Polícias recebem 5 mil vezes mais recursos que políticas para egressos

Em 2025, os estados destinaram R$ 103,5 bilhões às polícias, R$ 22,3 bilhões ao sistema prisional e R$ 19 milhões a políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional. Em Minas Gerais, R$ 13,6 bilhões foram gastos com as polícias e o sistema prisional, segundo o levantamento “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros”, do Centro de Pesquisa Justa. O estudo analisou os gastos de 26 unidades da federação, com exceção do Acre. Na proporção calculada pela pesquisa, para cada R$ 5.423 destinados às polícias, foram investidos R$ 1.169 no sistema prisional e apenas R$ 1 em políticas para egressos. Para entender esse cenário, o Edição do Brasil conversou com a coordenadora de pesquisas do Justa, Taciana Santos. O que explica essa concentração de recursos na entrada do sistema de justiça criminal e quais consequências ela pode trazer para a prevenção da violência, a reincidência e a segurança pública no longo prazo? Essa disparidade é explicada pela preferência política e eleitoral por ações de patrulhamento ostensivo e respostas imediatas, em detrimento de investimentos em inteligência, investigação e reintegração social. Ver um policial na rua gera sensação de segurança, mas o perfil dos crimes mudou. Hoje, golpes, fraudes e estelionatos digitais afetam milhares de pessoas. No longo prazo, essa lógica mantém o “funil” penal, ampliando a superlotação do sistema penitenciário sem desarticular o crime organizado. As prisões fortalecem facções ao funcionarem como espaços de recrutamento. Sem investimentos na reinserção social, permanecem altas as taxas de encarceramento e reincidência, tornando a segurança pública cara e menos eficiente. Como equilibrar o combate ao crime com investimentos em políticas para quem já cumpriu pena? A verdadeira segurança exige direcionar e ampliar orçamentos para inteligência, investigação, perícia técnica e também políticas de reinserção social. Estados deveriam adotar um planejamento integrado, vinculando parte dos recursos destinados ao policiamento a programas de pós-encarceramento. Investimentos em qualificação profissional, moradia e emprego ajudam a reduzir a reincidência e a pressão sobre as próprias forças de segurança. Sete estados registraram investimentos em políticas para egressos. O que esses programas oferecem e como eles podem servir de exemplo para outros estados? Eles funcionam como redes de acolhimento, geralmente estruturadas por meio dos Escritórios Sociais e de parcerias com a assistência social. Entre os serviços oferecidos estão emissão de documentos, abrigo temporário, alimentação e apoio psicossocial. Podendo incluir capacitação profissional, educação, inserção no mercado de trabalho, apoio à geração de renda e assistência jurídica. São medidas fundamentais para pessoas que deixam o sistema prisional e muitas vezes perderam vínculos familiares e oportunidades de trabalho. Há evidências de que investimentos nessas políticas podem contribuir para reduzir a reincidência criminal? Sim. Estudos na área de criminologia e políticas públicas mostram que o acesso a documentação, moradia e renda formal é um dos fatores mais importantes para reduzir a reincidência criminal e garantir condições mínimas de sobrevivência. O que estados e o governo federal podem fazer para equilibrar melhor os investimentos e quais seriam as medidas prioritárias nos próximos anos? No âmbito federal, um dos principais avanços é o Plano Pena Justa, voltado ao enfrentamento dos problemas estruturais do sistema prisional e à promoção da cidadania. Nos estados, a prioridade passa pela reorganização dos Planos Plurianuais (PPAs) e das Leis Orçamentárias Anuais (LOAs), ampliando os recursos destinados à reintegração social. As escolhas orçamentárias também são escolhas políticas. Quando os governos concentram recursos em polícias e prisões, deixam de investir em áreas como educação, saúde, habitação e assistência social, fundamentais para reduzir desigualdades e contribuir para uma sociedade menos violenta.
