Assembleia debate redução de profissionais no Samu de BH

A redução do número de trabalhadores no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Belo Horizonte foi tema de debate na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Em audiência pública marcada por críticas e relatos de profissionais, parlamentares, gestores e representantes da sociedade civil apontaram riscos à assistência e possíveis violações ao direito fundamental à saúde. A presidente da Comissão e autora do requerimento, deputada Bella Gonçalves (PT), destacou que a medida impacta a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS). “Estamos falando de um serviço de urgência, que não pode esperar e não pode falhar. Quando se corta no Samu, compromete o atendimento e coloca vidas em risco”, afirmou. Para a parlamentar, a redução das equipes integra um processo mais amplo de “sucateamento” da rede de urgência e emergência. O vereador Bruno Pedralva (PT) também criticou a decisão da prefeitura. “A demissão não partiu de uma necessidade técnica, foi uma decisão política. Estão cortando justamente quem está na linha de frente, salvando vidas”, disse. Ele ainda ressaltou que a mudança na composição das equipes pode comprometer a qualidade do atendimento e aumentar o tempo de resposta. Representando o Conselho Estadual de Saúde, Erika de Oliveira Santos chamou atenção para a realidade enfrentada pelos profissionais. “A gente não quer discutir números frios, mas a realidade. O que está acontecendo é que o mínimo necessário para garantir um atendimento seguro não está sendo assegurado, o que dificulta o atendimento em ocorrências mais graves”. A diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde), Núbia Roberta Dias, também alertou para os impactos da medida, podendo gerar efeitos em toda a rede de saúde. “Estamos falando de um serviço que atua no limite entre a vida e a morte. Reduzir equipes aumenta o risco e piora o tempo-resposta. Não há justificativa para isso”. Pela gestão municipal, o gerente do Samu de Belo Horizonte, Bruno Maia de Resende, reconheceu a grande complexidade do cenário e a alta demanda do serviço. “É um desafio enorme conduzir um sistema dessa magnitude. As decisões passam por critérios técnicos, especialmente na regulação, que define o tipo de atendimento e o envio das equipes”. Já a diretora da Diretoria de Atenção às Urgências e Emergências da Secretaria Municipal de Saúde, Renata Mourão Alves, destacou a importância do debate. “Essa é uma discussão necessária para aprimorar o serviço e garantir que a população continue sendo atendida”. Durante a audiência, trabalhadores e conselheiros também relataram que a redução de profissionais pode afetar não apenas o atendimento de urgência, mas toda a rede assistencial, incluindo Unidades Básicas de Saúde e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Houve ainda críticas à priorização orçamentária do município, considerada incompatível com a necessidade de investimentos em saúde. Como encaminhamento, Bella Gonçalves informou que os apontamentos serão levados ao Judiciário, que analisa uma ação sobre as demissões. “Não podemos aceitar retrocessos. O Estado tem o dever de garantir atendimento universal e contínuo, e isso passa pela valorização dos trabalhadores e pela manutenção das equipes completas”, concluiu.

