Expectativas da economia real

A decisão unânime do Copom de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, fixando a Selic em 14,25% ao ano, confirma as expectativas do mercado, mas frustra a urgência da economia real. É o terceiro corte consecutivo, um movimento que sinaliza a direção correta, mas que ainda peca pelo excesso de cautela. O que vemos é que os números revelam um país tentando acelerar com o freio de mão puxado. O próprio Banco Central reconhece a aceleração da atividade que aconteceu no primeiro trimestre, com setores cíclicos retomando protagonismo e o mercado de trabalho mostrando sinais robustos. Ainda assim, o custo do dinheiro em patamares elevados atua como âncora sobre o setor produtivo. Sem expansão do crédito, empresas adiam investimentos, a geração de empregos formais encontra um teto artificial e o cidadão vê sua renda asfixiada por despesas financeiras. O Brasil não pode se contentar com mero afastamento da estagnação técnica. Um crescimento tão brando não dá conta da demanda social do país, tampouco atrai o volume de capital necessário para o desenvolvimento de longo prazo. A parcimônia do Copom ancora- -se em justificativas conhecidas: inflação que ainda pressiona o limite superior da meta e volatilidade do comércio externo. São preocupações legítimas. O problema é com a estabilidade geopolítica conjuntural, como o reinício do confronto entre Estados Unidos e Irã. Enquanto durou o breve acordo entre eles foi tratado como condição necessária para agir, em vez de ser aproveitada como janela para um corte mais ousado. Em ciclos passados, o conservadorismo do Banco Central já cobrou seu preço, estrangulando retomadas e penalizando setores vulneráveis da economia. Esperar por um alinhamento perfeito na geopolítica ou por um horizonte inflacionário sem sobressaltos é apostar em uma miragem. A economia real, que lida com fluxo de caixa diário e folhas de pagamento, não tem como se dar ao luxo de aguardar o cenário ideal. Ao dosar o remédio monetário com tamanho zelo, o Banco Central converte prudência em amarra, ampliando o custo de oportunidade de uma nação que perde janelas para crescer. Responsabilidade fiscal e monetária é um pilar inegociável. Não deve ser confundida, porém, com inércia diante de um país que sangra por capital de giro. Mesmo assim, o corte referido no início ecoa como alívio burocrático frente a lacunas estruturais urgentes. Na próxima reunião, o Banco Central precisa demonstrar sensibilidade pragmática diante da paralisia do crédito e adotar uma postura mais ousada. Manter o freio de mão puxado pelo medo de solavancos futuros não evita o acidente, apenas garante que o Brasil continue parado no acostamento. Na prática, o Copom sinaliza que o trabalho de combate à inflação está longe de terminar. O cenário atual ainda exige atenção. As expectativas de inflação seguem desancoradas e os riscos externos continuam elevados. O comitê retirou a indicação de que novos cortes seriam uma consequência natural do processo de calibração e passou a afirmar que a magnitude total do ciclo (de cortes) será definida à luz dos próximos dados. Em tom firme, indicam que novas reduções dependerão de uma melhora consistente dos indicadores. Esta sinalização de pausa nos cortes acendeu a luz amarela na indústria, que vê a manutenção do sufoco financeiro, capaz de balancear o pleno emprego e o controle da inflação. O resultado prático desta timidez é a perpetuação de uma asfixia financeira crônica para famílias, empresas e para o próprio Estado. A avaliação é de que se trata de uma “superdosagem de medicação”, impõe-se um custo econômico desproporcional sem benefício real no controle de preços que sobem por escassez de produtos e não por excesso de demanda. O Brasil atingiu a marca de 9 milhões de empresas negativadas, acumulando um passivo de R$ 221 bilhões. O dado mais crítico é que 8,5 milhões desses CNPJs no vermelho são micro e pequenos negócios, motores da geração de empregos no país. Mas, infelizmente, os grandes também estão passando por dificuldades enormes, como a mídia nos informa. Alguns exemplos publicados: 1) C&A anuncia fechamento de 24 lojas e empregados ficam ameaçados; 2) Pão de Açúcar tem prejuízo bilionário e vê “incerteza” sobre operações; 3) Gigante dos supermercados fecha 28 lojas e demite 6,6 mil funcionários, após frear expansão acelerada no Norte e Nordeste; 4) Land Rover fecha fábrica no Brasil e demite trabalhadores; 5) A indústria da construção iniciou 2026 com o pior desempenho em 9 anos; 6) o atual presidente acumula em 2 anos de governo o maior rombo de estatais do século; 7) Multinacional com 9 mil funcionários fecha fábrica e decisão afeta centenas de famílias. A empresa é a Isover, marca pertencente ao Grupo Saint-Gobain; 8) Michelin vai fechar fábrica de pneus em Guarulhos e culpa custos elevados de produção. Empresa atribui decisão à entrada crescente de produtos importados com preços inferiores ao custo nacional, 350 trabalhadores serão demitidos; 9) Mais de 230 empresas brasileiras já produzem no Paraguai. Negócios vão do Brasil para o país vizinho e atuam no chamado regime de maguila: pagam um média de 12% de imposto e encargos trabalhistas, contra 80% no Brasil; 10) Recorde histórico: empresas encerraram 2025 com R$ 213 bilhões em dívidas e inadimplência, no maior patamar já registrado; 11) Brasil bate recorde de empresas em recuperação judicial em 2025. A lista continua, mas paramos por aqui.

