
E m um cenário de atenção fragmentada por plataformas digitais e algoritmos, a Copa do Mundo ainda resiste como um dos últimos grandes fenômenos de comunicação de massa da contemporaneidade. A leitura é do especialista em comunicação estratégica Wagner Batizelli, para quem o torneio continua sendo capaz de sincronizar bilhões de pessoas em torno de uma mesma narrativa global, algo cada vez mais raro na economia da atenção.
Para o especialista, essa centralidade não é acidental. Ela nasce da própria arquitetura do evento e da forma como ele impõe urgência ao consumo. “A Copa opera na lógica da escassez e da urgência. Em um mundo sob demanda, ela obriga o público a assistir ao vivo para participar da conversa”, afirma. O ciclo de quatro anos, segundo ele, intensifica a expectativa coletiva e amplia o caráter excepcional da competição.
Além da temporalidade, Batizelli destaca o poder narrativo do torneio. “A Copa é perfeitamente desenhada para o melodrama: há risco alto, prazo curto, heróis instantâneos e vilões dramáticos. Isso conecta qualquer cultura”.
Mesmo quem não acompanha o esporte acaba inserido na dinâmica do evento. Para Batizelli, isso ocorre porque a experiência foi expandida para além do campo. “A comunicação digital transformou a Copa em um reality show global interativo. A bola virou pano de fundo para uma grande engrenagem de entretenimento”.
Segundo Batizelli, essa expansão se intensifica nas redes sociais, onde o consumo se tornou simultaneamente coletivo e participativo. “O jogo é só metade do espetáculo. A outra metade acontece nas redes, com memes, reações e comentários em tempo real. O público deixou de assistir e passou a produzir a própria versão da Copa”.
Nesse ambiente, a figura do torcedor também se transforma. A mediação tradicional dá lugar a uma experiência distribuída entre múltiplas telas e vozes. “O meme virou a tradução imediata do sentimento coletivo. Em segundos, uma jogada vira linguagem global”, afirma o especialista, ao destacar o papel dos influenciadores na humanização da cobertura.
O fenômeno, no entanto, exige equilíbrio. Batizelli destaca que a mesma força que constrói pertencimento pode alimentar antagonismos. “O pertencimento é positivo quando celebra a diversidade. O problema surge quando o rival vira inimigo. O antagonismo precisa morrer no apito final”.
Ele avalia que a disputa por visibilidade durante o torneio também revela seu peso econômico e simbólico. Marcas, governos e veículos entram em uma corrida por relevância. “Ficar de fora da Copa é aceitar a invisibilidade por um mês. É uma disputa pela memória afetiva das pessoas”.
No centro dessa dinâmica, a Copa do Mundo segue demonstrando sua singularidade como plataforma global de atenção compartilhada. Para Batizelli, seu maior valor está justamente na capacidade de suspender a fragmentação contemporânea, ainda que temporariamente, e recolocar milhões de pessoas diante de uma mesma história. “As pessoas não se engajam com dados ou produtos. Elas se engajam com histórias humanas e com a sensação de fazer parte de algo maior”, finaliza.