Psoríase: doença crônica vai além da pele e exige acompanhamento

Vermelhidão, descamação, coceira e lesões que podem aparecer em diferentes partes do corpo são alguns dos sinais mais conhecidos da psoríase, uma doença inflamatória crônica que afeta milhões de pessoas no Brasil. De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a estimativa é de que entre 3 milhões e 5 milhões de brasileiros convivam com a doença, o número mais recente divulgado pela entidade mantém essa faixa de estimativa e reforça a dimensão do problema no país. A psoríase ocorre quando o sistema imunológico passa a atuar de maneira inadequada, provocando uma inflamação que acelera a renovação das células da pele. A causa exata ainda não é completamente conhecida, mas fatores genéticos e imunológicos têm papel importante. Pessoas com familiares que apresentam a doença possuem maior risco de desenvolvê-la, ao mesmo tempo, determinados fatores ambientais e comportamentais podem funcionar como gatilhos, como estresse, infecções, lesões na pele, clima frio e seco, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Alguns medicamentos também podem desencadear ou agravar crises em determinadas pessoas. “É importante entender que a psoríase não é simplesmente um problema superficial da pele, trata-se de uma doença inflamatória relacionada ao funcionamento do sistema imunológico, que pode apresentar períodos de melhora e de piora. O paciente pode ter uma predisposição genética e, diante de determinados gatilhos, desenvolver ou agravar as lesões”, explica a dermatologista Helena Moura. As manifestações variam de acordo com o tipo de psoríase e a região atingida, afirma Helena. “A forma mais comum é a psoríase em placas, caracterizada por áreas elevadas, espessas e avermelhadas, geralmente cobertas por escamas esbranquiçadas. Cotovelos, joelhos e couro cabeludo estão entre os locais frequentemente afetados, mas as lesões podem aparecer em outras regiões, inclusive nas unhas. Coceira, ressecamento e desconforto também podem ocorrer, em alguns casos, a doença ultrapassa a pele e provoca inflamação nas articulações, condição conhecida como artrite psoriásica”. O tratamento depende da extensão e da gravidade do quadro. Nos casos leves, podem ser indicados medicamentos de uso tópico, como cremes, pomadas e loções com ação anti-inflamatória. Quando a doença é mais extensa ou não responde adequadamente às terapias locais, o dermatologista pode recomendar fototerapia ou medicamentos sistêmicos, administrados por via oral ou injetável. “O objetivo do tratamento não é apenas deixar a pele com uma aparência melhor. É controlar a inflamação, reduzir sintomas, prevenir novas crises e melhorar a qualidade de vida. A escolha do medicamento precisa ser individualizada, considerando a extensão da doença, outras condições de saúde, idade e resposta aos tratamentos anteriores”, ressalta a reumatologista Carolina Menezes. Apesar dos avanços, a doença ainda não possui cura definitiva. Isso não significa que o paciente precise conviver permanentemente com lesões ou desconforto. Com acompanhamento médico adequado, é possível alcançar controle significativo ou até quase completo dos sinais e sintomas. A interrupção do tratamento por conta própria, por outro lado, pode favorecer novas crises. Carolina explica que não existe uma forma conhecida de prevenir completamente o surgimento da psoríase, principalmente porque fatores genéticos e imunológicos estão envolvidos. “É possível, contudo, reduzir alguns fatores que podem desencadear ou piorar as crises, como controlar o estresse, não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, proteger a pele contra ferimentos e queimaduras e seguir corretamente o tratamento prescrito. Também é importante identificar os gatilhos individuais de cada paciente”. Mais do que uma questão estética, a psoríase deve ser encarada como uma doença crônica que merece acompanhamento. Formas mais graves podem estar associadas a outras condições, como obesidade, hipertensão e alterações metabólicas, além da artrite psoriásica. Por isso, o diagnóstico e o tratamento devem ser conduzidos por profissionais de saúde, especialmente dermatologistas e, quando necessário, reumatologistas.