Disciplina fiscal e demandas sociais

Vamos falar um pouco sobre o que está sendo deixado de lado e é da maior importância: a responsabilidade fiscal. Existem governos que nela se baseiam para cumprir as suas obrigações e outros que não tem nenhum compromisso em gastar mais do que arrecada, que é o nosso caso. Temos um aumento real da receita, o governo atual já aumentou impostos 27 vezes, temos a maior carga tributária da América Latina e qual é o retorno para o cidadão, não temos segurança, não temos educação, não temos saúde de qualidade, apenas citando os três itens principais. Por que? Temos 38 ministérios e cada ministro se comporta como único dono do seu território, usando o modelo do rei. Vemos que na hora que se apoderam do cargo, querem e fazem de tudo para se manter no poder, por consequência as políticas destes ministérios, desse governo atual, são políticas de poder e não políticas de estado, pensando no amanhã e na próxima geração. Se houve uma contenção de gastos no governo anterior, foi em função da pandemia, de triste lembrança, que esse sim, era o grande problema do país e do mundo, combater uma pandemia da magnitude que foi. Para tal, foram gastos quase um R$ 1 trilhão, na realidade R$ 890 bilhões, que foram pagos pelo governo passado e que, mesmo assim, entregou o governo com superávit e todas as grandes estatais lucrativas. Hoje, o governo está no vermelho e as estatais lutando para se manterem, como é o caso dos Correios, Petrobras, Banco do Brasil e outras, pois infelizmente a lista não é pequena. Só os Correios ampliaram o prejuízo para R$ 3,2 bilhões no primeiro trimestre, maior do que o registrado no mesmo período de 2025, quando as perdas somaram R$ 1,72 bilhão. O balanço divulgado pela estatal mostra que a empresa segue enfrentando dificuldades financeiras mesmo após o início de um plano de reestruturação, queda de receitas e alta de despesas pressionando a estatal. Enquanto isto, as universidades brasileiras caem em ranking mundial recém divulgado pelo Center for World University Rankings (CWUR); das 52 instituições do Brasil no ranking, 45 perderam posições em relação ao ano passado, mesmo que a liderança na América do Sul continua com a Universidade de São Paulo (USP). O controle das despesas segue descontrolado. O limite de 0,6% para a alta acima da inflação dos gastos com pessoal no ano que vem tem pressionado o governo federal e já virou um foco de tensão entre os poderes. A trava vale em 2027 em razão de uma regra do arcabouço fiscal, a lei com diretrizes para as contas públicas. A regra também impede a criação, ampliação ou prorrogação de benefícios fiscais. Devido ao resultado deficitário do governo central nas contas de 2025, as medidas foram acionadas como gatilho e foram incorporadas ao arcabouço fiscal no pacote de contenção de despesas proposto pelo governo em 2024. De acordo com o regramento, as travas serão mantidas até a constatação de superávit primário anual. Na elaboração do orçamento do próximo ano, o objetivo é segurar as despesas, em uma tentativa de fazer o país voltar a ter as contas no azul. A previsão do mercado financeiro para a inflação deste ano subiu pela 11ª semana consecutiva e chegou a 5,04%, segundo o Boletim Focus do Banco Central, distanciando-se ainda mais do centro da meta de 3% e do teto de 4,5%. Foi a primeira vez este ano que a projeção do mercado ficou acima de 5%. Analistas avaliam que o Copom seguirá cortando a Selic, mas com a devida cautela, até o final do ano. Ponderam que ela está em um nível restritivo e existe uma gordura. Mesmo cortando juros, não vai para o campo de estimular a atividade econômica, a taxa vai continuar alta. Os alertas são que nos próximos meses, alimentos devem continuar subindo como reflexo imediato da guerra. Então, primeiro subiram combustíveis, depois os alimentos, encarecendo mais, além da sazonalidade atrapalhar também. O governo já elevou o IOF em 2025, medida criticada por empresários e parlamentares. Se não houver novas fontes de receita – e é aí onde mora o perigo – pode ser necessário aumentar impostos ou reduzir subsídios, o que desgasta a popularidade. Desde sua posse, o chefe maior apostou em gastos públicos para estimular crescimento e reduzir desemprego. Essa estratégia até que