Urnas seguem alvo de fake news

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

As urnas eletrônicas, que completam 30 anos de utilização em 2026, continuam sendo o principal alvo da desinformação sobre o processo eleitoral no país. Um levantamento do Projeto Confia aponta que mais de 45% dos conteúdos falsos analisados nas eleições de 2022 e 2024 atacavam diretamente o sistema eletrônico de votação.

O estudo avaliou mais de 3 mil conteúdos publicados em plataformas digitais durante os dois últimos ciclos eleitorais. Desses, cerca de 720 foram selecionados para uma análise qualitativa aprofundada. Segundo a coordenadora do projeto, Helena Salvador, as fake news recorrem a falsas explicações técnicas para alimentar dúvidas sobre a integridade das urnas.

“Esses conteúdos desinformativos se utilizam de uma falsa racionalidade técnica. São explicações com um fundo técnico, mas falsas, usando um linguajar técnico e uma formalidade mentirosa, principalmente para associar fraude às urnas eletrônicas”, afirma.

Entre os conteúdos mais recorrentes identificados pelo levantamento estão mensagens que alegam supostas falhas nos botões da urna, principalmente no “confirma”, além de boatos de que o equipamento completaria automaticamente os números digitados pelos eleitores.

Conforme Helena, o desconhecimento da população sobre o funcionamento da tecnologia favorece a disseminação dessas narrativas. “Quando você tem acesso a uma tecnologia apenas a cada dois anos, durante poucos segundos no domingo de votação, fica mais suscetível a acreditar e ter dúvidas sobre o funcionamento. Existe uma falta de familiaridade das pessoas com as urnas eletrônicas”.

Ela destaca que a desinformação não ficou restrita apenas às eleições presidenciais de 2022. “Mesmo no pleito municipal, em 2024, a desinformação sobre as urnas apareceu com força. Houve um chamado para que as pessoas compartilhassem esses conteúdos e se manifestassem contra o sistema eletrônico de votação”.

Na avaliação da coordenadora, uma das maneiras de enfrentar a desinformação é tornar o funcionamento das urnas mais próximo do cotidiano da população, pois o acesso limitado ao sistema contribui para o surgimento de dúvidas e a circulação de conteúdos falsos. “Existem ferramentas on-line para as pessoas treinarem o voto, mas poucas conhecem. Precisamos pensar em alternativas criativas para que a urna faça mais parte do dia a dia da população. Quanto maior o acesso e a presença dessa tecnologia, maior tende a ser a confiança”.

Queda na confiança

O estudo ocorre em meio à redução da confiança da população nas urnas eletrônicas. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em fevereiro mostrou que 53% dos brasileiros afirmam confiar no sistema de votação. Em 2022, levantamento do Datafolha divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontava índice de 82%.

De acordo com Helena, adultos entre 35 e 50 anos aparecem entre os grupos com maior desconfiança em relação às urnas. “As pessoas dessa faixa etária afirmaram, em 43% dos casos, não acreditar nas urnas eletrônicas. Já a terceira idade apresentou a maior taxa de confiança, muito ligada à memória das eleições em papel, que eram bastante confusas e pouco transparentes”.

Outro ponto destacado pela pesquisadora é o que ela chama de “dupla narrativa” presente nos conteúdos falsos. Ao mesmo tempo em que as urnas são apresentadas como uma tecnologia “obscura” e difícil de compreender, também são tratadas como frágeis e vulneráveis a manipulações. “Essa dualidade nasce justamente do desconhecimento sobre como acontece o processo eleitoral”.

O Projeto Confia é uma iniciativa do Pacto pela Democracia em parceria com o Aláfia Lab e o Instituto Democracia em Xeque, organizações especializadas em integridade da informação e combate à desinformação. Para as eleições de 2026, o grupo prepara campanhas de conscientização e um guia de contranarrativas para enfrentar a circulação de conteúdos falsos sobre o sistema eleitoral.

“A gente não pode chegar à quase metade da população desacreditando no sistema eletrônico de votação no Brasil e, consequentemente, no resultado das eleições. Seria uma grande perda para a nossa democracia. É isso que queremos evitar”, finaliza Helena.

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