Tratamento da obesidade com canetas emagrecedoras avança no SUS

A possível inclusão das chamadas canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) avançou mais uma etapa. O Ministério da Saúde protocolou na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) um pedido de análise para a incorporação de medicamentos à base de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade. A proposta prevê a avaliação da oferta desses medicamentos para pacientes com obesidade. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o Brasil já possui 14 medicamentos registrados para o tratamento da obesidade. “É hoje o país com a maior diversidade de medicamentos registrados para o combate à obesidade, as chamadas canetas emagrecedoras e essa oferta derrubou o preço para a população. Agora queremos colocar essa medicação no SUS como um direito e vamos fazer isso de forma responsável”. A incorporação ainda depende de avaliação técnica e da definição de critérios para determinar quais pacientes poderão receber os medicamentos na rede pública. O Ministério da Saúde também acompanha o estudo Real-Bari, realizado pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, que avalia o uso da semaglutida em 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras comorbidades. A pesquisa também analisa o uso da medicação em pessoas que aguardam cirurgia bariátrica. Para o médico clínico com atuação em endocrinologia e metabologia, Igor Viana, a eventual oferta pelo SUS precisa estar associada a uma estratégia mais ampla de cuidado. “A obesidade é uma doença crônica e o tratamento precisa ser individualizado. Os medicamentos que atuam sobre o GLP-1 podem ser uma ferramenta importante para determinados pacientes, mas não devem ser encarados como uma solução rápida para perda de peso ou como um recurso exclusivamente estético”. Viana ressalta que a indicação deve considerar as características de cada paciente. “Não basta disponibilizar a medicação. É necessário avaliar indicação, contraindicações, possíveis efeitos adversos e a resposta de cada pessoa. O medicamento precisa estar associado a uma estratégia de cuidado que inclua alimentação, atividade física e acompanhamento clínico”. A preocupação com o uso inadequado ganha relevância diante da popularização dos medicamentos para emagrecimento. Para Viana, o estabelecimento de critérios no SUS também é uma forma de direcionar os recursos públicos aos indivíduos que precisam. “Existe uma diferença entre tratar uma doença e utilizar um medicamento apenas para atingir determinado padrão estético. Quando falamos em SUS, a definição de critérios é ainda mais importante para garantir que os recursos sejam destinados aos pacientes que apresentam maior necessidade clínica”. Padilha também reforça que a incorporação não terá como objetivo atender à busca estética por perda de peso. Segundo o ministro, o governo avalia o uso dos medicamentos em pessoas que estavam na fila da cirurgia bariátrica, pacientes com obesidade e problemas cardíacos e mulheres que tiveram câncer de mama. “São pessoas que precisam do medicamento, com orientação médica. Vamos deixar pronto o protocolo para disponibilizá-lo no SUS, em todo o Brasil e de forma responsável”. Na avaliação de Viana, o objetivo final deve ultrapassar a redução do peso corporal. “O maior ganho não está simplesmente em oferecer uma caneta, mas em ampliar o acesso a um tratamento adequado para uma doença que pode estar associada a diabetes, doenças cardiovasculares e outras complicações. O objetivo deve ser melhorar a saúde e a qualidade de vida do paciente, e não apenas reduzir o número na balança”, finaliza.
