
A decisão da União Europeia (UE) de suspender as importações de carne bovina e outros produtos de origem animal do Brasil colocou o agronegócio nacional em alerta. A medida, anunciada neste mês e prevista para entrar em vigor em setembro, foi justificada pelo bloco europeu com base em questionamentos sobre os mecanismos de controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos na pecuária brasileira.
Somente em 2025, a UE importou cerca de 368 mil toneladas de proteína animal brasileira, movimentando aproximadamente US$ 1,8 bilhão. As compras de carne bovina responderam por cerca de US$ 1,06 bilhão desse total, o equivalente a quase 6% da receita obtida pelo Brasil com as exportações da proteína.
O diretor-presidente da Academia Latino-Americana do Agronegócio (Alagro), Manoel Mário de Souza Barros, considera que os efeitos imediatos sobre as exportações tendem a ser limitados, mas alerta para os riscos de médio e longo prazo.
“Essa decisão não vai gerar impactos comerciais imediatos, mas acende um alerta bilionário para o agronegócio brasileiro. A medida foi formalizada agora em junho e passará a valer efetivamente em setembro. Até lá, o comércio segue normalmente, enquanto o governo tenta reverter esse cenário”.
Segundo Manoel Mário, o veto não estaria relacionado a problemas sanitários efetivos ou à qualidade dos produtos nacionais. “Acho que a decisão não foi motivada por contaminação ou problemas de qualidade do produto brasileiro. Trata-se muito mais de um impasse burocrático e regulatório”.
“O bloco exige comprovações documentais rigorosas de que o Brasil controla o uso de medicamentos antimicrobianos. A avaliação foi de que o país não apresentou essas garantias dentro do prazo exigido”, acrescenta.
Impactos
Estimativas do mercado apontam que, caso a restrição seja mantida, as perdas para os exportadores brasileiros podem variar entre US$ 1,8 bilhão e US$ 2 bilhões por ano. Apesar disso, o coordenador do Núcleo de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero, avalia que o país possui alternativas para compensar parte desses prejuízos.
“Se a medida ficar restrita à UE, trata-se de um prejuízo reversível, já que existem possibilidades de abertura de outros mercados, como o chinês, que recentemente declarou o Brasil livre da febre aftosa após uma longa negociação. Isso abre espaço para um crescimento importante das exportações”.
A decisão europeia tem forte componente protecionista, ressalta Balistiero. “Eles e os norte-americanos fazem muito isso. Às vezes, para proteger seus produtores locais, apontam supostas irregularidades em outros mercados. Não vejo nenhuma possibilidade de dano à imagem do Brasil por conta dessa decisão. O país sempre foi reconhecido pelo rigor de seu controle fitossanitário na produção e exportação de proteínas”.
Já Manoel Mário avalia que os reflexos reputacionais podem ser significativos justamente porque a Europa é vista como referência mundial em exigências sanitárias. “Ficar de fora da lista oficial prejudica a imagem da pecuária brasileira e pode dar argumentos a concorrentes internacionais para impor barreiras semelhantes. Além disso, a medida ocorre em um momento político sensível, logo após os avanços nas negociações entre Mercosul e UE”.
Caminhos para reversão
O dirigente da Alagro acredita que o episódio deve acelerar investimentos em certificações e sistemas de rastreabilidade. “O agronegócio vai enfrentar uma pressão imediata para ampliar os investimentos em certificações e reconstruir essas relações comerciais. O Brasil precisará avançar em mecanismos de controle e comprovação da origem dos produtos”.
Balistiero defende uma estratégia de diversificação dos destinos de exportação. “A abertura de novos mercados é o caminho. Os europeus não querem comprar? Venda para a China. O potencial de crescimento é gigantesco. Quando perceberem que outros países continuam adquirindo e ampliando negócios com o Brasil, a tendência é que essa resistência diminua”, conclui.