Projeto abre portas para participação de mulheres no segmento da tecnologia

Em um mercado cada vez mais estratégico para empresas, governos e cidadãos, a participação feminina ainda está longe do ideal. No Brasil, as mulheres representam apenas 17% da força de trabalho em cibersegurança. Para enfrentar essa desigualdade e incentivar novas trajetórias profissionais, o projeto Mulheres de Exatas em Cibersegurança (METIS), idealizado por professoras do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha com meninas de escolas públicas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana. Coordenada pela pesquisadora Michele Nogueira, a iniciativa atende 35 alunas de sete escolas públicas, do ensino fundamental ao médio em Belo Horizonte e Região Metropolitana. O foco está na formação prática em cibersegurança, mentorias, criação de rede de contatos e aproximação com o mercado de trabalho. Segundo Michele, o afastamento feminino dessas áreas está ligado a fatores históricos e culturais que ainda persistem no país. “As meninas e mulheres ainda enfrentam preconceito em relação à sua capacidade. Existe uma mentalidade muito mais masculina quando se fala de força de trabalho, e isso não é algo específico da tecnologia. Mas, nessa área, os preconceitos acabam afastando as meninas”. Ela ressalta que o desafio não se resume ao acesso à formação técnica, mas também à forma como mulheres são vistas e se posicionam profissionalmente. “Esses preconceitos não vêm só dos homens. Também aparecem na mentalidade feminina, na maneira como muitas mulheres pensam e se colocam no mercado de trabalho”. A experiência pessoal da pesquisadora em ambientes predominantemente masculinos ajudou a moldar o projeto. Para Michele, muitas ferramentas que hoje são parte do METIS fizeram falta em sua própria trajetória. “Muito da concepção metodológica e dos objetivos do projeto veio do que nós sentimos ausência no nosso processo de formação. Um programa de mentoria que pudesse orientar, indicar caminhos e apoiar em situações difíceis teria ajudado. Não tivemos isso, e hoje buscamos oferecer às meninas exatamente esse suporte”. O projeto ainda está em fase inicial, com pouco mais de um ano de atividade, e por isso, os resultados de longo prazo ainda estão em construção. Mesmo assim, a expectativa é de impacto crescente nos próximos anos, tanto na escolha profissional das participantes quanto na permanência delas em cursos e carreiras ligadas à tecnologia. Além das estudantes diretamente atendidas, a pesquisadora destaca um efeito multiplicador dentro das famílias e comunidades. “Estamos formando sementinhas de futuras profissionais. Essa conscientização chega também às famílias, aos amigos e ao entorno dessas meninas. Isso pode despertar o interesse de outras pessoas e fortalecer a competitividade e a soberania digital do país”. Parcerias Outro diferencial do METIS é a integração com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial para Cibersegurança (INCT-IACiber), sediado na UFMG. A conexão permite mais contato com pesquisadores, empresas e lideranças do setor. Para Michele, ampliar a presença feminina exige também políticas públicas voltadas ao ingresso e à permanência dessas profissionais. “Esperar apenas a mudança natural de comportamento levaria muito mais tempo. As políticas públicas podem acelerar esse processo de inserção e permanência das mulheres na tecnologia e na cibersegurança”, conclui.

Mesada pode ensinar educação financeira desde a infância

Em um país onde guardar dinheiro ainda é desafio para grande parte da população, especialistas defendem que a educação financeira precisa começar na infância. E uma ferramenta simples, comum em muitas famílias, pode fazer diferença nesse processo: a mesada. Dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que mais da metade dos brasileiros não possui reserva financeira ou tem recursos suficientes para se manter por apenas um mês. E 31% da população não têm nenhum valor guardado, enquanto 20% contam com uma reserva limitada a até 30 dias. Para a especialista em comportamento financeiro, Ana Leoni, esse cenário está ligado à ausência de aprendizado prático sobre dinheiro ao longo da vida. “A dificuldade de formar reserva não começa na vida adulta. Muitas vezes, ela é reflexo de hábitos que não foram desenvolvidos na infância”. Nesse contexto, a mesada pode funcionar como um primeiro contato da criança com noções de planejamento, organização e responsabilidade financeira. Mais do que entregar uma quantia periódica, a proposta é usar esse recurso como ferramenta educativa. Segundo Ana, ao administrar o próprio dinheiro, a criança aprende a fazer escolhas, lidar com limites e entender que nem todo desejo pode ser atendido de imediato. “A mesada precisa vir acompanhada de orientação. Ela é uma oportunidade para ensinar autonomia e mostrar consequências das decisões”. De acordo com a especialista, o ideal é que o valor seja compatível com a realidade da família e que exista regularidade no pagamento, para que a criança consiga se planejar. Também é recomendável estimular a divisão do dinheiro em três partes: gastar, guardar e doar. Outra estratégia importante é criar metas simples. Juntar para comprar um brinquedo, um livro ou outro item desejado ajuda a desenvolver paciência e disciplina, além de mostrar na prática como funciona o hábito de poupar. Mais pessoas economizaram Os dados da Anbima revelam que apenas 33% dos brasileiros conseguiram guardar algum dinheiro em 2025, índice superior aos 27% registrados em 2021. Entre quem conseguiu guardar recursos, a principal medida adotada foi reduzir gastos, especialmente com lazer. Na avaliação de Ana, isso mostra que a reserva financeira não depende apenas de renda alta, mas principalmente de comportamento. “A reserva não é construída só quando sobra dinheiro. Nasce quando a pessoa cria o hábito de separar uma parte do que recebe, mesmo que seja pouco”. Ela lembra que antes de falar sobre investimentos mais sofisticados, como fundos ou títulos privados, é necessário consolidar a cultura de poupar. Sem esse passo inicial, qualquer estratégia financeira tende a perder força no longo prazo. “O exemplo dos pais também conta. Crianças observam hábitos cotidianos e aprendem com atitudes simples, como planejamento de compras, controle de despesas e conversas transparentes sobre consumo”, destaca. Quando esse aprendizado começa cedo, aumentam as chances de formar adultos mais preparados para lidar com imprevistos, realizar objetivos e manter uma relação equilibrada com o dinheiro. “Educação financeira é educação para a vida. Ensinar uma criança a guardar dinheiro é ensinar sobre escolhas, planejamento e tranquilidade no futuro”, conclui Ana.

