Livro “A Dança da Serpente” revisita repressões históricas do Brasil

O jornalista e psicanalista Paulo Stucchi lança em março o romance histórico “A Dança da Serpente”, pela Editora Jangada. Ambientado em Sabará, o livro cruza duas épocas marcadas por repressão. O Brasil colonial do século 18 e a Ditadura Militar em 1977, para discutir intolerância, espiritualidade e perseguição a mulheres. A obra recupera a trajetória real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, ligada aos rituais de calundu e condenada pela Inquisição Portuguesa. Em paralelo, apresenta as gêmeas Cléo e Clarice, que enfrentam, em plena década de 1970, os conflitos de uma herança espiritual que desafia normas sociais e políticas. Ao explicar a estrutura narrativa, Stucchi destaca o paralelo histórico. “Acredito que sejam dois momentos de forte repressão, em épocas diferentes e por contextos distintos: um, de viés político, no Regime Militar brasileiro, e outro de viés religioso, no século 18, quando a Inquisição ainda agia com força. Em comum, está a intolerância e o medo diante do desconhecido”. Para Stucchi, a padronização do pensamento é sustentada por mecanismos de intimidação. “Quando se tem planificação de ideias, uma certa padronização por meio do medo – da tortura ou de um Deus punitivo – parece que nos sentimos mais seguros”. Sobre Luzia Pinta, o autor reconhece os limites documentais e o papel da ficção. “Existem poucos documentos sobre a Luzia Pinta real. A personagem histórica, na medida do possível, foi retratada com verossimilhança dentro do contexto de um romance histórico, não de uma biografia. São nas lacunas de sua vida que a ficção entra, para criar ligações para essa personagem simbólica da liberdade, do sincretismo religioso, da intolerância, do feminismo e das origens negras de nossa cultura”. No núcleo ambientado em 1977, as irmãs representam respostas distintas à ancestralidade feminina. “Talvez elas sejam dois lados de um mesmo contexto histórico e ancestralidade. Cléo encarna os medos e as consequências daqueles que tentam ir contra a maré; já Clarice assume a liberdade de seguir seu destino, apesar das consequências”, afirma Stucchi. Segundo o jornalista, a dualidade reflete conflitos ainda presentes. “Se pensarmos no ‘eu feminino’, ainda temos essa ambivalência entre as mulheres que se enquadram no que a sociedade espera e aquelas que rompem essa bolha e assumem os rótulos”. O romance também dialoga com a misoginia e o feminicídio contemporâneos. “O medo é fundamental para qualquer mecanismo de controle. Temos sistemas de controle na política, nos dogmas religiosos, na família e na escola. No caso do ‘feminino livre’, é inegável que, dentro de uma educação machista, isso assusta. Assusta os homens, que não sabem lidar com a nova mulher, e assusta as próprias mulheres, que ainda estão aprendendo a encontrar um meio termo”, analisa o autor. A simbologia da serpente, presente em uma das cenas centrais do livro, reforça essa leitura. “Ela simboliza o medo do místico e do feminino. A serpente é enigmática e sensual, atributos associados às ‘bruxas’. Pela moral judaico-cristã, aprendemos a vê-la como algo negativo, mas ela também está ligada ao conhecimento – e conhecimento liberta”, finaliza.

