Livro “Não existe acaso no inferno” explora as ambiguidades humanas

Escritor e professor Vinícius Ferreira / Foto: Divulgação

Em “Não existe acaso no inferno”, o escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Vinícius Ferreira, utiliza o suspense policial para lançar um olhar crítico sobre as desigualdades sociais e os mecanismos de silêncio presentes no Brasil. Ambientado em Cataguases, na Zona da Mata mineira, o romance noir acompanha a investigação de um crime brutal que expõe as contradições de uma sociedade marcada pela omissão e pela corrupção. O livro pode ser adquirido na Amazon e também na Alta Books.

A história começa quando três crianças são encontradas mortas em um galpão abandonado localizado em uma área nobre da cidade. Sem sinais aparentes de violência, os corpos carregam elementos perturbadores que levam o investigador Bartolomeu Franco e seu parceiro, Cenoura, a mergulharem em uma trama permeada por fanatismo religioso, abuso de poder e desigualdade social.

Segundo Ferreira, o romance policial oferece a possibilidade de investigar não apenas o crime, mas também as estruturas que sustentam determinadas violências sociais. “A investigação policial mergulha a fundo na verdade. Ela consegue romper uma camada de narrativa que protege a mentira ou uma tentativa de distorção da verdade”.

O livro também utiliza o silêncio como símbolo de um país que evita encarar os próprios problemas. Para o escritor, o cenário interiorano ajuda a representar uma realidade que ultrapassa as fronteiras da ficção. “O país tem dificuldade de se olhar no espelho, de enxergar uma imagem real. O silêncio faz parte dessa construção que busca não discutir os problemas”.

Ao longo da narrativa, Bartolomeu enfrenta não apenas a pressão da investigação, mas também conflitos pessoais ligados à relação conturbada com o pai. O personagem questiona constantemente sua própria capacidade de julgamento, o que amplia a dimensão humana da trama. “Tomar decisões nunca é fácil, sobretudo quando você escolhe um caminho para julgar”, observa Ferreira.

O autor explica que a construção dos personagens foi pensada justamente para evitar figuras simplificadas ou estereotipadas. “Eles não são totalmente bons ou totalmente maus. São pessoas que oscilam, que têm falhas, como todas as pessoas”.

A inspiração inicial para o romance surgiu de uma história ouvida na infância. Ferreira conta que escutou o relato de um homem que encontrou um cadáver escondido dentro da parede de uma casa antiga durante uma demolição. O caso nunca foi solucionado. “Sempre me provocou uma tristeza muito grande saber que aquela pessoa jamais foi reconhecida”, lembra.

Professor de Literatura e pesquisador das áreas de colonialismo e desigualdade cultural, o escritor acredita que parte dessas reflexões acadêmicas atravessa sua produção ficcional. “Talvez o principal ponto de contato seja pensar nas fissuras da sociedade criadas a partir da exploração da desigualdade”.

Mais do que um romance investigativo, “Não existe acaso no inferno” busca provocar o leitor sobre as violências invisíveis presentes no cotidiano brasileiro. “É um livro feito com a intenção de ampliar a percepção que a gente tem da realidade, desse país tão desigual e de silêncios que matam”, conclui Ferreira.

Compartilhe

Em destaque