Lei da Escuta Protegida ainda enfrenta desigualdades no Brasil

Sancionada em 2017, a Lei nº 13.431, conhecida como Lei da Escuta Protegida, instituiu no Brasil um novo modelo de atendimento voltado a crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. A norma criou mecanismos para evitar a revitimização – situação em que a vítima precisa repetir diversas vezes relatos traumáticos em ambientes inadequados – e estabeleceu procedimentos específicos, como a escuta especializada e o depoimento especial. A legislação também determinou a atuação articulada entre os setores de saúde, assistência social, educação, segurança pública e Justiça, com foco na proteção integral, no acolhimento humanizado e na responsabilização dos agressores. Nove anos depois, a lei é considerada um marco na defesa da infância, embora ainda enfrente obstáculos para sua plena implementação em todo o país. Em entrevista ao Edição do Brasil, o superintendente de Advocacy da Childhood Brasil, Itamar Gonçalves, analisa os avanços e os desafios desse processo. Nove anos após a sanção da lei, o Brasil conseguiu incorporar o princípio de evitar a revitimização? Houve um avanço real no campo normativo e também na conscientização. Hoje existe maior entendimento sobre os efeitos perversos da revitimização, que é uma forma de violência institucional. Profissionais da saúde, educação, assistência social, segurança pública e Justiça passaram a reconhecer a importância de métodos mais adequados. Mas, na prática, ainda enfrentamos limitações estruturais importantes. Quais avanços mais concretos podem ser destacados nesse período? Um dos principais indicadores é o crescimento das salas de depoimento especial. Saímos de apenas duas salas em 2003 para mais de 1.800 em 2025. Também houve criação de comitês de gestão colegiada e maior mobilização social em torno da proteção da infância. Por que a implementação segue desigual entre as regiões do país? Principalmente por falta de infraestrutura adequada e ausência de equipes capacitadas. Em muitas comarcas, especialmente no Norte e Nordeste, ainda faltam espaços apropriados e profissionais treinados no Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense. Isso revela que o país ainda precisa de investimento contínuo e coordenação federativa efetiva. A integração entre os órgãos que compõem a rede de proteção ainda é um desafio para que a lei funcione de forma plena e articulada? Sem dúvida. A lei pressupõe fluxos e protocolos unificados entre conselhos tutelares, escolas, saúde, delegacias e Justiça. Porém, a maioria dos crimes contra crianças e adolescentes ainda é investigada por delegacias comuns, muitas vezes sem preparo técnico para lidar com vítimas dessa faixa etária. Sem rede integrada, a eficácia da lei fica comprometida. Além da desigualdade regional e da falta de integração, que outros gargalos ainda preocupam na aplicação da lei? Falta estrutura pericial em muitos municípios, faltam protocolos nos Institutos Médico-Legais e a coleta de vestígios pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não se tornou realidade em todo o país. Além disso, muitas vítimas são ouvidas muito tempo depois do fato ocorrido, o que prolonga o sofrimento das famílias. O que precisa ser prioridade daqui para frente para que a legislação avance de forma efetiva em todo o país? Precisamos fortalecer o Pacto Nacional pela Implementação da Lei da Escuta Protegida e ampliar os esforços de estados e municípios. Mais do que reconhecer avanços, é necessário universalizar essas práticas, com compromisso institucional, monitoramento e investimento contínuo. A violência contra crianças e adolescentes é prevenível e pode ser enfrentada por uma rede verdadeiramente integrada e humanizada.