País deve ter 7,5 mil novos casos de câncer infantojuvenil por ano entre 2026 e 2028

O Brasil deverá registrar 7.560 novos diagnósticos de câncer em crianças e adolescentes por ano entre 2026 e 2028, de acordo com os dados da Estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desse total, aproximadamente 3.960 ocorrerão em meninos (52,4%) e 3.600 em meninas (47,6%), representando um risco médio de 136,33 casos por milhão de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. O médico clínico Saulo Vianna Amador dos Santos explica que esse número mostra que, embora o câncer infantojuvenil seja considerado raro quando comparado aos tumores em adultos (representando cerca de 1% a 3% de todos os casos de câncer), ele é uma realidade significativa de saúde pública. “O foco deve ser sempre a conscientização de pais e pediatras para que esses 7,5 mil casos anuais sejam identificados o mais rápido possível, garantindo as altas taxas de cura que a ciência hoje permite”, pontua o profissional. Segundo Santos, a maior dificuldade do diagnóstico precoce é que o câncer infantojuvenil não tem uma causa clara e não pode ser prevenido, e seus sinais iniciais são parecidos com os de doenças muito comuns na infância. “Um jovem com leucemia, por exemplo, pode apresentar febre, cansaço e manchas roxas, sintomas que frequentemente são confundidos com viroses, infecções simples ou até mesmo tombos normais da idade. Além disso, crianças menores têm dificuldade de explicar exatamente o que estão sentindo. Isso faz com que as famílias frequentem vários consultórios antes que a suspeita de câncer seja levantada”, acrescenta. Para o especialista, a demora na descoberta é prejudicial. “Os tumores infantis costumam crescer de forma acelerada. Um atraso de poucas semanas pode ser a diferença entre um tumor localizado e uma doença que já se espalhou para outras partes do corpo. Quando o diagnóstico é tardio, a equipe médica precisa recorrer a tratamentos mais agressivos, o que não só diminui as chances estatísticas de cura, como também aumenta bastante o risco de sequelas graves”. Em 2023, foram registradas 2.326 mortes pela enfermidade. Atualmente, o câncer é a principal causa de óbitos por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos no país, conforme o INCA. Diferenças regionais A incidência estimada de câncer infantojuvenil varia entre as regiões brasileiras. Entre os meninos, o Sul apresenta a maior taxa, com 165,96 casos por milhão, seguido pelo Sudeste (147,37), Nordeste (136,74), Centro-Oeste (119,77) e Norte (102,20). Entre as meninas, a maior incidência também está no Sul, com 181,09 casos por milhão, seguido pelo Sudeste (142,73), Centro-Oeste (117,26), Nordeste (115,81) e Norte (91,29). Isso reflete a desigualdade na estrutura de saúde, afirma Santos. “Regiões como Sul e Sudeste costumam apresentar taxas de incidência maiores porque possuem mais centros de diagnóstico e sistemas de registro de dados mais eficientes. No Norte e Nordeste, infelizmente, muitas crianças podem vir a falecer sem sequer terem recebido o diagnóstico correto ou antes de seus dados entrarem para as estatísticas oficiais”. Desafios O profissional destaca que o principal desafio clínico é o impacto do tratamento em um corpo que está em pleno desenvolvimento. “A quimioterapia e a radioterapia são tratamentos tóxicos. Sendo assim, encontrar o equilíbrio entre destruir as células doentes e proteger os órgãos saudáveis em crescimento é muito complexo”. “Além disso, há um desafio estrutural e logístico grave: o tratamento exige centros altamente especializados e equipes multidisciplinares. Muitas famílias precisam abandonar suas cidades e se mudar temporariamente para grandes capitais para conseguir tratamento, o que gera um desgaste financeiro e emocional profundo”, complementa. “O câncer em uma criança é assustador, mas a oncologia pediátrica avançou de forma extraordinária nas últimas décadas. Hoje, a maioria dos cânceres infantojuvenis é curável, desde que tratada em centros de referência. O conhecimento e a atenção dos pais são as melhores ferramentas para o diagnóstico precoce”, finaliza.
Pesquisa mostra que jovens de 16 a 24 anos têm maior índice de tabagismo

Uma pesquisa realizada pelo A.C. Camargo Cancer Center, em parceria com a empresa Nexus, identificou que o consumo de tabaco é mais frequente entre jovens brasileiros de 16 a 24 anos quando comparado ao observado em outras faixas etárias. Entre os participantes de 16 a 24 anos, 19% afirmaram fazer uso de produtos derivados do tabaco, incluindo os cigarros tradicionais e eletrônicos. Esse percentual supera a média registrada no país, de 17%, além de ser superior ao observado nas demais faixas etárias. O levantamento contou com a participação de mais de 2 mil pessoas de diferentes regiões do Brasil. Na faixa etária de 25 a 40 anos foi identificado o menor percentual de fumantes, correspondente a 15% da amostra. Na sequência, aparecem os indivíduos com 60 anos ou mais, com 16%, enquanto aqueles