Registros de bullying e cyberbullying crescem em Minas Gerais

Em Minas Gerais, os registros formais utilizados como prova de bullying e cyberbullying atingiram o maior nível desde a criação da lei que criminaliza essas condutas. Em 2025, os cartórios do Estado emitiram 21.663 atas notariais, documentos que servem para comprovar agressões, o que representa um aumento de 8% em relação às 20.030 registradas em 2024, conforme dados do Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal (CNB/CF). O crescimento desses registros está relacionado à Lei Federal sancionada em janeiro do ano passado, que tipificou o bullying e o cyberbullying como crimes. Com isso, aumentou a procura por instrumentos de comprovação jurídica por parte de vítimas e seus familiares. Segundo o levantamento, a nova legislação influenciou a forma como a população reage a esses casos, ampliando o uso de registros formais para documentar ocorrências, principalmente no ambiente digital. Isso ocorre porque conteúdos como mensagens, vídeos e publicações podem ser removidos com facilidade, tornando a documentação das provas fundamental para possíveis medidas judiciais. A demanda por esse tipo de registro cresce de forma contínua nos últimos anos. Em Minas Gerais, entre 2020 e 2025, o total de atas notariais quase dobrou, subindo de 10.904 para 21.663, o que representa um aumento de 98,6% no período. Conforme a psicóloga educacional Carla Silva, o crescimento desses registros também revela uma face preocupante da vida escolar e digital. “O aumento dos casos formalizados não significa apenas que há mais denúncias, mas que há mais sofrimento sendo vivido por crianças e adolescentes. O bullying e o cyberbullying deixam marcas profundas, que vão desde a queda da autoestima até quadros de ansiedade, depressão e isolamento social”. Ela destaca que o ambiente virtual amplia o alcance das agressões. “Diferente do bullying presencial, o cyberbullying não termina quando o aluno sai da escola. Ele invade a casa, o quarto, o tempo de descanso. Isso faz com que a vítima sinta que não há refúgio”. Carla avalia que esse movimento de maior procura por instrumentos formais para registrar os atos representa uma mudança cultural importante na forma como a sociedade lida com conflitos virtuais. “Antes, muitas situações de bullying e cyberbullying eram tratadas apenas no campo informal, dentro da escola ou da família. Hoje, há uma compreensão maior de que esses atos podem ter consequências legais e precisam ser documentados de forma adequada”. A profissional ressalta que a formalização não substitui o diálogo, mas pode ser decisiva em casos mais graves. “A ata notarial não resolve o problema em si, mas garante segurança jurídica para a vítima, especialmente quando há repetição ou escalada das agressões”. Para a pedagoga e consultora educacional, Ana Maria Costa, o papel das escolas é central na prevenção e no enfrentamento dessas práticas. “A instituição precisa ir além da punição. É fundamental trabalhar a educação emocional, o respeito às diferenças e o uso responsável da internet desde os primeiros anos”. Ela defende que ações isoladas não são suficientes. “Campanhas pontuais ajudam, mas o combate ao bullying e ao cyberbullying exige uma cultura escolar contínua, com participação de professores, alunos e famílias”. Ela também destaca a importância de protocolos claros de acolhimento. “Quando um estudante sofre violência, ele precisa encontrar na escola um espaço seguro para relatar o que aconteceu. Muitas vezes, o silêncio agrava o problema”. Segundo Ana, a ausência de escuta pode levar ao agravamento dos impactos psicológicos e ao afastamento do ambiente escolar. Entre as especialistas, há consenso de que o papel dos pais também é decisivo. Carla reforça que a supervisão do uso da internet não deve ser confundida com controle excessivo, mas sim com acompanhamento ativo. “Os responsáveis precisam estar atentos a mudanças de comportamento, como isolamento e queda no rendimento escolar. O diálogo aberto é a principal ferramenta de prevenção”.

