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Novos materiais de construção com rejeitos de minério de ferro

O grave rompimento da Barragem de Fundão, que completa 2 anos no próximo dia 5 de novembro, recoloca em pauta a urgência de serem adotadas soluções modernas para o problema da estocagem de “estéreis” e outros rejeitos das minerações de ferro. No caso de Minas Gerais, com vocação inata para a mineração, essa necessidade é mais dramática. Mas graças ao Projeto Rejeito Zero criado e desenvolvido pela Escola de Engenharia da UFMG, sob minha responsabilidade e do engenheiro Abdias Magalhães Gomes, já está disponível para o poder público e o setor privado uma tecnologia que aproveita os “estéreis” e rejeitos da mineração de ferro e propicia o fim de tais barragens.

Urge, agora, o apoio institucional de entidades governamentais municipais, estaduais e federais para que firmem convênios com a Escola de Engenharia, visando expandir a utilização dos produtos do beneficiamento do material antes imprestável e que ocupa enormes espaços, com riscos para o meio-ambiente. Após 10 anos de pesquisas e experimentações, a tecnologia disponibilizada pelo Projeto Rejeito Zero produz o cimento ecológico MetaKflex®, patenteado pela UFMG, o qual gera concreto e pigmentos para uso em construção de habitações, de estradas e outras obras de infraestrutura, além da aglomeração de granulados e até de obras de arte, como as esculturas Porco de Minas feitas com a lama deixada pela Barragem do Fundão.

Passados a descoberta de ouro em Vila Rica e a de diamante no Arraial do Tejuco e o ciclo do ouro e do diamante, Minas continua fortíssima na mineração de ferro, o material mais usado no mundo. Sem o ferro não há aço, não há indústria, nem infraestrutura nem bens duráveis de consumo. E sem o aço estaríamos ainda na idade do ferro fundido do século 18. Mas, além de contribuir com maciça produção do minério, Minas precisa logo tomar dianteira na nova fase de modernização da extração mineral iniciada após o acidente em Mariana.

Por isso, defendemos que a mineração de ferro se enquadre cada vez mais nos conceitos modernos da produção autossustentável, de modo a preservar também o meio-ambiente. Para produzir ferro, é necessário retirar o minério de ferro da crosta terrestre. Porém, esse minério, que tem o nome geológico de Itabirito, não está sozinho, livre, leve e solto na natureza. Está colado em outras rochas, chamadas de estéreis porque ninguém as usava para outro fim. Uma vez que o Itabirito sozinho não pode produzir aço, as minerações aplicam as técnicas de purificação para retirar o óxido de ferro; e sobram os minerais que não servem para a siderurgia e são direcionados para as barragens de rejeitos ou para as pilhas gigantes de estéreis.

Até 2014, não se sabia o que fazer com o material estocado, fator de acidentes. Mas, após 10 anos de pesquisas, em 2014 eu e Abdias Magalhães Gomes – também professor da UFMG e engenheiro civil especialista em cimento e derivados – e nossa equipe conseguimos transformar em produtos nobres os irmãos pobres do ferro, os quais possuem algo em comum: os filossilicatos, que, ao passarem por um cozimento em baixa temperatura, se transformam em um cimento de origem pozolânica.

Com os produtos da nova tecnologia, construímos com a nossa equipe da Escola de Engenharia uma casa de 46 m² utilizando o cimento ecológico, argamassa, pintura de ferragens – todos, produtos criados e desenvolvidos na UFMG. Os custos das edificações são 30% mais baratos que as construções convencionais. E os materiais nelas usados têm a vantagem de não serem tóxicos. Entre os professores e alunos da UFMG que os manipulam no Projeto Rejeito Zero, há 10 anos, ninguém ficou doente. E nenhuma análise química certificada encontrou qualquer substância nociva neles.

* Engenheiro, geólogo e professor da UFMG