entre 41 e 59 anos representam 17% dos entrevistados que fazem uso de produtos de tabaco. Os resultados também revelam que uma parcela significativa dos brasileiros permanece em contato com os efeitos nocivos do tabaco. Aproximadamente 33% da população relata conviver com fumantes, seja em casa ou no ambiente profissional. Essa exposição à fumaça de terceiros pode aumentar o risco de câncer de pulmão, inclusive entre pessoas que nunca tiveram o hábito de fumar. Para a psicóloga Lara Fagundes, a maior presença de fumantes entre os jovens pode estar relacionada a uma combinação de fatores sociais, comportamentais e emocionais. “A adolescência e o início da vida adulta são períodos marcados pela busca de identidade, influência dos grupos de convivência e experimentação. O contato com amigos ou familiares que fumam, associado à percepção equivocada de que o cigarro ajuda a controlar a ansiedade ou o estresse, pode favorecer o início do consumo”. Outro aspecto apontado pela especialista é a facilidade de acesso a diferentes produtos de nicotina. Embora o cigarro convencional seja conhecido por seus riscos, os dispositivos eletrônicos também podem contribuir para a dependência. “Alguns jovens acreditam que o cigarro eletrônico é menos prejudicial, o que pode reduzir a preocupação com o consumo e facilitar a manutenção do hábito”. Os prejuízos provocados pelo tabagismo vão muito além da dependência, porque a fumaça do cigarro contém milhares de substâncias químicas, muitas delas tóxicas e cancerígenas. O consumo frequente pode comprometer o funcionamento dos pulmões, além de aumentar o risco de diferentes tipos de câncer. Entre as doenças relacionadas ao tabagismo estão câncer de pulmão, boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas e bexiga, além de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). O hábito também está associado a problemas respiratórios, incluindo doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), que pode provocar falta de ar, tosse e redução da capacidade pulmonar. Para o pneumologista Ricardo Avelar, abandonar o cigarro é uma das medidas mais importantes para reduzir os riscos associados ao tabagismo. “Parar de fumar traz benefícios em qualquer idade. O organismo começa a se recuperar depois que a pessoa interrompe o consumo, e, com o passar do tempo, os riscos de diversas doenças diminuem”. O processo de abandono pode ser difícil porque a nicotina provoca dependência. Por isso, especialistas recomendam procurar auxílio profissional em vez de tentar enfrentar o problema sozinho. O primeiro passo é estabelecer uma data para parar e identificar situações que despertam a vontade de fumar. Também é importante buscar estratégias para lidar com a ansiedade e evitar, principalmente nos primeiros dias, ambientes ou situações associados ao consumo. “Uma recaída não significa que todo o esforço foi perdido, pois a dependência é um processo que pode exigir mais de uma tentativa. O importante é compreender o que levou ao retorno do consumo e retomar o tratamento”, destaca Avelar. No Brasil, pessoas que desejam abandonar o cigarro podem procurar uma unidade de saúde para receber orientação e verificar a disponibilidade de acompanhamento a fim de parar de fumar. O tratamento pode envolver acompanhamento médico e psicológico e, quando indicado por um profissional de saúde, medicamentos para ajudar no controle da dependência.
Saúde mental requer atenção contínua para além do Setembro Amarelo

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais dos últimos anos. Dados da Previdência Social apontam a concessão de 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a essas condições, um aumento de 15,6% em comparação com 2024. A psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho, Janaina Fidelis, avalia que os números revelam uma mudança importante na forma como o tema é encarado pela sociedade. “Quando mais de meio milhão de afastamentos acontecem em um ano, não estamos falando apenas de fragilidades individuais. Esse volume também mostra a necessidade de discutir como o trabalho está sendo organizado e quais fatores estão contribuindo para o sofrimento das pessoas”. Segundo Janaina, os sinais de adoecimento costumam aparecer antes do afastamento. Alterações no sono, irritabilidade frequente, dificuldade de concentração, queda de produtividade, isolamento e sensação constante de esgotamento podem indicar que algo não vai bem. “Muitas pessoas acreditam que é apenas uma fase difícil ou que precisam suportar mais um pouco. Mas quando esses sintomas persistem e começam a comprometer a rotina, é fundamental procurar ajuda especializada”. Ambiente influencia o adoecimento Estudos recentes da Fundacentro e da Fundação Getúlio Vargas apontam que a saúde mental no trabalho é um fenômeno multifatorial, envolvendo aspectos individuais, organizacionais e sociais. Ambientes marcados por metas excessivas, baixa autonomia, falta de reconhecimento e relações autoritárias tendem a aumentar o risco de sofrimento