Renda fixa deve seguir forte em 2026 como estratégia de investidores

A renda fixa voltou ao centro das decisões do investidor brasileiro em 2025. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostraram que os fundos dessa categoria lideraram a captação da indústria, com entradas líquidas de R$ 84,3 bilhões. No consolidado, o setor fechou o ano com captação positiva de R$ 88,4 bilhões e patrimônio líquido de R$ 10,7 trilhões, alta de 15% em relação a 2024. O desempenho ocorreu em um ambiente de Certificado de Depósito Interbancário (CDI) acumulado de 14,3%. Fundos de renda fixa do tipo duração média grau de investimento entregaram 14,5% de retorno, superando o índice. “Mais uma vez, os fundos de renda fixa foram a locomotiva da indústria, com os investidores buscando retornos adicionais ao CDI nos fundos de crédito privado. Esse cenário tende a se manter em 2026, considerando o nível ainda elevado dos juros e uma postura mais prudente dos investidores em um ano eleitoral”, afirma o diretor da Anbima, Pedro Rudge. Para o economista e especialista em renda fixa da Me Poupe!, Gean Duarte, o movimento combina fatores conjunturais e estruturais. “É um reflexo das duas coisas. A Selic elevada tornou a renda fixa extremamente atrativa. Estamos falando de retornos acima de 1% ao mês em produtos conservadores. Naturalmente, isso desloca capital de ativos mais voláteis para alternativas previsíveis”. Ainda segundo Duarte, houve também amadurecimento do investidor. “Há uma mudança estrutural clara. O acesso à informação fez muita gente sair da poupança e migrar para Tesouro Selic e CDBs. Quando o investidor percebe que pode obter boa rentabilidade sem grande risco, ele prioriza segurança”. Em 2026, ano eleitoral, a cautela tende a aumentar. “Em períodos de incerteza econômica, prever o cenário é impossível. Por isso, a proteção vem da diversificação. O investidor não deve depender apenas do CDI. Uma carteira equilibrada combina pós-fixados, prefixados e títulos indexados à inflação”, analisa Duarte. Cautela aos iniciantes Apesar da forte captação em fundos de crédito privado, o economista recomenda prudência ao iniciante. “Para quem está começando, geralmente é mais seguro investir diretamente em títulos simples e transparentes. No Tesouro Selic há garantia do Tesouro Nacional. Nos CDBs, há cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Já fundos podem conter ativos que o investidor não compreende. Previsibilidade não significa ganhar pouco e sim ganhar de forma consistente acima da inflação”. Ele também alerta para o uso consciente da garantia do FGC. “É uma proteção, mas não substitui a análise do emissor. O rating é a qualidade do avião; o FGC é o paraquedas. O objetivo é não precisar usá-lo”. Na avaliação do economista, há uma lógica clara de progressão. “Primeiro, reserva de emergência, cerca de seis meses do custo de vida em Tesouro Selic ou CDB com liquidez diária. Depois, definição de objetivos e diversificação por indexadores”. “Para metas longas, como aposentadoria, títulos atrelados ao IPCA ganham importância. Primeira proteção, depois objetivo, e só então otimização da rentabilidade”, conclui.

Congresso debate fim da escala 6×1 e redução da jornada de trabalho

O debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais ganhou um novo capítulo no Congresso Nacional. Após aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, que encaminhou o tema a plenário. A pauta também será analisada na CCJ da Câmara dos Deputados por dois textos em tramitação. A PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (PSOL), e a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT). O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos), afirmou que a expectativa é que a matéria seja votada em maio, com ampla discussão entre parlamentares, representantes do setor produtivo e especialistas antes da deliberação em plenário. Para a consultora de recursos humanos Bia Tartuce, a mudança pode representar um avanço significativo na qualidade de vida dos trabalhadores, especialmente em setores com jornadas mais desgastantes. “O fim da escala 6×1 pode trazer impactos positivos tanto no engajamento quanto na saúde dos trabalhadores, especialmente em atividades que exigem esforço físico e alta demanda emocional. Com mais tempo de descanso, eles tendem a apresentar melhor concentração, menor índice de erros e maior satisfação”. Ela ressalta que o resultado não será automático. “Qualquer mudança nesse nível exigirá uma adaptação operacional das empresas, principalmente em setores que dependem de escala contínua, como varejo, serviços e indústria. Pode haver necessidade de revisão de processos, redistribuição de equipes e até aumento de custo operacional. O impacto final na produtividade dependerá menos da carga horária em si e mais da capacidade das organizações de reorganizarem seus fluxos de trabalho e modelos de gestão”. Sobre a redução gradual da jornada para 36 horas semanais, Bia avalia que os efeitos na saúde mental podem ser relevantes. “A redução pode favorecer o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, melhorar a qualidade do sono, reduzir o estresse e ampliar o tempo de qualidade com a família. Esses fatores influenciam diretamente o desempenho, a criatividade e a tomada de decisão. No entanto, é fundamental que a redução não resulte em sobrecarga de tarefas no tempo reduzido. O sucesso dessa transição dependerá de um bom desenho das atividades e da priorização de demandas”. A consultora defende que as empresas não esperem a aprovação final da PEC para agir. “O debate já sinaliza uma tendência global de revisão dos modelos tradicionais de trabalho. Revisar processos para identificar desperdícios, avaliar produtividade e investir no desenvolvimento das lideranças são medidas que podem ser adotadas desde já. Quem espera a mudança para rever a cultura organizacional já está atrasado”. Impactos para empresas No campo jurídico, a advogada trabalhista do Urbano Vitalino Advogados, Silvia Monteiro, explica que a implementação seguirá um cronograma previsto no texto aprovado no Senado. “Existe um prazo de transição. A jornada reduzida passará a valer a partir de 1º de janeiro do ano seguinte à promulgação, quando as empresas deverão passar de 44 para 40 horas. Após essa redução, a cada ano a jornada deverá ser diminuída em uma hora, até atingir 36 horas semanais”. O texto permite certa flexibilidade na organização das escalas, conforme destaca Silvia. “A proposta trata de jornada diária máxima de 8 horas e semanal de 36 horas. Isso não impede que haja trabalho de 6 horas por 6 dias na semana e uma folga semanal, por exemplo, desde que respeitado o limite semanal. Ou seja, podem existir modelos semelhantes ao 6×1 dentro das novas regras”. Silvia alerta para os riscos de dívidas trabalhistas caso a transição não seja bem planejada. “Além de reclamações individuais pleiteando horas extras, é possível a atuação de sindicatos e do Ministério Público do Trabalho, com ações coletivas exigindo o cumprimento da nova jornada, sob pena de multas e danos morais coletivos”. A advogada também chama atenção para o impacto financeiro. “Essa redução impactará de forma sensível os custos das empresas, podendo até inviabilizar operações. A legislação não prevê subsídio governamental. Se aprovada dessa maneira, pode haver aumento do desemprego e redução dos salários dos novos contratados”.

