Turismo rural aumenta a renda de produtores em até 30% no Estado

O turismo rural tem impulsionado a renda de produtores em Minas Gerais, com aumento de até 30% em algumas propriedades que abriram as portas para visitantes. Experiências com queijos, cafés, doces e cachaças têm atraído turistas e transformado atividades tradicionais do campo em novos negócios. Atualmente, são 266 propriedades abertas ao turismo. Em 2025, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) realizou cerca de 3,4 mil atendimentos a produtores que investem no segmento, com presença em diferentes regiões, como Norte, Sul e Noroeste do Estado. A coordenadora técnica de Turismo Rural da Emater-MG, Thatiana Garcia, destaca que a atividade começou a crescer no pós-pandemia. “As pessoas começaram a querer entender mais sobre a produção de alimentos, e também ter uma vivência no local. Temos produtores que já vivem exclusivamente do turismo. Eles não vendem mais produtos para terceiros, e para adquiri-los, é preciso ir até a propriedade”. Em Ritápolis, no Campo das Vertentes, a Queijaria Seu Jorge transformou o dia a dia da produção em uma atração turística. Administrado por sete mulheres da mesma família, o local recebe visitantes interessados em conhecer o processo de fabricação. “O turista chega da cidade grande com muitas expectativas, e é uma troca interessante. Ele pode acompanhar a ordenha, ver como o queijo é feito, para depois saboreá-lo com café”, conta a proprietária Vera Lúcia Cardoso. Já em São João del-Rei, a Cachaça Morro Grande abriu o alambique à visitação e passou a integrar o roteiro turístico da região. Com produção anual entre 15 mil e 20 mil litros, o produtor José do Carmo Rezende explica que o turista vai ver todo o processo de fabricação da cachaça. “Desde o plantio e a moagem, até a degustação. Isso ajuda a valorizar a bebida e aumentar ainda mais as vendas”. Thatiana acrescenta que o turismo rural não se limita à produção de itens como queijo e cachaça, há outras atividades. “O ecoturismo, visitas em comunidades tradicionais, como quilombolas, indígena e ribeirinhos, além das propriedades de produtos orgânicos”. Acreditar no potencial A técnica ressalta que existem duas principais dificuldades dos produtores para exercer esse tipo de atividade em suas propriedades. “Eles precisam acreditar em seu potencial. É necessário compreender que os turistas querem visitar e vivenciar essas experiências. A partir disso, aparece o segundo obstáculo, que é a precificação. Muitos ainda não conseguem entender que as pessoas pagam para ir nas propriedades rurais e valorizam esse tipo de turismo”. Ela afirma ainda que a Emater ajuda na capacitação dos produtores. “Mas, também na orientação dos profissionais que trabalham diretamente nos escritórios locais da instituição. Fazemos um diagnóstico para entender se aquela propriedade consegue ou não receber visitantes, o que precisa desenvolver e qual é o desejo do produtor. A metodologia mais utilizada pelos extensionistas é do ouvir, de ver o que aquele empreendedor quer, como vai vivenciar e o que ele quer fazer”. “As nossas expectativas sobre o turismo rural são as melhores e maiores possíveis. Acreditamos que esse crescimento faça movimentar cada vez mais o segmento externamente e internamente. A atividade traz uma valorização do município. Queremos desenvolver esse setor para que cresça cada dia mais e prevaleça mais forte”, complementa. A partir de maio, será aberta a atualização para a 4ª edição do catálogo Ruralidade Viva, que é uma iniciativa para dar mais visibilidade aos trabalhos desses produtores. As pessoas que tiverem interesse, é só procurar o escritório da Emater, conversar com o técnico e fazer o cadastro. A entidade auxilia todos, desde quem está começando até aquele que já está no mercado. “Estamos abertos para fazer o atendimento a todos que se interessarem em trabalhar com turismo rural”, finaliza Thatiana.