psíquico. Na avaliação de Janaina, a responsabilidade pela prevenção não pode recair exclusivamente sobre o trabalhador. “É preciso que as empresas criem ambientes psicologicamente seguros, onde as pessoas possam falar sobre dificuldades sem medo de julgamento ou de prejuízos profissionais. A saúde mental é uma construção coletiva”. Ela também chama atenção para o retorno ao trabalho após um afastamento. “Se as causas que contribuíram para o adoecimento não forem identificadas e corrigidas, as chances de recaída permanecem elevadas. Não basta apenas esperar a recuperação. É necessário avaliar a carga de trabalho, as relações profissionais, a liderança e os riscos psicossociais”. Reflexos aos trabalhadores Além dos impactos emocionais e profissionais, o afastamento por transtornos mentais também pode produzir efeitos na vida previdenciária dos trabalhadores. A advogada previdenciária Débora Knust explica que os períodos em benefício por incapacidade podem ser considerados para fins de aposentadoria, desde que sejam observadas as regras previstas na legislação. “Pouca gente pensa nisso durante o tratamento, porque a prioridade naquele momento é recuperar a saúde. Mas o período de afastamento pode ter reflexos futuros e merece atenção”. Trabalhadores autônomos, microempreendedores individuais (MEIs) e contribuintes facultativos precisam ficar atentos à retomada das contribuições após a alta médica, alerta a advogada. “Em muitos casos, uma única contribuição depois do retorno já pode fazer diferença para o reconhecimento daquele período no futuro”. De acordo com Débora, acompanhar regularmente o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) também é uma medida importante para evitar problemas na hora de solicitar a aposentadoria. “Quanto antes a pessoa verifica se sua trajetória contributiva está registrada corretamente, maiores são as chances de corrigir eventuais inconsistências”. Para ambas, o crescimento dos afastamentos mostra que a saúde mental deixou de ser uma questão individual para se tornar um desafio coletivo. “O Setembro Amarelo é importante porque abre espaço para a conversa, mas a prevenção precisa acontecer todos os dias. Falar sobre saúde mental é importante. Transformar os ambientes de trabalho em espaços mais saudáveis é indispensável”, conclui Janaina.
Atendimentos relacionados ao uso do álcool crescem 157% em dez anos

Os atendimentos por problemas e condições relacionados ao uso de álcool na Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) aumentaram 157% na última década, passando de 326,2 mil em 2016 para 840 mil em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde. O crescimento também aparece entre adultos de 35 a 44 anos, cujo índice saltou de 17,4% para 26,3% no período, e entre as mulheres, de 7,8% para 15,7%. Atualmente, 20,4% da população com 18 anos ou mais consome pelo menos seis doses de álcool na mesma ocasião, o que é considerado excessivo. O estudo da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2025) aponta que, em quase duas décadas, houve alta do consumo por parte da população. Em 2006, esse índice era de 15,6%. O psiquiatra Oswaldo Norbim Prado Cunha ressalta que os dados chamam a atenção. “Os atendimentos relacionados ao álcool na Atenção Primária tiveram um crescimento muito expressivo, mas precisamos ter cuidado com a interpretação. Esse dado mostra aumento de atendimentos e de casos identificados pelo sistema de saúde. Ele, sozinho, não permite afirmar que houve uma elevação de 157% no número de pessoas com transtorno por uso de álcool”. Cunha avalia que o crescimento pode estar relacionado tanto ao aumento do consumo problemático quanto à maior capacidade de identificação dos pacientes. “Os profissionais estão mais atentos ao tema, enquanto o acesso aos serviços aumentou e o estigma em torno da busca por ajuda vem diminuindo”. Quando uma pessoa ingere grande quantidade de álcool de uma vez, aumenta imediatamente o risco de acidentes, intoxicações, brigas, violência e outros comportamentos de risco, afirma o psiquiatra. “E, quando esse padrão começa a se repetir, aparecem também consequências de longo prazo, como maior risco de doenças hepáticas e cardiovasculares, alguns tipos de câncer, transtornos mentais e dependência”. Risco aos rins O nefrologista e membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Ariel Augusto de Britto Rosa, explica que o consumo excessivo de álcool pode prejudicar os rins por diferentes mecanismos. “Desde o favorecimento da desidratação ao aumento da pressão arterial e alterações metabólicas, que são importantes fatores de risco para doença renal”. “Além disso, o consumo abusivo de álcool frequentemente está associado a outras condições que podem comprometer os rins, como doenças cardiovasculares e hepáticas. Portanto, não se trata apenas de um efeito direto do álcool sobre o órgão, mas de um conjunto de alterações que, ao longo do tempo, podem comprometer a função renal”, complementa. Rosa observa que as alterações renais