decisões rápidas. Isso pode representar um perigo para adolescentes que já dirigem ou utilizam motocicletas”. A psicóloga Lara Fagundes, avalia que a rotina contemporânea tem contribuído diretamente para o problema. “Os adolescentes vivem hoje em um ambiente de hiperconexão. Muitos passam horas nas redes sociais, jogando on-line ou assistindo vídeos até de madrugada. O celular se tornou um dos principais responsáveis pela redução das horas de sono”. Existe ainda uma pressão social relacionada à produtividade, relata Laura. “Há jovens que acumulam escola, cursos, atividades físicas e responsabilidades familiares. Em meio a tantas exigências, o sono acaba sendo visto como algo secundário”, explica. A especialista também ressalta que muitos adolescentes enfrentam dificuldades emocionais silenciosas, o que pode agravar a insônia. “Ansiedade relacionada ao futuro, pressão estética e comparações nas redes sociais fazem com que muitos tenham dificuldade para relaxar antes de dormir”. Ela alerta que mudar esse cenário exige uma mudança nos hábitos diários. Entre as recomendações está estabelecer horários fixos para dormir e acordar, inclusive aos fins de semana. “O cérebro funciona melhor quando existe regularidade. Dormir cada dia em um horário diferente dificulta a produção adequada de melatonina, hormônio responsável pelo sono”. Helena destaca que o uso excessivo de celulares, tablets e computadores antes de dormir prejudica a qualidade do sono, já que a luz das telas reduz a sensação de cansaço e mantém o cérebro em estado de alerta. A recomendação é evitar aparelhos eletrônicos uma hora antes de deitar. Hábitos como consumir café, energéticos e refeições pesadas à noite também podem atrapalhar o descanso. Manter o quarto escuro, silencioso e confortável, e praticar exercícios físicos regulares, ajuda o organismo a relaxar e melhora a qualidade do sono.
Onicofagia: quando o hábito de roer unhas vira um transtorno

A onicofagia, termo médico utilizado para descrever o hábito compulsivo de roer unhas, é frequentemente tratada como um comportamento simples ou um vício sem maiores consequências. No entanto, especialistas alertam que o problema pode estar associado a transtornos emocionais, ansiedade e até dificuldades de regulação emocional, afetando não apenas a saúde física, mas também a autoestima e a vida social de quem convive com a condição. Embora seja mais comum na infância e na adolescência, o hábito pode persistir na vida adulta e, em casos mais graves, exigir acompanhamento psicológico e psiquiátrico. De acordo com um estudo publicado na revista científica National Library of Medicine, 20% a 30% da população mundial, em todas as faixas etárias, roem as unhas. O comportamento costuma surgir de forma aparentemente inofensiva, muitas vezes em momentos de tensão, preocupação ou tédio, mas pode evoluir para episódios repetitivos e difíceis de controlar. As consequências incluem deformações nas unhas, infecções bacterianas e danos aos dentes. A psicóloga Lara Fagundes explica que a onicofagia está diretamente relacionada ao modo como o cérebro responde ao estresse. “Roer as unhas funciona, para muitas pessoas, como uma válvula de escape emocional. O ato produz uma sensação momentânea de alívio e ajuda a descarregar tensão acumulada. O problema é que o cérebro passa a associar esse comportamento ao conforto emocional, criando um ciclo repetitivo”. Embora a ansiedade seja um dos fatores mais comuns associados ao problema, ela não é a única causa. “Existem pacientes que desenvolvem o hábito por imitação durante a infância, enquanto outros apresentam a condição ligada a transtornos obsessivo-compulsivos, hiperatividade ou dificuldades emocionais mais profundas. Em muitos casos, a pessoa nem percebe que está roendo as unhas, porque o comportamento se torna automático”, afirma Lara. O diagnóstico da onicofagia é clínico e geralmente realizado por psicólogos, psiquiatras ou dermatologistas. A avaliação considera a frequência do comportamento, o grau de lesão provocado nas unhas e o impacto emocional causado pela compulsão. Em situações mais graves, o hábito pode provocar sangramentos constantes, dores e infecções recorrentes. A dermatologista Helena Moura destaca que o problema vai muito além da questão de estética. “As unhas funcionam como uma barreira de proteção natural do corpo. Quando a pessoa rói constantemente essa estrutura, abre portas para fungos, bactérias e inflamações. Também há alguns riscos odontológicos importantes, como desgaste dos dentes, retração gengival e alterações na mordida”. Entre os principais sintomas observados em pacientes com onicofagia estão unhas muito curtas, deformadas ou irregulares, feridas ao redor dos dedos, cutículas