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O retorno do futebol mineiro e seus riscos

A exemplo do campeonato carioca, o futebol mineiro também anunciou seu retorno. Em reunião no início de julho, com os 12 clubes da primeira divisão de Minas Gerais, a Federação Mineira de Futebol (FMF) marcou a volta do Campeonato Estadual para o dia 26 deste mês. O anúncio do recomeço do torneio, paralisado em 15 de março, foi confirmado pelos dirigentes que participaram virtualmente do encontro.

Restam apenas duas rodadas para o fim da primeira fase da competição. Segundo o presidente da FMF, Adriano Aro, as datas iniciais das semifinais em dois jogos estão mantidas. A decisão do Mineiro coincide com o início do Brasileiro marcado para começar no dia 8 de agosto.

A expectativa é que nos próximos dias, a FMF deve divulgar um protocolo de segurança, enviado dia 17 de junho para as autoridades sanitárias do governo estadual. No entanto, dificilmente acontecerão partidas em Belo Horizonte por conta da resistência do prefeito Alexandre Kalil (PSD) que considera apressado o retorno do torneio por causa da pandemia do novo coronavírus.

Mesmo com toda a expectativa para o retorno do futebol em Minas, existe muita preocupação dos especialistas. O Estado está vivendo o pico da pandemia com o aumento significativo do número de contaminados e de mortes pelo novo coronavírus.

Estudos ressaltam que a prática do exercício físico regular é útil para a prevenção da COVID-19, assim como no tratamento e controle de doenças crônicas. Mas a intensidade e o volume dos treinos dos atletas de alto nível comprometem seu sistema imunológico e os incluem entre os grupos de risco para a doença que acomete o mundo há cinco meses.

De acordo com especialistas da área esportiva, pessoas que fazem exercícios físicos de alta intensidade demoram mais a se recuperar. As primeiras 72 horas pós-esforço formam a chamada janela imunológica, quando a pessoa está mais suscetível e mais exposta, uma vez que as vias aéreas estão mais abertas e as mucosas das vias respiratórias ficam fragilizadas, com menor capacidade de proteção.

Neste caso, mesmo que estejamos todos ansiosos pelo retorno da bola rolando, ainda é cedo para o reinício das competições de futebol no país, isto porque, a retomada dos campeonatos profissionais representa um risco, não apenas para os atletas, mas para todos os envolvidos.

O futebol é um esporte de contato, e o contato físico não é recomendado no momento. Muitos especialistas concordam que é questionável já voltar a realizar grandes eventos, tanto pelos riscos à saúde dos envolvidos como pelo exemplo que isso dá à população. Mesmo que nenhum espectador possa entrar nos estádios, até 300 pessoas estarão presentes em cada jogo: repórteres, cinegrafistas, médicos e fisioterapeutas – além, claro, dos próprios jogadores, árbitros e comissões técnicas.

Em verdade, a essa altura, o principal debate não deveria ser a retomada dos campeonatos em meio aos registros expressivos de mortes em todo país, mas sim a criação de uma força-tarefa, liderada por Federação Internacional de Futebol (Fifa) e CBF, que garantam, com suas consideráveis reservas financeiras, a proteção de empregos dos trabalhadores que não têm o mesmo respaldo dos atletas no topo da pirâmide.

*Wanderley Paiva
Desembargador do TJMG e bacharel em Comunicação Social

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