trouxe resultados positivos (PIB em alta, inflação baixa), mas agora encontra limites: há risco de estagflação se os gastos continuarem sem equilíbrio. Os impactos práticos serão na infraestrutura, ciências e programas sociais como a Farmácia Popular, que podem sofrer cortes. E ainda, por ser um ano político, enfrentar um Congresso dividido, onde o governo já sofreu derrotas em medidas provisórias que buscavam aumentar arrecadação, mostrando dificuldade de articulação política. Por enquanto, deixo registrado que o quadro econômico e político atual é de forte tensão entre disciplina fiscal e demandas sociais, algo que vai marcar o restante do ano.

O drama do Brasil e do mundo pós-IA

O grande problema do Brasil são as narrativas. Enquanto tivermos um governo que assuma a nossa pobreza e tente transformar pobreza em prosperidade, vivenciamos um trabalho onde temos um país com um dos maiores partidos, o dos trabalhadores, incentivando as pessoas a não trabalhar. Então, como nós vamos reverter esta realidade e uma herança histórica de um cara chamado Getúlio Vargas, que acabou com o país no século passado e deixou um herdeiro, o atual presidente. Os dois criaram uma cultura de que o Estado é o pai, é mãe, é tudo. Só que as pessoas não têm educação para entender que quem financia o Estado é quem trabalha e se você não trabalhar, quem vai pagar a máquina, uma máquina inoperante e corrupta. Se não colocarmos nas cabeças das pessoas que o Produto Interno Bruto (PIB) é a soma de bens e serviços produzidos que, se não houver produção, não haverá riqueza, nós podemos fechar. O Brasil está fadado a ser um país pobre, miserável. Nós estamos empobrecendo a cada ano, exatamente pela cultura de um Estado, que é sustentado cada vez mais por uma classe trabalhadora menor. Como vamos discutir 6 por 1 em um país pobre. Se formos para um país rico, desenvolvido, aí sim. Mas aqui temos que trabalhar e muito para revertermos o quadro que estamos e chegamos a esta situação, pelos governos populistas que prevaleceram até aqui. Durante os sucessivos ciclos da revolução industrial, a promessa do avanço tecnológico sempre veio acompanhado de uma premissa: as máquinas assumiriam o peso do trabalho braçal e repetitivo, liberando a humanidade para o exercício de suas capacidades mais nobres, o pensamento, a filosofia, a arte e a inovação. O drama do mundo pós-IA não reside, porém, apenas na perda imediata de postos de trabalho, mas na impossibilidade matemática de realocação dessa mão de obra. Nas revoluções anteriores, o trabalhador que perdia o emprego no campo migrava para a fábrica e o operário substituído pelo robô encontrava abrigo no setor de serviços, que por sinal é o que mais cresce. Mas agora, a engrenagem é diferente. Pela primeira vez na história moderna, a inovação tecnológica corre o risco de destruir muito mais empregos do que é capaz de criar. Para onde migrarão os milhões de profissionais que serão substituídos pela IA se a própria demanda por trabalho está encolhendo? A dura matemática do mundo pós-IA indica que não haverá transição de carreiras simplesmente porque existirão, em termos absolutos, muito menos empregos disponíveis. O que se projeta no horizonte de curto prazo é a concretização do cenário alertado pelo historiador Yuval Harari, autor do livro “Sapiens: o surgimento de uma imensa classe inútil”, um enorme contingente de pessoas que, diferentemente do proletariado explorado do século 19, sequer será necessário para girar a roda da economia. Na definição de Harari, são pessoas que não serão apenas desempregadas, mas não serão empregáveis. Trata-se de uma massa de cidadãos que, a despeito de sua formação acadêmica ou experiências, não conseguirá se realocar no mercado tradicional. É imperativo, que os formuladores de políticas públicas, o empresariado e sociedade civil abandonem o estado de deslumbramento tecnológico e encarem a gestão dessa crise com a gravidade que ela exige. Os debates sobre taxação de algoritmos, redução drásticas de jornadas (para distribuir melhor o trabalho restante) e a implementação de uma renda básica universal precisam sair dos simpósios acadêmicos e entrar, para ontem e à sério, nas pautas legislativas. O mundo pós-IA não é uma ficção especulativa. É a realidade batendo à porta de todos. Priorizar a construção de uma rede de proteção social para os que serão inevitavelmente deixados para trás por essa revolução não é apenas uma questão de empatia ou justiça social: é o único caminho para evitar que o maior feito tecnológico da humanidade se transforme em seu maior desastre humanitário. Uma sociedade estruturada em torno de uma maioria ociosa por falta de oportunidades é o terreno fértil para a desestabilização democrática e para a ruptura institucional.