Comissão técnica: fator decisivo nos esportes

O que define uma vitória no esporte de alto rendimento nem sempre está restrito ao que o torcedor vê em quadra. No vôlei, modalidade marcada por intensidade e decisões rápidas, existe um “segundo jogo” acontecendo paralelamente e, muitas vezes, ele é determinante para o resultado final. Trata-se da atuação da comissão técnica, responsável por interpretar, ajustar e redefinir estratégias em tempo real. Antes mesmo do apito inicial, equipes entram em quadra com um plano de jogo estruturado. No entanto, a dinâmica da partida impõe variáveis imprevisíveis. É nesse contexto que a comissão técnica ganha protagonismo. “Os times têm planos táticos definidos quando vão para a partida e durante a partida são feitos ajustes, porque na verdade cada jogo tem a sua história, e em função do que está acontecendo no jogo, se muda a estratégia”, explica o auxiliar técnico da Seleção Brasileira Feminina de Vôlei, Paulo Coco. Ele aponta que essas mudanças nem sempre são perceptíveis para o público. Alterações no direcionamento do saque, reposicionamento de bloqueio ou até substituições pontuais fazem parte desse processo contínuo de leitura. “Se muda, por exemplo, no vôlei o direcionamento do saque, se muda a estratégia de bloqueio, então existe isso que a gente considera como segundo jogo nas estratégias que são decisivas”, completa. O limite entre manter o planejamento inicial e promover mudanças depende diretamente do desempenho da equipe em quadra. O auxiliar técnico revela que quando o plano funciona, a tendência é mantê-lo. Caso contrário, ajustes se tornam inevitáveis. “Se você, dentro do seu planejamento de jogo, as coisas estão funcionando bem e está levando vantagem sobre seu adversário, não requer mudança. Mas quando isso não acontece, é obrigado a fazer ajustes”. A tomada de decisão, porém, não é baseada apenas na intuição. Ele afirma que indicadores objetivos, como desempenho individual e coletivo, orientam a comissão técnica. “O resultado e a performance da sua equipe fazem com que nós tenhamos que intervir, seja mudando alguma estratégia ou posicionamento, e até substituindo aquele jogador”. Segundo ele, o conhecimento aprofundado das atletas também pesa nesse processo, já que algumas conseguem se recuperar ao longo da partida. Em competições de alto nível, como as disputadas pela Seleção Brasileira, a atuação da comissão técnica vai além das decisões táticas. A integração entre os profissionais é vista como peça-chave para o sucesso. “A comissão técnica hoje é multidisciplinar, e isso faz com que as atletas consigam desempenhar a mais alta performance”, finaliza Paulo Coco.

