CBD no esporte: entre a utilização terapêutica e o risco de doping

A busca de atletas por produtos à base de cannabis para controlar dores, melhorar o sono ou auxiliar na recuperação física ganhou espaço no esporte, mas exige atenção para não transformar um tratamento com finalidade clínica em problema antidopagem. Embora o canabidiol (CBD) não seja proibido pela Agência Mundial Antidoping (WADA), produtos comercializados com esse nome podem conter outros canabinoides, como o THC, que estão sujeitos às regras antidopagem. Segundo o porta-voz da CBD Brasil e especialista em educação sobre cannabis medicinal, Ricardo Guimarães, a primeira distinção é entre o CBD e o produto que o contém. “CBD e ‘produto de CBD’ não são a mesma coisa. Os demais canabinoides naturais ou sintéticos permanecem proibidos em competição”. “Portanto, um produto comercializado como CBD pode também apresentar THC, CBN, CBG, delta-8, delta-9 ou outros compostos, seja pela própria formulação, por contaminação ou por divergência entre o rótulo e a composição real”, acrescenta. O cuidado é ainda maior com produtos de espectro completo (full spectrum), que podem conter THC, e também envolve os de espectro amplo (broad spectrum). Guimarães alerta que a procedência e a composição precisam ser verificadas antes do uso. “CBD puro não é proibido, mas nenhum produto deve ser considerado automaticamente seguro apenas porque traz ‘CBD’ no rótulo”. Controle do produto Para atletas submetidos a exames, um dos principais instrumentos de controle é o Certificado de Análise (COA), que apresenta os resultados de testes laboratoriais. Ainda assim, o documento precisa corresponder ao lote utilizado e trazer informações sobre laboratório, método e concentração dos canabinoides. “Termos comerciais como ‘THC Free’, ‘Zero THC’ ou ‘Broad Spectrum’ não substituem a análise laboratorial. Para um atleta sujeito a testes, o protocolo mais conservador envolve CBD isolado, COA por lote, ausência de THC detectável, produto rastreável, médico responsável, registro de uso e checagem das normas da federação ou liga”, explica Guimarães. Porém, o especialista ressalta que mesmo esses procedimentos não representam risco zero. “Variações entre lotes, estabilidade, transporte, armazenamento e contaminação também podem interferir na composição final. Por isso, a segurança antidoping é um processo de controle e documentação”. Além da questão regulatória, Guimarães lembra a necessidade de avaliar se o tratamento é adequado ao quadro do atleta. A ciência investiga possíveis efeitos do CBD sobre dor, inflamação, sono e ansiedade, mas ainda há poucos estudos clínicos realizados com populações esportivas e resultados não são uniformes. “O CBD vem sendo estudado por sua possível atuação em vias relacionadas à dor, inflamação, sono, ansiedade e recuperação. Porém, a própria literatura reconhece que ainda existem poucos estudos clínicos robustos diretamente realizados em populações esportivas”, afirma. Tratamento não é desempenho Conforme Guimarães, o CBD deve ser encarado como uma possível ferramenta complementar. “Ela não substitui diagnóstico, fisioterapia, nutrição, hidratação, sono, periodização ou reabilitação e não deve ser apresentada como um recurso destinado diretamente a aumentar o desempenho”. A recomendação do especialista é que atletas e equipes considerem simultaneamente saúde, composição do produto, calendário competitivo e regras da modalidade. “O objetivo não é retirar dos atletas o acesso aos canabinoides potencialmente úteis. É criar um sistema que permita utilizá-los, quando clinicamente apropriados, sem colocar em risco a saúde, a elegibilidade ou a carreira esportiva”, conclui.