Como será o amanhã?

O presidente atual inovou e criou a sua própria teoria econômica capaz de resolver todos os problemas da economia brasileira. É uma teoria que trata da transferência de renda do pagador de impostos para determinadas camadas da sociedade, via políticas públicas, ele consegue resolver tudo. Segundo o chefe da nação, “não tem macroeconomia, não tem câmbio, se tiver dinheiro na mão do povo, todos os problemas estarão resolvidos, como o da industrialização, do consumo, da agricultura e até da inflação”. Ele ainda diz que o seu governo demonstra isso como lição ao povo brasileiro na hora que consegue fazer com que o dinheiro circule. Essa sua teoria praticamente determina a inutilidade de um Banco Central, pois acaba com a política monetária e com a teoria monetarista que se fundamenta na ideia de que a quantidade de dinheiro em circulação desempenha um papel central na determinação dos níveis de preços, ou seja, na taxa de inflação e na produção de uma economia. Por isso que ele demonstra não ter medo de gastar. Pelo contrário, é descarado em seu desprezo pela contenção de gastos, criando uma profusão de programas eleitoreiros, varrendo despesas para debaixo das metas e tornando os déficits recorrentes, quando deveriam ser exceção. A mágica para cobrir os rombos tem sido, até aqui, avançar sobre o bolso do contribuinte por meio de aumento de impostos. Como as despesas só fazem crescer, a sanha arrecadatória ultrapassou todos os limites do razoável, resultando em atritos com o Congresso e crises políticas. Pagamos impostos altíssimos em todas as compras que necessitamos e que fazem parte dos nossos compromissos diários. E ainda vem de 15% a 27,5% do seu salário a título de Imposto de Renda, mais o seu plano de saúde, o colégio dos seus filhos, IPVA, IPTU, INSS, FGTS, entre outros. Sem querer cortar seus próprios gastos e exagerados privilégios, o governo repassa o alto custo da sua incompetência e outras “cositas más” para a população pagar e ainda tem a desfaçatez de afirmar que não tem dinheiro. A mando do governo, o IBGE declara que a inflação fechou em 4,6% em 2025. Basta lembrarmos que o Brasil ocupava a trigésima posição do mundo em cobrança de impostos em 2021. Por qual motivo passamos para o número um do mundo? A esperança é que doravante não haverá mais espaço para aumento de impostos. Será? Ninguém suporta mais. Por isso o governo deveria tratar de conter a gastança enquanto é tempo. Depois de um 2025 perdido em termos de avanços estruturais e com desvios dos princípios republicanos pelos Três Poderes, os sinais para 2026 não são alvissareiros. Entre tantos problemas acontecendo, acompanhamos mais um escândalo bancário, o caso Banco Master, que como diz o ditado popular, quanto mais se mexe mais o mau cheiro aumenta. Não existe normalidade quando o caminho do dinheiro faz com que a fraude se misture ao poder. Até agora, o volume estimado do esquema, na casa de R$ 41 bilhões, agrava o quadro. O que parecia um problema bancário localizado passa a ter sinais de engrenagem estruturada: uso de fundos de investimento, elos societários e familiares, transações entre partes relacionadas, ativos sem liquidez e artificialmente precificados, além de suspeitas de laranjas e sócios ocultos. A tipificação mencionada nas apurações evidencia a gravidade: organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, indução de investidores ao erro, uso de informação privilegiada, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. A crise ganha contornos sistêmicos não necessariamente pelo tamanho do banco, mas pela interconexão e efeito dominó. Se a percepção pública for de que as regras podem ser contornadas, o resultado é previsível: investidores recuam, o custo de captação aumenta, o crédito