
Cerca de 27 milhões de brasileiros podem conviver com enxaqueca sem saber que têm a doença. Apesar do número expressivo, apenas 23 milhões receberam diagnóstico médico. Os dados são do estudo “Radar da Enxaqueca no Brasil”, pesquisa inédita da farmacêutica Teva Brasil com o apoio da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces).
De acordo com a pesquisa, as crises duram, em média, 15 horas e atingem intensidade de 5,9 em uma escala de zero a dez. Entre os pacientes diagnosticados, 35% afirmaram sentir “a pior dor que podem imaginar”, enquanto entre os que ainda não receberam diagnóstico esse percentual é de 26%. O estudo também sugere que o subdiagnóstico é mais frequente entre pessoas de menor renda: mais de 80% dos não diagnosticados estariam nas classes C, D e E.
A médica neurologista Helena Providelli, especialista em cefaleia e no tratamento da enxaqueca, explica que a principal razão da doença ainda ser subdiagnosticada é porque ela é subestimada e banalizada. “Muitos não entendem que é uma patologia neurológica crônica e acreditam que seja apenas uma ‘dor de cabeça’. Com isso, acabam normalizando crises frequentes e demoram a procurar ajuda especializada”.
“A enxaqueca vai muito além de uma dor. Ela costuma ser incapacitante, pode piorar com atividades rotineiras e ser acompanhada de náuseas, vômitos e hipersensibilidade à luz, sons e cheiros. Algumas pessoas também podem apresentar tontura, alterações visuais e dificuldade de concentração durante as crises”, acrescenta.
O atraso no diagnóstico pode levar à cronificação da doença, ao uso excessivo de analgésicos, e ao maior risco de ansiedade e depressão, alerta a neurologista. “Além de importantes prejuízos profissionais, sociais e familiares. Muitos pacientes deixam de fazer planos e passam a organizar a própria vida em função das crises”.
Predominância feminina
As mulheres concentram a maior parte dos diagnósticos (75%) e também predominam entre os que têm sintomas sem diagnóstico (63%). Porém, a participação masculina cresce no grupo subdiagnosticado, passando de 25% entre os diagnosticados para 37% entre os sem confirmação clínica, o que pode indicar menor reconhecimento da doença entre os homens. Entre os que relatam sintomas sem diagnóstico, 56% têm até 39 anos.
O presidente da Abraces, Mario Peres, afirma que a enxaqueca afeta desproporcionalmente as mulheres, em grande parte devido às variações hormonais ao longo da vida fértil. “As oscilações nos níveis de estrogênio influenciam a atividade cerebral e a sensibilidade dos vasos sanguíneos, tornando as crises mais frequentes e intensas. Além dos fatores biológicos, aspectos como estresse, sobrecarga mental e menor tempo de descanso contribuem para o aumento dos episódios”.
Controle da doença
Helena destaca que o tratamento é individualizado e pode incluir medicações para aliviar as crises e procedimentos preventivos para reduzir sua frequência. “Hoje também contamos com opções mais modernas, como a toxina botulínica e medicamentos desenvolvidos especificamente para a enxaqueca, os anticorpos anti-CGRP”.
Além dos medicamentos, ela ressalta que mudanças no estilo de vida são essenciais. “Sono adequado, alimentação regular, hidratação, atividade física e manejo do estresse fazem parte do tratamento da enxaqueca. Não existe uma fórmula única para todos os pacientes, mas pequenas mudanças de hábitos fazem a diferença quando associadas ao procedimento correto”.
“A enxaqueca é uma doença genética e crônica. Por isso, o objetivo do tratamento não é a cura, mas buscar um controle. É reduzir a frequência e a intensidade das crises e devolver qualidade de vida ao paciente. Em muitos casos, é possível alcançar longos períodos com excelente controle dos sintomas”, complementa.
Para a médica, apesar dos grandes avanços dos últimos anos, o acesso aos procedimentos mais modernos ainda é um desafio no Brasil. “Na rede pública, há dificuldades relacionadas ao acesso ao especialista e à disponibilidade de alguns tratamentos. Na rede privada, os principais obstáculos costumam ser o alto custo das medicações mais recentes e as barreiras impostas pelos planos de saúde para sua autorização”, finaliza.