Síndrome do intestino irritável pode afetar a qualidade de vida

Abril é dedicado à conscientização da síndrome do intestino irritável, uma doença gastrointestinal crônica que atinge milhões de pessoas e ainda é pouco compreendida e frequentemente subdiagnosticada. Caracterizada por um conjunto de sintomas recorrentes que afetam o funcionamento do intestino, a condição não provoca alterações estruturais visíveis em exames laboratoriais ou de imagem, o que muitas vezes contribui para atrasos no diagnóstico e para a sensação de insegurança em quem convive com a doença. De acordo com a gastroenterologista Isabela Moreira, a síndrome do intestino irritável deve ser entendida como uma condição multifatorial. “Não existe uma única causa para o distúrbio. O que observamos é uma interação entre fatores biológicos, como alterações na motilidade intestinal e na sensibilidade visceral, e fatores psicológicos, como estresse e ansiedade. Além disso, há evidências de que a microbiota intestinal desempenha um papel importante no desenvolvimento e na manutenção dos sintomas”. Segundo Isabela, os sintomas mais comuns incluem dor abdominal recorrente, geralmente associada à evacuação, além de alterações no padrão intestinal, que podem se manifestar como diarreia, constipação ou alternância entre ambas. Muitos pacientes também relatam sensação de inchaço abdominal, excesso de gases e sensação de evacuação incompleta. “Esses sinais podem variar em intensidade e frequência, o que torna o quadro ainda mais heterogêneo”. “Essa variabilidade é justamente uma das marcas da doença, que não segue um padrão fixo. Há pacientes que passam semanas praticamente assintomáticos e, de repente, entram em crises intensas. A imprevisibilidade é um dos fatores que mais afetam a saúde mental dos indivíduos”, acrescenta. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na avaliação dos sintomas e na exclusão de outras doenças orgânicas que possam causar manifestações semelhantes, como doença inflamatória intestinal, intolerâncias alimentares ou infecções gastrointestinais. “Atualmente, são utilizados os critérios de Roma IV, que consideram a presença de dor abdominal recorrente associada a alterações na frequência ou na forma das fezes, por um período mínimo de tempo. Exames complementares podem ser solicitados para descartar outras condições, mas não existe um teste específico que confirme a síndrome”. Não há cura definitiva para a síndrome, mas existem diversas estratégias capazes de controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes. O tratamento costuma ser individualizado e pode incluir mudanças na alimentação, uso de medicamentos e acompanhamento psicológico. “Dietas com redução de alimentos fermentáveis têm mostrado bons resultados em muitos casos. Além disso, antiespasmódicos, laxantes, antidiarreicos e, em algumas situações, antidepressivos em doses baixas podem ser utilizados para modular a dor e o funcionamento intestinal”, destaca a nutricionista clínica Cristina Souza. Ela ressalta que o cuidado com o aspecto emocional é fundamental no manejo da doença. “Muitos pacientes subestimam o impacto do estresse no intestino. Hoje sabemos que existe uma comunicação direta entre o cérebro e o sistema gastrointestinal, chamada eixo cérebro-intestino. Isso significa que fatores emocionais podem desencadear ou agravar sintomas intestinais de forma clara”. A prevenção não é totalmente estabelecida, justamente por se tratar de uma condição de origem multifatorial e ainda não completamente compreendida. No entanto, hábitos saudáveis podem reduzir a frequência e a intensidade das crises. “Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, boa qualidade do sono e controle do estresse são fatores considerados protetores. Evitar o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, cafeína e bebidas alcoólicas também pode contribuir para a redução dos sintomas em pessoas predispostas”, destaca a nutricionista. Apesar dos desafios, o prognóstico da doença é geralmente favorável quando há diagnóstico adequado e acompanhamento contínuo. A patologia tende a ser crônica, mas não evolui para condições mais graves como câncer ou insuficiência intestinal. O foco do tratamento está na adaptação do paciente à condição e no controle dos sintomas ao longo do tempo, permitindo uma vida funcional e ativa.