encarece e a credibilidade do mercado sofre um dano que não se resolve com discursos, apenas com instituições funcionando dentro de suas competências. É nesse momento que o Estado democrático de direito precisa demonstrar solidez. O Banco Central tem atribuição legal e constitucional para zelar pela estabilidade do sistema financeiro e pela integridade prudencial do mercado. A Polícia Civil deve investigar crimes complexos, rastrear fluxos e identificar redes de fraude. O Ministério Público Federal é o titular da ação penal e fiscal da lei, com a independência para conduzir a acusação e requisitar diligências. O Tribunal de Contas da União (TCU) atua para proteger o patrimônio público e fiscalizar operações que possam envolver risco ao erário. E o Supremo Tribunal Federal (STF) deve garantir o devido processo, a competência adequada e o equilíbrio institucional, evitando que o Tribunal seja percebido como protagonista de uma crise que deveria arbitrar. O risco maior não é apenas a fraude, é a erosão das fronteiras. Quando surgem decisões fora de praxe, disputas sobre custódias de provas e sinais de tensão entre órgãos, o país corre o risco de substituir o devido processo por uma guerra inconstitucional. No mercado financeiro, essa percepção é particularmente tóxica, porque a estabilidade depende da crença de que as regras são previsíveis e valem para todos. Em meio ao baixo crescimento e ao mau funcionamento de alguns freios e contrapesos democráticos, o país demanda um bom debate eleitoral, focado nos problemas internos, evitando o populismo e embates ideológicos estéreis. Sem mudança no atual andar da carruagem, fica difícil ver o copo meio cheio.

Até onde vamos parar

O avanço da Operação Sem Desconto/ INSS demonstra qualquer tentativa de minimizar a maior fraude da história recente contra aposentados e pensionistas. A prisão preventiva do ex-presidente do INSS, que exerceu o cargo entre julho de 2023 e abril deste ano, expõe uma teia de corrupção entranhada na autarquia responsável por proteger os mais vulneráveis e revela que o esquema tinha comando, método e grande ambição. Politicamente, o caso tem peso explosivo. Paira a dúvida incômoda: como alguém acusado de participação tão ativa em um esquema bilionário assumiu a presidência do INSS? A oposição não deixará por menos. Usará o episódio para reavivar a mancha da corrupção. A verdade é que o Estado brasileiro se tornou vulnerável a redes criminosas que se moldam aos governos, mesmo que não pertençam a nenhum deles. A fraude nos descontos, que arrancava dinheiro diretamente dos benefícios dos idosos, viúvas e trabalhadores aposentados, é sintoma de um sistema capturado por terceiros. É por isso que este escândalo não pode virar pizza. Tem que ir até o fim, custe o que ou a quem custar. Não se pode perder na disputa da narrativa entre o governo e a oposição, nem ser reduzido a um caso de polícia. O eleitorado está atento ao eficiente trabalho da CPMI no Congresso. A democracia não aguenta mais ver a máquina pública tratada como balcão de negócios. O país exige respostas e justiça. A corrupção no INSS não é só um acidente administrativo, é modelo de negócio, explorado há anos por grupos que se aproveitam de brechas legais, fragilidade tecnológica e falta de controle interno. A captura do Estado – subterrânea, difusa, persistente – só será interrompida com reforma estrutural, transparência radical e responsabilidade real. A apuração precisa e deve alcançar todos os envolvidos independentemente de filiação partidária ou posição hierárquica. Milhões de brasileiros que contribuíram a vida inteira para ter uma renda digna no fim da vida, merecem algo mais do que indignação seletiva. O país exige que a justiça seja feita, sem atalhos e sem desculpas. E para complementar, os mais de 30 milhões de aposentados que trabalharam a vida inteira, receberam a notícia que no próximo ano terão um reajuste de 3,71% nos seus cheques. Só que não encontram justificativa para o fato de o Bolsa Família, onde ninguém trabalha, ter quase o dobro do aumento, ou seja, quem nunca trabalhou ou contribuiu terá um aumento de 6,97%. A pergunta que fica é: isso é justiça ou injustiça? Enquanto isso, o nosso maior problema recorrente continua sendo a falta de responsabilidade