América vive declínio e vê rebaixamento para Série C cada vez mais perto

Há poucos anos, o América vivia um dos momentos mais marcantes de sua história recente. O clube alcançou a semifinal da Copa do Brasil em 2020, garantiu vaga inédita na Copa Libertadores de 2022, após terminar o Campeonato Brasileiro de 2021 na oitava colocação, e voltou a jogar uma competição continental em 2023, disputando a Copa Sul-Americana. Agora, o cenário é completamente diferente. Na reta final da Série B deste ano, o Coelho aparece na zona de rebaixamento e tem 99,92% de probabilidade de queda para a Série C de 2027, de acordo com levantamento do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para o jornalista Lucas Marques, a origem da crise está na mudança de postura da diretoria após os anos de maior sucesso esportivo. “Antes, o clube apresentava uma gestão firme e competente, que levou o América a conquistas importantes, como a semifinal da Copa do Brasil e a disputa da Libertadores”. “Depois desse período de sucesso, surgiu a sensação de que a diretoria passou a querer dar passos maiores do que as próprias pernas. Isso influenciou diretamente a montagem dos elencos e principalmente na condução financeira do clube”, acrescenta. Segundo Marques, o rebaixamento da Série A em 2023 foi um marco importante para a situação atual. Naquele ano, o América terminou a competição na última colocação e retornou à Série B. “O clube vinha de uma boa campanha no Brasileiro e havia acabado de negociar o atacante Ademir por um valor significativo. Ou seja, reunia sucesso esportivo e recursos financeiros. Depois disso, uma série de decisões equivocadas comprometeu o futuro do América”. Ele destaca ainda que o aumento das despesas do clube após a queda à Série B ajuda a explicar o agravamento da crise. “Segundo os balanços do clube, as despesas totais foram de R$ 92 milhões em 2023 para R$ 152 milhões em 2024, já na Série B. Esse aumento expressivo ajuda a dimensionar os problemas de gestão que contribuíram para a atual crise”. Na avaliação do jornalista, a gestão do futebol foi o principal ponto de ruptura de um modelo que vinha funcionando. “O América já havia demonstrado que era capaz de montar equipes competitivas mesmo com menos recursos financeiros. O que faltou foi manter os pés no chão e dar continuidade ao trabalho que vinha apresentando resultados”. A campanha recente reforça o diagnóstico apontado por Marques. Após terminar a Série B de 2024 em oitavo lugar, o clube caiu para a 14ª posição em 2025. “Essa sequência revela que os problemas de gestão não foram corrigidos e se agravaram. Em 2025, o América brigou até as últimas rodadas para evitar um novo rebaixamento. Neste ano, a situação se repetiu de forma ainda mais preocupante”. Apesar do momento delicado, o jornalista acredita que ainda há caminhos para a recuperação. “O clube está em negociações para a venda de sua SAF e com as contas em dia. Consegue se reestruturar, sobretudo buscando recuperar receitas, valorizando a base e apostando em uma prospecção de mercado mais criteriosa. Existe margem para o América se reerguer e reconstruir um projeto esportivo sustentável, capaz de recuperar gradualmente o protagonismo conquistado no início desta década”, conclui.
Espetáculo “Encruzilhada” propõe reflexão sobre futuro da humanidade

Em um mundo marcado por crises ambientais, conflitos e transformações sociais aceleradas, quais caminhos a humanidade está escolhendo para o futuro? Essa é a reflexão proposta por “Encruzilhada”, novo espetáculo do Grupo Trama de Teatro. A montagem utiliza uma linguagem simbólica e surrealista para abordar temas como consumismo, degradação ambiental e relações humanas. Com texto e direção de Carlos Henrique, Shirley Rodriguez e Marco Túlio Zerlotini, a peça parte da imagem de uma encruzilhada onde personagens transformados pelo tempo aguardam que algo aconteça. A partir desse cenário, o público é levado a refletir sobre as consequências das escolhas individuais e coletivas para as próximas gerações. “Quando a gente coloca essa encruzilhada, traz essa discussão sobre como está o destino da humanidade. Esses destinos estão nas mãos dos seres humanos. A peça fala desse lugar em que homens e mulheres são os próprios responsáveis pela degradação humana e da natureza”, afirma Carlos Henrique. A dramaturgia foi construída ao longo de dez meses de pesquisa e ensaios. Entre as inspirações estão filmes pós-apocalípticos e debates sobre a exploração desenfreada dos recursos naturais, guerras, poluição, desmatamento e desigualdades sociais. Apesar do cenário distópico, Carlos Henrique explica que a obra evita discursos moralizantes. “As respostas talvez estejam dentro da cabeça do próprio espectador. É uma reflexão interna que a gente provoca para que as pessoas saiam do espetáculo perguntando o que podem fazer para melhorar a situação ambiental e o lugar onde vivem”. Segundo Carlos Henrique, o espetáculo parte da ideia de um planeta devastado pela ação humana, mas sem abrir mão da esperança. “Nada ainda está perdido. Há tempo de nos recuperarmos