Hipertensão arterial já atinge três em cada 10 adultos brasileiros

A hipertensão arterial atinge 29,7% da população adulta brasileira, segundo dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2025. O levantamento do Ministério da Saúde monitora fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis. O índice representa crescimento em relação a 2006, quando 22,6% dos brasileiros relataram diagnóstico médico de pressão alta. O avanço da hipertensão no Brasil ocorre em paralelo ao aumento da obesidade e do diabetes, compondo um cenário preocupante para a saúde pública e ampliando o risco de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Para a cardiologista e presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Érika Campana, os números refletem um problema estrutural. “O fato de quase 3 em cada 10 adultos brasileiros terem hipertensão revela um quadro preocupante de saúde cardiovascular populacional. O aumento também está relacionado ao envelhecimento da população, alimentação rica em sal e ultraprocessados, sedentarismo, obesidade, estresse crônico e acesso irregular ao cuidado em saúde”. A especialista destaca ainda que o problema vai além do diagnóstico. “Apenas 3 em cada 10 brasileiros portadores de hipertensão estão com a pressão arterial controlada. É um marcador claro de que estamos falhando na prevenção, diagnóstico precoce e tratamento”. O crescimento mais recente entre as mulheres também chama atenção. De acordo com Érika, com a queda do estrogênio, há redução da proteção natural dos vasos sanguíneos. “Além do acúmulo de jornadas de trabalho, o estresse e a piora do sono contribuem para o avanço da pressão alta nesse público após os 40 anos”. Outro fator de risco é o calor intenso. “O estresse térmico e a desidratação podem levar a quedas bruscas ou picos de pressão. Esse desequilíbrio aumenta o risco de eventos como AVC e infarto, especialmente em idosos e pacientes crônicos”, explica a médica. Além das complicações graves, Érika afirma que hipertensão impacta a qualidade de vida. “Sono fragmentado, cansaço persistente e fadiga são sinais de que o corpo está sob estresse cardiovascular constante e ser o principal fator de risco para a morte cardiovascular”. Obesidade em alta O avanço da pressão alta também está diretamente ligado ao crescimento da obesidade no Brasil. Entre 2006 e 2024, o índice mais que dobrou, passando de 11,8% para 25,7%. Para o especialista em emagrecimento Marcelo Carneiro, a relação é clara. “A obesidade favorece alterações no funcionamento do organismo que elevam a pressão arterial, como inflamações e sobrecarga do coração e dos vasos sanguíneos”. Ele ressalta que se trata de um fator de risco evitável. “A obesidade é hoje um dos principais fatores de risco que podem ser prevenidos ou controlados. Perder peso já traz benefícios efetivos para o controle da hipertensão”. Segundo Carneiro, o excesso de peso dificulta a ação da insulina, favorece o acúmulo de sal e líquidos e compromete a flexibilidade das artérias, levando à elevação progressiva da pressão. Para o médico, o crescimento simultâneo de obesidade, diabetes e hipertensão evidencia fragilidades na prevenção. “Precisamos de políticas públicas que incentivem hábitos saudáveis desde a infância, além de acompanhamento regular da população”. Acompanhamento Érika destaca que a supervisão médica regular permite ajustar o tratamento de forma personalizada, identificar precocemente complicações e avaliar o risco cardiovascular global do paciente. “Quando esse cuidado é associado a mudanças de hábitos, como alimentação equilibrada, redução do sal, atividade física, controle do peso, sono adequado e redução do álcool, os benefícios são potencializados. Medicação e estilo de vida se complementam na proteção do coração, rim e cérebro”. “A obesidade é uma doença crônica, com múltiplas causas, e precisa de acompanhamento médico contínuo, assim como a hipertensão e o diabetes. As pessoas que sofrem de obesidade precisam de apoio familiar e não de julgamentos”, conclui Marcelo.

