Paixão pelo futebol pode ser uma ferramenta no combate ao sedentarismo

Grandes campeonatos de futebol costumam movimentar torcedores dentro e fora dos estádios. Além de reunir amigos para assistir aos jogos, o clima de competição também desperta em muitas pessoas a vontade de voltar a praticar esportes, como o futebol. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos realizem entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada ou entre 75 e 150 minutos de exercícios vigorosos, além de atividades de fortalecimento muscular em dois ou mais dias por semana. Para a ortopedista e traumatologista do esporte Ana Paula Simões, a motivação gerada pelo futebol pode servir como ponto de partida para uma mudança de hábitos. “Durante grandes eventos esportivos, as pessoas se identificam com atletas, equipes e histórias de superação. Isso pode funcionar como um gatilho positivo para quem deseja abandonar o sedentarismo e começar a se movimentar. O importante é transformar essa motivação inicial em uma rotina consistente”. Cuidados Apesar do estímulo positivo, a especialista alerta que a empolgação não deve levar a excessos. Muitas pessoas passam meses ou até anos sem praticar atividades físicas e, motivadas pelo momento, decidem participar de partidas de futebol ou realizar exercícios intensos sem preparação adequada. “Um dos erros mais comuns é querer compensar o tempo parado em poucos dias. O corpo precisa de um período de adaptação. Quando a retomada acontece de forma abrupta, aumentam os riscos de lesões musculares, entorses, tendinites e sobrecargas articulares”. Segundo a médica, a recomendação é iniciar com atividades leves ou moderadas, respeitando os limites individuais e aumentando gradualmente a intensidade e a duração dos exercícios. Caminhadas, por exemplo, podem ser uma boa porta de entrada para quem deseja construir condicionamento físico antes de migrar para modalidades mais exigentes. No caso do futebol, esporte que exige acelerações, mudanças rápidas de direção e contato físico, alguns cuidados são fundamentais para quem está retomando a prática. “É importante realizar aquecimento, utilizar calçados adequados, manter uma boa hidratação e respeitar os períodos de descanso. Além disso, exercícios de fortalecimento muscular preparam o corpo para as exigências da modalidade e reduzem o risco de lesões”, destaca Ana Paula. A especialista também recomenda atenção aos sinais emitidos pelo organismo após a atividade física. Dores musculares leves podem ser esperadas, especialmente nos primeiros dias de adaptação. Entretanto, alguns sintomas merecem avaliação médica. “Dor intensa, localizada ou persistente, acompanhada de inchaço, perda de força ou limitação de movimento, não deve ser considerada normal. Nesses casos, é importante procurar orientação profissional para evitar o agravamento do quadro”. Como manter a motivação Transformar a empolgação passageira em hábito é um dos principais desafios para quem decide abandonar o sedentarismo. Para a médica, a escolha de atividades prazerosas aumenta as chances de adesão. “Faça uma atividade que lhe dê satisfação. Quando existe prazer na prática, a continuidade se torna mais fácil. Também ajuda estabelecer metas realistas e contar com a companhia de amigos ou familiares, porque o apoio mútuo funciona como um incentivo extra”. Ela reforça que o mais importante é dar o primeiro passo. “Não é necessário começar com grandes desafios. O fundamental é criar uma rotina de movimento. Pequenas mudanças, quando mantidas ao longo do tempo, produzem benefícios significativos para a saúde física e mental”, finaliza.

Plataforma Discord recorre contra suspensão de lives determinada pela ANPD

A plataforma Discord suspendeu por prazo indeterminado o recurso que permitia aos usuários realizarem transmissões de vídeo pelo aplicativo. A decisão ocorreu após uma determinação preventiva da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), emitida no dia 12 de agosto. Segundo a medida, a restrição busca impedir situações de violência e práticas de coerção envolvendo menores de idade. Entre os casos que motivaram a intervenção está o de uma adolescente de 13 anos, residente em Naviraí (MS), que morreu por suicídio em 22 de julho após ser vítima desse tipo de situação. De acordo com a plataforma, a restrição atinge apenas as funções relacionadas às transmissões ao vivo e ao envio de vídeos, sem interferir nas conversas por texto, nas chamadas de áudio ou nas demais ferramentas. A empresa também informou que mantém tratativas com a ANPD para encontrar uma alternativa que possibilite a retomada das transmissões de vídeo entre os usuários no Brasil. No dia 24 de agosto, a plataforma recorreu da decisão da ANPD. No pedido, a empresa requer que a medida seja suspensa imediatamente para permitir a retomada das lives e também solicita a revogação da decisão cautelar. Entre os argumentos apresentados estão a suposta ausência de competência da agência para impor a restrição, possíveis irregularidades no procedimento e o entendimento de que a penalidade aplicada seria excessiva. Para a psicóloga em educação digital Carla Silva, a intervenção da ANPD é considerada necessária diante da dimensão dos riscos envolvidos. “Quando uma plataforma apresenta dificuldades para impedir situações que podem colocar menores em perigo, é legítimo que o poder público cobre mudanças concretas. A prioridade deve ser garantir um ambiente digital mais seguro, principalmente para quem ainda está em fase de desenvolvimento”. Essa decisão, porém, também abre espaço para uma discussão sobre os limites da atuação do Estado na internet. Conforme o advogado de direito digital Victor Ferreira, medidas de proteção precisam estar acompanhadas de fundamentação jurídica e de critérios claros. “A proteção dos adolescentes é indispensável, mas uma restrição dessa natureza precisa observar competência legal, devido processo e proporcionalidade. A questão não é escolher entre segurança e liberdade, mas encontrar uma forma de preservar as duas”. Segundo Carla, a controvérsia mostra a importância crescente da ANPD na proteção de dados e na fiscalização de práticas que podem afetar a privacidade e a segurança dos brasileiros. “Criada pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a autoridade tem entre suas atribuições orientar, regulamentar e fiscalizar o cumprimento das regras relacionadas à proteção de dados pessoais. Quando o assunto envolve crianças e adolescentes, a preocupação ganha uma dimensão adicional, já que esse público pode estar mais vulnerável à manipulação, ao assédio e à exposição indevida no ambiente virtual”, alerta a psicóloga. A atuação da autoridade também reforça uma mudança na relação entre empresas de tecnologia e órgãos públicos. “Durante anos, plataformas digitais cresceram em ritmo acelerado, enquanto governos e legisladores buscavam acompanhar os novos problemas provocados por esses serviços. Hoje, questões como privacidade, segurança de menores, moderação de conteúdo e responsabilidade das empresas estão no centro do debate sobre a utilização das redes e aplicativos”, ressalta Ferreira. Ele comenta ainda que o recurso apresentado pelo Discord deverá levar essa discussão adiante. “Caso a empresa consiga reverter a decisão, as transmissões poderão ser restabelecidas, possivelmente acompanhadas de novas exigências de segurança. Se a ANPD mantiver a medida, o episódio poderá estabelecer um precedente importante sobre a capacidade da autoridade de determinar restrições temporárias a funcionalidades de grandes plataformas quando identificar riscos à proteção de dados e à segurança dos usuários”.