frequentemente não provocam sintomas nas fases iniciais. “Por isso, não devemos esperar o aparecimento de indícios para investigar a saúde dos rins. A avaliação periódica da creatinina, da função renal e da presença de albumina na urina pode identificar alterações precocemente e permitir a adoção de medidas antes que ocorra uma perda mais significativa da função renal”. Ampliar a prevenção Para o psiquiatra, a Atenção Primária é um espaço excelente para perguntar sobre o consumo de maneira rotineira, identificar padrões de risco e realizar intervenções breves antes que apareçam consequências mais graves. Também precisamos capacitar os profissionais e melhorar a integração entre as Unidades Básicas de Saúde, os serviços de saúde mental e Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), pontua Cunha. “Ao mesmo tempo, não podemos colocar toda a responsabilidade da prevenção nas costas do indivíduo”. “Políticas sobre publicidade de bebidas, acesso ao álcool, proteção de crianças e adolescentes, fiscalização e educação da população também são fundamentais. Quanto mais cedo identificamos um consumo de risco, maior a chance de resolver o problema com intervenções relativamente simples”, finaliza o especialista.
Cerca de 300 mil brasileiros são afetados por algum fenômeno trombótico

A trombose ocorre quando um coágulo de sangue, chamado trombo, se forma dentro de um vaso e dificulta ou interrompe a circulação. Na trombose venosa profunda (TVP), uma das formas mais conhecidas, as veias profundas das pernas são as mais atingidas pela condição. O principal risco é que parte do coágulo se desprenda e chegue aos pulmões, provocando uma embolia pulmonar, complicação potencialmente fatal. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), com dados de internações do Sistema Único de Saúde (SUS) entre janeiro de 2012 e maio de 2022, identificou mais de 425 mil hospitalizações relacionadas a tromboses venosas no período. A estimativa divulgada pela Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia é de que quase 300 mil brasileiros sejam acometidos anualmente por algum fenômeno trombótico. Segundo a médica vascular Fabiana Alvarenga, a trombose não tem uma única causa. “Cirurgias, principalmente as de maior porte, longos períodos de imobilidade, internações, câncer, obesidade, tabagismo, algumas doenças cardíacas e alterações hereditárias da coagulação estão entre os fatores associados ao aumento do risco. Gestação e pós-parto também exigem atenção, assim como o uso de determinados anticoncepcionais e tratamentos hormonais”. Fabiana explica que os sinais mais frequentes da trombose venosa profunda aparecem em apenas um dos membros. “Inchaço, dor ou sensibilidade, sensação de peso, aumento da temperatura e alteração da coloração da pele são sintomas que devem ser investigados, mas em alguns casos, a doença pode não produzir sinais evidentes. Um inchaço súbito, especialmente quando acompanhado de dor ou endurecimento da panturrilha, merece avaliação rápida”. Quando o coágulo chega aos pulmões, o quadro muda de gravidade. A falta de ar repentina, dor no peito, respiração acelerada, palpitações, tontura ou desmaio podem indicar embolia pulmonar e exigem atendimento de emergência. O Ministério da Saúde ressalta que um trombo pode se deslocar pela circulação e atingir os pulmões, cérebro ou coração, provocando lesões graves. Diagnóstico e tratamento Toda investigação começa pela avaliação clínica e pelo levantamento de fatores de risco. “O médico observa a história do paciente e, quando há suspeita de trombose venosa profunda, o ultrassom com Doppler é um dos principais exames utilizados para verificar o fluxo sanguíneo e identificar a presença de um coágulo. Dependendo da situação, exames de sangue e outros métodos de imagem podem complementar a investigação”, afirma Fabiana. Os especialistas ressaltam que o tratamento depende do local e da extensão do trombo, além das condições clínicas do paciente. Nos casos de trombose venosa, os anticoagulantes são frequentemente utilizados para impedir que o coágulo aumente e também para reduzir o risco de novos eventos. Em situações específicas e mais graves, podem ser considerados procedimentos para remover ou dissolver o trombo. O tratamento precisa ser individualizado e acompanhado por profissional de saúde, já que os anticoagulantes também podem aumentar o risco de sangramento. “A escolha do anticoagulante, a duração do tratamento e a necessidade de outros procedimentos dependem da recorrência, da causa da trombose, da presença de outras doenças e do risco de sangramento”, esclarece o hematologista Bruno Pereira. Ele alerta que a prevenção começa pela redução dos fatores de risco modificáveis como manter atividade física regular, evitar o tabagismo, controlar o peso e permanecer atento a doenças crônicas. “O diagnóstico precoce e o tratamento adequado reduzem o risco de complicações e podem evitar que um coágulo inicialmente localizado se transforme em emergência de maior gravidade”.