fiscal, o desequilíbrio das contas públicas, que estão ficando cada vez mais aparente. Dias atrás vimos a discussão sobre o assunto da compensação da redução do IOF. O problema da decisão é o modelo que este governo tem usado para tentar convencer a população de um crescimento econômico que não existe e caso existisse, não é sustentável no tempo. Mais uma vez está claro que o governo não terá como compensar estes benefícios que vem distribuindo. Estamos falando do gás do povo dando a 30 milhões de famílias três botijões por ano e, quem vai pagar o produto que custa hoje em torno de R$ 100 cada. A tarifa social de energia beneficiará 17 milhões de famílias que pagam uma conta de R$ 100 por mês. É só fazer as contas para ver o quanto custará por ano. E mais, a nova tabela do Imposto de Renda vai custar R$ 27,8 bilhões. E o Ministro da Fazenda ainda confirmou em entrevista a canais de TV que está na mesa do presidente e nas dos ministérios o estudo que terá o programa da campanha política para 2026, isenção do pagamento das tarifas de ônibus urbanos no Brasil inteiro. E quem vai pagar essa conta? Toda a sociedade, todos nós, concordam? Com esse desequilíbrio fiscal os juros não caem, as empresas pagando essas taxas de juros e tendo que pagar impostos em média de 33% sobre o que ganham, elas não têm como investir e crescer. Essa transferência de recursos do setor privado e das famílias para o governo está transformando o Brasil no país que passa a régua por baixo, que vai pela pobreza e não pela prosperidade, que está no aumento da capacidade de investir e na busca da produtividade que só é alcançada com investimento nas pessoas, em educação, saúde e segurança, com destaque para uma educação de qualidade. Estamos de forma passiva assistindo o mau uso do dinheiro do contribuinte que não é suficiente para pagar uma série de benefícios sociais que o governo vem anunciando, um atrás do outro, em ano pré-eleitoral. E o que vai acontecer é nossa dívida continuar aumentando, hoje na casa de R$ 950 bilhões, sendo este custo de toda a sociedade brasileira que vai se acostumando com a mediocridade e com esta capacidade de um Estado ineficiente, inoperante, corrupto, tirando a cada dia o lucro das empresas, a renda dos brasileiros e a nossa capacidade de poupar, transferindo tudo para despesas questionáveis sob o ponto de vista social. Não podemos nos esquecer de que, ao final do governo passado, o país apresentou um saldo positivo de mais de R$ 6 bilhões e hoje, estamos com um saldo negativo de R$ 2,5 bilhões. É só acompanhar o resultado das estatais.

Quem produz paga a conta

A proposta de reforma administrativa apresentada na Câmara deve ser tratada em uma perspectiva positiva e com ponderação, porque é um desafio a ser transposto pelo Congresso e pela sociedade. Foram permitidas várias reuniões e audiências para se chegar às propostas, reunindo representantes de diversos segmentos da sociedade, incluindo prefeitos, especialistas e governo federal, resultando em uma PEC, um projeto de lei complementar, com cerca de 70 proposições. Um dos eixos principais do projeto é a extinção dos privilégios, indo de encontro ao clamor popular. É preciso acabar com os supersalários, os penduricalhos e a formação de castas na burocracia estatal. Ao disciplinar verbas indenizatórias e revisar práticas que criem passivos bilionários, a reforma corrige distorções sem estimular conflitos entre os Poderes. O combate aos excessos no Legislativo, Judiciário e Executivo é fundamental para restaurar a substituição do serviço público perante a sociedade e a eficiência do Estado brasileiro. Uma das principais causas da crise da democracia representativa é justamente a ineficiência do Estado, aprisionada por interesses corporativos e pela captura de políticas públicas por grandes interesses privados. No mundo em grande transformação, a corrida mundial para reinventar o Estado promove campeões e deixa à margem os retardatários. A avaliação justa de desempenho, metas institucionais, coletivas e individuais, a adesão plena das mulheres e o combate às discriminações são questões que precisam ser contempladas. O desafio é equilibrar modernização, justiça e responsabilidade fiscal sem transformar os servidores em bode expiatório das