Tecnologia e prevenção antecipada ajudam cidades a conter a dengue

O uso de tecnologia e o planejamento antecipado têm se consolidado como estratégias centrais no combate à dengue nas cidades brasileiras. Com a chegada do período chuvoso, quando aumentam as condições favoráveis à proliferação do Aedes aegypti, municípios que investem em monitoramento contínuo, análise de dados e ações preventivas conseguem reduzir focos do mosquito, minimizar impactos sociais e aliviar a pressão sobre os serviços de saúde. Segundo o gestor do Techdengue, Cláudio Ribeiro, agir antes do pico da doença é decisivo para evitar cenários mais graves. “Quando o município age apenas após o crescimento dos casos, a resposta tende a ser mais cara e menos eficiente. A prevenção permite identificar áreas críticas antes do agravamento do cenário”. Dados operacionais do Techdengue mostram que municípios atendidos pelo programa registraram reduções superiores a 90% nos focos do mosquito em áreas tratadas, além de queda significativa nos casos da doença. A estratégia se baseia no monitoramento contínuo e no uso de ferramentas tecnológicas que permitem mapear territórios, identificar padrões de risco e direcionar equipes de campo com maior precisão. “A informação estruturada muda a lógica do combate à dengue. Em vez de agir no auge do problema, o município passa a atuar antes que o surto se estabeleça. A tecnologia tem papel central nesse processo, orientando decisões, otimizando recursos e aumentando a efetividade das ações em campo”, explica Ribeiro. Além dos benefícios diretos à saúde da população, a prevenção também gera impacto econômico positivo. Internações, afastamentos do trabalho e ações emergenciais representam custos elevados para os cofres públicos. “A dengue não é apenas um problema da saúde. Ela impacta o município como um todo, o que torna o planejamento antecipado uma necessidade”. Diagnóstico reforça vigilância Enquanto a tecnologia apoia a prevenção no território, os dados laboratoriais ajudam a monitorar a circulação do vírus. Informações da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) indicam que a taxa de positividade para dengue está em 9,4% até a segunda semana de janeiro de 2026, abaixo dos 17,7% registrados no mesmo período do ano passado. Para o líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, Alex Galoro, o cenário inicial mais favorável deve ser interpretado com cautela. “A taxa de positividade permanece abaixo do que normalmente observamos em janeiro quando analisamos a média móvel. No entanto, os dados mais recentes já mostram uma retomada após queda pontual, em linha com o comportamento histórico deste início de ano”. “Um começo de ano com taxa de positividade mais baixa não afasta a possibilidade de crescimento sustentado nas semanas seguintes. Um acompanhamento contínuo é essencial”, acrescenta. Galoro destaca que fatores como ações preventivas mais intensas, maior conscientização da população e o início da vacinação em alguns municípios ajudam a explicar os números, mas o clima segue como variável determinante. “A dengue apresenta um padrão bem definido, relacionado ao regime de chuvas, à temperatura e à circulação do vetor”. A medicina diagnóstica desempenha papel estratégico na vigilância epidemiológica, salienta Galoro. “Os dados laboratoriais funcionam como um termômetro quase em tempo real da circulação do vírus. Eles permitem identificar mudanças de comportamento com antecedência, apoiar decisões em saúde pública e orientar a prática clínica”, conclui.