Minas debate sobre os direitos da natureza e impactos da mineração

Iniciativas em municípios e regiões de Minas Gerais já deram origem a normas que reconhecem a natureza como detentora de direitos. Contudo, a forte presença da atividade mineradora no Estado representa um dos principais obstáculos à efetiva proteção ambiental, como foi destacado em audiência pública realizada no contexto do Dia Internacional da Mãe Terra, data criada pela ONU em 2009 e comemorada todos os anos em 22 de abril. Promovida pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a reunião também foi motivada pelo III Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza, que ocorrerá a partir de 31 de julho nas cidades de Ouro Preto e Mariana. O evento reunirá povos indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais, universidades, representantes do poder público e a sociedade civil para debater o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos. A discussão foi requerida pelas deputadas Beatriz Cerqueira e Leninha, ambas do PT. Leninha, que ocupa a 1ª vice-presidência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), destacou a relevância do tema para um Estado marcado por desigualdades sociais e ambientais e afetado pelos impactos da mineração. “Minas Gerais é importante para o Brasil e para esse tema, porque guarda marcas profundas do modelo econômico e de atividades como a mineração. Uma realidade que se intensifica com a desertificação, o empobrecimento do solo e os extremos climáticos”. Ao chamar atenção para iniciativas que se opõem à preservação ambiental, Beatriz Cerqueira mencionou ainda o Projeto de Lei 3.991/22, de sua autoria. A proposta prevê a inclusão, nos conteúdos de educação ambiental, do estudo sobre os impactos do uso de agrotóxicos e ainda aguarda votação em segundo turno. Conforme expôs ela, “demorou quatro anos para o projeto ser levado ao Plenário, por força de setores como o industrial e agropecuário, contra pautas de proteção de territórios, águas e meio ambiente”. Representante do Ministério Público Federal, o procurador Helder Magno da Silva destacou que setores como o da mineração devem repensar sua relação com comunidades locais e povos originários, que tradicionalmente orientam suas práticas pelo cuidado e pelo respeito à Mãe Terra. “O próprio Ministério Público precisa repensar a prática antiga de fazer Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), que resultam no recebimento de recursos que também financiam a nossa instituição a partir da degradação e em um momento em que o licenciamento ambiental está capenga e prevalece a lógica do capitalismo. É como se a natureza continuasse a ser vendida”. De acordo com Silva, mecanismos de reparação por prejuízos, a exemplo dos acordos firmados após o rompimento da barragem de Fundão, da Vale, acabam transmitindo a ideia de que o dano pode ser compensado. “Os governos estaduais e federal, ávidos por recursos, acabam aceitando esses acordos e a lógica das empresas se sobrepõe aos direitos da natureza”. Três municípios do Norte de Minas, Porteirinha, Nova Porteirinha e Serranópolis de Minas, aprovaram leis que reconhecem os direitos do Rio Mosquito, fundamental para comunidades rurais da região, afetadas pela seca e por eventos climáticos extremos. As normas preveem, entre outras ações, a criação de um fundo para financiar a proteção do rio. Segundo Aldinei Dias Leão, do Centro de Referência em Direitos Humanos do Norte de Minas, a regulamentação já iniciou a formação de comitês responsáveis por acompanhar essas iniciativas. Bruna Medeiros Bolzani, advogada socioambiental do Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso, afirmou que o debate sobre os direitos da natureza exige uma transformação profunda de paradigmas. “É reconhecer que rios, florestas, biomas e ecossistemas possuem valores, independentemente de sua utilidade para os seres humanos”. Ivo Poletto, articulador nacional e integrante do Grupo Executivo do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental, defendeu que a preservação da natureza também passa pela superação de uma lógica colonial e capitalista de pensamento, a qual favorece uma exploração econômica prejudicial ao planeta. Por sua vez, a defensora pública Ana Cláudia Storch destacou, durante o debate, a importância de ir além dos marcos jurídicos atuais relacionados ao tema, especialmente para lidar com as emergências climáticas. “Nosso sistema jurídico não consegue absorver toda a complexidade que envolve esses limites da natureza”.

Belo Horizonte registra mais de 13 mil acidentes no início de 2026

Belo Horizonte contabilizou mais de 13 mil ocorrências de trânsito apenas nos dois primeiros meses de 2026. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), a Avenida Cristiano Machado, um dos principais eixos viários da capital, passou a liderar o ranking de acidentes e fatalidades. Com extensão de 11,7 km, a via registrou 596 colisões, cerca de 10 por dia, e três mortes, ultrapassando o Anel Rodoviário, que teve 519 acidentes e um óbito ao longo de seus 22 km, mesmo sendo historicamente o trecho com maiores índices na cidade. Além disso, os registros de combinação entre consumo de álcool e direção seguem em patamar elevado. Em Minas Gerais, foram contabilizadas 546 ocorrências desse tipo, das quais 253 envolveram ao menos uma vítima. Em Belo Horizonte, a capital do estado, houve 47 registros relacionados a essa situação. O cenário na Cristiano Machado é resultado de uma combinação de fatores estruturais, comportamentais e de planejamento urbano. O especialista em segurança viária e trânsito, José Carlos Souza, explica que a via concentra características que aumentam significativamente o risco de acidentes. “A Cristiano Machado funciona como um corredor híbrido: ao mesmo tempo em que é via de trânsito rápido, ela também está inserida em uma área urbana densa, com cruzamentos frequentes, acessos comerciais e grande circulação de pedestres. Essa mistura eleva o conflito viário e reduz a previsibilidade do tráfego”. Segundo Souza, outro ponto crítico é a alta taxa de variação de velocidade ao longo do trecho. “O motorista sai de um segmento de fluxo livre e rapidamente encontra semáforos, entradas de bairros e pontos de ônibus. Essa alternância exige uma atenção constante que nem sempre é respeitada, o que contribui para colisões traseiras e laterais”. A urbanista Fernanda Bastos acrescenta que o desenho urbano da avenida também influencia diretamente os índices elevados de acidentes. “A Cristiano Machado foi estruturada para priorizar a fluidez dos veículos, mas não acompanhou de forma adequada o crescimento populacional e a expansão de atividades comerciais ao longo do seu eixo. Hoje, há uma disputa intensa entre carros, ônibus, motocicletas e pedestres, sem que a infraestrutura tenha sido totalmente adaptada para isso”. Diante do cenário, especialistas defendem que a redução dos acidentes depende de um conjunto integrado de políticas públicas. Entre as medidas mais citadas está o reforço na fiscalização eletrônica e presencial, especialmente em vias de alto fluxo como a Cristiano Machado e o Anel Rodoviário. “A fiscalização precisa ser constante e inteligente, com uso de dados em tempo real para identificar pontos críticos e horários de maior risco”, afirma Souza. No campo da prevenção ao consumo de álcool associado à direção, o especialista defende campanhas educativas contínuas e ações integradas com bares, restaurantes e aplicativos de transporte. “A conscientização precisa ser permanente, não apenas em datas comemorativas. Além disso, políticas que incentivem alternativas seguras de deslocamento após o consumo de álcool são fundamentais para reduzir esse tipo de ocorrência”. Outra estratégia apontada por Fernanda é a requalificação urbana da avenida, com foco na redução de conflitos entre diferentes modais de transporte. Isso inclui a criação de travessias mais seguras para pedestres, reorganização de acessos, melhorias na sinalização e revisão dos limites de velocidade em trechos específicos. “Não basta apenas punir o comportamento inadequado. É necessário redesenhar o espaço urbano para que ele induza comportamentos mais seguros”.

