Selic apresenta redução e mercado mantém cautela com a inflação

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Adecisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros da economia para 14,25% ao ano trouxe um sinal positivo para o mercado, mas está longe de representar uma mudança significativa no cenário econômico brasileiro, embora o corte de 0,25 ponto percentual já fosse esperado pelos agentes financeiros.

A avaliação é de que os juros permanecerão elevados por mais tempo, em razão da inflação ainda resistente, das incertezas fiscais internas e do ambiente internacional marcado por tensões geopolíticas e pelos rumos da política monetária dos Estados Unidos. “A decisão já estava no preço. O que mexeu mais com o mercado foi o comunicado, a ata e a perspectiva futura de atuação do Banco Central”, destaca o CEO da iHUB Investimentos, Paulo Cunha.

“Os investidores estão atentos às próximas decisões da autoridade monetária. O que ficou meio que dado é que agora não vamos ter mais movimentações, provavelmente, na próxima reunião. O mercado está olhando para as decisões futuras”, completa.

Na prática, a percepção é de que o Banco Central deverá adotar uma postura cautelosa até que haja maior convergência da inflação para a meta. O cenário fiscal brasileiro e a proximidade do período eleitoral entram na conta dos analistas ao projetar os próximos passos da política monetária.

Sem uma melhora consistente das contas públicas ou um cenário externo mais favorável, o espaço para novos cortes permanece limitado, conforme avalia Cunha. “Hoje, quando se olha a curva de juros, ela praticamente indica que não haverá novos cortes relevantes. Apesar da redução da Selic, o mercado elevou os juros futuros”.

Crédito continuará pressionado

Apesar de qualquer redução na taxa básica impactar o custo do dinheiro, o diretor de crédito da Quartzo Capital, Pedro Reis, alerta que o crédito continuará caro para empresas e consumidores nos próximos meses. “A desaceleração no ritmo de queda dos juros é o principal motivo de preocupação. Qualquer redução gera um impacto imediato no mercado de crédito como um todo. A Selic é o principal balizador das operações de crédito, e uma baixa de 0,25 já impacta diretamente no custo”.

Ele lembra que a expectativa do mercado era de cortes sucessivos ao longo do ano. “Temos uma notícia boa, que é a baixa de 0,25 ponto percentual, mas também uma não tão boa, porque a expectativa era que essa redução estivesse acontecendo em uma velocidade maior”.

De acordo com Reis, a manutenção da Selic em patamares elevados prolonga o chamado “arrasto” dos juros altos sobre a economia. “O dinheiro vai continuar mais caro por mais tempo. As empresas estão sofrendo muito com isso. Temos visto níveis elevados de endividamento, entrando em recuperação judicial e dificuldades para manter as operações”.

“Setores que dependem fortemente de financiamento tendem a ser os mais afetados. O varejo é um deles, já que opera com margens reduzidas e elevada necessidade de capital de giro. Quando temos juros elevados e margens apertadas, isso acaba estrangulando a empresa”, acrescenta.

Cunha também cita a construção civil, aviação e empresas altamente endividadas entre as mais expostas ao cenário atual. “São setores que precisam constantemente rolar dívidas e por isso, acabam sofrendo mais em períodos de juros elevados”.

Cautela no segundo semestre

Para ambos, o restante do ano exigirá prudência de empresários e investidores. A combinação entre inflação acima da meta, incertezas fiscais e eleições tende a manter o ambiente econômico desafiador. “Vai ser um segundo semestre com bastante cautela. As empresas precisam colocar o pé no chão e talvez não seja o momento de assumir riscos excessivos”, avalia Reis.

Enquanto isso, os investimentos em renda fixa seguem atraindo grande parte dos recursos do mercado. De acordo com o CEO da iHUB Investimentos, os juros elevados mantêm o interesse dos investidores por títulos públicos e outros ativos atrelados à taxa básica. “Hoje existe muita pouca disposição para investimentos mais arrojados. A maior parte dos recursos continua direcionada para a renda fixa”, conclui.

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