Exposição Eco ALA transforma natureza em arte na Pampulha

Quem passar pelo Parque Ecológico Francisco Lins do Rego, na Pampulha, tem até o dia 18 de junho para visitar a exposição “Eco ALA – Conexões Poéticas com a Natureza”, do Coletivo ALA – Arte Livre Ambulante. Com entrada gratuita, a mostra ocupa o espaço com obras que transformam elementos naturais em experiências artísticas e sensoriais, propondo um novo olhar sobre a biodiversidade urbana. A exposição reúne esculturas, gravuras, desenhos e instalações produzidas a partir de materiais coletados em parques de Belo Horizonte, como folhas, sementes, galhos e terra. A iniciativa amplia a pesquisa desenvolvida no projeto “ALA – Pelos Parques da Cidade”, que aproximou arte e meio ambiente em diferentes áreas verdes da capital. “Percebemos que havia algo potente para explorar nos elementos da natureza e sua relação com a biodiversidade dos biomas de Minas”, afirma o artista Pierre Fonseca. Mais do que matéria-prima, os elementos naturais carregam significado e orientam o processo criativo. Segundo o artista Antônio Salgado, a coleta segue princípios que vão além da estética. “Buscamos a diversidade nas formas, cores e texturas, mas sempre respeitando o território. Trabalhamos com materiais já ‘descartados’, entendendo que não existe um ‘jogar fora’ na natureza”. A proposta da mostra é envolver o público não apenas como espectador, mas como parte ativa da experiência. Durante a visita, é possível interagir com as obras e participar de atividades na estação educativa, com experimentações artísticas a partir de materiais naturais. “O visitante também é criador. Queremos provocar esse olhar curioso, em que cada pessoa descobre novas formas e sentidos na natureza”, destaca Salgado. Essa interação está diretamente ligada ao caráter educativo do coletivo, formado por artistas que também atuam como arte- -educadores. Salgado explica que a exposição conta com mediação e oficinas abertas ao público, reforçando a ideia de uma arte acessível e compartilhada. “Nossas ações estão na fronteira entre arte e educação, sempre buscando envolver as pessoas de forma sensível e participativa”. A diversidade de técnicas utilizadas como frotagem, impressão com elementos naturais e pintura com pigmentos de terra, contribui para uma estética que valoriza a matéria bruta e suas possibilidades poéticas. O artista afirma que as obras transitam entre o real e o imaginário, com referências a seres híbridos, memórias coletivas e elementos de espiritualidade. “Queremos evidenciar a riqueza da natureza e estimular um sonho coletivo de convivência mais harmônica”. Em meio ao cotidiano urbano, a exposição propõe uma mudança de perspectiva sobre o meio ambiente. Mais do que preservar, o coletivo sugere uma relação mais profunda com a natureza. “Ao observarmos os detalhes, ampliamos nosso olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos, entendendo que fazemos parte desse sistema vivo”, conclui Salgado. Serviço: “Eco ALA – Conexões Poéticas com a Natureza” Período: até 18 de junhoHorário: terça a domingo, das 8h às 17hLocal: Parque Ecológico Francisco Lins do RegoEndereço: Av. Otacílio Negrão de Lima, 6.061 e 7.111 – Pampulha Entrada gratuita