Exportações mineiras batem US$ 10,2 bilhões no primeiro trimestre deste ano

No primeiro trimestre de 2026, Minas Gerais registrou importações de US$ 4,5 bilhões e obteve um saldo positivo de US$ 5,7 bilhões na balança comercial. Segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o volume total de comércio exterior do Estado atingiu US$ 14,7 bilhões entre janeiro e março, crescimento de 0,5% em comparação com igual período do ano anterior. Em março, as vendas externas de Minas Gerais alcançaram US$ 3,5 bilhões, colocando o Estado na terceira posição entre os maiores exportadores do país, com participação de 11,1% no total nacional no período. Dessa forma, o acumulado das exportações mineiras no primeiro trimestre de 2026 chegou a US$ 10,2 bilhões. O principal destaque do período foi o ouro, cujas exportações cresceram US$ 519,6 milhões, um avanço de 85,3% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Já o segmento de outros veículos aéreos teve incremento de US$ 101,2 milhões (983,7%), enquanto as ferroligas registraram aumento de US$ 70,0 milhões (14%) no valor exportado. No mês passado, os itens mais exportados por Minas Gerais foram o café (US$ 757,9 milhões, equivalente a 21,7% do total), os minérios de ferro (US$ 743,4 milhões e 21,2%), o ouro (US$ 421,1 milhões e 12%), a soja (US$ 364 milhões e 10,4%) e as ferroligas (US$ 202,6 milhões e 5,8%). No período, os produtos do Estado chegaram a 157 destinos internacionais. Entre os principais compradores estão China (32,8%), Estados Unidos (9,9%), Canadá (5,5%), Reino Unido (4,9%) e Argentina (3,9%). Além disso, houve expansão para novos mercados, com 20 países que ainda não haviam importado no mesmo intervalo de 2025, como Palestina, Haiti, Senegal, Aruba e Azerbaijão. Para especialistas, os números refletem não apenas a força produtiva de Minas Gerais, mas também a importância estratégica das exportações para a economia estadual. A economista Laura Mendes afirma que o superávit comercial tem impacto direto na geração de empregos e na arrecadação. “Quando o Estado exporta mais do que importa, há entrada líquida de divisas, o que fortalece a moeda, estimula investimentos e dinamiza cadeias produtivas inteiras, especialmente no interior”. Ela destaca ainda que os setores como mineração e agronegócio possuem grande capacidade de encadeamento econômico. “O café e o minério de ferro, por exemplo, não movimentam apenas as empresas exportadoras, mas também logística, transporte, armazenagem e serviços financeiros. Isso cria um efeito multiplicador relevante para o Produto Interno Bruto (PIB) estadual”. O analista de mercado exterior, Pedro Vieira, chama atenção para o crescimento do ouro e de produtos industrializados, como veículos aéreos. “Esse avanço indica uma diversificação gradual da pauta exportadora, o que é extremamente positivo. Quanto mais diversificada a exportação, menor a vulnerabilidade do Estado a oscilações de preços internacionais”. Apesar do cenário favorável, os especialistas alertam para desafios importantes. Entre eles, estão a dependência de commodities, a infraestrutura logística ainda limitada e a volatilidade do mercado internacional. “Minas Gerais ainda depende fortemente de produtos com baixo valor agregado, o que expõe o Estado às variações de preço no mercado global. Uma queda no valor do minério ou da soja, por exemplo, pode impactar a balança comercial”, observa. A infraestrutura também aparece como gargalo. Segundo Vieira, problemas em rodovias, ferrovias e portos elevam custos e reduzem a competitividade. “O produtor mineiro muitas vezes paga mais caro para escoar sua produção do que concorrentes internacionais. Isso precisa ser enfrentado com investimentos consistentes”. Outro ponto de atenção é o cenário geopolítico e econômico global. Tensões comerciais, mudanças em políticas de importação e desaceleração econômica em grandes mercados consumidores podem afetar a demanda pelos produtos mineiros. “A forte dependência da China é uma vantagem em momentos de crescimento, mas pode se tornar um risco em períodos de desaceleração”, destaca Laura. Diante desse contexto, a economista defende a adoção de políticas públicas e estratégias voltadas à ampliação e qualificação das exportações. Entre as principais medidas sugeridas estão o incentivo à industrialização, a diversificação de mercados e o fortalecimento da infraestrutura logística. “É fundamental agregar valor aos produtos exportados, investindo em tecnologia e inovação. Exportar produtos industrializados gera mais renda e empregos do que commodities”.