Síndrome do intestino irritável pode afetar a qualidade de vida

Abril é dedicado à conscientização da síndrome do intestino irritável, uma doença gastrointestinal crônica que atinge milhões de pessoas e ainda é pouco compreendida e frequentemente subdiagnosticada. Caracterizada por um conjunto de sintomas recorrentes que afetam o funcionamento do intestino, a condição não provoca alterações estruturais visíveis em exames laboratoriais ou de imagem, o que muitas vezes contribui para atrasos no diagnóstico e para a sensação de insegurança em quem convive com a doença. De acordo com a gastroenterologista Isabela Moreira, a síndrome do intestino irritável deve ser entendida como uma condição multifatorial. “Não existe uma única causa para o distúrbio. O que observamos é uma interação entre fatores biológicos, como alterações na motilidade intestinal e na sensibilidade visceral, e fatores psicológicos, como estresse e ansiedade. Além disso, há evidências de que a microbiota intestinal desempenha um papel importante no desenvolvimento e na manutenção dos sintomas”. Segundo Isabela, os sintomas mais comuns incluem dor abdominal recorrente, geralmente associada à evacuação, além de alterações no padrão intestinal, que podem se manifestar como diarreia, constipação ou alternância entre ambas. Muitos pacientes também relatam sensação de inchaço abdominal, excesso de gases e sensação de evacuação incompleta. “Esses sinais podem variar em intensidade e frequência, o que torna o quadro ainda mais heterogêneo”. “Essa variabilidade é justamente uma das marcas da doença, que não segue um padrão fixo. Há pacientes que passam semanas praticamente assintomáticos e, de repente, entram em crises intensas. A imprevisibilidade é um dos fatores que mais afetam a saúde mental dos indivíduos”, acrescenta. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na avaliação dos sintomas e na exclusão de outras doenças orgânicas que possam causar manifestações semelhantes, como doença inflamatória intestinal, intolerâncias alimentares ou infecções gastrointestinais. “Atualmente, são utilizados os critérios de Roma IV, que consideram a presença de dor abdominal recorrente associada a alterações na frequência ou na forma das fezes, por um período mínimo de tempo. Exames complementares podem ser solicitados para descartar outras condições, mas não existe um teste específico que confirme a síndrome”. Não há cura definitiva para a síndrome, mas existem diversas estratégias capazes de controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes. O tratamento costuma ser individualizado e pode incluir mudanças na alimentação, uso de medicamentos e acompanhamento psicológico. “Dietas com redução de alimentos fermentáveis têm mostrado bons resultados em muitos casos. Além disso, antiespasmódicos, laxantes, antidiarreicos e, em algumas situações, antidepressivos em doses baixas podem ser utilizados para modular a dor e o funcionamento intestinal”, destaca a nutricionista clínica Cristina Souza. Ela ressalta que o cuidado com o aspecto emocional é fundamental no manejo da doença. “Muitos pacientes subestimam o impacto do estresse no intestino. Hoje sabemos que existe uma comunicação direta entre o cérebro e o sistema gastrointestinal, chamada eixo cérebro-intestino. Isso significa que fatores emocionais podem desencadear ou agravar sintomas intestinais de forma clara”. A prevenção não é totalmente estabelecida, justamente por se tratar de uma condição de origem multifatorial e ainda não completamente compreendida. No entanto, hábitos saudáveis podem reduzir a frequência e a intensidade das crises. “Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, boa qualidade do sono e controle do estresse são fatores considerados protetores. Evitar o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, cafeína e bebidas alcoólicas também pode contribuir para a redução dos sintomas em pessoas predispostas”, destaca a nutricionista. Apesar dos desafios, o prognóstico da doença é geralmente favorável quando há diagnóstico adequado e acompanhamento contínuo. A patologia tende a ser crônica, mas não evolui para condições mais graves como câncer ou insuficiência intestinal. O foco do tratamento está na adaptação do paciente à condição e no controle dos sintomas ao longo do tempo, permitindo uma vida funcional e ativa.