enquanto seres humanos e isso faz com que a gente recupere o planeta também. Os personagens ainda trazem alguma esperança, alguma forma de recuperar o que foi perdido”. A cenografia minimalista reforça a proposta simbólica da montagem. Em cena, uma placa indicando direções e um caminhão que atravessa constantemente a encruzilhada ajudam a construir a narrativa. O diretor aponta que o veículo assume papel central ao representar a retirada contínua das riquezas naturais. “Ele leva embora a nossa água, o minério e a madeira, simbolizando quem transporta as riquezas e deixa para trás a devastação, a falta d’água e a destruição ambiental”. Os figurinos também dialogam com esse universo. Produzidos a partir da sobreposição de peças reutilizadas, representam um mundo em que a escassez já faz parte do cotidiano. “Não existe mais roupa para escolher. Você veste o que encontra. Queríamos causar um certo incômodo visual e reforçar essa sensação de sobrevivência”, explica Carlos Henrique. Celebração Além da estreia de um novo espetáculo, “Encruzilhada” marca um momento especial para o Grupo Trama. Fundada em Belo Horizonte em 1998, a companhia celebra 28 anos de trajetória. “Estamos prestes a completar 30 anos de existência e, principalmente, de resistência. O Trama sempre procurou produzir espetáculos que tiram o público do lugar comum e provocam reflexões sobre como cada pessoa se posiciona dentro da sociedade”, afirma Carlos Henrique. As apresentações em Contagem acontecem nos dias 18, 19, 25 e 26 de setembro, às 20h, no Espaço Trama de Teatro, na Avenida Carmelita Drumond Diniz, 527 – Parque Maracanã. Depois, o espetáculo segue para Belo Horizonte, com sessões nos dias 2 e 3 de outubro, no ZAP 18, e em 16 de outubro, no Galpão Cine Horto, celebrando os 28 anos do grupo. Os ingressos custam entre R$ 20 e R$ 60, dependendo da sessão, e podem ser adquiridos pelo endereço linktr.ee/grupotrama. Para o diretor, a longevidade da companhia também representa um incentivo para novas gerações de artistas. “O Trama é um exemplo de que é possível viver e fazer teatro em um país que ainda dá pouca importância para a arte. Resistir por tanto tempo já é uma forma de mostrar que esse caminho continua possível”, conclui.
Dinheiro esquecido em bancos e instituições financeiras chega a R$ 5,65 bilhões

Mais de 23 milhões de brasileiros têm dinheiro a receber em bancos e outras instituições financeiras. Segundo dados divulgados pelo Banco Central, o volume de recursos esquecidos chegou a R$ 5,65 bilhões em julho. Desse valor total, R$ 4,25 bilhões pertencem a pessoas físicas e R$ 1,4 bilhão a empresas. Desde a criação do Sistema de Valores a Receber (SVR), mais de R$ 16 bilhões já foram devolvidos aos titulares. Os valores podem ter diversas origens, como contas encerradas com saldo remanescente, tarifas cobradas indevidamente, cotas de cooperativas de crédito e recursos de consórcios encerrados. Dados do Banco Central mostram que 69,45% dos titulares possuem entre R$ 0,01 e R$ 10 a receber. Outros 18,97% têm entre R$ 10,01 e R$ 100. Apenas 2,22% contam com valores superiores a R$ 1 mil. Apesar do montante bilionário, o professor de economia da SKEMA Business School, Mário Marques, avalia que o impacto de um eventual resgate em larga escala sobre a economia brasileira tende a ser modesto. “É um valor grande quando olhamos isoladamente, mas pequeno diante do tamanho da economia brasileira. Para a maioria dos beneficiários, que tem poucos reais a receber, o efeito individual também é muito limitado. O PIB brasileiro gira em torno de R$ 12 trilhões. Esses R$ 5,6 bilhões representam apenas 0,4% do Produto Interno Bruto”, destaca. Segundo o professor, mesmo que uma parcela significativa dos recursos seja resgatada, não se trata de uma injeção de novos recursos na economia. “O resgate pode gerar algum movimento no comércio e nos serviços, mas é um recurso que já pertencia às pessoas e que apenas volta a ficar disponível para uso”. De acordo com Marques, o caso ajuda a explicar como milhões de pequenos valores podem formar uma cifra bilionária. Embora individualmente tenham pouco peso no orçamento das famílias, quando somados os recursos podem formar uma cifra bilionária. “Mas isso não significa que o efeito sobre a economia será igualmente grande, porque boa parte desses valores é muito pequena no orçamento de cada família”, observa. Por que o dinheiro continua parado? O Banco Central já devolveu mais de R$ 16 bilhões desde o lançamento do sistema, mas ainda há milhões de pessoas que não consultaram ou não solicitaram os recursos disponíveis. Na avaliação de Marques, o desconhecimento e a baixa atratividade dos valores explicam boa parte desse comportamento. “Primeiro porque muita gente nem sabe que tem esse dinheiro, segundo dá certo trabalho e toma tempo para receber um montante tão pequeno. As pessoas acabam dando pouca ou nenhuma prioridade para resgatar R$ 2, R$ 5 ou R$ 10”. O episódio também levanta discussões sobre educação financeira. No entanto, Marques pondera que a existência dos chamados “valores esquecidos” não deve ser