Indústria de materiais de construção prevê alta de quase 2%

A indústria de materiais de construção projeta um crescimento moderado de 1,9% em 2026, em um cenário marcado por incertezas econômicas e desafios no acesso ao crédito. A estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) se apoia, principalmente, na expectativa de melhora ao longo do segundo semestre e na continuidade de programas habitacionais. Segundo o presidente-executivo da entidade, Paulo Engler, mesmo diante de um início de ano mais complexo, a perspectiva é de avanço gradual. “Acreditamos que o segundo semestre vai ser bom, então mantemos a projeção de crescimento de 1,9% para 2026”. Na avaliação de Engler, os fatores que sustentam essa expectativa está o desempenho de iniciativas como o “Minha Casa, Minha Vida” e o Reforma Casa Brasil. “Há uma perspectiva de um milhão de moradias em 2026, o que, se acontecer, será ótimo para a indústria”. “Sobre o Reforma Casa Brasil, é um programa bem elaborado, mas a limitação de acesso ao crédito pela população de baixa renda tem restringido a liberação de recursos. Caso isso seja superado, o setor será afetado positivamente”, acrescenta. Apesar dessas apostas, o cenário segue desafiador. Segundo Engler, a taxa de juros elevada e o alto nível de endividamento das famílias continuam sendo obstáculos importantes. “A taxa continua muito alta, em 14,75%, o que dificulta o acesso ao crédito. Além disso, cerca de 80% das famílias com renda até R$ 3.300 estão endividadas, o que limita o consumo”. O presidente da Abramat lembra ainda que o ambiente internacional também adiciona pressão. “Esse conflito no Oriente Médio tem impactado os custos de insumos. Os preços, principalmente de combustível, têm afetado fortemente o valor final dos materiais de construção. Já houve repasses, e essa situação ainda é imprevisível”, afirma. Dentro desse contexto, a trajetória dos juros será determinante. “Se houver uma queda mais acelerada, teremos melhores condições de financiamento. Caso contrário, a tendência é de manutenção do cenário atual, o que pode afetar a nossa projeção”, afirma Engler. Crescimento em março Após esse pano de fundo, os dados mais recentes da Abramat indicam um início de recuperação. Em março, a indústria voltou a crescer após nove meses de retração na comparação anual. O faturamento avançou 3,1% em relação a fevereiro, com ajuste sazonal, e 1,6% frente ao mesmo mês de 2025. Apesar do avanço pontual, os indicadores acumulados ainda mostram fragilidade: queda de 4% no ano e de 3,3% em 12 meses. Mesmo assim, o dirigente evita tratar o resultado como uma mudança consolidada de tendência. “Janeiro, fevereiro e março vieram com um resultado interessante. Imaginávamos que, mantendo essa constância, conseguiríamos ter uma mudança de cenário. Porém, a guerra no Oriente Médio mudou muita coisa”. O desempenho do mês foi puxado pelos materiais básicos, que cresceram mais que os de acabamento, comportamento que reflete a realidade das famílias. “A venda de material básico mantém uma constância, porque envolve obras essenciais. Já o acabamento depende mais de financiamento, e as famílias estão muito endividadas e com juros altos”, conclui Engler.

Informalidade ainda atinge as trabalhadoras domésticas no Brasil

O trabalho doméstico no Brasil segue refletindo desigualdades históricas, mesmo após avanços legais recentes. Em 2025, o país registrou pouco mais de 1,3 milhão de vínculos formais na categoria, número considerado estável em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Apesar disso, a realidade da maioria dos trabalhadores ainda é marcada pela informalidade. Dos cerca de 5,57 milhões de profissionais do setor, a maior parte segue sem carteira assinada e sem acesso pleno a direitos trabalhistas e previdenciários. Para o presidente do Instituto Doméstica Legal, Mario Avelino, o problema é estrutural e envolve diferentes fatores. “São vários problemas. Um deles é a falta de estímulo ao empregador doméstico. Enquanto empresas têm incentivos, o empregador pessoa física não tem. Nós tivemos, por anos, a possibilidade de deduzir o INSS no Imposto de Renda, o que ajudava a reduzir custos. Hoje, esse benefício não existe mais, e estamos desde 2019 tentando retomar essa política, mas o projeto segue parado”, afirma. De acordo com Avelino, a ausência de políticas públicas eficazes contribui diretamente para a manutenção da informalidade. Ele também aponta que há uma desigualdade clara em relação a direitos básicos. “A doméstica até hoje não tem direito ao abono do PIS, que é garantido a praticamente todos os trabalhadores formais do país. Isso mostra que ainda não existe igualdade de direitos no emprego doméstico”. Além das questões econômicas, o perfil da categoria evidencia um problema social mais profundo. O trabalho doméstico é exercido majoritariamente por mulheres, em sua maioria negras. “Quando você analisa os dados, vê claramente o recorte racial e de gênero. No emprego informal, a grande maioria é de mulheres negras. Isso é reflexo de uma história de falta de oportunidades, de menor acesso à educação e de exclusão social. O racismo e a discriminação de gênero estão presentes no emprego doméstico”, revela Avelino. O impacto da informalidade na vida dessas trabalhadoras é direto e, muitas vezes, dramático. Sem registro em carteira, milhões de profissionais ficam desprotegidas em situações básicas. “Estamos falando de trabalhadoras que não têm direito a aposentadoria, auxílio-doença, salário- -maternidade. Muitas são chefes de família. Se elas adoecem ou morrem, os filhos ficam completamente desamparados. É um impacto total na vida dessas mulheres”, alerta o presidente do Instituto Doméstica Legal. Campanha por direitos Diante desse cenário, o Instituto Doméstica Legal lançou a campanha “Pacto pela Formalidade no Emprego Doméstico”, que busca pressionar o Congresso Nacional a destravar propostas consideradas essenciais para o setor. Avelino destaca que entre as pautas estão a inclusão da categoria no abono do PIS e a retomada da dedução do INSS patronal. “O que nós temos hoje são projetos importantes, com potencial de aumentar a formalização, mas que estão bloqueados há anos. Falta prioridade. Enquanto isso, milhões de trabalhadores continuam na informalidade, sem direitos”, afirma. Para Avelino, o debate sobre o trabalho doméstico também precisa ser inserido na discussão mais ampla sobre desigualdade no Brasil. “O emprego doméstico é um dos retratos mais claros do racismo estrutural no país. Quando você vê que a maioria das trabalhadoras informais são mulheres negras, fica evidente que não é uma questão pontual, mas estrutural. E isso precisa ser enfrentado com políticas públicas efetivas”, conclui.