Minas debate sobre os direitos da natureza e impactos da mineração

Iniciativas em municípios e regiões de Minas Gerais já deram origem a normas que reconhecem a natureza como detentora de direitos. Contudo, a forte presença da atividade mineradora no Estado representa um dos principais obstáculos à efetiva proteção ambiental, como foi destacado em audiência pública realizada no contexto do Dia Internacional da Mãe Terra, data criada pela ONU em 2009 e comemorada todos os anos em 22 de abril. Promovida pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a reunião também foi motivada pelo III Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza, que ocorrerá a partir de 31 de julho nas cidades de Ouro Preto e Mariana. O evento reunirá povos indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais, universidades, representantes do poder público e a sociedade civil para debater o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos. A discussão foi requerida pelas deputadas Beatriz Cerqueira e Leninha, ambas do PT. Leninha, que ocupa a 1ª vice-presidência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), destacou a relevância do tema para um Estado marcado por desigualdades sociais e ambientais e afetado pelos impactos da mineração. “Minas Gerais é importante para o Brasil e para esse tema, porque guarda marcas profundas do modelo econômico e de atividades como a mineração. Uma realidade que se intensifica com a desertificação, o empobrecimento do solo e os extremos climáticos”. Ao chamar atenção para iniciativas que se opõem à preservação ambiental, Beatriz Cerqueira mencionou ainda o Projeto de Lei 3.991/22, de sua autoria. A proposta prevê a inclusão, nos conteúdos de educação ambiental, do estudo sobre os impactos do uso de agrotóxicos e ainda aguarda votação em segundo turno. Conforme expôs ela, “demorou quatro anos para o projeto ser levado ao Plenário, por força de setores como o industrial e agropecuário, contra pautas de proteção de territórios, águas e meio ambiente”. Representante do Ministério Público Federal, o procurador Helder Magno da Silva destacou que setores como o da mineração devem repensar sua relação com comunidades locais e povos originários, que tradicionalmente orientam suas práticas pelo cuidado e pelo respeito à Mãe Terra. “O próprio Ministério Público precisa repensar a prática antiga de fazer Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), que resultam no recebimento de recursos que também financiam a nossa instituição a partir da degradação e em um momento em que o licenciamento ambiental está capenga e prevalece a lógica do capitalismo. É como se a natureza continuasse a ser vendida”. De acordo com Silva, mecanismos de reparação por prejuízos, a exemplo dos acordos firmados após o rompimento da barragem de Fundão, da Vale, acabam transmitindo a ideia de que o dano pode ser compensado. “Os governos estaduais e federal, ávidos por recursos, acabam aceitando esses acordos e a lógica das empresas se sobrepõe aos direitos da natureza”. Três municípios do Norte de Minas, Porteirinha, Nova Porteirinha e Serranópolis de Minas, aprovaram leis que reconhecem os direitos do Rio Mosquito, fundamental para comunidades rurais da região, afetadas pela seca e por eventos climáticos extremos. As normas preveem, entre outras ações, a criação de um fundo para financiar a proteção do rio. Segundo Aldinei Dias Leão, do Centro de Referência em Direitos Humanos do Norte de Minas, a regulamentação já iniciou a formação de comitês responsáveis por acompanhar essas iniciativas. Bruna Medeiros Bolzani, advogada socioambiental do Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso, afirmou que o debate sobre os direitos da natureza exige uma transformação profunda de paradigmas. “É reconhecer que rios, florestas, biomas e ecossistemas possuem valores, independentemente de sua utilidade para os seres humanos”. Ivo Poletto, articulador nacional e integrante do Grupo Executivo do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental, defendeu que a preservação da natureza também passa pela superação de uma lógica colonial e capitalista de pensamento, a qual favorece uma exploração econômica prejudicial ao planeta. Por sua vez, a defensora pública Ana Cláudia Storch destacou, durante o debate, a importância de ir além dos marcos jurídicos atuais relacionados ao tema, especialmente para lidar com as emergências climáticas. “Nosso sistema jurídico não consegue absorver toda a complexidade que envolve esses limites da natureza”.
Governo propõe modelo cívico-militar nas escolas estaduais

O governador Mateus Simões (PSD) enviou, no início deste mês, à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) um projeto de lei para criar o Programa das Escolas Cívico-Militares (PECM) na rede estadual. Atualmente, nove unidades já funcionam neste modelo no Estado. O texto prevê a adesão voluntária, condicionada à aprovação da comunidade escolar em consulta pública. A finalidade do projeto, segundo o governo, é a promoção da educação integral, da disseminação da cultura da paz e da disciplina nas instituições escolares, sem interferência na autonomia pedagógica. Para analisar os impactos da proposta, o Edição do Brasil conversou com a professora e diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Angélica Consenza. O que caracteriza, na prática, uma escola cívico-militar dentro da rede pública? Uma escola cívico-militar é uma unidade pública em que a gestão é compartilhada entre educadores e militares. Os professores e diretores são responsáveis pela área pedagógica, e os militares da reserva, como policiais e bombeiros, atuam na gestão administrativa, financeira e disciplinar. Nesse primeiro momento, já há uma cisão, porque dentro de uma instituição, a equipe gestora também realiza o pedagógico. O modelo tem sido expandido em estados como Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Em Minas, a implementação enfrenta entraves jurídicos e resistência da comunidade escolar. Há, inclusive, decisões alternadas entre suspensão e autorização por parte do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) e