mazelas do serviço público. Para isso, é preciso diálogo e pactos sustentáveis. Entre outros problemas, o crédito no Brasil virou um luxo. E para quem empreende, virou um grande peso. Em vez de alavancar negócios, sufoca. O resultado é um número cada vez maior de empresas com o nome sujo na praça. Só em julho, de acordo com o indicador de inadimplência do SPC, o número de empresas inadimplentes cresceu 10,28% em relação ao mesmo mês do ano passado. Isso significa que milhares de micro, pequenas e médias empresas, o coração de nossa economia, estão em dificuldades para manter o funcionamento básico: luz acesa, estoque abastecido, folha de pagamento em dia, entre outros. A média das dívidas passa dos R$ 6,8 mil por empresa. E cada uma deve, em média, para quase dois credores. É um círculo vicioso: sem crédito não há fôlego, cresce a inadimplência, o crédito encarece ainda mais. O país enfrenta uma armadilha silenciosa que é o alto custo do dinheiro. Os juros permanecem em patamares que não condizem com a realidade de quem produz. O capital de giro, que deveria ser uma ponte segura entre o caixa e o futuro, virou um abismo. E o sistema financeiro continua operando como se estivéssemos em plena estabilidade, como se houvesse margens para tantos empecilhos. As relações dos empresários do comércio e serviços consideram difícil ou muito difícil conseguir crédito. Estamos falando de empreendedores que geram empregos, pagamentos de impostos e mantêm suas portas abertas em um ambiente de constante instabilidade. A maioria deles depende diretamente do crédito para continuar existindo, mas também é necessário, sim, que os empresários façam sua parte, com gestão, controle e planejamento. Ilusório é pensar que a solução virá apenas da ponta do empresário. Sem uma política de crédito mais equilibrada, sem medidas que tornem o crédito minimamente acessível e previsível, vamos continuar assistindo ao encolhimento das empresas e ao crescimento da inadimplência como quem assiste à previsão do tempo, esperando uma próxima tempestade. Porque é isso que se tornou empreender no Brasil: correr de nuvem em nuvem, torcendo para que não haja mais uma enxurrada de juros altos, carga tributária e burocracia. E o país comemorando uma série de incentivos, de distribuição de benefícios, é o gás do povo, é a conta da energia, é o pé-de-meia, é a isenção do imposto de renda; no fundo, o nome disso é renúncia fiscal ou aumento de gastos. E no geral não conseguimos enxergar o que está acontecendo no país. Entramos em uma situação muito perigosa no que diz respeito ao déficit, à dívida e o seu crescimento, sendo que ao não entregar superávit fiscal com uma perspectiva de corte de gastos, o governo só vai aumentar o risco do país. E a taxa de risco pode ser vista no comportamento da taxa de juros, quanto maior é a dívida do Brasil que só faz crescer, a relação dívida/PIB, quanto maior é o nosso pagamento de juros que já está na casa dos R$ 950 bilhões por ano, maior é o nosso risco. Estamos aumentando o nosso risco de forma deliberada e comemorando, como se o governo estivesse fazendo a coisa certa. Na realidade, estão criando uma bomba que tende a explodir, o que deverá acontecer em 2027. Não será que o governo aumente ainda mais a tributação, a taxação, os impostos, em cima de quem produz, de quem trabalha. Essa narrativa de justiça tributária, de justiça social, está tendo um custo severo para toda a sociedade brasileira. A taxa de juros é consequência da falta de equilíbrio fiscal. A luz amarela atual está se transformando em vermelha, que depois das eleições não sabemos como o próximo presidente irá atualizar esta situação de caos fiscal. Você aí, que tem a sua família, quando entra no cartão de crédito, quando entra em um endividamento, a taxa de juros vai te sufocar. E é isso que está acontecendo com o Brasil. É muito fácil e bonito fazer uma campanha eleitoral de isentar 87% da população brasileira do pagamento de imposto de renda. Mas é necessário recompor os R$ 28,5 bilhões dessa renúncia fiscal. E quem vai pagar esta conta? Os juros são altos porque o governo gasta muito, gasta mal e não entrega equilíbrio fiscal. Vai aumentar a cada mês o nosso endividamento, onde todos nós pagaremos a conta, sacrificando toda a população.

