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O espirro chinês

Com impactos óbvios sobre a saúde mundial, numa extensão que ainda não pode ser avaliada com precisão sequer razoável, o surgimento do coronavírus na China e a sua já esperada disseminação pelo mundo afora já vem afetando, de maneira significativa, não somente a economia daquele país mais, como era de se esperar, os mercados  mundiais. A influência global chinesa, segundo um amigo com quem conversei sobre o assunto, chega ao ponto de se poder afirmar que, se um chinês der um espirro, lá em Pequim, alguém fica gripado em algum lugar do mundo – inclusive no Brasil.

E a China deu esse espirro – talvez um sintoma do tal coronavírus – ao registrar uma projeção de queda de 0,6 ponto percentual em na sua estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, passando dos 6% que se estimava alcançar este ano, para 5,4%. Pode parecer pouco, mas somente esta pequena diferença, considerados os pretendidos US$ 6 trilhões, representa bem mais que o PIB inteiro de muitos países.

Segundo analistas de mercados, esta queda terá impactos no crescimento global, entre os quais o de uma China mais fechada, com redução nos volumes de suas importações e exportações, além de uma esperada retração no turismo. Cabe lembrar, neste aspecto, que algo em torno de 7% de todos os fluxos internacionais de turistas são de chineses para outros países ou de viajantes que têm o país como destino.

Em meio a este cenário, economistas e analistas de mercado já se debruçam sobre os impactos que o Brasil pode esperar, num contexto em que a nossa economia passa por um processo de lenta recuperação e tem na China seu principal parceiro comercial e que, ainda, exerce grande influência sobre os preços das commodities, que são o principal item de nossa pauta exportadora. Já está sendo levada em conta, por alguns grandes bancos europeus e norte-americanos, uma redução nas estimativas de crescimento do PIB brasileiro, que chegaria ao final de 2020 não com os previstos 2,5%, mas sim de 2,1%. Alguns, como Bank of America, já o fizeram: suas projeções indicam, por enquanto, uma expansão não maior que 2,2%.

Há, ainda, quem avalie que os efeitos do coronavírus, maiores ou menores, serão de curta duração. Grandes consultorias e gestoras internacionais de investimentos, como a Western Asset, acreditam que seu impacto no crescimento global da economia é significativo, mas terá duração relativamente curta. O argumento é o de que a China dispõe de múltiplas ferramentas de política econômica capazes de amortecer os choques, como a flexibilização fiscal e cortes nos índices de reservas bancárias. Tanto que o banco central chinês já sinalizou que fará as intervenções necessárias ao fazer duas grandes injeções de liquidez no mercado, somando quase US$ 200 bilhões.

Na verdade, segundo avaliam os chineses, os maiores efeitos acontecerão no setor de turismo, previsão endossada pela UBS, empresa global de gestão de investimentos. Ela estima que os turistas chineses reduzirão suas viagens em algo próximo de 30%, ainda neste primeiro trimestre, uma retração que, ao final de 2020, poderá estar na casa dos 60%. O que, para o segmento, significa algo quase próximo de uma catástrofe, pois eles estão entre as pessoas que mais viajam. E o que eles viajam não é brincadeira: em 2019 quase 160 milhões de chineses andaram pelo mundo afora, o que representou mais de 12% de todo o fluxo internacional de saídas.

Há, porém, entre tantas informações desanimadoras, a expectativa de que os impactos na economia mundial efetivamente não durem muito tempo e que o turismo não seja tão prejudicado, pois já surge, em meio a tantos contratempos, uma notícia boa: a de que já se encontra em desenvolvimento, na Inglaterra, uma vacina contra o vírus. Que venha logo.