Teste do pezinho reforça prevenção e reduz risco de sequelas

A ampliação do teste do pezinho em Minas Gerais tem consolidado o Estado como referência nacional na triagem neonatal, ao permitir o diagnóstico precoce de doenças raras ainda nos primeiros dias de vida. Atualmente, o exame já rastreia 64 enfermidades na rede pública e está disponível em todos os municípios mineiros. A triagem neonatal ampliada é considerada uma das principais ferramentas da medicina preventiva, com impacto direto na redução de sequelas e na qualidade de vida dos pacientes. O caso da pequena Luna, de Belo Horizonte, ilustra essa transformação. Diagnosticada precocemente com atrofia muscular espinhal (AME), ela iniciou o tratamento e hoje apresenta desenvolvimento dentro do esperado para a idade. A mãe, Tainá Bolzani, relembra o momento em que recebeu a notícia. “Eu estava com sete dias de pós-parto e fui informada de que minha filha tinha um problema de saúde. Quando fomos buscar informações, tudo o que aparecia era que ela teria uma expectativa de vida curta, que dependeria de aparelhos para respirar e se alimentar. Foi um choque muito grande”. O período até a confirmação médica foi de grande angústia para Tainá. “Foi o pior fim de semana da nossa vida, de muita insegurança, medo e questionamentos. A gente buscava respostas, mas só encontrava informações que nos assustavam ainda mais”. Segundo Tainá, o acolhimento da equipe de saúde foi determinante para mudar a perspectiva da família. “Na primeira consulta, a médica já tentou nos acalmar, explicou sobre os tratamentos e disse que, por termos descoberto tão cedo, nossa filha poderia ter uma vida normal, sem sequelas. Aquilo mudou a nossa forma de enxergar a situação”. Para o pediatra e neurologista André Vinícius Soares Barbosa, esse é justamente o principal ganho da triagem ampliada. “A inclusão de um número maior de doenças no exame permite identificar condições que ainda não apresentam sintomas ao nascimento. No caso da AME, o tempo é determinante: quanto mais cedo diagnosticamos e iniciamos o tratamento, melhores são os resultados motores e a qualidade de vida da criança”. Ele destaca que houve uma mudança concreta na evolução dos pacientes. “A intervenção precoce altera completamente o curso da doença. Hoje, muitas crianças conseguem atingir marcos motores compatíveis com o desenvolvimento típico, reduzindo a necessidade de internações, cirurgias e suporte contínuo, que antes eram comuns nesses casos”. Para além do impacto clínico, Barbosa ressalta que a ampliação do exame também traz benefícios para o sistema de saúde. “Quando diagnosticamos cedo, evitamos complicações graves e tratamentos mais complexos no futuro. Isso representa não apenas melhor qualidade de vida para o paciente, mas também uma alocação mais eficiente dos recursos públicos”. Mesmo com os avanços em Minas Gerais, o médico lembra que o acesso ainda não é uniforme no país. “Ainda enfrentamos desafios importantes, principalmente relacionados à infraestrutura e à desigualdade regional. A universalização da triagem neonatal ampliada exige investimento, organização da rede e compromisso com a equidade”. Hoje, ao acompanhar o desenvolvimento da filha, Tainá reforça a importância do exame. “O teste do pezinho ampliado foi o nosso maior aliado nessa corrida contra a doença. Começar o tratamento antes dos sintomas muda uma vida inteira. Se não fosse por isso, as sequelas seriam permanentes. Minha filha hoje é uma criança saudável”, finaliza.