Casos de sarampo acendem alerta e reforçam a importância da vacinação

O registro de 24 casos de sarampo no Brasil até agosto, todos no Estado de São Paulo, reacendeu o alerta sobre a importância da vacinação e da manutenção de uma cobertura elevada contra a doença. Embora o país tenha eliminado a transmissão sustentada do vírus, a ocorrência de casos importados pode resultar em novos registros e pequenos surtos quando encontra pessoas sem proteção. Para o acadêmico titular da Academia Nacional de Medicina (ANM), Celso Ramos Filho, o cenário atual não significa o retorno do sarampo como doença de transmissão sustentada no país. Ele avalia que a elevada cobertura vacinal ainda funciona como uma barreira para que os casos não se multipliquem. “O Brasil tem níveis muito elevados de cobertura vacinal. Existem pessoas e grupos que não estão adequadamente imunizados, culminando na reintrodução do sarampo. Nós podemos ter alguns surtos, como estamos tendo em São Paulo, mas não espero grandes cataclismas”, afirma. A doença está entre as mais infecciosas e contagiosas, sendo transmitida por secreções respiratórias. Por isso, a proteção coletiva é fundamental para interromper as cadeias de transmissão. De acordo com o médico, é necessário manter um nível de imunização de aproximadamente 90% da população para reduzir significativamente a possibilidade de que um caso gere novas infecções. Vacinação ao longo da vida A enfermeira Elisa Lino destaca que a atualização da carteira de vacinação não deve ser encarada como uma preocupação restrita à infância. No caso do sarampo, a vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Conforme o calendário de vacinação, a primeira dose é indicada aos 12 meses e o reforço aos 15 meses. Pessoas que não completaram o esquema também podem buscar a atualização. “Caso não tenha nenhum comprovante que fez a aplicação da vacina, pode buscar essa informação em qualquer unidade de saúde pública. Se não houver um documento, iniciamos o esquema e seguimos a recomendação do médico”, orienta. Elisa ressalta que a imunização precisa acompanhar as diferentes fases da vida. “É importante manter o calendário vacinal em dia, tanto crianças quanto adolescentes, adultos e idosos precisam acompanhar os reforços. Temos também públicos que requerem um cuidado maior, como imunocomprometidos e gestantes, para os quais existem recomendações específicas”. Diagnóstico rápido Além da vacinação, a identificação precoce dos casos é considerada essencial para evitar a disseminação do vírus. Segundo Filho, o desafio é que muitos profissionais de saúde em atividade nunca tiveram contato com pacientes com sarampo, justamente porque a vacinação reduziu drasticamente o número de casos. “Não reconhecem necessariamente aquela enfermidade e não notificam, porque pensam se tratar de dengue, chikungunya e outras doenças febris agudas acompanhadas de manchas e vermelhidão no corpo”. Entre os sinais que merecem atenção estão febre alta, tosse, coriza, irritação ou vermelhidão nos olhos e manchas avermelhadas pelo corpo. “Se houve contato com alguém que já teve a doença ou está manifestando sintomas, é importante ficar em alerta. Temperatura muito alta que não consegue baixar e pintas ou marquinhas avermelhadas pelo corpo são sinais relevantes”, orienta Elisa. Para Filho, a vacinação continua sendo a principal ferramenta para impedir que casos isolados avancem. “A pessoa com sarampo tem alta possibilidade de infectar outras. É preciso ter um nível elevado de imunidade coletiva, algo em torno de 90%, porque aí a possibilidade de transmissão secundária é muito pequena”, conclui.