Carnaval deve movimentar cerca de R$ 1,2 bilhão em Belo Horizonte

O Carnaval de Belo Horizonte chega a 2026 consolidado não apenas como um dos maiores do país em número de foliões, mas também como um dos principais motores da economia local. A expectativa da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) é de crescimento entre 10% e 15% na movimentação econômica durante o período, impulsionado pelo aumento do consumo, do turismo e da ocupação hoteleira. De acordo com o presidente da CDL/BH, Marcelo de Souza e Silva, o Carnaval deixou de ser apenas um evento cultural para se tornar um vetor estratégico de desenvolvimento. “Ele movimenta o comércio, gera renda, cria oportunidades para pequenos empreendedores e fortalece a imagem da cidade como destino turístico”. Para Souza e Silva, o impacto é percebido principalmente no comércio de rua, nos serviços e na cadeia do turismo. “É um período em que o dinheiro circula mais rápido e atinge diferentes camadas da economia”. Um levantamento da CDL/BH aponta que 58,1% dos foliões pretendem aproveitar os blocos de rua e 48,8% devem participar de pré-carnavais gratuitos ou ensaios de blocos. Esse perfil favorece bares, restaurantes, ambulantes, supermercados, lojas de fantasias e serviços de transporte. “O Carnaval democrático, gratuito e de rua permite que mais pessoas participem e consumam. Isso amplia o alcance econômico da festa”, destaca. Outro ponto ressaltado pelo presidente da CDL/BH é a profissionalização dos ambulantes ao longo dos últimos anos. “A organização e a capacitação dos vendedores ambulantes têm sido fundamentais. Eles conseguem gerar renda extra com qualidade, enquanto o folião tem acesso a produtos e serviços mais confiáveis”. Segundo a pesquisa, 67,4% dos consumidores pretendem comprar diretamente com ambulantes. Em Minas Gerais, a secretária de Estado de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, projeta que o Carnaval deve injetar cerca de R$ 6 bilhões, sendo R$ 1,2 bilhão apenas em BH. “A Folia movimenta a economia e diversas estruturas, tanto na esfera municipal quanto estadual. Esse trabalho em rede é o que tem consolidado Belo Horizonte como um destino estratégico do Carnaval”. Quanto o folião deve gastar Os gastos individuais ajudam a explicar o otimismo do setor produtivo. De acordo com a CDL/BH, os foliões devem investir entre R$ 100 e R$ 150 em fantasias e adereços, além de cerca de R$ 70 por dia com bebidas. O pagamento à vista será predominante, com destaque para Pix, cartão de débito e crédito à vista, enquanto o transporte por aplicativo aparece como o principal meio de locomoção. Esse comportamento mostra cautela do consumidor, sem perder o desejo de aproveitar a festa, avalia Souza e Silva. “O folião quer curtir o Carnaval, mas sem comprometer o orçamento. Ele busca opções acessíveis, o que favorece os pequenos negócios”. Nos bares e restaurantes, a expectativa também é positiva. A presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Minas Gerais (Abrasel-MG), Karla Rocha, afirma que a maioria dos empresários espera crescimento no faturamento durante a Folia. “O Carnaval já está incorporado ao calendário econômico da cidade. Os estabelecimentos estão mais preparados para atender o público e transformar esse fluxo em resultados”, destaca. A hotelaria acompanha o mesmo ritmo. Segundo o diretor de Comunicação da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Minas Gerais (ABIH-MG), Diego Pires Gomes, a ocupação média em Belo Horizonte deve alcançar 85%, com 60% dos hotéis já operando com 100% de ocupação, especialmente na região Centro-Sul. “O Carnaval de BH é a maior vitrine da hotelaria. Muitos turistas prolongam a estadia, o que aumenta o ticket médio e beneficia toda a cidade”, afirma.