machucadas e sensação frequente de culpa após os episódios compulsivos. Muitos pacientes relatam vergonha de mostrar as mãos em ambientes sociais ou profissionais, o que pode agravar quadros de insegurança e isolamento. “O sofrimento emocional costuma ser silencioso, segundo Lara. “Há pessoas que tendem a esconder as mãos o tempo todo ou evitam interações sociais por vergonha do estado das unhas. Isso afeta a autoestima e pode gerar um impacto psicológico significativo”. Especialistas ressaltam que a onicofagia não deve ser encarada apenas como falta de disciplina ou “mania”. O comportamento compulsivo possui componentes emocionais complexos e, em determinados casos, está relacionado a transtornos de ansiedade e depressão. O tratamento varia conforme a intensidade do quadro e as causas associadas. Helena explica que existem ainda recursos complementares usados para reduzir o impulso compulsivo. “Muitos pacientes se beneficiam do uso de bases com sabor amargo aplicadas nas unhas, além de cuidados estéticos que ajudam a preservar a aparência das mãos e reforçam a motivação para abandonar o hábito. Em situações mais severas, pode haver indicação de medicamentos para controle da ansiedade, sempre com acompanhamento médico”. A família também desempenha papel importante no tratamento, principalmente quando a onicofagia aparece na infância. Especialistas alertam que punições e críticas excessivas tendem a aumentar a ansiedade da criança, piorando o comportamento.
60% das mortes por câncer de testículo são em homens jovens

Embora seja considerado um tumor raro, o câncer de testículo tem impacto desproporcional entre homens jovens no Brasil. Um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com base em dados do Ministério da Saúde, revela que 61,67% das mortes pela doença em 2024 ocorreram entre homens de 20 a 39 anos. Ao todo, foram registrados 527 óbitos no período, sendo que mais de 76% atingiram pacientes com até 49 anos. Os números reforçam uma característica marcante da doença. Sua maior incidência está justamente na faixa etária mais produtiva da vida. De acordo com o cirurgião oncológico Renato Almeida Rosa de Oliveira, esse padrão acompanha o comportamento natural do tumor. “É uma doença típica de homens jovens, geralmente entre o fim da adolescência e os 40 anos. Por isso, a mortalidade acaba acompanhando essa mesma faixa etária”. Apesar do impacto, Oliveira destaca que o câncer de testículo apresenta altas taxas de cura, especialmente quando diagnosticado precocemente. Ainda assim, o atraso na busca por atendimento médico segue como um dos principais desafios. “A descoberta na fase inicial está diretamente relacionada à maior chance de cura. O que leva ao diagnóstico tardio é negligenciar alterações no testículo, seja por medo ou preconceito”. Entre os principais sinais de alerta estão o aparecimento de nódulos endurecidos, aumento do volume testicular e mudanças na consistência do órgão, geralmente sem dor. “A maioria das alterações relacionadas ao câncer não dói, e isso pode fazer com que o paciente demore a procurar ajuda”, ressalta o médico. Autocuidado é importante Nesse contexto, o autoexame surge como uma ferramenta essencial. A recomendação de Oliveira é que homens, especialmente a partir da adolescência, conheçam o próprio corpo e observem possíveis mudanças. “Apalpar os testículos durante o banho, identificar o que é normal e perceber alterações pode fazer toda a diferença. Muitas vezes não é nada, mas quando é, pode ser o fator decisivo para um diagnóstico precoce”. Outro ponto de atenção na avaliação do cirurgião oncológico envolve barreiras culturais. Vergonha, desinformação e até o receio de julgamento ainda dificultam que jovens relatem sintomas ou procurem atendimento. “Muitos associam alterações a traumas ou infecções e evitam falar sobre o assunto. Isso atrasa a investigação e o início do tratamento”, completa. Avanços recentes na medicina têm permitido abordagens mais eficazes e menos agressivas. Oliveira destaca que a cirurgia para retirada do testículo afetado (orquiectomia) segue como tratamento inicial padrão, mas novas estratégias têm reduzido a necessidade de quimioterapia em determinados casos. “Hoje, em algumas situações, é possível apenas observar o paciente após a cirurgia, evitando efeitos colaterais desnecessários”. Além disso, técnicas minimamente invasivas, como cirurgias laparoscópicas e robóticas, têm contribuído para preservar funções importantes, como a ejaculação. A preservação da fertilidade também ganhou destaque no cuidado com esses pacientes. “Antes de iniciar o tratamento, orientamos o congelamento de sêmen, já que alguns procedimentos comprometem a fertilidade”, finaliza Oliveira.