interpretada automaticamente como falta de organização financeira. “Muitas vezes é uma conta em banco que a pessoa achou que tinha encerrado e ficou um resíduo. Garanto que ninguém esqueceu uma aplicação de R$ 20 mil ou algo parecido”. “O fenômeno é interessante justamente porque mostra como milhões de quantias quase insignificantes individualmente podem formar um número expressivo quando somadas, assim como foi o escândalo do INSS, valores muito baixos retirados de milhares de aposentados, que na maioria das vezes nem percebiam que estavam sendo lesados, mas que no final representou um golpe de bilhões”, conclui Marques. Como acessar Para consultar se há valores disponíveis, o cidadão deve acessar o endereço www.bcb.gov.br/meubc/valores-a-receber e informar CPF e data de nascimento. Para solicitar o resgate, é necessário ter conta Gov.br nos níveis prata ou ouro. O serviço é gratuito e deve ser acessado apenas pelos canais oficiais do Banco Central.
Assédio eleitoral no ambiente de trabalho exige cuidados nas empresas

Com a aproximação das eleições, empresas e gestores devem redobrar os cuidados para garantir a liberdade política dos trabalhadores. O chamado assédio eleitoral ocorre quando a relação de trabalho é utilizada para pressionar, constranger ou influenciar a escolha eleitoral de empregados, prática que pode gerar consequências nas esferas trabalhista, eleitoral e até criminal. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), até 1º de setembro foram registradas 252 denúncias de assédio eleitoral no Brasil. Em Minas, o MPT-MG contabilizou 15 reclamações relacionadas ao tema. Entre as condutas que podem caracterizar assédio eleitoral estão ameaças de demissão, promessas de benefícios vinculados ao apoio a candidatos, pressão para participação em atos políticos e o uso da estrutura da empresa para promover campanhas. A advogada especialista em Direito do Trabalho e Empresarial, Débora Cursine, ressalta que a prática nem sempre ocorre de forma explícita. “O assédio eleitoral não se limita àquela situação explícita em que o empregador diz ‘vote em determinado candidato’. Ele pode ocorrer de maneira mais sutil, por meio de reuniões, mensagens, promessas de vantagens, ameaças sobre o futuro da empresa ou do emprego e utilização de informações para tentar controlar ou fiscalizar a escolha eleitoral”, afirma. Segundo Débora, o ponto central é identificar quando o poder econômico ou a posição hierárquica passam a ser utilizados para interferir na liberdade política do trabalhador. Ela destaca que o empregador pode ter posicionamento político, mas não pode transformar essa opinião em pressão sobre os funcionários. A preocupação ganhou ainda mais relevância neste ano. A Resolução do TSE nº 23.755/2026 passou a vedar expressamente a propaganda eleitoral e o assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos e privados. Para a advogada especialista em Direito e Processo do Trabalho, Juliana Mendonça, a norma amplia a responsabilidade das empresas. “A principal mudança é que a empresa deixa de poder se esconder atrás da neutralidade passiva. Antes, o foco recaía mais sobre casos de coação direta; agora, mesmo a simples veiculação de propaganda eleitoral dentro do ambiente de trabalho já é considerada infração”, explica. Apesar das restrições, conversar sobre política não é proibido. Débora observa que o limite está no respeito à liberdade individual e na ausência de pressão ou constrangimento. “Dois colegas podem conversar sobre política, discordar e defender candidatos diferentes. O problema é quando desaparece a espontaneidade e entram a intimidação, constrangimento, ameaça ou discriminação”. Prevenção e canais de denúncia A orientação de Débora é que as empresas adotem medidas preventivas antes que ocorram situações de conflito. Entre as recomendações estão treinamentos específicos para lideranças, políticas internas claras, revisão dos canais corporativos e criação de mecanismos seguros para denúncias. “Cargo de chefia não dá autorização para direcionar a escolha política dos subordinados. Eles não devem utilizar reuniões, grupos corporativos, e-mails ou outros canais institucionais para campanha eleitoral, nem questionar empregados sobre suas preferências políticas”. Juliana acrescenta que a prevenção precisa ser estruturada. “As medidas mais eficazes são uma política interna formal de neutralidade eleitoral, treinamento específico para lideranças, um canal de denúncia acessível e um fluxo claro de apuração para que qualquer denúncia tenha resposta rápida”. Para Débora, os canais de denúncia só funcionam quando o trabalhador confia que haverá confidencialidade e proteção contra retaliações. “Canal de denúncia sem cultura de proteção não funciona. Se o trabalhador acredita que será perseguido por denunciar, ele simplesmente não utilizará o mecanismo”. Caso uma denúncia seja confirmada, a omissão também pode trazer consequências. “A empresa precisa agir rápido e de forma isenta. Hoje, a omissão pode gerar responsabilização tão séria quanto a prática direta da conduta”, conclui Juliana.
