
Um levantamento recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que o crescimento das apostas on-line (conhecidas como bets) no Brasil deixou de ser apenas uma forma de lazer e passou a representar um desafio macroeconômico. Após a regulamentação em 2023, os gastos mensais nessas plataformas já ultrapassam a marca de R$ 30 bilhões.
Segundo o estudo, uma parcela desse valor tem origem em recursos que antes eram destinados a despesas básicas, configurando um “efeito substituição” que compromete o consumo efetivo. Conforme a CNC, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista.
De forma inédita, a avaliação técnica aponta um vínculo causal entre a utilização de plataformas de apostas e o número de famílias que afirmam não conseguir quitar suas dívidas. De acordo com os dados analisados, o uso intensivo dessas apostas digitais tem sobrecarregado o orçamento doméstico, contribuindo para que cerca de 268 mil famílias no Brasil entrem em situação de inadimplência grave, além de prolongar o período médio de endividamento.
Conforme a economista Laura Mendes, os números revelam um cenário preocupante para a economia nacional. “Quando uma parte crescente da renda das famílias deixa de ser destinada ao consumo de bens e serviços e passa a alimentar um circuito de apostas, há uma retração indireta na atividade econômica. O comércio sente isso rapidamente, principalmente em setores mais dependentes do consumo cotidiano. O impacto não se limita à queda nas vendas, há também efeitos sobre a geração de empregos e também a arrecadação tributária”.
A pesquisa mostra que o perfil mais suscetível ao endividamento ligado aos jogos inclui homens, indivíduos com 35 anos ou mais e famílias de menor renda. Ainda assim, o estudo chama atenção para pessoas com maior nível de escolaridade: a facilidade de acesso às plataformas digitais, aliada à forte presença de publicidade, também tem elevado significativamente o grau de exposição ao risco nesse grupo.
O consultor financeiro Ricardo Faria destaca que o problema vai além da questão financeira. “O vício em apostas tem um efeito em cascata. Ele compromete o orçamento familiar, gera conflitos dentro de casa, aumenta o estresse e pode desencadear problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. O endividamento prolongado das famíllias brasileiras tende a agravar ainda mais esse quadro terrível, criando um ciclo difícil de romper e muitas pessoas recorrem a novas apostas na tentativa de recuperar perdas, o que acaba aprofundando ainda mais a situação”.
De acordo com os especialistas, as consequências desse cenário se refletem no comércio nacional. “Com menos recursos disponíveis para consumo, há uma desaceleração em diversos segmentos e pequenos e médios empresários são frequentemente os primeiros a sentir os efeitos dessa retração, uma vez que dependem diretamente da renda disponível das famílias”, ressalta Laura.
Ela defende a adoção de medidas públicas mais rigorosas para conter o avanço do problema. “Entre as propostas estão a ampliação de campanhas de conscientização sobre os riscos das apostas, a regulamentação mais restritiva da publicidade, especialmente em horários e canais de grande alcance, e a criação de mecanismos de controle que permitam limitar gastos dos usuários nas plataformas. Também se discute a necessidade de programas de apoio psicológico e financeiro para pessoas em situação de dependência”.
“O poder público precisa tratar essa questão como um problema de saúde e de política econômica ao mesmo tempo. Não se trata apenas de regulamentar o mercado, mas de proteger o consumidor e evitar que uma atividade de alto risco comprometa a estabilidade financeira de milhões de brasileiros. Quanto mais cedo houver informação e mecanismos de controle, menores serão os danos sociais e econômicos no longo prazo”, finaliza Faria.