Trabalho escravo urbano cresce e a punição é rara no país

O Brasil resgatou 2.772 trabalhadores em situação análoga à escravidão em 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Pela primeira vez, a maioria dos casos ocorreu em áreas urbanas, com destaque para a construção civil, que concentrou 787 resgates, sendo 601 em obras de alvenaria e 186 em edifícios e prédios. Também figuram entre os setores com maior número de ocorrências a administração pública (304), o cultivo de café (184) e a extração e britamento de pedras e outros materiais para construção (126). O Mato Grosso liderou os resgates (607), seguido por Bahia (482), Minas Gerais (393) e São Paulo (276). Apesar do avanço das fiscalizações, levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que apenas 4% dos réus foram condenados por todos os crimes relacionados ao trabalho escravo entre 2000 e 2025. Para analisar as causas desse descompasso entre resgates e punições, o Edição do Brasil conversou com o advogado trabalhista Bernardo Lage. O que explica a maioria dos resgates de trabalhadores em situação análoga à escravidão ter ocorrido em atividades urbanas, especialmente na construção civil? A mudança reflete o aquecimento da construção civil em áreas metropolitanas, que gerou pressões intensas por redução de custos e cumprimento de prazos agressivos. O ambiente urbano permite estruturas contratuais mais fragmentadas, com terceirizações em múltiplas camadas, o que dificulta a fiscalização e controle. Diferentemente do meio rural isolado, obras urbanas ocorrem simultaneamente em dezenas de locais, com alta rotatividade de mão de obra. Além disso, a fiscalização seguiu o fluxo das denúncias, hoje mais acessíveis nos centros urbanos. Por que o trabalho escravo contemporâneo permanece presente em setores formais da economia urbana, inclusive em cadeias ligadas ao poder público? A raiz do problema está na lógica dos mercados competitivos. Licitações e contratações privadas costumam privilegiar o menor preço, criando incentivos perversos. Empresas que cumprem integralmente a legislação trabalhista acabam em desvantagem frente àquelas que externalizam custos por meio da precarização. Fiscalizar cadeias produtivas extensas é complexo, e a distância entre conformidade documental e realidade nos canteiros é onde a exploração se instala. Como o direito do trabalho e o sistema de justiça lidam com o perfil das vítimas, marcado por baixa escolaridade e vulnerabilidade social? Essas vulnerabilidades transcendem o direito do trabalho. A esfera trabalhista responde com relativa eficácia: há resgates, pagamento de verbas e concessão de benefícios assistenciais. O problema surge na esfera penal, que exige enquadramentos mais rígidos. Além disso, há grande variação interpretativa entre magistrados sobre o que caracteriza condições degradantes ou jornada exaustiva, o que gera insegurança jurídica. Por que apenas 4% dos réus são condenados por todos os crimes imputados? O principal entrave é o tempo. Processos longos inviabilizam provas testemunhais, pois as vítimas se dispersam geograficamente. Soma-se a isso a dificuldade de estabelecer o nexo subjetivo em estruturas empresariais complexas, a contestação dos laudos fiscais no contraditório judicial e o risco de prescrição antes do trânsito em julgado. A exigência de prova direta de restrição da liberdade de locomoção distorce o conceito legal de trabalho escravo? Sim. O artigo 149 do Código Penal prevê um tipo alternativo, em que qualquer das condutas configura o crime. No entanto, muitos magistrados exigem elementos cumulativos, especialmente o cerceamento físico. Isso ignora a ampliação conceitual feita em 2003, que reconhece a vulnerabilidade econômica como forma suficiente de anulação da vontade. Você avalia que existe um desalinhamento entre os Poderes no combate ao trabalho escravo contemporâneo? Sim. O Executivo atua com parâmetros administrativos, enquanto o Judiciário aplica padrões penais tradicionais. É necessário uniformizar a jurisprudência, valorizar tecnicamente os laudos fiscais, criar protocolos objetivos de caracterização e fortalecer mecanismos preventivos nas cadeias produtivas. O problema é complexo e exige ajustes coordenados entre os Poderes.