Saúde mental requer atenção contínua para além do Setembro Amarelo

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais dos últimos anos. Dados da Previdência Social apontam a concessão de 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a essas condições, um aumento de 15,6% em comparação com 2024. A psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho, Janaina Fidelis, avalia que os números revelam uma mudança importante na forma como o tema é encarado pela sociedade. “Quando mais de meio milhão de afastamentos acontecem em um ano, não estamos falando apenas de fragilidades individuais. Esse volume também mostra a necessidade de discutir como o trabalho está sendo organizado e quais fatores estão contribuindo para o sofrimento das pessoas”. Segundo Janaina, os sinais de adoecimento costumam aparecer antes do afastamento. Alterações no sono, irritabilidade frequente, dificuldade de concentração, queda de produtividade, isolamento e sensação constante de esgotamento podem indicar que algo não vai bem. “Muitas pessoas acreditam que é apenas uma fase difícil ou que precisam suportar mais um pouco. Mas quando esses sintomas persistem e começam a comprometer a rotina, é fundamental procurar ajuda especializada”. Ambiente influencia o adoecimento Estudos recentes da Fundacentro e da Fundação Getúlio Vargas apontam que a saúde mental no trabalho é um fenômeno multifatorial, envolvendo aspectos individuais, organizacionais e sociais. Ambientes marcados por metas excessivas, baixa autonomia, falta de reconhecimento e relações autoritárias tendem a aumentar o risco de sofrimento psíquico. Na avaliação de Janaina, a responsabilidade pela prevenção não pode recair exclusivamente sobre o trabalhador. “É preciso que as empresas criem ambientes psicologicamente seguros, onde as pessoas possam falar sobre dificuldades sem medo de julgamento ou de prejuízos profissionais. A saúde mental é uma construção coletiva”. Ela também chama atenção para o retorno ao trabalho após um afastamento. “Se as causas que contribuíram para o adoecimento não forem identificadas e corrigidas, as chances de recaída permanecem elevadas. Não basta apenas esperar a recuperação. É necessário avaliar a carga de trabalho, as relações profissionais, a liderança e os riscos psicossociais”. Reflexos aos trabalhadores Além dos impactos emocionais e profissionais, o afastamento por transtornos mentais também pode produzir efeitos na vida previdenciária dos trabalhadores. A advogada previdenciária Débora Knust explica que os períodos em benefício por incapacidade podem ser considerados para fins de aposentadoria, desde que sejam observadas as regras previstas na legislação. “Pouca gente pensa nisso durante o tratamento, porque a prioridade naquele momento é recuperar a saúde. Mas o período de afastamento pode ter reflexos futuros e merece atenção”. Trabalhadores autônomos, microempreendedores individuais (MEIs) e contribuintes facultativos precisam ficar atentos à retomada das contribuições após a alta médica, alerta a advogada. “Em muitos casos, uma única contribuição depois do retorno já pode fazer diferença para o reconhecimento daquele período no futuro”. De acordo com Débora, acompanhar regularmente o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) também é uma medida importante para evitar problemas na hora de solicitar a aposentadoria. “Quanto antes a pessoa verifica se sua trajetória contributiva está registrada corretamente, maiores são as chances de corrigir eventuais inconsistências”. Para ambas, o crescimento dos afastamentos mostra que a saúde mental deixou de ser uma questão individual para se tornar um desafio coletivo. “O Setembro Amarelo é importante porque abre espaço para a conversa, mas a prevenção precisa acontecer todos os dias. Falar sobre saúde mental é importante. Transformar os ambientes de trabalho em espaços mais saudáveis é indispensável”, conclui Janaina.