do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Em que esse formato difere das instituições militares tradicionais, como o Colégio Tiradentes da Polícia Militar? O Colégio Tiradentes é gerido diretamente pela Polícia Militar, a gestão é integralmente militar, e é focado em dependentes dos militares, filhos e parentes. Já a escola cívico-militar está vinculada à Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE-MG) e atende a comunidade local com militares atuando na gestão administrativa e disciplinar, enquanto a direção pedagógica permanece com profissionais civis. Há evidências concretas de que escolas cívico-militares melhoram o desempenho dos alunos? Não. Apesar de a SEE-MG, em documentos oficiais, como o memorando nº 187/2025, sustentar que o programa tem se mostrado uma iniciativa promissora, integrando valores cívicos e disciplinares ao projeto pedagógico das escolas, dando destaque às implementações ocorridas em nove instituições que demonstram impactos positivos, não há evidências consistentes baseadas em pesquisa, avaliações nacionais e internacionais, que comprovem a eficácia desse modelo na melhoria da aprendizagem, ou até mesmo na redução de problemas como violência e evasão escolar. O modelo dialoga com as diretrizes da educação pública brasileira? Existem inúmeras denúncias de que as instituições que adotaram esse modelo têm restringido debates importantes para a sociedade na formação de crianças e jovens, como racismo, LGBTQIA+fobia, questões ambientais e direitos humanos. Apesar das escolas cívico-militares seguirem a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), elas estão distantes do currículo efetivamente praticado. Também há relatos de aumento na dificuldade de diálogo entre docentes e discentes, além de prejuízos à participação da comunidade escolar. Todas essas questões representam um grave retrocesso aos princípios da gestão democrática, como pluralismo de ideias pedagógicas, respeito à liberdade e valorização da tolerância, que estão previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Esse projeto possui força para resolver os problemas da educação pública em Minas Gerais? Não. É necessário reafirmar todas as políticas públicas estaduais, além do compromisso com a educação democrática, crítica e inclusiva, que está na nossa Constituição. Os padrões autoritários contradizem frontalmente essa concepção de formação cidadã e crítica que norteia os princípios basilares da legislação educacional e também da própria atuação das faculdades de educação e dos institutos formadores de professores das universidades de Minas Gerais e do Brasil como um todo.
Informalidade ainda atinge as trabalhadoras domésticas no Brasil

O trabalho doméstico no Brasil segue refletindo desigualdades históricas, mesmo após avanços legais recentes. Em 2025, o país registrou pouco mais de 1,3 milhão de vínculos formais na categoria, número considerado estável em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Apesar disso, a realidade da maioria dos trabalhadores ainda é marcada pela informalidade. Dos cerca de 5,57 milhões de profissionais do setor, a maior parte segue sem carteira assinada e sem acesso pleno a direitos trabalhistas e previdenciários. Para o presidente do Instituto Doméstica Legal, Mario Avelino, o problema é estrutural e envolve diferentes fatores. “São vários problemas. Um deles é a falta de estímulo ao empregador doméstico. Enquanto empresas têm incentivos, o empregador pessoa física não tem. Nós tivemos, por anos, a possibilidade de deduzir o INSS no Imposto de Renda, o que ajudava a reduzir custos. Hoje, esse benefício não existe mais, e estamos desde 2019 tentando retomar essa política, mas o projeto segue parado”, afirma. De acordo com Avelino, a ausência de políticas públicas eficazes contribui diretamente para a manutenção da informalidade. Ele também aponta que há uma desigualdade clara em relação a direitos básicos. “A doméstica até hoje não tem direito ao abono do PIS, que é garantido a praticamente todos os trabalhadores formais do país. Isso mostra que ainda não existe igualdade de direitos no emprego doméstico”. Além das questões econômicas, o perfil da categoria evidencia um problema social mais profundo. O trabalho doméstico é exercido majoritariamente por mulheres, em sua maioria negras. “Quando você analisa os dados, vê claramente o recorte racial e de gênero. No emprego informal, a grande maioria é de mulheres negras. Isso é reflexo de uma história de falta de oportunidades, de menor acesso à educação e de exclusão social. O racismo e a discriminação de gênero estão presentes no emprego doméstico”, revela Avelino. O impacto da informalidade na vida dessas trabalhadoras é direto e, muitas vezes, dramático. Sem registro em carteira, milhões de profissionais ficam desprotegidas em situações básicas. “Estamos falando de trabalhadoras que não têm direito a aposentadoria, auxílio-doença, salário- -maternidade. Muitas são chefes de família. Se elas adoecem ou morrem, os filhos ficam completamente desamparados. É um impacto total na vida dessas mulheres”, alerta o presidente do Instituto Doméstica Legal. Campanha por direitos Diante desse cenário, o Instituto Doméstica Legal lançou a campanha “Pacto pela Formalidade no Emprego Doméstico”, que busca pressionar o Congresso Nacional a destravar propostas consideradas essenciais para o setor. Avelino destaca que entre as pautas estão a inclusão da categoria no abono do PIS e a retomada da dedução do INSS patronal. “O que nós temos hoje são projetos importantes, com potencial de aumentar a formalização, mas que estão bloqueados há anos. Falta prioridade. Enquanto isso, milhões de trabalhadores continuam na informalidade, sem direitos”, afirma. Para Avelino, o debate sobre o trabalho doméstico também precisa ser inserido na discussão mais ampla sobre desigualdade no Brasil. “O emprego doméstico é um dos retratos mais claros do racismo estrutural no país. Quando você vê que a maioria das trabalhadoras informais são mulheres negras, fica evidente que não é uma questão pontual, mas estrutural. E isso precisa ser enfrentado com políticas públicas efetivas”, conclui.
