Confiança industrial segue em baixa

Foto: Magnific.com

Após três meses consecutivos de queda, a confiança da indústria brasileira apresentou reação em maio, mas ainda está sem força suficiente para afastar o pessimismo do setor. Dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) subiu de 45,2 para 47,2 pontos no mês. Apesar da melhora, o indicador permanece abaixo da linha de 50 pontos há 17 meses consecutivos, sinalizando que os empresários seguem desconfiados em relação ao cenário econômico.

O gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, afirma que o avanço deve ser interpretado com cuidado. “Foi um momento relevante. Dois pontos em um mês é algo bastante considerável. Mas ainda precisa ser visto com cautela porque o índice continua abaixo de 50 pontos e segue mostrando falta de confiança, apesar da melhora”.

Esse resultado positivo interrompe o movimento de deterioração, mas ainda não representa uma transformação consolidada de tendência, segundo avalia Azevedo. “Embora significativa, a alta está longe de reverter as quedas que foram se acumulando nesse período. Não dá para garantir uma mudança no desempenho ou nas decisões que serão tomadas pelos empresários nos próximos seis meses”.

Na avaliação do economista Gabriel Vaz, o longo período de pessimismo revela dificuldades estruturais da economia brasileira. “Uma sequência de 17 meses consecutivos abaixo de 50 pontos indica que o problema não é meramente conjuntural e passou a refletir as amarras estruturais da nossa economia”.

“Quando o pessimismo se prolonga por quase um ano e meio, evidencia gargalos históricos, como ineficiências logísticas, complexidade tributária e insegurança jurídica”, acrescenta.

O economista destaca que a persistência da baixa confiança afeta diretamente os investimentos e a atividade industrial. “Acima de 15 meses já há efeito cumulativo, com produção industrial crescendo abaixo do potencial, adiamento de contratações e, em muitos casos, fechamento de linhas de produção menos eficientes”.

Juros e incertezas

Entre os fatores que ajudam a explicar o cenário estão os juros elevados, o crédito mais caro e as incertezas no mercado internacional. Azevedo lembra que o movimento de queda da confiança começou junto ao ciclo de alta da taxa básica de juros. “A Selic elevada está produzindo efeitos na economia, isso é bastante evidente. A indústria é muito sensível a esse cenário e isso deve continuar acontecendo, dado o ritmo previsto para a redução da taxa de juros”.

“As guerras, as incertezas do mercado externo e o endividamento das famílias pesam nas expectativas e não permitem pensar, neste momento, em uma trajetória muito forte de melhora da confiança”, complementa.

Apesar do resultado positivo em maio, Azevedo ressalta que a cautela ainda deve prevalecer nos próximos meses. “A ideia do ICEI é justamente medir o pulso do empresário para entender o ânimo em aumentar produção, contratação e investimento. Quando se fica um ou dois meses abaixo de 50 pontos, pode haver um adiamento de decisões. Mas 17 meses já representam outro patamar e isso começa a impactar diretamente nas decisões que exigem mais planejamento”.

Busca por adaptação

Outro dado apontado na pesquisa foi a diferença entre a percepção sobre as próprias empresas e sobre a economia brasileira. Enquanto o índice de expectativas para os negócios das empresas ficou em 53,5 pontos, indicando otimismo, o indicador ligado à economia brasileira permaneceu em 40,9 pontos.

Para Vaz, isso mostra que as empresas têm buscado alternativas para enfrentar o cenário adverso. “Muitas empresas passaram a buscar ganhos de eficiência, diversificação de mercados, digitalização e estratégias de redução de custos para sobreviver em um ambiente menos favorável”.

Ele também defende medidas para recuperar a confiança do setor produtivo. “É preciso atuar em duas frentes: previsibilidade e custo de capital. Dar sinais claros de responsabilidade fiscal e avançar na implementação da reforma tributária são passos importantes para criar um ambiente mais favorável ao investimento”, conclui.

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