
Transmitida pela picada do flebotomíneo, conhecido popularmente como mosquito-palha, a leishmaniose pode se manifestar de duas formas principais: a tegumentar, que provoca lesões na pele e nas mucosas; e a visceral, considerada a forma mais grave por comprometer órgãos internos como fígado, baço e medula óssea.
O Brasil concentra o maior número dos casos das Américas e mantém a doença como um problema endêmico em diversas regiões. Dados do Ministério da Saúde apontam que, em 2023, foram registrados aproximadamente 13 mil casos de leishmaniose tegumentar no país, mantendo uma média anual superior a 12 mil ocorrências nos últimos anos. Já a leishmaniose visceral apresenta cerca de dois mil casos notificados por ano, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, embora a doença também esteja presente no Centro- -Oeste, Sudeste e Sul.
Diferentemente do que muitas pessoas acreditam, cães infectados não transmitem diretamente a doença para os humanos, eles funcionam como importantes reservatórios do parasita em áreas urbanas, enquanto a transmissão depende obrigatoriamente da presença do inseto vetor.
Segundo a infectologista Fernanda Diniz, um dos maiores desafios continua sendo o reconhecimento precoce dos sintomas. “Na forma tegumentar, a pessoa costuma apresentar uma ou mais feridas que não cicatrizam, geralmente indolores, mas que aumentam lentamente de tamanho, quando há comprometimento das mucosas, podem surgir lesões no nariz, boca e garganta. Já a leishmaniose visceral costuma provocar febre prolongada, perda de peso, fraqueza intensa, aumento do fígado e do baço, anemia e redução das células de defesa do organismo. Sem tratamento, essa forma pode evoluir para complicações graves e até levar à morte”.
Ela explica que o diagnóstico depende da avaliação clínica associada a exames laboratoriais. “Conforme o quadro do paciente, podem ser utilizados testes sorológicos, exames parasitológicos, biópsias das lesões ou exames moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR). Na leishmaniose visceral, também são empregados testes rápidos disponíveis na rede pública de saúde”.
Para o infectologista Marcelo Azevedo, o acesso rápido ao diagnóstico faz toda a diferença no prognóstico dos pacientes. “Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de cura e menores são as sequelas. Muitas pessoas convivem durante meses com lesões de pele acreditando se tratar de alergias ou infecções comuns. Na forma visceral, o atraso no diagnóstico aumenta o risco de complicações, principalmente em crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade”.
O tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e varia conforme a forma clínica, a idade do paciente e a presença de outras doenças. “Entre os medicamentos utilizados estão os antimoniais pentavalentes, a anfotericina B em diferentes formulações e, em situações específicas, a miltefosina, incorporada recentemente como alternativa terapêutica para casos de leishmaniose tegumentar”, esclarece Azevedo.
Prevenção
Os especialistas ressaltam que não existe vacina disponível para prevenir a leishmaniose em seres humanos, por isso, as medidas preventivas permanecem fundamentais. Entre elas estão o uso de repelentes, roupas de mangas compridas em áreas de maior risco, instalação de telas em portas e janelas, limpeza frequente de quintais para reduzir matéria orgânica onde o vetor se desenvolve e o manejo adequado de resíduos. Nos locais com transmissão intensa, também são recomendadas ações de vigilância ambiental e controle do vetor realizadas pelos serviços de saúde.
No caso dos cães, a prevenção inclui acompanhamento veterinário, uso de coleiras impregnadas com inseticida e vacinação quando indicada pelo veterinário. A identificação de um animal infectado não significa risco de transmissão direta para pessoas, mas sinaliza a necessidade de intensificar as medidas de vigilância e controle do mosquito na região.