900 mil ataques virtuais à imprensa foram registrados em 2025

Em 2025, o relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) registrou 66 casos de violência não letal contra cerca de 80 jornalistas e veículos. Apesar da queda nos números, a imprensa ainda sofre ataques, em média, a cada cinco dias. As agressões físicas lideraram as ocorrências, com 39% dos casos (26 registros), atingindo ao menos 35 profissionais, alta em relação ao ano anterior. Segundo a Abert, políticos e agentes públicos lideram as agressões, seguidos por torcedores de times de futebol. Os casos de intimidação somaram 10 registros, com aumento expressivo em relação a 2024. Já um estudo da Bites aponta cerca de 900 mil ataques virtuais à imprensa em 2025, média de 2,5 mil por dia, ou quase dois por minuto. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Lina Rocha. Qual é o impacto desse cenário de ataques virtuais e físicos na liberdade de imprensa e na cobertura jornalística no Brasil? A violência, seja física ou digital, tem um impacto muito grande na produção jornalística, visto que gera uma insegurança no profissional, que por temer os ataques, preferem não lidar com pautas que possam gerar essas reações. E nesse sentido, a liberdade de imprensa sofre um golpe, já que temas que devem ser abordados socialmente deixam de ter a cobertura e debate necessários para a manutenção do Estado de Direito. Existe relação entre polarização política e aumento da violência contra jornalistas? A polarização política tem intensificado a violência contra jornalistas, sobretudo em períodos eleitorais, quando disputas ideológicas alimentam perseguições. Dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), divulgados em 2025 sobre 2024, indicam que a violência política segue como principal causa desses ataques no Brasil. Nesse período, mais de 40% das agressões partiram de políticos, assessores ou apoiadores diretos, que lideram o ranking de agressores, seguidos por militantes e cidadãos comuns em contextos de engajamento político. Há indícios de que a cultura de hostilidade contra jornalistas esteja aumentando ou mudando de forma significativa nos últimos anos? De acordo com a Fenaj, a violência física contra os jornalistas caiu recentemente, enquanto que o assédio virtual se tornou o principal meio de perseguição, com crescimento de 35% de 2024 para 2025. Além disso, o assédio judicial tem se intensificado como forma de intimidação financeira e psicológica, levando à autocensura. Dados da Abraji indicam aumento de quase 20% nos processos contra jornalistas no mesmo período, afetando a autonomia da profissão. Qual é a importância de o profissional denunciar essas agressões? As agressões, sejam elas físicas ou verbais, ocorrendo de forma presencial ou no ambiente digital, não devem ser aceitas em nenhuma circunstância. A ausência de denúncias contribui para o agravamento e a repetição desses atos de violência. Por isso, é essencial que os casos sejam formalmente reportados, permitindo a devida apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, o que também ajuda a desestimular agressores e eventuais mandantes. Os ataques direcionados a jornalistas são inaceitáveis, e o Sindicato se mantém à disposição de toda a categoria para receber denúncias e adotar medidas que contribuam para coibir essas práticas. Como é a atuação do Sindicato referente a esses atos de violência? O Sindicato acompanha de perto a atuação dos profissionais da categoria, com o objetivo de receber denúncias e combater situações de abuso, tanto na defesa dos direitos trabalhistas quanto diante de atitudes hostis dirigidas aos trabalhadores. Nenhuma forma de desrespeito pode ser aceita, e a atuação da entidade segue justamente nesse sentido: mobilizar as empresas empregadoras para que garantam a proteção de seus profissionais, além de acionar os órgãos competentes para a apuração e responsabilização dos casos de agressão.