Teste do pezinho reforça prevenção e reduz risco de sequelas

A ampliação do teste do pezinho em Minas Gerais tem consolidado o Estado como referência nacional na triagem neonatal, ao permitir o diagnóstico precoce de doenças raras ainda nos primeiros dias de vida. Atualmente, o exame já rastreia 64 enfermidades na rede pública e está disponível em todos os municípios mineiros. A triagem neonatal ampliada é considerada uma das principais ferramentas da medicina preventiva, com impacto direto na redução de sequelas e na qualidade de vida dos pacientes. O caso da pequena Luna, de Belo Horizonte, ilustra essa transformação. Diagnosticada precocemente com atrofia muscular espinhal (AME), ela iniciou o tratamento e hoje apresenta desenvolvimento dentro do esperado para a idade. A mãe, Tainá Bolzani, relembra o momento em que recebeu a notícia. “Eu estava com sete dias de pós-parto e fui informada de que minha filha tinha um problema de saúde. Quando fomos buscar informações, tudo o que aparecia era que ela teria uma expectativa de vida curta, que dependeria de aparelhos para respirar e se alimentar. Foi um choque muito grande”. O período até a confirmação médica foi de grande angústia para Tainá. “Foi o pior fim de semana da nossa vida, de muita insegurança, medo e questionamentos. A gente buscava respostas, mas só encontrava informações que nos assustavam ainda mais”. Segundo Tainá, o acolhimento da equipe de saúde foi determinante para mudar a perspectiva da família. “Na primeira consulta, a médica já tentou nos acalmar, explicou sobre os tratamentos e disse que, por termos descoberto tão cedo, nossa filha poderia ter uma vida normal, sem sequelas. Aquilo mudou a nossa forma de enxergar a situação”. Para o pediatra e neurologista André Vinícius Soares Barbosa, esse é justamente o principal ganho da triagem ampliada. “A inclusão de um número maior de doenças no exame permite identificar condições que ainda não apresentam sintomas ao nascimento. No caso da AME, o tempo é determinante: quanto mais cedo diagnosticamos e iniciamos o tratamento, melhores são os resultados motores e a qualidade de vida da criança”. Ele destaca que houve uma mudança concreta na evolução dos pacientes. “A intervenção precoce altera completamente o curso da doença. Hoje, muitas crianças conseguem atingir marcos motores compatíveis com o desenvolvimento típico, reduzindo a necessidade de internações, cirurgias e suporte contínuo, que antes eram comuns nesses casos”. Para além do impacto clínico, Barbosa ressalta que a ampliação do exame também traz benefícios para o sistema de saúde. “Quando diagnosticamos cedo, evitamos complicações graves e tratamentos mais complexos no futuro. Isso representa não apenas melhor qualidade de vida para o paciente, mas também uma alocação mais eficiente dos recursos públicos”. Mesmo com os avanços em Minas Gerais, o médico lembra que o acesso ainda não é uniforme no país. “Ainda enfrentamos desafios importantes, principalmente relacionados à infraestrutura e à desigualdade regional. A universalização da triagem neonatal ampliada exige investimento, organização da rede e compromisso com a equidade”. Hoje, ao acompanhar o desenvolvimento da filha, Tainá reforça a importância do exame. “O teste do pezinho ampliado foi o nosso maior aliado nessa corrida contra a doença. Começar o tratamento antes dos sintomas muda uma vida inteira. Se não fosse por isso, as sequelas seriam permanentes. Minha filha hoje é uma criança saudável”, finaliza.