Kings League transforma o futebol em espetáculo digital

Com milhões de espectadores conectados simultaneamente, estádio lotado e forte apelo entre jovens, a Kings League consolida sua chegada ao Brasil como um dos fenômenos mais relevantes do entretenimento esportivo recente. Criada pelo ex-jogador Gerard Piqué, a competição aposta em partidas mais curtas, regras dinâmicas e forte presença de influenciadores digitais para dialogar com um público que já não se vê representado pelo modelo tradicional do futebol. Por trás dessa operação no país está o empresário Cris Guedes, presidente da Fúria FC e um dos principais responsáveis por trazer a liga para o Brasil. “O potencial do formato ficou evidente desde os primeiros passos da Kings League na Europa. Assim que o Piqué começou a mobilizar times na Espanha, vi que essa modalidade também seria promissora no Brasil”. Segundo Guedes, a mudança de comportamento das novas gerações foi determinante para a aposta. “O público das Gerações Z e Alpha não adere mais ao futebol tradicional. É muito lento, 90 minutos, partidas às vezes sem gols. Não é mais a linguagem deles”. Em contrapartida, ele aponta que a Kings League dialoga diretamente com esse perfil ao unir esporte, tecnologia e cultura digital. “É rápido, mistura preceitos do futebol tradicional com os e-Sports, tem figuras com quem eles se identificam e está no ambiente deles, que é a internet”. O engajamento é um dos principais diferenciais do modelo. Os clubes são presididos por influenciadores, o que cria uma relação direta entre público e competição. “Essa sensação de proximidade que só a internet oferece faz toda a diferença. Eles se sentem parte do dia a dia da liga”, explica o presidente da Fúria FC, citando ainda recursos como o uso de dados que interferem no andamento das partidas. Os números ajudam a dimensionar o impacto. Na final da KL Cup Nations 2026, considerada a Copa do Mundo da modalidade, a transmissão oficial pelo YouTube atingiu 3,5 milhões de aparelhos conectados, enquanto 41.316 torcedores lotaram o Allianz Parque. O público presencial supera, inclusive, a média registrada em partidas da Série A do Campeonato Brasileiro, que foi de 26.314 pessoas em 2025. Apesar do sucesso, Guedes descarta a ideia de concorrência direta com o futebol tradicional. “O futebol segue consolidado como uma indústria bilionária e global”. Ele diz que a Kings League é um caminho para os mais jovens começarem a se interessar pelo universo da bola. Na avaliação do empresário, os dados de audiência revelam uma mudança estrutural no consumo esportivo. “Precisamos nos atentar ao entretenimento oferecido pelo esporte”, defende, citando a NFL como exemplo de liga que transformou o espetáculo em produto global. “É para esse lugar que a Kings League caminha e que outros esportes deveriam olhar também”. O Brasil ocupa papel central na estratégia de expansão da liga. Além da paixão histórica pelo futebol, o país se destaca pela formação de atletas. “Somos um celeiro de talentos. Trouxemos jogadores que vieram da base de clubes tradicionais e do futsal, que hoje compõem nossa Seleção bicampeã”, ressalta Guedes. Mais do que um novo formato esportivo, a Kings League aponta para uma transformação cultural. “O principal legado é aprender a explorar o entretenimento para fora do campo, não apenas dentro das quatro linhas”, conclui.

Bloco Fúnebre levará lendas urbanas de Belo Horizonte para as ruas

O Carnaval de Belo Horizonte em 2026 começa de forma simbólica, irreverente e profundamente ligada ao imaginário da cidade. Na madrugada da sexta-feira, 13 de fevereiro, o Bloco Fúnebre realiza seu tradicional cortejo e abre oficialmente a folia na capital mineira com o tema “Sexta-feira 13 – Ô Sorte!!”. A concentração acontece às 23h, na Praça da Bandeira, com saída à meia-noite pela Avenida Afonso Pena e dispersão prevista para as 3h, na Praça Milton Campos. O desfile marca também os 13 anos do Bloco Fúnebre, fundado em 2013 com o lema que se tornou sua assinatura: “Enterrar as tristezas e ressuscitar as alegrias”. Segundo a fundadora e vocalista Flávia Ribeiro, iniciar o Carnaval na madrugada de uma sexta-feira 13 é quase um manifesto artístico e cultural. “É pegar um símbolo que muita gente associa ao medo e ao azar e transformar em encontro e celebração. O Carnaval é esse lugar onde a cidade se autoriza a rir do que assusta e a ressignificar símbolos”. Neste ano, o cortejo ganha um tempero especial do imaginário belo-horizontino com a presença da Loira do Bonfim e do Capeta do Vilarinho, duas das lendas urbanas mais conhecidas da capital. As figuras inspiram fantasias, adereços e narrativas que atravessam gerações e ajudam a construir a estética do desfile. “São personagens vivos do imaginário de BH. Elas entram como presença simbólica e estética, fazendo a cidade se reconhecer no cortejo”, explica Flávia. O tema “Sexta-feira 13 – Ô Sorte!!” dialoga diretamente com a essência do bloco, que brinca com símbolos ligados ao medo, à morte e às superstições sem desrespeito, mas com humor, crítica e afeto. “É inverter o presságio, transformar susto em dança e tensão em riso. Falar da morte também é uma forma de valorizar a vida”, resume. Para o fundador Léo Lima, o desfile é um convite para Belo Horizonte se reconhecer na rua. “A gente pega um dia carregado de superstição e vira a chave: transforma em sorte, em encontro, em celebração. O Carnaval é esse lugar onde tudo pode ser ressignificado coletivamente”, afirma. O Bloco Fúnebre abre o Carnaval em um momento de forte crescimento da festa na capital. A expectativa é que BH receba cerca de 6,5 milhões de pessoas durante o período carnavalesco em 2026. De acordo com o vocalista do Bloco Fúnebre, esse avanço demonstra maturidade cultural do evento e amplia a responsabilidade dos blocos. “O Carnaval cresce junto com a diversidade de linguagens. Nosso papel é abrir a festa com uma mensagem de convivência, sentido e acolhimento, sem perder a alma do cortejo”, finaliza. Serviço Desfile do Bloco FúnebreData: 13 de fevereiroConcentração: 23h na Praça da Bandeira