Assembleia Legislativa debate expansão e orçamento do IFMG em Minas

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) sediou um debate promovido pelas comissões de Educação, Ciência e Tecnologia e de Direitos Humanos sobre a relevância socioeconômica do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). O encontro reuniu parlamentares, o reitor e diretores de campi para discutir a atuação da rede federal, a expansão do ensino técnico e os modelos de custeio orçamentário. A deputada Beatriz Cerqueira (PT) destacou a importância da consolidação dos institutos como política de Estado permanente. “Os institutos federais constituem um avanço civilizatório, porque quando a gente investe em educação, sem sombra de dúvidas, é um grande avanço civilizatório. E o que a gente precisa sempre batalhar é para que tudo isso seja uma política de Estado”. O IFMG possui 18 unidades e presença em quatro regiões do Estado. Outras 4 unidades estão sendo construídas. O reitor Rafael Bastos Teixeira apresentou a abrangência do instituto. “Nós temos praticamente 2 mil servidores efetivos, além de mais de 70 mil alunos, desde a modalidade EAD até a presencial”. Impacto territorial A descentralização das unidades do IFMG foi apontada pelos diretores como fator decisivo para o desenvolvimento local. Em Ribeirão das Neves, a atuação da instituição contribui para alterar percepções históricas da região metropolitana, segundo o diretor-geral do campus Ribeirão das Neves, David Silva Franco. “Ter uma unidade no município é parte de um movimento para ressignificar o que é ser cidadão da cidade. Temos contribuído para mudar esse símbolo a partir da educação pública de qualidade, integrando-se ao arranjo produtivo local”. Em Ouro Preto, o foco na inclusão socioeconômica e no acesso ao ensino superior foi enfatizado pelo diretor Reginato Fernandes dos Santos. “Hoje, conseguimos fazer uma transformação às vezes de alguém sem nenhuma perspectiva e que ele pode chegar seja na universidade ou no mundo do trabalho”. Financiamento A sustentabilidade financeira esteve no centro dos debates. Gestores abordaram os desafios de custeio de infraestrutura e assistência estudantil, enquanto parlamentares discutiram propostas para o setor. A deputada Bella Gonçalves (PT) citou a proposta de conversão de dívidas em investimento educacional. “O ‘Juros pela Educação’ é uma proposta de converter parte do pagamento da dívida pública do Estado de Minas Gerais com a União em investimento em ciência e tecnologia”. “Podemos reforçar modelos de privatização, como tem acontecido aqui em Minas Gerais, com privatização e vendas de escolas, e um desenvolvimento técnico, científico e tecnológico baseado em parcerias privadas ou reforçar campus de uma universidade pública. A nossa defesa é que a gente possa fortalecer o ensino público e não apenas a ampliação dos campos, como também o fortalecimento da assistência estudantil”, acrescentou.
Florestas plantadas ampliam papel de Minas na produção de aço verde

Minas Gerais possui cerca de 2,3 milhões de hectares de florestas plantadas, distribuídos por mais de 800 dos 853 municípios do Estado. A atividade, além de abastecer setores como celulose e madeira, também sustenta a produção de carvão vegetal utilizado pela siderurgia e ganha importância diante da busca por produtos com menor emissão de carbono. Segundo a presidente-executiva da Associação Mineira da Indústria Florestal (AMIF), Adriana Maugeri, a distribuição da atividade pelo território mineiro contribui para o desenvolvimento de diferentes regiões. “Não existe uma localidade ou outra que está ampliando mais a quantidade de floresta, isso vem sendo distribuído, mas existem segmentos que estão aumentando a demanda”. Além da área destinada à produção, o setor informa manter cerca de 1,3 milhão de hectares conservados em Minas. A cadeia reúne grandes empresas e pequenos e médios produtores. Quase metade da produção está nas mãos de grandes produtores e a outra metade, de produtores de menor porte. A presença em diferentes regiões movimenta uma cadeia que envolve viveiros, plantio, manejo, transporte, beneficiamento e indústrias consumidoras da madeira. Para Adriana, esse modelo contribui para diversificar a economia dos municípios. “Se existem cadeias produtivas em todas as regiões consolidadas pelo setor florestal desde a produção de muda até o final, o beneficiamento dessa madeira, então tenho o setor de transporte, manejo, plantio, os viveiros e as indústrias que consomem essa madeira”. Carvão vegetal O Estado também ocupa posição de destaque na produção de carvão vegetal destinado à indústria. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Minas Gerais respondeu por 88,1% da produção nacional de carvão vegetal proveniente da silvicultura em 2023. O produto é utilizado na fabricação de ferro-gusa, ferroligas e aço. A utilização do carvão vegetal ganhou força em Minas a partir da expansão da siderurgia nas décadas de 1980 e 1990, quando o país também incentivava o plantio de florestas. Com o tempo, a indústria desenvolveu técnicas específicas para utilizar o material em pequenos altos-fornos. “Isso ficou uma especialidade brasileira e hoje ela vem sendo replicada fora do Brasil. A experiência acumulada ao longo de décadas coloca o carvão vegetal entre as alternativas disponíveis para a descarbonização da indústria”, afirma Adriana. A expectativa do setor é de aumento da demanda por produtos de menor pegada de carbono, o que já leva empresas integradas, que atuam tanto na produção florestal quanto na siderurgia, a ampliar áreas de plantio. Porém, o planejamento precisa ser feito com antecedência. “Uma floresta destinada à produção de carvão pode levar cerca de sete anos até a colheita”, reforça a dirigente. A possibilidade de ampliar a produção sem pressionar áreas de vegetação nativa também é defendida pelo setor. Adriana afirma que existem áreas degradadas ou de baixa produtividade que podem receber novos plantios. “Não é preciso derrubar nenhuma árvore para produzir floresta plantada. Basta dar cobertura vegetal a essas áreas já degradadas”. Para a presidente da AMIF, a expansão da cadeia pode contribuir simultaneamente para a atividade produtiva e a conservação. “Quanto mais madeira legal, manejada com sustentabilidade, com os melhores preceitos técnico-científicos for produzida, maior é a proteção de áreas conservadas da pressão pelo desmatamento”, conclui.
Mais de 70% dos nanoempreendedores segue na informalidade no Brasil

Criada pela reforma tributária para contemplar trabalhadores com faturamento anual de até R$ 40,5 mil, a categoria dos nanoempreendedores reúne cerca de 19 milhões de brasileiros. Apesar da relevância desse contingente para a geração de renda, especialmente entre famílias mais humildes, a informalidade ainda predomina: 71,9% atuam sem o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), segundo estudo encomendado pela Natura e divulgado pela Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD). O levantamento mostra que os nanoempreendedores possuem características distintas das observadas entre os microempreendedores individuais (MEIs). A renda média mensal dos informais é de R$ 1.480, enquanto 81,5% vivem com até dois salários mínimos. Além disso, 31,5% não concluíram o ensino fundamental. Para a presidente da ABEVD, Adriana Colloca, o perfil socioeconômico ajuda a explicar os elevados índices de informalidade. “Em grande parte, são trabalhadores de baixa renda que empreendem em pequena escala, e muitas vezes têm nessa atividade uma forma de complementar o orçamento familiar. A baixa escolaridade e as dificuldades de inclusão digital e acesso a dados também costumam tornar mais complexo o cumprimento de rotinas burocráticas”. Na última semana, a Receita Federal e o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (CGIBS) anunciaram a suspensão da exigência de CNPJ e emissão de nota fiscal para os nanoempreendedores até o fim de 2028. A medida foi recebida positivamente pela ABEVD, mas a presidente da entidade considera que o adiamento não resolve definitivamente a questão. “Ela atende parcialmente uma demanda nossa, mas não representa uma solução definitiva. É preciso evitar que uma iniciativa criada para simplificar e incentivar o início de uma atividade econômica termine gerando novas obrigações e incertezas para milhões de brasileiros”. Burocracia e inclusão produtiva Segundo a dirigente, exigir o CNPJ e a emissão de nota fiscal de trabalhadores que faturam até R$ 40,5 mil por ano e já estão dispensados do recolhimento do IBS e da CBS criaria uma barreira incompatível com a realidade da categoria. “Imagine se uma pessoa que vende bolo para complementar a renda da família vai registrar um CNPJ ou emitir nota fiscal para isso. Quem possui menor escolaridade, baixo letramento digital e pouco acesso a informações, essas exigências podem deixar de ser um detalhe e se tornar um impedimento para exercer a atividade”. Adriana defende que o controle do limite de faturamento seja realizado por mecanismos automatizados de cruzamento de dados, sem transferir aos trabalhadores obrigações consideradas excessivas. Além disso, a manutenção de um ambiente simplificado pode ampliar a inclusão produtiva e estimular a geração de renda. “Ao retirar obrigações desproporcionais à capacidade dessa parcela da população, a medida pode criar condições para que esses trabalhadores cresçam, se desenvolvam e avancem gradualmente para categorias como MEI e Simples Nacional”. Mesmo com a suspensão das exigências até 2028, Adriana demonstra preocupação com futuras regulamentações. “O adiamento é um paliativo. Esse público terá o mesmo perfil e as mesmas características em 2029. O ideal seria a revogação definitiva dessas exigências para que a figura do nanoempreendedor cumpra sua função de estímulo ao empreendedorismo e de justiça tributária”, conclui. Nanoempreendedor ou MEI O nanoempreendedor é voltado a quem tem faturamento anual de até R$ 40,5 mil e exerce atividade econômica de pequena escala, geralmente como forma de complementar a renda. Já o microempreendedor individual (MEI) é uma categoria formalizada, com CNPJ, que permite faturamento de até R$ 81 mil por ano em 2026, além da contratação de até um empregado pelas regras atuais.
