Como as eliminações mudaram a relação do torcedor com a Seleção

Foto: Magnific.com

Por muitos anos, a Seleção Brasileira foi um dos principais símbolos da identidade nacional. As cinco estrelas na camisa alimentaram a imagem do “país do futebol” e transformaram as Copas do Mundo em um raro momento de união entre brasileiros de diferentes regiões, classes sociais e gerações. Mas, após sucessivas eliminações nas fases decisivas e o maior jejum sem um título mundial, essa relação começa a ganhar novos contornos. Hoje, o impacto das derrotas parece ultrapassar o campo esportivo e influencia a forma como diferentes gerações enxergam o próprio Brasil.

A transformação aparece principalmente entre os mais jovens. Embora nunca tenham visto a Seleção levantar a taça, integrantes da geração Z continuam mantendo forte vínculo com o Mundial. Um levantamento do InstitutoZ mostra que 75% afirmam ter alto envolvimento com a Copa do Mundo e 69% ainda consideram o Brasil o “país do futebol”.

Para a especialista em inteligência socioemocional, Núria Santos, esse comportamento revela uma mudança na forma de construir pertencimento. “A geração Z não construiu sua relação com a Copa apenas por meio dos títulos, mas pela experiência emocional e social que o evento proporciona. O pertencimento não depende somente da vitória. Ele também nasce da possibilidade de viver uma experiência em conjunto”.

Se os mais jovens mantêm o entusiasmo por diversas outras razões, os millennials convivem com um sentimento diferente. Cresceram sob a memória do pentacampeonato de 2002, mas acumularam eliminações traumáticas nas Copas seguintes. Segundo Núria, isso faz com que muitos desenvolvam mecanismos inconscientes de autoproteção.

“Quando uma frustração se repete, o sistema emocional cria mecanismos de proteção. A pessoa diminui a expectativa e tenta se convencer de que o resultado já não importa tanto. O problema é que, ao tentar evitar a frustração, também pode diminuir sua capacidade de viver a esperança e o entusiasmo”, explica.

Esse comportamento aparece em frases como “já sabia que ia perder” ou “não vou criar expectativa”. Para a especialista, mais do que uma análise racional do futebol, elas podem esconder o receio de acreditar novamente. “O risco é transformar a autoproteção em afastamento. Quando a pessoa tenta controlar totalmente a possibilidade de sofrer, também reduz a possibilidade de se envolver, celebrar e compartilhar”.

Entre os integrantes da geração X, que testemunharam os títulos de 1994 e 2002, o impacto é ainda mais simbólico. “A Seleção representava vitória, criatividade, alegria e protagonismo. Não era apenas uma equipe de futebol. Era um símbolo de como o Brasil se apresentava ao mundo”, observa Núria.

Ela afirma que as eliminações sucessivas produzem um luto simbólico. “Quando uma pessoa diz que antigamente era diferente, talvez não esteja falando apenas do futebol, mas da maneira como se sentia naquele período e da confiança que aquele time despertava”.

Apesar do desgaste, a especialista acredita que o elo entre brasileiros e Seleção ainda pode ser reconstruído. Para isso, o caminho vai além de um eventual hexacampeonato. “A confiança não é reconstruída por um único acontecimento. A Seleção precisa voltar a gerar identificação. O torcedor precisa perceber entrega, verdade, responsabilidade e conexão com o país”, conclui.

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