Direito à moradia digna mobiliza audiência na Assembleia Legislativa

A Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), realizou audiência pública para debater a moradia digna como direito humano, à luz da Campanha da Fraternidade 2026, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cujo tema desse ano é “Fraternidade e Moradia”. O encontro reuniu parlamentares, representantes do governo, movimentos sociais e lideranças religiosas, que destacaram a urgência de políticas estruturantes para o enfrentamento do déficit habitacional. O deputado federal Padre João (PT) criticou a contradição entre discurso e prática no país. “Porque alguns vêm falar que estão na defesa da família, mas negam a política de moradia, negam a educação, negam a assistência, negam a saúde e a vacina. Então é disso que nós estamos falando: do cuidado com os pobres. Se fizermos as contas, o valor que uma pessoa paga de aluguel, somado ao da Farmácia Popular e ao do Bolsa Família, representa uma economia mensal de mais de R$ 2 mil para a família”. No campo religioso, o vigário episcopal para Ação Social, Política e Ambiental da Arquidiocese de Belo Horizonte, padre Roberto Rubens da Silva, destacou a dimensão social e espiritual da crise habitacional. “A falta de um teto digno não é apenas uma carência material, mas expressão concreta da exclusão social que nega dignidade a filhos e filhas de Deus. Moradia digna é um direito humano fundamental. Não encontramos qualquer tipo de justificativa social ou moral para aceitar a carência de habitação. São situações injustas, mas sabemos que Deus está a sofrê-las juntamente conosco”. Representando os movimentos sociais, a coordenadora da União Nacional por Moradia Popular, Evaniza Lopes Rodrigues, reforçou a urgência do problema e criticou a lógica de mercado. “A questão da moradia é urgente, uma tragédia urbana que se abate sobre o nosso povo. Se é um direito, não podemos mais tratar a moradia como mercadoria. Ela não pode visar lucro, deve priorizar o bem-estar comum”. O secretário nacional de Habitação, Augusto Henrique Alves Rabelo, apresentou dados da política habitacional federal e destacou a retomada do programa “Minha Casa, Minha Vida”. “Nós chegamos a 2 milhões e 270 mil unidades habitacionais contratadas, e a nossa meta é atingir 3 milhões até 2026 no país. Em Minas, já foram destinados cerca de R$ 27 bilhões”. Já a superintendente do Patrimônio da União em Minas Gerais, Lorhany Ramos de Almeida, ressaltou a mudança na destinação de imóveis públicos. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: precisamos utilizar os imóveis da União que estão ociosos para fazer política pública. Não se trata de comércio, mas de atender a população”. Na esfera estadual, o vice-presidente da Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais (Cohab), Bernardino Soares de Oliveira Cunha, destacou a necessidade de avançar também na regularização fundiária. “Precisamos tratar da regularização fundiária, que é um problema que atinge cerca de 3 milhões de pessoas somente em Minas Gerais”. A audiência reforçou que garantir moradia digna vai além da construção de unidades habitacionais, envolvendo acesso a direitos, planejamento urbano e compromisso social diante das desigualdades.