Desigualdade marca acesso dos jovens ao mercado de trabalho formal no país

A entrada dos jovens de 16 a 29 anos no mercado de trabalho brasileiro é marcada por diferenças de renda, escolaridade, raça e região. É o que mostra a pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, realizada pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva. A formalização chega a 58% no Sul e a 55% no Sudeste, mas cai para 29% no Norte e apenas 20% no Nordeste. As diferenças também aparecem entre as classes sociais. Enquanto 43% dos jovens das classes A/B e 49% da classe C têm carteira assinada, o percentual é de 35% entre aqueles das classes D/E. A escolaridade também influencia o tipo de inserção profissional. Os “bicos” são realidade para 34% dos jovens com ensino fundamental, contra 9% daqueles com ensino médio e 3% entre os que possuem ensino superior. Entre os jovens brancos, 49% estão em empregos formais, ante 41% dos negros. Além disso, 12% dos jovens negros recorrem aos “bicos”, mais que o dobro do percentual registrado entre os brancos (5%). Para entender melhor os dados, o Edição do Brasil conversou com a coordenadora do Observatório Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso. Quais fatores explicam as desigualdades na formalização do trabalho entre os jovens? Essas diferenças estão relacionadas a fatores sociais, raciais, regionais e educacionais. Jovens de territórios e grupos mais vulnerabilizados têm menos oportunidades de continuidade dos estudos, qualificação e acesso a empregos formais. A necessidade de geração de renda também faz com que muitos ingressem mais cedo no mercado, o que pode dificultar a permanência na escola. Por que jovens negros e de baixa renda estão mais presentes em trabalhos informais e “bicos”? Isso é porque a necessidade de geração de renda é um fator importante. Esses jovens podem entrar mais cedo no mercado e ter dificuldades para conciliar trabalho e estudo. A menor escolaridade está diretamente associada à informalidade. Também pesam a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado, as dificuldades de deslocamento, o território onde vivem e o racismo estrutural. O fato de 77% dos jovens conseguirem emprego por indicação revela uma dificuldade para quem não possui rede de contatos? Sim. A indicação funciona como uma ponte de acesso ao mercado de trabalho, especialmente diante da falta de experiência, apontada por 49% dos jovens como a principal dificuldade. O grande problema é que as redes de contato não estão distribuídas de maneira igual. Jovens das classes mais altas e brancos têm maior acesso a essas conexões, o que pode reproduzir desigualdades. Como a formação técnica pode contribuir para ampliar o acesso ao emprego formal? A educação profissional e tecnológica é percebida por 91% dos jovens como um caminho mais rápido para ingressar no mercado de trabalho. Ela aproxima formação e prática e pode ajudar a enfrentar uma das principais barreiras apontadas pelos jovens: a falta de experiência. Quando articulada às necessidades locais e ao setor produtivo, essa modalidade de ensino pode ampliar as chances de inserção formal. Como facilitar a entrada dos jovens no mercado de trabalho? É necessária uma atuação coordenada entre políticas públicas, escolas, instituições de ensino e setor produtivo. É importante ampliar oportunidades de aprendizagem e estágio, fortalecer a educação profissional e tecnológica e aproximar os jovens das empresas. A escola também precisa prepará-los para a transição ao mundo do trabalho, com orientação, mentoria e desenvolvimento de competências. Também é importante descentralizar e fiscalizar as oportunidades de aprendizagem e estágio. Redes públicas de apoio, como a ampliação do acesso a creches, podem reduzir a sobrecarga de cuidados. Além disso, processos seletivos inclusivos e ações afirmativas podem contribuir para diminuir as desigualdades de gênero e raça.