
De acordo com a 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, desenvolvida pelo Observatório Fundação Itaú, 97% dos participantes consideram que o acesso à arte e à cultura constitui um direito que deve ser assegurado pelo Estado. O levantamento analisou os padrões de consumo cultural da população brasileira em todas as cinco regiões do país.
Ao todo, foram entrevistadas 2.432 pessoas, das quais 40% vivem em capitais ou regiões metropolitanas e 60% residem em municípios do interior ou em áreas litorâneas, evidenciando a preocupação do estudo com a descentralização do acesso à cultura. Em relação ao perfil socioeconômico dos respondentes, 44% pertencem à classe C, 23% às classes A e B, e 31% às classes D e E.
Entre os resultados da pesquisa, destacam-se as percepções sobre o acesso à cultura e a relação entre arte e educação como direitos. Cerca de 25% dos entrevistados afirmaram que as aulas de arte nas escolas públicas deveriam ser prioridade para os governos. O estudo também apontou alta adesão a atividades culturais presenciais ao ar livre (86%) e maior interesse em participar de ações culturais quando oferecidas no ambiente escolar (72%).
Quando questionados sobre as prioridades das políticas públicas na área cultural, 39% dos entrevistados apontaram a criação ou ampliação de programas que garantam acesso gratuito a atividades como cinema, teatro, música e museus. Além disso, 32% defenderam como prioridade a oferta de ações culturais voltadas para crianças e adolescentes nos bairros, refletindo a preocupação com as desigualdades no acesso a eventos e equipamentos culturais.
Entre as demais prioridades apontadas pelos entrevistados estão a melhoria e ampliação de equipamentos culturais já existentes (26%), a oferta de aulas de arte e cultura nas escolas públicas (25%) e o apoio a iniciativas culturais em favelas, periferias e comunidades tradicionais (23%). Também foram mencionados investimentos na formação de artistas e profissionais da cultura (19%), a criação de novos espaços culturais públicos (18%) e o incentivo à produção cultural independente (14%).
A professora de artes, Cecília Santana, avalia que os números demonstram uma mudança importante na forma como a população enxerga o papel da cultura no cotidiano. “A cultura amplia horizontes, estimula a criatividade e favorece a compreensão das diferentes realidades que compõem a sociedade brasileira. Quando os cidadãos defendem o acesso à cultura como um direito, estão reconhecendo que ela é tão importante quanto outros serviços públicos. Isso mostra um amadurecimento da percepção coletiva sobre o tema”.
Ela destaca ainda a relevância do ambiente escolar como espaço de democratização cultural. “Quando uma escola promove oficinas, apresentações artísticas, visitas a museus ou atividades ligadas ao patrimônio cultural, amplia significativamente as oportunidades de aprendizagem. A cultura ajuda a desenvolver habilidades socioemocionais, fortalece a identidade dos estudantes e contribui para a permanência deles no ambiente escolar”.
Para o produtor cultural Rafael Lacerda, os resultados revelam que a população entende a importância da descentralização das políticas culturais. “Durante muito tempo, a oferta cultural ficou concentrada nas capitais e em áreas centrais das cidades. Hoje existe uma demanda crescente para que as ações culturais cheguem aos bairros periféricos, às comunidades tradicionais e aos municípios menores. Isso é fundamental para reduzir desigualdades e promover inclusão social”.
Os governos têm diversas ferramentas para ampliar o acesso da população à cultura, destaca Lacerda. “Não basta apenas construir equipamentos culturais. É preciso garantir programação contínua, transporte acessível, divulgação adequada e atividades voltadas às necessidades de cada comunidade. Muitas vezes o espaço existe, mas a população não consegue utilizá-lo por falta de condições ou de informação”.
Lacerda acredita que os jovens devem ocupar posição central nas estratégias de democratização cultural. “Investir em cultura durante a infância e a adolescência gera impactos positivos que se refletem ao longo de toda a vida. Jovens que têm acesso a atividades culturais desenvolvem maior capacidade de expressão, senso crítico e participação cidadã. Além disso, a cultura pode representar oportunidades de formação profissional e geração de renda em diversos segmentos da economia criativa”.