Calor empurra milhões de pessoas para o sedentarismo

O aquecimento global decorrente das mudanças climáticas pode gerar um efeito pouco esperado e preocupante para a saúde mundial: o aumento do sedentarismo. De acordo com uma pesquisa internacional divulgada na revista The Lancet Global Health, a elevação das temperaturas tende a diminuir a prática de exercícios físicos, o que pode resultar em até 700 mil mortes adicionais por ano até 2050. O estudo avaliou informações de 156 países no período de 2000 a 2022 e apontou que cada mês extra com temperaturas médias superiores a 27,8 °C eleva a taxa de sedentarismo global em aproximadamente 1,44 ponto percentual. Nos países de baixa e média renda, que geralmente dispõem de menos estrutura para lidar com o calor, esse efeito é ainda mais acentuado, alcançando cerca de 1,85 ponto percentual. A inatividade física já é reconhecida como um dos principais fatores de risco para doenças crônicas, estando relacionada ao aumento da probabilidade de problemas cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Além disso, é responsável por cerca de 5% das mortes entre adultos, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 47% dos adultos são sedentários, índice que chega a 84% entre os mais jovens. O educador físico Ricardo Menezes explica que o corpo humano foi feito para o movimento. “Quando há uma quebra nesse padrão, surgem alterações metabólicas importantes, como aumento da pressão arterial, resistência à insulina e acúmulo de gordura corporal. Mesmo pequenas mudanças na rotina já podem trazer benefícios significativos”. Ele também destaca que a falta de atividade também afeta diretamente a saúde mental. “Pessoas sedentárias tendem a apresentar mais sintomas de ansiedade e depressão, além de dificuldades no sono e na concentração. A prática de exercícios libera substâncias que promovem bem-estar, como a endorfina, o que reforça a importância de uma rotina ativa”. Apesar dos riscos amplamente conhecidos, a adoção de hábitos mais saudáveis ainda esbarra em uma série de barreiras estruturais, sociais e econômicas. Em muitas regiões do país, especialmente nas periferias urbanas e áreas rurais, faltam espaços públicos adequados e seguros para a prática de atividades físicas, como praças, parques e ciclovias. Além disso, a rotina de trabalho intensa, muitas vezes associada a longos deslocamentos, reduz o tempo disponível para o lazer e o autocuidado. “Existe uma falsa ideia de que praticar atividade física exige investimento financeiro, quando, na verdade, muitas atividades podem ser realizadas gratuitamente. No entanto, a falta de informação e de políticas públicas eficazes acaba limitando essas possibilidades”, ressalta Menezes. Para reverter esse quadro, o cardiologista Renato Farias diz que a mudança de hábitos deve começar de forma gradual e adaptada à realidade de cada pessoa. “A OMS recomenda que adultos pratiquem entre 150 e 300 minutos de atividade física moderada por semana, o que pode incluir caminhadas, ciclismo, dança ou qualquer outra atividade que eleve a frequência cardíaca”. No entanto, qualquer movimento já é melhor do que nenhum. Entre as estratégias mais indicadas estão substituir o elevador por escadas, caminhar pequenas distâncias em vez de utilizar transporte motorizado, fazer pausas ativas durante o trabalho e incorporar atividades prazerosas à rotina. “O segredo não está em começar com treinos intensos, mas em criar consistência. A regularidade é o que traz resultados a longo prazo”, conclui. Além disso, políticas públicas são fundamentais para promover mudanças em larga escala. Investimentos em infraestrutura urbana, campanhas de conscientização e programas comunitários de incentivo à prática esportiva podem contribuir para tornar a atividade física mais acessível e inclusiva. Sem essas iniciativas, o sedentarismo tende a se agravar, ampliando desigualdades e pressionando os sistemas de saúde.

Brasil ganhou mais 3 milhões de consumidores de livros em 2025

O total de pessoas que compraram livros no Brasil aumentou em 2025, segundo levantamento realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em conjunto com a Nielsen BookData. A pesquisa indica que 18% dos brasileiros com mais de 18 anos adquiriram pelo menos um exemplar, físico ou digital, ao longo do ano passado. Esse percentual representa um crescimento de dois pontos percentuais em comparação com 2024, o equivalente a cerca de 3 milhões de novos consumidores. O levantamento Panorama do Consumo de Livros reuniu cerca de 16 mil entrevistas realizadas em outubro de 2025, contemplando tantas pessoas que adquiriram livros quanto aquelas que não fizeram compras no período de um ano. De acordo com o estudo, as mulheres correspondem a 61% dos consumidores de livros no Brasil. Ao analisar fatores como raça, classe social e gênero, os dados mostram que mulheres negras pertencentes à classe C formam o principal grupo de leitores no país, representando 15% do total. O levantamento também destacou que o avanço mais significativo foi observado entre os jovens. Entre pessoas de 18 a 34 anos, houve um crescimento de 3,4 pontos percentuais em comparação ao ano anterior. Para a socióloga Mariana Tavares, a popularização das redes sociais e de comunidades digitais de leitura tem desempenhado um papel relevante. “Nos últimos anos, vimos o surgimento de influenciadores literários e clubes de leitura on-line que aproximam principalmente o público jovem dos livros. Isso cria um senso de pertencimento e torna a leitura mais atrativa. Além disso, a diversidade de formatos, como e-books e audiolivros, também contribui para ampliar o acesso e adaptar o consumo às rotinas”. O bibliotecário Rafael Mendes aponta ainda o impacto de estratégias comerciais adotadas pelo mercado editorial. “Promoções em plataformas digitais, programas de assinatura e maior presença de livros em marketplaces ajudaram a reduzir barreiras de entrada para novos leitores. Embora o preço dos livros ainda seja considerado alto por parte da população, iniciativas de descontos e facilidades de pagamento têm incentivado a compra”. Entre os que não compraram livros em 2025, aproximadamente 35 milhões de brasileiros (28%) apontaram a ausência de livrarias ou pontos de venda próximos como fator desmotivador. Já 35% desse grupo consideram os livros caros. Dentro desse mesmo público, 16,3% afirmaram que optaram por baixar obras digitais gratuitas, enquanto 16,1% disseram ter acesso a arquivos em PDF sem custo. Para Mendes, esses dados revelam desigualdades estruturais no acesso ao livro. “O problema não é apenas o preço, mas também a distribuição. Muitas regiões do país carecem de livrarias, bibliotecas atualizadas e políticas de incentivo à leitura. Isso limita o contato das pessoas com os livros desde a infância e a pirataria, embora seja um problema para o setor editorial, também reflete a dificuldade de acesso a conteúdos legais e acessíveis”. Diante desse cenário, os especialistas defendem a adoção de políticas públicas e estratégias integradas para democratizar o acesso à leitura. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento de bibliotecas públicas e escolares, a ampliação de programas de incentivo fiscal para o mercado editorial e a criação de políticas de distribuição de livros em regiões com menor oferta. “É fundamental investir em bibliotecas como espaços vivos, com acervo atualizado e atividades culturais que atraiam a comunidade”, afirma Mariana. Outra proposta envolve parcerias entre o setor público e privado para estimular a leitura, como programas de vouchers para compra de livros, feiras literárias itinerantes e incentivo à produção de conteúdo nacional. Ela também destaca a importância de campanhas de valorização da leitura. “Não basta facilitar o acesso físico ao livro, é preciso construir uma cultura leitora, mostrando que a leitura pode ser prazerosa e relevante no cotidiano das pessoas”. Ainda segundo a socióloga, os dados da pesquisa reforçam que, embora haja sinais de crescimento, persistem desafios relacionados à desigualdade de acesso, ao custo e à infraestrutura. “Superar essas barreiras exige esforços contínuos de governos, setor editorial e sociedade civil para garantir que o livro chegue a todos os brasileiros”.