Divisão entre católicos e evangélicos é maior que esquerda e direita

Para quem está chegando agora na política, a sugestão dos especialistas é voltar ao ano de 2009, quando uma aliança entre Aécio Neves (PSDB) e Fernando Pimentel (PT) permitiu a eleição de Marcio Lacerda à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Ao rememorar sobre o assunto, fica mais palatável digerir o debate do momento, indicando a possibilidade de uma aproximação entre o pré-candidato Rodrigo Pacheco (PSB) e o deputado Aécio, com o objetivo de caminharem juntos na peleja de 2026. Na última semana, voltou a circular, tanto em BH quanto em Brasília, indícios de entendimentos que seriam anunciados logo após o Dia das Mães, unindo os dois políticos mineiros de maneira pragmática, visto que Pacheco não tem certeza de ter o apoio incondicional da “esquerda” em seu palanque, caso efetivamente se poste como postulante ao Palácio Tiradentes. Neste sentido, é melhor tentar conquistar uma fatia do eleitorado que está à margem do viés ideológico entre direita e esquerda. Aécio Neves Amigos do tucano escondem haver conversações na direção de aceitar uma parceria com o grupo do senador Pacheco. Aliás, dizem que as duas vagas no Senado seriam demandadas por Aécio Neves e a petista Marília Campos, já em campanha. Neste arco de aproximações, ainda restaria o cargo de vice para o grupo majoritário desse projeto a negociar. Por enquanto, a presença constante do governador Mateus Simões (PSD) em diferentes regiões do Estado não assusta o grupo dos socialistas. Nas primeiras avaliações, esses eventos de cunho oficial ainda não se traduziram em intenções de votos, embora o contato direto do chefe do Executivo com as lideranças tende a fazer diferença em determinado momento. Quando a imprensa informou sobre a divisão do grupo bolsonarista em Minas, denominando o episódio de “racha da direita”, observadores e cientistas políticos atalharam: “esse debate ideológico foi criado a partir das redes sociais, mas isso não impede que a política em Minas seja feita à base de articulação com as lideranças, para conquistar os eleitores dos mais de 800 municípios mineiros”. Esses pensadores, conjuntamente com experientes jornalistas da crônica política, pontuam que o envolvimento do tema religioso entre evangélicos e católicos, pode representar uma divisão mais significativa do que o embate entre “direita e esquerda”.
900 mil ataques virtuais à imprensa foram registrados em 2025

Em 2025, o relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) registrou 66 casos de violência não letal contra cerca de 80 jornalistas e veículos. Apesar da queda nos números, a imprensa ainda sofre ataques, em média, a cada cinco dias. As agressões físicas lideraram as ocorrências, com 39% dos casos (26 registros), atingindo ao menos 35 profissionais, alta em relação ao ano anterior. Segundo a Abert, políticos e agentes públicos lideram as agressões, seguidos por torcedores de times de futebol. Os casos de intimidação somaram 10 registros, com aumento expressivo em relação a 2024. Já um estudo da Bites aponta cerca de 900 mil ataques virtuais à imprensa em 2025, média de 2,5 mil por dia, ou quase dois por minuto. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Lina Rocha. Qual é o impacto desse cenário de ataques virtuais e físicos na liberdade de imprensa e na cobertura jornalística no Brasil? A violência, seja física ou digital, tem um impacto muito grande na produção jornalística, visto que gera uma insegurança no profissional, que por temer os ataques, preferem não lidar com pautas que possam gerar essas reações. E nesse sentido, a liberdade de imprensa sofre um golpe, já que temas que devem ser abordados socialmente deixam de ter a cobertura e debate necessários para a manutenção do Estado de Direito. Existe relação entre polarização política e aumento da violência contra jornalistas? A polarização política tem intensificado a violência contra jornalistas, sobretudo em períodos eleitorais, quando disputas ideológicas alimentam perseguições. Dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), divulgados em 2025 sobre 2024, indicam que a violência política segue como principal causa desses ataques no Brasil. Nesse período, mais de 40% das agressões partiram de políticos, assessores ou apoiadores diretos, que lideram o ranking de agressores, seguidos por militantes e cidadãos comuns em contextos de engajamento político. Há indícios de que a cultura de hostilidade contra jornalistas esteja aumentando ou mudando de forma significativa nos últimos anos? De acordo com a Fenaj, a violência física contra os jornalistas caiu recentemente, enquanto que o assédio virtual se tornou o principal meio de perseguição, com crescimento de 35% de 2024 para 2025. Além disso, o assédio judicial tem se intensificado como forma de intimidação financeira e psicológica, levando à autocensura. Dados da Abraji indicam aumento de quase 20% nos processos contra jornalistas no mesmo período, afetando a autonomia da profissão. Qual é a importância de o profissional denunciar essas agressões? As agressões, sejam elas físicas ou verbais, ocorrendo de forma presencial ou no ambiente digital, não devem ser aceitas em nenhuma circunstância. A ausência de denúncias contribui para o agravamento e a repetição desses atos de violência. Por isso, é essencial que os casos sejam formalmente reportados, permitindo a devida apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, o que também ajuda a desestimular agressores e eventuais mandantes. Os ataques direcionados a jornalistas são inaceitáveis, e o Sindicato se mantém à disposição de toda a categoria para receber denúncias e adotar medidas que contribuam para coibir essas práticas. Como é a atuação do Sindicato referente a esses atos de violência? O Sindicato acompanha de perto a atuação dos profissionais da categoria, com o objetivo de receber denúncias e combater situações de abuso, tanto na defesa dos direitos trabalhistas quanto diante de atitudes hostis dirigidas aos trabalhadores. Nenhuma forma de desrespeito pode ser aceita, e a atuação da entidade segue justamente nesse sentido: mobilizar as empresas empregadoras para que garantam a proteção de seus profissionais, além de acionar os órgãos competentes para a apuração e responsabilização dos casos de agressão.