Pessoas com deficiência ainda enfrentam barreiras na carreira profissional

Um levantamento realizado pela startup Egalite revela que somente 1,5% das oportunidades voltadas a pessoas com deficiência (PcD) correspondem a cargos técnicos ou de gestão. A análise foi baseada em informações de 116 mil profissionais cadastrados e em mais de 19 mil vagas disponíveis no portal Inclui PcD, mantido pela própria empresa. A maior parte das oportunidades oferecidas pelas empresas a pessoas com deficiência está concentrada em funções operacionais, que correspondem a 98,5% dos postos disponíveis. Em contrapartida, 31% das candidaturas espontâneas feitas por esses profissionais têm como foco cargos técnicos ou de gestão. Para a especialista em Diversidade e Inclusão, Carla Souza, essa diferença está relacionada a uma visão ainda limitada sobre a capacidade profissional dessas pessoas. “Durante muito tempo, a inclusão foi tratada pelas empresas principalmente como uma questão de cumprimento de cotas. O profissional entra na organização, mas nem sempre existe um planejamento para que ele desenvolva competências, assuma novas responsabilidades e tenha acesso às mesmas possibilidades de promoção que os demais funcionários”. A legislação brasileira estabelece que empresas com 100 ou mais empregados devem reservar entre 2% e 5% de seus postos de trabalho para pessoas com deficiência e beneficiários reabilitados da Previdência Social. O cumprimento da cota, porém, não garante por si só uma trajetória de crescimento dentro das organizações. “Essa dificuldade também pode continuar depois da contratação. Mesmo quando conseguem ingressar nas empresas, profissionais com deficiência podem encontrar ambientes sem acessibilidade adequada, falta de recursos assistivos e pouca preparação das equipes para lidar com diferentes necessidades”, ressalta Carla. Apesar desse desequilíbrio, os resultados da pesquisa também revelam sinais positivos entre as empresas que vêm adotando práticas voltadas à inclusão e ao desenvolvimento profissional de PcD. De acordo com o levantamento, 50% das organizações avaliadas no portal Inclui PcD oferecem a totalidade de suas oportunidades, das funções de entrada a posições de especialistas e liderança, também para candidatos com deficiência. O estudo também chama atenção que a média da remuneração pretendida por candidatos com deficiência é de R$ 1.450, quantia inferior ao salário mínimo vigente, de R$ 1.621. O resultado sugere que parte desses profissionais pode ingressar em processos seletivos com expectativas de remuneração abaixo do piso legal. Para a consultora de Recursos Humanos, Renata Oliveira, a baixa presença de PcD em posições de liderança também está relacionada à falta de representatividade dentro das empresas. “Quando uma organização não possui profissionais com deficiência em funções de decisão, é mais difícil perceber quais barreiras estão impedindo a progressão dessas pessoas. A empresa pode contratar, mas continuar reproduzindo processos que dificultam a promoção”. Conforme destaca a especialista, a inclusão precisa fazer parte da estratégia de carreira. Entre as medidas estão programas de mentoria, capacitação, avaliações de desempenho acessíveis, planos de desenvolvimento individual e critérios transparentes para promoções. “Não basta adaptar uma estação de trabalho, é necessário garantir que o profissional tenha acesso a treinamento, projetos relevantes, contato com lideranças e oportunidades reais de assumir novos desafios”. As oportunidades de trabalho remoto também aparecem como um obstáculo. Dados da Inclui PcD indicam uma forte redução na oferta de vagas nessa modalidade: enquanto as posições remotas e híbridas representavam 28,4% das oportunidades em 2024, esse índice caiu para 0,8% em 2026. A inclusão efetiva depende de uma mudança que vai além da porta de entrada das empresas. Criar ambientes acessíveis, revisar processos seletivos, oferecer remuneração compatível com as funções e estabelecer caminhos claros de desenvolvimento são medidas que podem contribuir para transformar a presença de pessoas com deficiência no mercado de trabalho em uma trajetória profissional completa.