Vamos em frente que atrás vem gente

Vamos tentar entender como funciona o nosso Brasil. Com aproximadamente 204 milhões de habitantes, temos 57 milhões deste total usufruindo do Bolsa Família; 39 milhões de aposentados e pensionistas; 11 milhões no funcionalismo público; 7 milhões de desempregados; 36 milhões de zero a 15 anos de idade que não trabalham; e aí temos 8 milhões que resolveram correr risco, abrir empresa, sofrer ações trabalhistas, processos judiciais e tantos outros penduricalhos, para gerar empregos para uma galera produzir R$ 5,5 trilhões para alimentar todos citados acima. Mas, para os “esclarecidos”, o grande problema do país é a turma que classificam como capitalistas. E esta parece ser a meta do atual governo, acabar com todos os empresários e passar a tomar conta de tudo, de todas as empresas. Imagine você ter uma empresa em sua cidade onde só você pudesse vender água. Todos da cidade são obrigados a comprar a sua água. Será que isso daria prejuízo? Lógico que não. Mas vamos citar outro exemplo mais real e atual, os Correios. A estatal teve um resultado positivo durante o último governo com um lucro de R$ 3,7 bilhões, o maior de sua história. Segundo os dados de setembro de 2024, voltou a dar prejuízo de R$ 2 bilhões. Imaginem se o governo tomar conta de tudo, como planejam. Basta ver por fatos e relatos que circulam nos meios de comunicação, a situação nas prateleiras de um supermercado em um país socialista, com carência total de produtos, com os consumidores tendo que se contentar com o que tem. Por outro lado, o que vemos nos países capitalistas são os espaços preenchidos com uma enorme diversidade de produtos. Então, se excluirmos o capitalismo, acabarmos com a concentração de capital, dividirmos para todos igualmente, será que daria certo? E quem advoga esta situação são os que dão o pior exemplo. Se lembram de uma atual deputada federal, de um partido socialista, eleita por São Paulo, com sobrenome bem conhecido no mundo capitalista, que em uma viagem internacional postou uma foto sua com uma bolsa de R$ 24,7 mil e com um look total passando dos R$ 200 mil. E por que isso acontece? Segundo os especialistas, o cérebro humano opera por estímulos, gatilhos mentais, mecanismos cerebrais que respondem a algum estímulo, chamado no varejo de gatilho mental ao inimigo comum. Vamos citar outro exemplo: a Samsung se uniu à Apple na corrida aos mercados emergentes, com o objetivo de ingressar em um mercado de preços mais baixos e concorrência agressiva contra os fabricantes chineses como a ZTE e a Huawei Technologies. Duas rivais, mas quando encontram um inimigo comum, as duas se unem. Cuidado com aqueles que pregam ser o capitalismo o inimigo a ser combatido. Basta ver o líder maior do governo atual. Os relógios de luxo que já exibiu e exibe são avaliados em mais de R$ 140 mil. Em um evento para discutir sobre o combate à pobreza, a primeira-dama ostentava sapato de R$ 8,5 mil, sem nenhum constrangimento. Nem vamos comentar aqui sobre a gastança nas viagens internacionais. Segundo os analistas, o governo registrará um rombo de R$ 23,3 bilhões nas contas públicas em 2026, conforme dados do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), enviado pelos ministérios do Planejamento e da Fazenda ao Congresso. Nas contas do mercado, a estabilização da dívida pública depende de superávits primários recorrentes de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos. No tabuleiro político, o presidente acionou a tal “Lei da Reciprocidade Econômica” contra os Estados Unidos, depois que resolveram taxar em 50% produtos brasileiros. Com isso, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) está preocupada com a aplicação desta lei. Para eles, o Brasil precisa agir com firmeza, mas com sensatez, com relação à tarifa de 50%. Segundo a Frente, a adoção imediata de contramedidas pode ser mal interpretada pelos norte-americanos e atrapalhar a estratégia de negociação do Brasil para reduzir a sobretaxa ou restringir a lista de produtos atingidos. A Frente chegou a divulgar uma nota em que alega que “a avaliação prematura de contramedidas neste momento pode enviar sinalizações equivocadas e comprometer a própria estratégia de negociação internacional do Brasil”. Vamos aguardar!