Atacarejo mineiro cresce 10% e alcança faturamento de R$ 26 bilhões

As quatro maiores redes de atacarejo em Minas Gerais alcançaram, em 2025, um faturamento conjunto de R$ 26,1 bilhões, valor 10,13% superior ao obtido no ano anterior, quando somaram R$ 23,7 bilhões. Além disso, essas empresas contabilizaram 301 unidades em operação e empregaram 41.162 trabalhadores no Estado. As informações integram o Ranking Abaas 2026, elaborado pela NielsenIQ em parceria com a Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas). São elas o Grupo Mart Minas (R$ 12,5 bilhões); Grupo ABC (R$ 5,5 bilhões); Grupo Bahamas (R$ 4,5 bilhões); Villefort (R$ 3,6 bilhões). De acordo com o relatório, o faturamento dessas quatro empresas com atuação em Minas Gerais representa 7,06% do total obtido pelas 24 companhias vinculadas à Abaas no país, que encerraram o último ano com receita de R$ 369,5 bilhões. O estudo também aponta que as 301 unidades das redes mineiras correspondem a 13,75% do total nacional, que soma 2.189 lojas. Já o número de funcionários, 41.162, equivale a 9,54% do contingente registrado por todos os associados, que juntos empregam 431.536 pessoas. Segundo o economista Eduardo Moreira, o crescimento do faturamento pode ser atribuído a diversos fatores, como a consolidação do modelo de vendas de atacarejo, que combina preços competitivos com variedade de produtos. “O consumidor está cada vez mais atento ao custo-benefício, especialmente após o período de inflação elevada nos últimos anos. O atacarejo consegue oferecer produtos em grandes quantidades a preços mais baixos, atraindo desde pequenos comerciantes até famílias que compram em volume para reduzir gastos mensais”. O levantamento indica que a receita movimentada nacionalmente no último ano foi 11% superior ao de 2024, e equivalente a cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No mesmo período, houve avanço no número de empregos diretos e de lojas, com altas de 12% e 11%, respectivamente. Moreira reforça a relevância social do setor. “O atacarejo é estratégico para a economia, pois além de movimentar bilhões em faturamento, cria oportunidades de emprego em diferentes níveis, desde funções administrativas até operacionais. Em regiões com menor acesso a supermercados de grande porte, essas lojas se tornam essenciais para abastecer a população e fortalecer o comércio local”. Ainda conforme a sondagem, o consumo das famílias brasileiras cresceu 1,3% em 2025, com projeção de alta de 1,5% para 2026. No atacarejo, o volume comercializado avançou 1,7%, enquanto o varejo independente e as mercearias registraram retração de 5,2%. Já os bares apresentaram queda de 6,8% ao longo do ano passado. Para Moreira, essa tendência indica que o consumidor está cada vez mais buscando formas de economizar sem abrir mão da quantidade e da qualidade dos produtos, o que favorece diretamente o modelo de atacarejo. A analista econômica Laura Pires acredita que a perspectiva para 2026 é de continuidade no crescimento, especialmente se houver investimentos em infraestrutura e estratégias de marketing voltadas ao consumidor final. “Muitos estão investindo em tecnologia para melhorar a experiência de compra e em logística para ampliar a cobertura no Estado e no país. A expectativa é que o faturamento continue em alta, acompanhando a demanda por produtos mais acessíveis e em maior quantidade”. O setor de atacarejo também desempenha papel importante no fortalecimento de cadeias produtivas. Segundo Laura, o aumento da demanda por produtos em grandes volumes também impacta fornecedores, produtores e distribuidores, gerando efeito multiplicador em toda a economia. “A competitividade do setor estimula ainda melhorias na eficiência operacional, na qualidade do atendimento e na diversificação de produtos, beneficiando o consumidor”. Apesar dos números positivos, Laura alerta que o crescimento do setor depende de fatores estruturais, como o desenvolvimento de centros urbanos com infraestrutura, políticas públicas que incentivem a formalização de pequenos comerciantes e investimentos em capacitação da mão de obra.

