
Cinco em cada dez brasileiros adultos estão inadimplentes. O país atingiu a marca histórica de 83,3 milhões de consumidores com contas em atraso em abril, o equivalente a 50,81% da população adulta, segundo dados da Serasa. Juntos, eles acumulam 342 milhões de dívidas negativadas, que somam mais de R$ 568 bilhões, com valor médio de R$ 6.814,39 por pessoa.
O cenário é mais preocupante quando se observa que a maioria dos inadimplentes acaba voltando a se endividar. O Indicador de Reincidência de Pessoas Físicas, apurado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), revelou que a reincidência atingiu 85,41% dos consumidores que entraram na inadimplência em maio. O dado refere-se a pessoas que já haviam aparecido no cadastro nos últimos 12 meses.
Dentro do universo de reincidentes, a maior parte (65,92%) ainda não havia quitado pendências antigas e foi negativada novamente. Outros 19,49% haviam saído do cadastro de devedores nos últimos 12 meses, mas retornaram. Apenas 14,59% dos negativados no mês não tiveram restrições no CPF ao longo do último ano.
O economista e o especialista em macroeconomia e desenvolvimento econômico, Wallace Marcelino Pereira, destaca que embora a economia brasileira esteja aquecida e o rendimento médio mensal da população tenha alcançado marca histórica (R$ 3.367 em 2025), um aumento real de 5,4% em relação ao ano anterior, a inadimplência decorre de algumas razões básicas. “Juros elevados, dívidas acumuladas em períodos posteriores, elevado grau de informalidade na economia, e recomposição incompleta do poder de compra em determinados segmentos da sociedade”.
“Em abril, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 63% ao ano, enquanto a inadimplência no crédito atingiu 5,4% e o comprometimento de renda ficou em 29,3%, segundo o Banco Central. Outro ponto é que para muitas famílias, especialmente as de menor renda, endividadas ou com trabalho informal, o custo de vida efetivo tem aumentado mais do que a renda disponível”, acrescenta o especialista.
Já a reincidência mostra que o problema não se limita somente à falta de disciplina financeira, mas expressa uma restrição estrutural de renda e crédito, afirma o economista. “Portanto, o retorno ao endividamento decorre da combinação entre renda insuficiente, informalidade, custo de vida pressionado, juros elevados, acúmulo de dívidas antigas e baixa margem de poupança das famílias”.
Disciplina financeira
O educador financeiro, Leonardo Baldez Augusto, explica que quando a pessoa faz um acordo sem reorganizar o orçamento, troca uma dívida antiga por uma nova. “Se a parcela renegociada não cabe na renda, a chance de quebra do acordo é alta”.
Augusto pontua que para reorganizar o orçamento tem que fazer um diagnóstico realista da renda e dos gastos. “É preciso saber quanto entra, quanto sai e quais despesas são fixas, variáveis e negociáveis. Depois, é necessário separar as contas essenciais das não essenciais e definir um limite claro para cada categoria”.
“Quem acabou de renegociar uma dívida deve tratar a parcela do acordo como prioridade no orçamento. O ideal é passar por um período de reorganização, reduzir gastos de consumo, evitar novas dívidas e começar uma reserva, mesmo que pequena, pois isso impede que qualquer imprevisto vire nova inadimplência”, ressalta.
Desenrola
Em junho, foi lançada a nova etapa do programa Desenrola, que é voltada para trabalhadores informais e autônomos que estão com as contas em dia ou com atraso máximo de 90 dias. Para Pereira, programas de renegociação reduzem o estoque imediato de dívidas em atraso.
“Mas, não são suficientes para reduzir os índices de forma consistente se não forem acompanhados por políticas de renda, regulação do crédito, proteção do consumidor e prevenção do superendividamento. Já que a tendência é de manutenção da inadimplência e da reincidência em patamar elevado, com possibilidade de redução apenas gradual e localizada nos próximos meses”, finaliza.