Número de empresas em recuperação judicial tem avanço de 65,8%

O Brasil vive uma escalada dos processos de recuperação judicial e das renegociações extrajudiciais de dívidas. Pressionadas por juros elevados, crédito mais seletivo e passivos acumulados nos últimos anos, empresas de diversos setores têm recorrido a mecanismos de reestruturação para evitar a falência e preservar as operações. Um levantamento do Monitor RGF-BizDoc mostra que o país encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, o maior patamar da série histórica. Alta de 6,2% na comparação com o fim de 2025 e um avanço de 65,8% em relação ao segundo trimestre de 2023. Ao mesmo tempo, a recuperação extrajudicial ganha espaço. Dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre) indicam que os pedidos saltaram de 16 em 2021 para 84 em 2025. Somente neste ano, as dívidas renegociadas por essa modalidade já ultrapassam R$ 109 bilhões. “O crescimento das recuperações empresariais é o resultado da combinação entre elevado custo financeiro, endividamento acumulado, necessidade de refinanciamento de passivos, maior seletividade do crédito e dificuldades específicas de determinados setores. Os juros são um dos fatores centrais, mas não são os únicos”, conforme afirma o economista do Corecon-MG, Wallace Marcelino Pereira. Muitas empresas contraíram dívidas durante o período de juros baixos na pandemia e passaram a enfrentar dificuldades quando precisaram refinanciá-las em um cenário de Selic alta, observa Pereira. “Uma empresa pode ter passado por 2021, 2022 ou 2023 com uma estrutura financeira administrável e começar a enfrentar dificuldades somente quando uma parcela significativa de suas obrigações passa a ser renovada em condições muito mais caras”. Recuperação extrajudicial ganha força O advogado especialista em Direito Empresarial, Caio Klouba, observa que a recuperação extrajudicial deixou de ser uma alternativa secundária. “Ela permite uma negociação mais direcionada, especialmente quando a maior parte do problema está concentrada em determinados credores. Em muitos casos, isso proporciona uma solução mais rápida, mais flexível e com menor impacto sobre a operação da empresa”. De acordo com Klouba, a escolha entre a via judicial e a extrajudicial depende da gravidade da crise. “Quando a companhia continua operacionalmente viável e a crise está concentrada em determinados credores, a recuperação extrajudicial pode ser bastante eficiente. Já quando existe uma pulverização maior da dívida, bloqueios judiciais ou dificuldade relevante de negociação, a recuperação judicial pode se tornar necessária”. O especialista destaca ainda que os dois mecanismos têm o mesmo pressuposto: a viabilidade econômica da empresa. “Esses instrumentos reorganizam dívidas, mas não substituem um modelo de negócio sustentável”, ressalta. Prevenção ainda é desafio Embora os números estejam em alta, Klouba defende que a recuperação não deve ser encarada apenas como último recurso. “Muitas empresas ainda procuram uma solução apenas quando a situação já está deteriorada, com restrição de crédito, atrasos e execuções. Nesse estágio, o número de alternativas já é muito menor”. Pereira observa que o avanço das recuperações não significa, necessariamente, uma crise generalizada da economia. “Não é possível equiparar recuperação judicial à falência. Os dados mostram uma economia que continua crescendo, mas com empresas enfrentando dificuldades para lidar com o custo do capital e o refinanciamento de suas dívidas”. Se entrar em recuperação é difícil, sair dela também representa um desafio. Após a aprovação do plano, as empresas precisam reconquistar a confiança de bancos, fornecedores e também investidores. “A firma precisa demonstrar disciplina financeira, geração de caixa, cumprimento das obrigações assumidas anteriormente, melhoria da governança e previsibilidade. Essa confiança é reconstruída ao longo do tempo”, afirma Klouba. Na avaliação de Pereira, a recuperação jurídica não elimina automaticamente as restrições financeiras. “Dessa forma, uma empresa pode superar a crise e continuar enfrentando uma restrição financeira. Isso ajuda a explicar porque a retomada do investimento e do crescimento pode ser mais lenta do que a própria reorganização formal das dívidas”, conclui.