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Após 3 anos, Minas está de novo debaixo da lama

Rejeitos da barragem da Vale em Brumadinho - Crédito: IBAMA

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho chocou o Brasil e o mundo, seja pela quantidade de vítimas fatais ou pelo pouco tempo de diferença em relação ao que aconteceu em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, onde há 3 anos uma outra barragem também se rompeu. Na ocasião, 19 pessoas morreram e mais de 500 mil mineiros foram atingidos pela lama de rejeitos. Para saber como está a vida de quem sofreu com esse acidente e tentar fazer uma projeção do que os atingidos de Brumadinho podem passar futuramente, o Edição do Brasil conversou com Letícia Oliveira, coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens em Minas Gerais.

Como está a vida das pessoas atualmente, principalmente as que dependiam financeiramente do rio?

A vida dos ribeirinhos mudou muito, a começar pela questão alimentar, pois eles não podem mais comer o peixe dos locais atingidos. O outro desafio é o trabalho, afinal, alguns eram pescadores e, agora, não tem mais como viverem dessa atividade. Isso gerou perda de renda e, em alguns casos, afetou até o psicológico.

A saúde dos moradores do entorno também está comprometida. Há pessoas que ainda estão tomando a água do rio, ou até mesmo a tratada, que estão com sintomas incomuns, como dor de cabeça, na barriga, manchas na pele, problemas respiratórios, etc.

Além disso, existe a questão do relacionamento que as famílias tinham com o rio, como do próprio lazer. Há uma grande incerteza de como será o futuro e sempre surgem perguntas como, ‘será que vai ser possível pescar de novo? Meu neto vai aprender a nadar ou pescar comigo? Vou conseguir recuperar a minha renda?’

Como a Samarco está lidando com os problemas enfrentados pelos atingidos?

Em relação à saúde, a Samarco não se responsabiliza. Para ela, o problema não diz respeito à lama e as pessoas não estão sentindo o que elas relatam, além de negar a contaminação dos rejeitos e na água e, por isso, não faz ações.

No momento, os atingidos estão recebendo um cartão com um valor emergencial de um salário mínimo para cada família, mais 20% para cada dependente e R$ 450,00 de cesta básica.

Como calculou-se o valor das indenizações?

O valor que cada família recebe foi decisão entre a empresa e o Estado e eles levaram isso para os atingidos como algo já dado, sem a participação deles. Acreditamos que poderia ser maior, mas não precisaria, necessariamente, ser igual a renda anterior, porque é uma verba para se manter até retomarem a situação anterior ou as condições de renda, trabalho ou moradia.

A outra parte da reparação financeira vem por meio das indenizações, da qual a empresa ainda não concluiu o processo. Algumas famílias já receberam, mas outras não concordaram com o valor e ainda estão esperando uma negociação melhor.

Para se ter uma ideia, a Samarco está oferecendo para os pescadores artesanais que não tem a carteirinha R$ 12 mil e aqueles que tem a carteirinha R$ 40 mil a R$ 60 mil. Já para os produtores rurais que tiveram terras invadidas pela lama em Barra Longa, por exemplo, ofereceram R$ 28 mil para um terreno plano, bom para plantio e próximo ao rio.

E o meio ambiente, existem projetos para tentar recuperá-lo?

Existem algumas ações que a empresa está fazendo, mas, no nosso ponto de vista, ainda com poucos resultados. A primeira foi fazer diques (represa ou açude com a finalidade de manter determinadas porções de terra secas por meio do represamento de águas corrente) onde a barragem se rompeu para conter a lama, mas o rio ainda continua sujo; e a outra foi colocar pedras nas beiras do rio, porém isso mais atrapalha do que ajuda, afinal as margens ficam mais escorregadias, o que prejudica até os animais que vão beber água.

Até o momento, eles não retiraram a lama, porque, segundo a empresa, é pior tirá-la do que deixar lá. Em Barra Longa, eles tiram os rejeitos do centro da cidade e levaram para os bairros periféricos. Além disso, há também um movimento de reflorestar as margens do rio, mas a Samarco não está comprando os terrenos dos proprietários.

Em relação ao rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, o que as famílias atingidas podem esperar da empresa, tendo em vista o que aconteceu em Mariana?

Da empresa, elas não podem esperar praticamente nada, porque em 3 anos a Vale (que é uma das proprietárias da Samarco) não faz o que deveria em Mariana e no Rio Doce. Agora, as pessoas de Brumadinho devem se reunir e buscar os seus direitos. Se isso acontecer, elas podem conseguir uma reparação digna, agora se esperarem a movimentação da empresa pode ser que nada seja feito.

Qual rompimento de barragem foi mais impactante?

Em Brumadinho perdeu-se várias vidas humanas e isso causa um impacto muito maior na sociedade. A questão ambiental também será grande, mas parece que será um pouco menor do que o de Mariana. No momento, estamos monitorando para ver se a lama vai conseguir chegar ou não no Rio São Francisco.


Outro lado

A Fundação Renova, instituição que representa a Samarco para as comunidades atingidas, por meio de nota, informou que as ações na área da saúde em Mariana e Barra Longa estão divididas em duas frentes de trabalho, sendo que os estudos epidemiológicos e toxicológicos fazem parte do processo. “O objetivo é investigar o risco à saúde pelo rejeito e metais pesados do Rio Doce e monitorar o impacto da poeira e das obras na vida das pessoas. A avaliação de risco à saúde humana é financiada pela Fundação Renova e acompanhada e supervisionada pela Câmara Técnica de Saúde. Os resultados irão subsidiar demais pesquisas da área. A análise irá dimensionar os riscos à saúde humana pela possível exposição a contaminantes químicos existentes no meio ambiente, analisar os dados de saúde da população local e elaborar o perfil toxicológico dos possíveis contaminantes.

Além disso, a fundação acrescenta que também apoia a gestão pública dos municípios com ações que visam fortalecer as estruturas municipais existentes, tanto no atendimento clínico quanto na proteção social.

Já na questão ambiental, a instituição destacou que realiza o plano de manejo de rejeito com o intuito de verificar se é possível ou não a remoção da lama, a revitalização da bacia hidrográfica do Rio Doce que visa recuperar 5 mil nascentes e 40 mil hectares de áreas de Preservação Permanente (APPs), além do monitoramento permanente do rio.