Ensino integral avança de meneira desigual entre os estados

O ensino integral avançou no Brasil e já atinge mais de um quarto dos alunos da rede pública, mas o crescimento ocorre de forma desigual entre os estados. Minas Gerais, por exemplo, ainda está abaixo da média nacional. Dados do Censo Escolar 2025 mostram que a participação dos estudantes na modalidade no país cresceu 10,7 pontos percentuais entre 2021 e 2025, passando de 15,1% para 25,8%. Com isso, o Brasil atingiu a meta prevista no Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024, que estabelecia ao menos 25% das matrículas na modalidade. O avanço foi puxado principalmente pelo ensino médio, onde o índice subiu de 16,7% em 2022 para 26,8% em 2025. Nos anos finais do ensino fundamental, a taxa chegou a 23,7%, enquanto nos anos iniciais ficou em 20,9%. Na pré-escola, o percentual é de 18,3%. Em Minas Gerais, no entanto, o avanço ocorre em ritmo mais lento. Segundo o Censo Escolar 2024, o percentual de matrículas em tempo integral passou de 15,2% em 2022 para 16,5% em 2024. Nas creches, o índice subiu de 59,4% para 61,6%, e na pré-escola, de 12,6% para 14,8%. No ensino fundamental, houve aumento de 8,8% para 12,7% nos anos iniciais e de 6,9% para 7,8% nos anos finais. Já no ensino médio, queda de 24,9% para 18,2%. A professora do ensino infantil, Ana Paula Soares, destaca que a escola em que atuou não possuía estrutura adequada para o atendimento de crianças em período integral. “O espaço físico era insuficiente e pouco adaptado às necessidades da rotina ampliada. De modo geral, a infraestrutura se mostrava precária para garantir o conforto e o bem-estar dos estudantes”. Ela pontua que esse regime amplia significativamente a carga de trabalho do professor. “Isso exige maior planejamento, organização e atenção contínua às crianças ao longo do dia. E é possível observar avanços importantes no desenvolvimento social e na autonomia dos estudantes. Porém, esses benefícios estão diretamente relacionados à qualidade das propostas pedagógicas e às condições oferecidas pela instituição”. “O ensino integral possui grande potencial, mas ainda enfrenta desafios para funcionar plenamente. A efetividade desse modelo depende de investimentos em estrutura, melhores condições de trabalho e entendimento das famílias que a escola é uma instituição de ensino, não rede de apoio”, finaliza. Desafios estruturais A especialista em Direito Civil e Digital e que já atuou como presidente da Comissão de Educação Digital da OAB/MG, Daniella Avelar, explica que o alcance da meta representa um avanço relevante, mas ainda não pode ser considerado uma mudança estrutural consolidada. “Houve expansão acelerada impulsionada por políticas públicas recentes e financiamento federal específico. Mas, a consolidação depende de continuidade orçamentária e formação docente adequada. Sem esses elementos permanentes, existe o risco de oscilações nos próximos anos”. Muitas redes avançaram em matrículas antes de concluir adaptações estruturais necessárias, observa Daniella. “Persistem desafios relacionados à infraestrutura física, formação continuada de professores, jornada docente compatível e financiamento estável. O país está em um momento de transição, mas com necessidade de consolidação qualitativa”. Daniella ressalta que a defasagem em Minas pode ser explicada por um conjunto de fatores. “O Estado possui uma rede extensa e territorialmente dispersa, o que aumenta os custos de adaptação das unidades. Além disso, muitas escolas ainda operam com estrutura pensada para turnos parciais, exigindo investimentos em espaços pedagógicos, alimentação e contratação de profissionais. Questões orçamentárias e prioridades administrativas também influenciam o ritmo de expansão”. Para garantir a sustentabilidade do modelo, a especialista aponta a necessidade de crescimento planejado. “Com planejamento pedagógico específico, valorização e reorganização da carreira docente e priorização de regiões com maior vulnerabilidade educacional”.