Turismo de experiência movimenta a economia de cidades mineiras

O turismo mineiro respondeu por quase 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado e atraiu mais de 32 milhões de turistas em 2024, segundo o Observatório do Turismo da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG). O cenário tem sido acompanhado pela expansão do turismo de experiência, que busca transformar características culturais, gastronômicas e naturais dos municípios em produtos turísticos. Com um total de 21 destinos estruturados, 245 experiências turísticas criadas e 570 empresas atendidas, Minas Gerais deve encerrar 2026 com R$ 21 milhões em investimentos nos últimos quatro anos. Por meio do programa Check-in Turismo, uma iniciativa do Sebrae Minas para fomentar o turismo, 75 municípios foram impactados diretamente pela iniciativa. Entre as empresas participantes, o faturamento cresceu, em média, 22% nos últimos quatro anos. A Fazenda Centenária, que fica dentro da comunidade rural quilombola de Brejo do Amparo, em Januária, no Norte de Minas, faz parte do programa Check-in Turismo, e reúne em suas ações um roteiro que inclui histórias, receptividade, um casarão centenário, a tradicional cachaça mineira e receitas diversas. De dezembro de 2025 até meados de 2026, foram mais de 300 visitantes na Fazenda Centenária. O projeto inclui visitas ao canavial e ao alambique, degustação de cachaças de produção própria, café e almoço com quitutes mineiros, moda de viola e passeio pelo casarão, construído no século 18 e considerado o primeiro imóvel na região de Januária. A visitação de escolas, instituições e projetos sociais locais é gratuita. O projeto Uma das proprietárias do empreendimento, Izabela Martins Itabaiana, explica que, há quatro anos, o projeto vem sendo preparado. “Junto ao meu sócio e marido, Walter Viana Neves, buscamos criar na Centenária um turismo de experiência, aproveitando a estrutura da cachaçaria, que produz o rótulo Cachaça Viana, e da fazenda, mostrando a história da região”. “Desde o início, o Walter sempre demonstrou interesse em mostrar a história do território, que tem uma tradição de mais de 300 anos na produção de cachaça. Mais que vender uma bebida, é apresentar a história da região e inseri-la na rota da cachaça mineira e, também, constituir uma rota regional própria”, destaca Izabela. Ela conta ainda que já sabia do potencial do local, mas foi preciso observar os pontos fortes e aperfeiçoar a experiência, com apoio do Sebrae em todos os processos. O casal já está pensando em ampliar e explorar novos serviços dentro da propriedade, como a observação de pássaros e trekking. Relevância O presidente da Expocachaça e turismólogo, José Lúcio Mendes, ressalta que construir roteiros turísticos da cachaça é muito importante em Minas Gerais. “Porque junto com a destilaria, também temos as atividades que acontecem nas cidades e regiões. Juntar essas ações com as festas regionais pode trazer receitas relevantes para a manutenção dessas destilarias e também para o crescimento desses municípios em termos de turismo e negócios”. A rota turística está inserida em um contexto que não isola a cidade que ela faz parte, explica Mendes. “Tudo que for promovido para o negócio, vai impactar a economia do município e região. Todos ganham nesse processo. Além de promover o produto em nível nacional e internacional”. Reconhecimento Segundo o presidente, o reconhecimento da cachaça como patrimônio cultural de Minas Gerais ajudou na valorização do produto. A mesma coisa está acontecendo com o queijo, pelo reconhecimento da Unesco como patrimônio cultural da humanidade. Além deles, temos o café, a cerveja e o azeite mineiro da Serra da Mantiqueira, destaca o especialista. “São muitos produtos e a percepção, através das menções e indicações, faz com que as nossas mercadorias sejam valorizadas no mercado nacional e mundial”. O pequeno produtor sempre tem dificuldade de fazer investimentos, observa Mendes. “Mas, existem possibilidades, como as Secretarias de Cultura e Turismo, Emater e o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) que podem ajudar determinadas regiões a se desenvolverem. Outro ponto é que o pequeno produtor tem que se unir para crescer, seja através de projetos ou associações”.