Internações por pneumonia e influenza geraram impacto de R$ 381 milhões

Somente nos meses de janeiro e fevereiro de 2025, foram 81.249 internações. O cálculo considera o valor mediano de R$ 4.697,36 por hospitalização.
Leishmaniose continua sendo um grave desafio de saúde pública no Brasil

Transmitida pela picada do flebotomíneo, conhecido popularmente como mosquito-palha, a leishmaniose pode se manifestar de duas formas principais: a tegumentar, que provoca lesões na pele e nas mucosas; e a visceral, considerada a forma mais grave por comprometer órgãos internos como fígado, baço e medula óssea. O Brasil concentra o maior número dos casos das Américas e mantém a doença como um problema endêmico em diversas regiões. Dados do Ministério da Saúde apontam que, em 2023, foram registrados aproximadamente 13 mil casos de leishmaniose tegumentar no país, mantendo uma média anual superior a 12 mil ocorrências nos últimos anos. Já a leishmaniose visceral apresenta cerca de dois mil casos notificados por ano, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, embora a doença também esteja presente no Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Diferentemente do que muitas pessoas acreditam, cães infectados não transmitem diretamente a doença para os humanos, eles funcionam como importantes reservatórios do parasita em áreas urbanas, enquanto a transmissão depende obrigatoriamente da presença do inseto vetor. Segundo a infectologista Fernanda Diniz, um dos maiores desafios continua sendo o reconhecimento precoce dos sintomas. “Na forma tegumentar, a pessoa costuma apresentar uma ou mais feridas que não cicatrizam, geralmente indolores, mas que aumentam lentamente de tamanho, quando há comprometimento das mucosas, podem surgir lesões no nariz, boca e garganta. Já a leishmaniose visceral costuma provocar febre prolongada, perda de peso, fraqueza intensa, aumento do fígado e do baço, anemia e redução das células de defesa do organismo. Sem tratamento, essa forma pode evoluir para complicações graves e até levar à morte”. Ela explica que o diagnóstico depende da avaliação clínica associada a exames laboratoriais. “Conforme o quadro do paciente, podem ser utilizados testes sorológicos, exames parasitológicos, biópsias das lesões ou exames moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR). Na leishmaniose visceral, também são empregados testes rápidos disponíveis na rede pública de saúde”. Para o infectologista Marcelo Azevedo, o acesso rápido ao diagnóstico faz toda a diferença no prognóstico dos pacientes. “Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de cura e menores são as sequelas. Muitas pessoas convivem durante meses com lesões de pele acreditando se tratar de alergias ou infecções comuns. Na forma visceral, o atraso no diagnóstico aumenta o risco de complicações, principalmente em crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade”. O tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e varia conforme a forma clínica, a idade do paciente e a presença de outras doenças. “Entre os medicamentos utilizados estão os antimoniais pentavalentes, a anfotericina B em diferentes formulações e, em situações específicas, a miltefosina, incorporada recentemente como alternativa terapêutica para casos de leishmaniose tegumentar”, esclarece Azevedo. Prevenção Os especialistas ressaltam que não existe vacina disponível para prevenir a leishmaniose em seres humanos, por isso, as medidas preventivas permanecem fundamentais. Entre elas estão o uso de repelentes, roupas de mangas compridas em áreas de maior risco, instalação de telas em portas e janelas, limpeza frequente de quintais para reduzir matéria orgânica onde o vetor se desenvolve e o manejo adequado de resíduos. Nos locais com transmissão intensa, também são recomendadas ações de vigilância ambiental e controle do vetor realizadas pelos serviços de saúde. No caso dos cães, a prevenção inclui acompanhamento veterinário, uso de coleiras impregnadas com inseticida e vacinação quando indicada pelo veterinário. A identificação de um animal infectado não significa risco de transmissão direta para pessoas, mas sinaliza a necessidade de intensificar as medidas de vigilância e controle do mosquito na região.