Castigo físico ainda faz parte da rotina

Foto: Pexels.com

Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Futuro é Infância Saudável, vinculado à Fundação José Luiz Setúbal, em parceria com a Quaest, revelou uma discrepância entre o que os brasileiros consideram ser a forma mais adequada de educar crianças e adolescentes e a maneira como parte da população efetivamente reage em situações de desobediência ou conflito.

Segundo o levantamento, 91% dos brasileiros acreditam que conversar com a criança e explicar o erro é a melhor forma de educar. Na prática, 93% afirmaram já ter adotado essa estratégia ao menos uma vez. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que medidas mais severas ainda são comuns. Gritar com a criança foi admitido por 62% dos entrevistados, enquanto 49% disseram já ter dado tapas e 39% relataram ter ameaçado bater. O uso de objetos, como chinelos, foi citado por 27% dos participantes.

Além disso, 48% afirmaram já ter aplicado castigos que restringem momentos de lazer. Outros 22% disseram ter beliscado ou puxado a orelha de uma criança, e 18% reconheceram ter recorrido a xingamentos ou ofensas.

A pesquisa também investigou como os brasileiros reagiriam ao presenciar agressões contra crianças em espaços públicos. Entre os entrevistados, 32% disseram que não fariam nada por considerarem que se trata de um assunto particular. Outros 30% afirmaram que até gostariam de intervir, mas se sentiriam constrangidos. Já 21% responderam que conversariam diretamente com o responsável, enquanto 15% recorreriam a terceiros ou acionariam a polícia.

Para a psicóloga educacional Carla Silva, a permanência dos castigos físicos está ligada a padrões culturais transmitidos entre gerações. “Muitos adultos reproduzem a forma como foram educados, acreditando que a punição física ensina respeito. No entanto, a ciência mostra que bater pode gerar medo e obediência momentânea, mas não favorece a compreensão do erro nem o desenvolvimento do autocontrole”.

Segundo a especialista, a violência pode comprometer o vínculo entre pais e filhos e aumentar a probabilidade de problemas emocionais e comportamentais. “Quando a criança aprende pelo medo, ela deixa de desenvolver habilidades, como resolver conflitos, reconhecer emoções e assumir responsabilidades por suas atitudes”.

Ela ressalta que momentos de desobediência fazem parte do desenvolvimento infantil e precisam ser compreendidos como oportunidades de aprendizagem. “A criança ainda está formando sua capacidade de controlar impulsos e entender limites. Por isso, uma reação agressiva do adulto pode transmitir a mensagem de que a força é uma forma aceitável de resolver conflitos”.

A pedagoga Beatriz Lima destaca que estabelecer limites continua sendo essencial, mas isso não significa recorrer à agressão. “Educar com firmeza é diferente de educar com violência. Os responsáveis precisam definir regras claras, coerentes e adequadas à idade da criança, explicando as consequências de cada comportamento”.

Entre as estratégias mais eficazes, Beatriz recomenda manter o diálogo, reforçar comportamentos positivos, aplicar consequências proporcionais às atitudes inadequadas e servir de exemplo no controle das próprias emoções. “Os filhos observam muito mais o comportamento dos adultos do que os discursos. Quando os pais conseguem manter a calma e agir com respeito diante das situações, aumentam as chances de que a criança também aprenda a lidar melhor com as frustrações”.

O Estatuto da Criança e do Adolescente garante que crianças e adolescentes sejam educados e cuidados sem sofrer castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes. A Lei nº 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, considera castigo físico qualquer ação com uso de força que cause sofrimento ou lesão, além de proibir humilhações, ameaças graves e ridicularizações.

Casos de suspeita ou confirmação de violência podem ser denunciados ao Conselho Tutelar ou pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violações de direitos.

Compartilhe

Em destaque