Defesa Nacional

O Brasil está preparado para se defender de ameaças externas? Esta é uma pergunta que normalmente nunca nos preocupou apesar do enorme território, a quinta maior área entre os mais de 200 países do mundo.

Entretanto, ocorre que o clima de beligerância e radicalização que tem preocupado a todos aumenta a cada dia. Depois da Guerra do Vietnã, os Estados Unidos pareciam ter ficado mais cautelosos antes de iniciar uma nova ação que pudesse repetir o drama vivido com a resistência que tanto desgaste e perdas trouxe aos americanos. A morte de Saddam Hussein foi um objetivo atingido com sucesso, assim como a recente captura de Maduro na Venezuela.

O apoio a Israel sempre foi uma realidade norte-americana e a reação aos terroristas do Hamas que mataram covardemente mais de 1.200 jovens israelitas teve um apoio inicial forte. No entanto, a demora da reação levou a uma destruição enorme na Faixa de Gaza com milhares de perdas de vítimas civis e a volta da defesa de dois Estados, Israel e Palestina, pela maior parte dos países desenvolvidos. Calcula-se em bilhões e bilhões de dólares a necessidade de recursos para a reconstrução da Faixa de Gaza.

O terrorismo continua ativo no Oriente Médio e o financiamento das atividades do grupo Hezbollah justificou a nova entrada dos Estados Unidos em uma guerra associado a Israel. O assassinato de Aiatolá Khamenei, líder religioso do Irã, foi o início de uma nova frente de batalha, desta vez contra um país milenar, rico em petróleo, com uma população de 92 milhões de habitantes, com localização estratégica e com secular tradição guerreira. Sem respeitar as regras de seu próprio país, o presidente Donald Trump tem tomado decisões à revelia do Congresso, atacando seus aliados e cometendo uma série de idas e vindas, de ameaças e recuos que trazem insegurança a todo o mundo.

Por outro lado, a Guerra da Rússia contra a Ucrânia, iniciada com a invasão de parte do país, continua sem uma solução a curto prazo. Neste caso, Trump vacila e exibe sinais de inconstância, preferindo ter ganhos econômicos. O fato das perdas materiais e humanas em um país conhecido por sua produção agrícola e mineral, além da tradição de belezas arquitetônicas, religiosas e alta tecnologia não consegue sensibilizar o presidente Vladimir Putin, que já está no poder há cerca de 20 anos. Saudades dos tempos da Copa do Mundo de Futebol realizada na Rússia, quando o país se abriu para o mundo.

O Papa Leão XIV tem se apresentado como um grande defensor da paz mundial. Sua atuação alerta a todo o mundo da necessidade de entendimento e de esforços para se evitar a piora das relações internacionais, atingidas por uma polarização que em nada contribui. Mesmo assim, seu compatriota Donald Trump investiu contra a figura maior da cristandade com deboche e colhe agora a reprovação majoritária daqueles que não aceitam a volta dos tempos da “Lei dos mais fortes”, dos impérios transnacionais. Esta é a realidade que se apresenta aos responsáveis pela segurança e defesa do Brasil.

Aqui em nosso país, pacífico por natureza, a radicalização também tem campeado e a nossa renomada diplomacia relegada a segundo plano. Precisamos de coerência para enfrentarmos ditaduras de esquerda ou de direita.

As nossas Forças Armadas precisam de recursos e de apoio para continuarem a expandir seu trabalho de proteção de nossas fronteiras, esforço hercúleo que tive a oportunidade de conhecer como presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal. O “Livro Branco da Defesa Nacional”, divulgado na época do ministro Nelson Jobim, traz as linhas mestras desta ação de dissuasão, termo que reflete a máxima romana: “se queres a paz, prepara-te para a guerra”.

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) precisa ser acelerado e o uso de drones e veículos não tripulados é urgente, inclusive no combate às facções criminosas que têm assustado o país.

A Marinha tem mostrado avanços no programa de submarinos convencionais e nucleares, porém, com atrasos que levaram também ao adiamento da Base Naval do Nordeste, mantendo até hoje a concentração no Rio de Janeiro.

A Aeronáutica tem como projeto permanente a necessidade de renovação de equipamentos e a incorporação dos novos jatos Gripen, projeto iniciado ainda no Governo FHC e que teve grande participação do Senado Federal na garantia de absorção tecnológica. Os novos aviões de transporte fabricados pela Embraer, os KC390, são um avanço. Porém, todos os projetos também estão atrasados.

O Exército tem renovado seus veículos blindados, produzidos pela Iveco em Sete Lagoas, mas também carece de mais recursos que possam acelerar nosso preparo para ação em terra. A preparação de novos militares significa estarmos atentos para dissuadirmos possíveis ameaças que há tempos atrás se mostravam impensáveis.

A vizinha Venezuela ameaçou invadir a parte mais rica da Guiana e espera-se que a troca de comando com a saída do ditador Maduro possa significar uma mudança de rota.

Com um presidente dos Estados Unidos que ameaça até os aliados e diz querer anexar Canadá, Groenlândia e até o México, é importante entendermos que a segurança que tínhamos, no qual armas nucleares e ações bélicas estavam distantes, não pode mais prevalecer.

Pode parecer incoerência, porém, com uma Defesa Nacional respeitada seremos mais respeitados, sem esquecermos nossas tradições pacíficas e de preocupações sociais urgentes.

Compartilhe

Em destaque