Minas Gerais tem baixa adesão de meninos à vacinação contra HPV

vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) ainda avança pouco para os meninos em Minas Gerais. Entre 2014 e 2022, apenas 9,96% dos adolescentes de 9 a 14 anos completaram o esquema vacinal no Estado, referente ao sistema de duas doses, conforme dados do Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação (Opesv), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Desde 2024, o Brasil adotou o esquema de dose única para meninas e meninos dessa faixa etária. Segundo o Ministério da Saúde, o HPV está associado ao câncer do colo do útero e a outros tumores, sendo possível prevenir a infecção por meio da vacinação gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa identificou cinco perfis distintos no Estado. Enquanto parte das cidades combina alta cobertura vacinal e melhores condições socioeconômicas, outras enfrentam baixa adesão associada à pobreza, acesso limitado à saúde e fragilidades na rede pública. Mesmo em áreas mais urbanizadas, persistem desafios, especialmente na vacinação do público masculino. O estudo mostra ainda que apenas 9,73% dos municípios mineiros atingiram a meta de cobertura vacinal (acima de 80%) para a primeira dose entre meninos. Entre as meninas, o índice chega a 77,49%. No geral, 37,51% das cidades alcançaram a meta para a primeira dose. A professora e coordenadora do estudo, Fernanda Penido, explica que a diferença de adesão entre adolescentes do sexo feminino e masculino pode estar relacionada a fatores culturais e à percepção de risco do vírus, tradicionalmente associado à saúde da mulher. “De modo geral, as meninas costumam se vacinar contra o HPV mais que os meninos, visto que campanhas voltadas ao público masculino ainda têm menor alcance, em razão da menor percepção de prioridade dessa vacina para eles”. Fernanda destaca também que os dados sinalizam desigualdades significativas na cobertura vacinal. Fatores como condições socioeconômicas, acesso à saúde, urbanização e à informação influenciam diretamente na adesão. “O processo de urbanização possibilita maior acessibilidade aos serviços de saúde, às informações sobre a importância da prevenção das infecções associadas ao HPV e os benefícios da vacinação, o que, consequentemente, reflete em maior cobertura vacinal”. HPV ainda é subestimado Para o infectologista da Unimed BH e presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Adelino Melo, o HPV é subestimado como um problema de saúde pública. “Talvez por não ter sintomas iniciais, ser uma infecção muitas vezes subclínica e latente, com complicações tardias. Também pelo fato de não saberem que o câncer de colo de útero, de cabeça ou pescoço estão diretamente ligados a esse vírus, e isso faz com que as pessoas não estejam tão atentas a essa infecção e ao rastreio e à prevenção necessária para combater esses eventos”. O HPV não é um problema só das mulheres, esclarece o infectologista. “Os homens têm papel essencial na transmissão entre as pessoas. Esses pacientes podem ter câncer relacionado à infecção, como de pênis, do canal anal, entre outros. E eles precisam estar sensibilizados para a importância do HPV, da sua saúde e do bem-estar dos que eles se relacionam”. Melo destaca que a vacina é a melhor forma de prevenção. “É a estratégia mais eficiente que temos de combate a essa infecção. O nosso principal desafio é aumentar os índices de vacinação. Também precisamos melhorar o acesso ao rastreamento, com métodos mais modernos de investigação”. “Vários tipos de HPV são combatidos e ficam transitoriamente conosco e depois o sistema imune consegue controlar e eliminar. Mas, com alguns deles isso não acontece, e os tratamentos não eliminam completamente o vírus, porém, ajuda o sistema imunológico a resolver aquela manifestação. Por essa razão que o rastreamento é tão importante, juntamente com a prevenção. Para que possa impedir que as pessoas adquiram o vírus e aqueles que adquiriram consigam enxergar quais têm mais risco, e quais já têm lesões iniciais que possam ser tratadas”, esclarece o especialista.