Tarifaço dos EUA pode causar prejuízo de R$ 76 bilhões ao Brasil

Mais do que uma disputa comercial, a escalada tarifária entre Brasil e Estados Unidos pode produzir efeitos que vão além das exportações.
Taxas atingem US$ 11 bilhões em exportações / Foto: Magnific.com

Mais do que uma disputa comercial, a escalada tarifária entre Brasil e Estados Unidos pode produzir efeitos que vão além das exportações. Um estudo do IBEVAR-FIA Business School estima que, mantidas as tarifas impostas pelo governo norte-americano, o Brasil poderá perder cerca de R$ 76 bilhões em atividade econômica, comprometendo até um terço do crescimento projetado para 2026.

O levantamento aponta que cerca de US$ 11 bilhões em exportações brasileiras foram atingidos, principalmente nos setores de madeira, minerais não metálicos, produtos químicos, alimentos processados, calçados, máquinas e têxteis.

Segundo o presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, Claudio Felisoni, a atual crise difere das anteriores por atingir diretamente a economia. “As crises passadas, como a espionagem da NSA, em 2010, ou o rompimento político entre os governos Ernesto Geisel e Jimmy Carter, em 1977, foram essencialmente rupturas políticas e diplomáticas, sem um canal comercial direto de transmissão econômica”.

“Agora é diferente. A tarifa conecta uma decisão comercial à política interna dos dois países. As crises anteriores foram passageiras. Esta incorpora um componente econômico muito mais complexo e com potencial de produzir efeitos duradouros”, acrescenta.

Para Felisoni, os primeiros reflexos devem aparecer em poucos meses, com queda das exportações, redução da arrecadação e pressão sobre o câmbio. Depois, os impactos alcançam as contas públicas. “Primeiro aparecem os efeitos na balança comercial e na arrecadação. Depois vêm déficit, dívida pública e risco-país. É um processo em cadeia que não termina quando o navio deixa de embarcar mercadorias”.

Em Minas Gerais, os efeitos também devem ser sentidos devido ao peso da mineração, siderurgia e indústria química. Segundo Felisoni, empresas que produzem sob especificações técnicas para os Estados Unidos terão mais dificuldade para encontrar novos mercados. “As fábricas que produzem para os EUA não trocam de comprador de forma rápida e muitos produtos seguem especificações técnicas. Se a situação persistir, veremos empresas redirecionando investimentos e até transferindo produção para países que não enfrentam essas tarifas”.

Mercado observa com cautela

Enquanto a indústria calcula os prejuízos, o mercado financeiro reage de forma mais moderada. Para a CIO da Ella Wealth, Ana Toledo, as tarifas aumentaram a volatilidade, mas ainda não provocaram uma fuga de investidores estrangeiros. “O choque é real, mas concentrado. Os EUA representam cerca de 12% das exportações brasileiras e o investidor continua olhando principalmente para os fundamentos da economia, como juros, inflação e quadro fiscal. O fluxo estrangeiro para a Bolsa permanece positivo, mostrando que não há um movimento generalizado de saída de capital”.

Segundo Ana, o maior risco está na combinação entre incerteza comercial, juros elevados e custo do crédito, fatores que podem levar empresas a adiar decisões estratégicas. “Sem previsibilidade de demanda e com um custo de capital elevado, a escolha racional é esperar. Por isso, aguardamos uma postergação seletiva dos investimentos, principalmente nos setores diretamente atingidos pelas tarifas”.

Mesmo que Brasil e EUA cheguem a um acordo, Ana avalia que os impactos sobre a economia real tendem a persistir por mais tempo do que a reação dos mercados financeiros. “Os mercados reagem rapidamente às boas notícias, mas a economia real funciona em outro ritmo. A fábrica que adiou uma expansão não retoma o investimento imediatamente. Quanto mais o impasse durar, maior será a parcela do dano permanente”, conclui.

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