Intolerância: ataques às religiões de matriz africana crescem

Os dados mais recentes do Disque Direitos Humanos, canal oficial de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, revelam um cenário preocupante de intolerância religiosa no Brasil. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o serviço registrou 2.774 ocorrências relacionadas a práticas discriminatórias motivadas por religião. O levantamento chama atenção, sobretudo, para a concentração de casos envolvendo religiões de matriz africana, historicamente alvo de preconceito no país. De acordo com o relatório, entre as religiões explicitamente identificadas nas denúncias, a Umbanda aparece com 228 registros, seguida pelo Candomblé, com 161 ocorrências. Há ainda 47 casos classificados como Umbanda e Candomblé e outros 40 enquadrados em categorias diversas, mas também vinculados a tradições afro-brasileiras. Especialistas avaliam que esses números refletem não apenas episódios isolados, mas um padrão estrutural de discriminação enraizado na sociedade brasileira. Para a socióloga Andreia Lima, a predominância dessas tradições entre os alvos de intolerância não é coincidência. “As religiões de matriz africana carregam um histórico de marginalização que remonta ao período escravocrata. Durante séculos, práticas culturais e religiosas de origem africana foram criminalizadas ou associadas a estigmas negativos, o que ainda reverbera no imaginário coletivo. Mesmo com avanços legais que garantem a liberdade religiosa, o preconceito persiste em formas explícitas e veladas”. Além disso, há um componente social e territorial relevante. Muitas casas de culto de Umbanda e Candomblé estão localizadas em áreas periféricas, o que as torna mais vulneráveis a ataques e menos protegidas pelo poder público. Ela ressalta que a desigualdade social agrava o problema. “Quando somamos racismo estrutural, desigualdade econômica e intolerância religiosa, temos um cenário em que determinados grupos ficam mais expostos à violência e têm mais dificuldade de acessar mecanismos de proteção e justiça”. Os tipos de ocorrências registradas no Disque Direitos Humanos variam desde agressões verbais e ameaças até depredação de espaços religiosos e violência física. Em muitos casos, as vítimas relatam medo de denunciar, o que indica que os números podem ser ainda maiores. “Existe uma subnotificação significativa, muitas pessoas não acreditam que haverá resposta efetiva ou temem represálias”, acrescenta. Diante desse cenário, especialistas defendem uma abordagem multifacetada para enfrentar a intolerância religiosa no Brasil. Há a necessidade de fortalecer a aplicação das leis já existentes. A Constituição Federal garante a liberdade de crença, e a legislação prevê punições para crimes de discriminação religiosa. No entanto, segundo o antropólogo Carlos Menezes, é preciso avançar na efetividade dessas normas. “Não basta ter leis, é fundamental que haja investigação adequada dos casos registrados, responsabilização dos agressores e principalmente apoio às vítimas”. No âmbito educacional, Menezes cita a inclusão de conteúdos sobre diversidade religiosa nos currículos escolares como uma medida essencial. “O combate ao preconceito começa na formação das novas gerações, precisamos ensinar desde cedo que o Brasil é um país plural, com múltiplas tradições religiosas que merecem respeito. Isso ajuda a desconstruir estigmas e a promover uma cultura de tolerância”. Já no campo social, iniciativas de diálogo inter- -religioso e campanhas de conscientização são apontadas como caminhos promissores. O antropólogo ressalta a importância de envolver diferentes setores da sociedade. “É necessário que líderes religiosos, organizações civis, mídia e poder público atuem juntos para combater narrativas de ódio e promover o respeito mútuo”. Na avaliação de Andreia, o fortalecimento de políticas públicas específicas para proteção de comunidades religiosas vulneráveis é necessário. Isso inclui desde a criação de canais mais acessíveis de denúncia até ações de segurança para templos e terreiros. “Garantir que esses espaços possam funcionar sem medo é uma questão de direitos humanos”.