“Vila Morangal” retrata os diversos dilemas humanos no sertão mineiro

Francisco Xavier Amaral / Foto: Divulgação

Os conflitos entre desejo, culpa, religião e poder que atravessam gerações no interior do Brasil são o ponto de partida de “Vila Morangal – Livro 1: Desejo e culpa”, romance de estreia do mineiro Francisco Xavier Amaral. Advogado, bacharel em Filosofia e mestre em Teoria Literária, o autor transforma o sertão de Minas Gerais em cenário para discutir questões universais da condição humana. O livro pode ser adquirido na Amazon e na livraria Ipê das Letras.

A ideia da obra surgiu durante o período de isolamento provocado pela pandemia. O que inicialmente seria um conto cresceu até se transformar em um romance com mais de 600 páginas, posteriormente dividido em uma trilogia. O segundo volume será lançado ainda neste ano e o terceiro, em 2027.

“Eu queria enfocar sentimentos muito comuns, especialmente nas cidades do interior: esse conflito entre o desejo e a culpa. O ser humano vive um sentimento de culpa permanente, um mal-estar que o acompanha e que, muitas vezes, nem consegue identificar”, conta.

Ambientada na segunda metade do século 20, a narrativa acompanha diferentes personagens cujas histórias se entrelaçam em um pequeno vilarejo marcado pela religiosidade, pelo conservadorismo e pelas relações de poder. Sem um protagonista único, o romance reúne diversas trajetórias que revelam como as convenções sociais moldam decisões, afetos e destinos.

Para Amaral, embora a trama se passe décadas atrás, os temas continuam atuais. “Essa cultura conservadora, influenciada pela religião e pelas convenções sociais, ainda permanece viva, especialmente no interior do Brasil. A sociedade acaba oprimindo o homem e agride, de certa maneira, sua liberdade e sua busca pela felicidade. Foi isso que eu quis mostrar: como esses conflitos atravessam o tempo e continuam presentes na vida das pessoas”.

Outro elemento marcante do livro é a presença do coronelismo como símbolo da concentração de poder no meio rural. Segundo o escritor, essa estrutura possui raízes históricas que remontam ao período colonial e ainda influencia o imaginário brasileiro. “Existe uma continuidade desse sentimento de subserviência à autoridade do grande proprietário. Por trás da história permanece essa influência do coronel, daquele dono da grande terra que acaba determinando o modo de viver das pessoas. Achei importante recuperar esse aspecto dentro da narrativa”.

A formação em Filosofia também exerce papel decisivo na construção do romance. Inspirado por Friedrich Nietzsche, Amaral explora conceitos como ressentimento, vontade de poder e crítica à moral tradicional por meio dos conflitos vividos pelos personagens. Além disso, sua experiência como pecuarista contribuiu para conferir autenticidade ao universo retratado.

“Procurei mostrar a singularidade do pensamento do homem do interior. Convivi muitos anos com trabalhadores rurais, ouvi seus causos, aprendi seu modo de falar e suas convicções. Vi como a religiosidade exacerbada e a cobrança social minam a felicidade das pessoas. Foi desse universo que nasceu a narrativa”.

Para o autor, Vila Morangal também convida a fazer uma reflexão sobre a permanência do coronelismo no imaginário e nas relações sociais do interior brasileiro. “Seria interessante que o leitor observasse essa figura do coronelismo. Por trás da história existe a continuidade desse sentimento de subserviência à autoridade oculta do coronel, daquele dono da grande terra que influencia a todos. Acho que são aspectos importantes para quem gosta de história perceber ao longo da narrativa”, conclui.

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