
Embora seja considerado um tumor raro, o câncer de testículo tem impacto desproporcional entre homens jovens no Brasil. Um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com base em dados do Ministério da Saúde, revela que 61,67% das mortes pela doença em 2024 ocorreram entre homens de 20 a 39 anos. Ao todo, foram registrados 527 óbitos no período, sendo que mais de 76% atingiram pacientes com até 49 anos.
Os números reforçam uma característica marcante da doença. Sua maior incidência está justamente na faixa etária mais produtiva da vida. De acordo com o cirurgião oncológico Renato Almeida Rosa de Oliveira, esse padrão acompanha o comportamento natural do tumor. “É uma doença típica de homens jovens, geralmente entre o fim da adolescência e os 40 anos. Por isso, a mortalidade acaba acompanhando essa mesma faixa etária”.
Apesar do impacto, Oliveira destaca que o câncer de testículo apresenta altas taxas de cura, especialmente quando diagnosticado precocemente. Ainda assim, o atraso na busca por atendimento médico segue como um dos principais desafios. “A descoberta na fase inicial está diretamente relacionada à maior chance de cura. O que leva ao diagnóstico tardio é negligenciar alterações no testículo, seja por medo ou preconceito”.
Entre os principais sinais de alerta estão o aparecimento de nódulos endurecidos, aumento do volume testicular e mudanças na consistência do órgão, geralmente sem dor. “A maioria das alterações relacionadas ao câncer não dói, e isso pode fazer com que o paciente demore a procurar ajuda”, ressalta o médico.
Autocuidado é importante
Nesse contexto, o autoexame surge como uma ferramenta essencial. A recomendação de Oliveira é que homens, especialmente a partir da adolescência, conheçam o próprio corpo e observem possíveis mudanças. “Apalpar os testículos durante o banho, identificar o que é normal e perceber alterações pode fazer toda a diferença. Muitas vezes não é nada, mas quando é, pode ser o fator decisivo para um diagnóstico precoce”.
Outro ponto de atenção na avaliação do cirurgião oncológico envolve barreiras culturais. Vergonha, desinformação e até o receio de julgamento ainda dificultam que jovens relatem sintomas ou procurem atendimento. “Muitos associam alterações a traumas ou infecções e evitam falar sobre o assunto. Isso atrasa a investigação e o início do tratamento”, completa.
Avanços recentes na medicina têm permitido abordagens mais eficazes e menos agressivas. Oliveira destaca que a cirurgia para retirada do testículo afetado (orquiectomia) segue como tratamento inicial padrão, mas novas estratégias têm reduzido a necessidade de quimioterapia em determinados casos. “Hoje, em algumas situações, é possível apenas observar o paciente após a cirurgia, evitando efeitos colaterais desnecessários”.
Além disso, técnicas minimamente invasivas, como cirurgias laparoscópicas e robóticas, têm contribuído para preservar funções importantes, como a ejaculação. A preservação da fertilidade também ganhou destaque no cuidado com esses pacientes. “Antes de iniciar o tratamento, orientamos o congelamento de sêmen, já que alguns procedimentos comprometem a fertilidade”, finaliza Oliveira.