Pagamento do PIS/Pasep injeta R$ 33,5 bilhões na economia

O pagamento do abono salarial PIS/Pasep em 2026 deve beneficiar cerca de 26,9 milhões de pessoas em todo o país, com a liberação estimada de R$ 33,5 bilhões na economia. Destinado a trabalhadores da iniciativa privada e servidores públicos que atuaram formalmente em 2024, o pagamento terá calendário unificado e com mudanças que impactam o alcance do programa nos próximos anos. Segundo dados do governo federal, o valor do abono segue proporcional ao número de meses trabalhados no ano-base e pode chegar a até um salário mínimo, conforme as regras vigentes. Os pagamentos começam em fevereiro, de acordo com o mês de nascimento do trabalhador. Para o economista Gelton Pinto Coelho Filho, o impacto desses recursos tende a ser imediato e concentrado no consumo essencial. “O público que recebe este benefício tem baixa propensão marginal à poupança. Nesse sentido, os valores, em sua maioria, são destinados ao pagamento de contas e ao consumo direto”. Ele destaca ainda que, considerando o efeito multiplicador típico de programas de transferência de renda, o impacto total pode alcançar quase R$ 60 bilhões ao longo do ano. O economista explica que o perfil dos beneficiários faz com que o dinheiro circule rapidamente. “Setores como o de alimentos recebem maior fluxo desses recursos, assim como farmácias e companhias de energia, água e saneamento. Bancos e financeiras também são beneficiados por aqueles que optam por quitar suas dívidas”. Apesar disso, Filho pondera que o cenário macroeconômico limita efeitos mais duradouros. “A distribuição ocorre essencialmente no primeiro semestre, até o mês de agosto, período em que são realizados os pagamentos. O uso dos recursos é quase imediato após o recebimento. Em um ambiente de juros elevados, o abono ajuda, mas não resolve o aperto financeiro das famílias de menor renda”. Mudanças nas regras Uma das principais alterações está no critério de renda para ter direito ao benefício. A partir do pagamento de 2026, o limite deixa de ser automaticamente vinculado a dois salários mínimos e passa a ser um valor nominal corrigido apenas pela inflação. No ano-base 2024, esse teto ficou em torno de R$ 2.766 de renda média mensal. Filho lembra que a mudança faz parte de um esforço de ajuste fiscal. “A medida visa reduzir gastos públicos no longo prazo. O limite de ganho para ter direito ao abono deixa de ser fixado em dois salários mínimos e passa a ser corrigido exclusivamente pela inflação”. Do ponto de vista jurídico, o advogado Rafael Oliveira explica que a alteração busca maior previsibilidade orçamentária, mas não está isenta de controvérsias. “A mudança tem como objetivo principal conferir previsibilidade orçamentária e sustentabilidade financeira ao programa”. Ele alerta que a desvinculação do salário mínimo tende a restringir o acesso ao benefício ao longo do tempo. “Isso pode resultar na exclusão progressiva de trabalhadores que, embora formalmente acima do teto, permanecem em situação de vulnerabilidade econômica”. Na avaliação dos especialistas, as alterações reforçam a sustentabilidade fiscal do programa, mas exigem atenção aos efeitos sociais. “As mudanças contribuem para o equilíbrio das contas públicas, mas precisam ser acompanhadas de políticas que ampliem renda e emprego, reduzindo a dependência de programas sociais”, conclui Filho. Já Oliveira ressalta que transparência e informação serão decisivas. “A correta prestação de informações, a atuação preventiva das entidades de classe e a transparência na aplicação das regras são fundamentais para preservar a finalidade social do benefício e reduzir litígios futuros”, finaliza. Mês de nascimento Data de pagamento Janeiro 15 de fevereiro Fevereiro 15 de março Março e abril 15 de abril Maio e junho 15 de maio Julho e agosto 15 de junho Setembro e outubro 15 de julho Novembro e dezembro 15 de agosto Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego