Medo da criminalidade muda comportamento dos brasileiros

Sensação de insegurança tem crescido nas cidades – Foto: Magnific.com

A violência urbana deixou de ser apenas um problema estatístico e passou a moldar diretamente a rotina da população brasileira. Evitar determinados trajetos, restringir horários de circulação e abrir mão de objetos pessoais se tornaram medidas de autoproteção adotadas por milhões de pessoas diante do avanço da criminalidade. Pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha revela que 41% da população afirma conviver com o crime organizado na região onde mora, enquanto cresce a sensação de que o Estado perdeu espaço para as facções em diversas áreas urbanas do país. Em entrevista ao Edição do Brasil, o especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública, André Santos Pereira, analisa os principais impactos desse cenário sobre a liberdade da população e aponta alguns caminhos para enfrentar o avanço crescente da violência e da impunidade.

Como a percepção de domínio das facções impacta a relação da população com os espaços públicos?

A percepção de que o crime organizado domina o território altera drasticamente a relação do cidadão com a cidade. Isso se manifesta fisicamente por meio de barricadas e vigilância armada, restringindo o direito constitucional de ir e vir. O espaço público deixa de ser um local de convivência e passa a ser visto como território de risco, pautado pelas regras impostas pelas facções, como a cobrança de taxas ilegais a comerciantes.

Mesmo com redução de alguns crimes violentos, cresce a sensação de insegurança. O que explica esse descompasso?

Existe um grave descompasso entre a propaganda do governo e a realidade das ruas. A redução de crimes letais não anula o impacto dos delitos do dia a dia, como roubos de celulares e golpes virtuais. A população baseia seu medo na sensação de onipresença da criminalidade comum e na baixa capacidade de punição desses crimes patrimoniais, o que gera insegurança generalizada.

A mudança de hábitos da população representa uma normalização da violência?

Sim. Quando o cidadão deixa de sair à noite ou evita usar seus pertences de valor como alianças e celulares para se autopreservar, a violência deixa de ser apenas um evento fortuito e passa a ser um elemento estruturante da vida urbana. Isso revela uma normalização patológica da insegurança e sinaliza uma questão bastante preocupante: a sociedade passou a aceitar a incapacidade do Estado em garantir proteção mínima das pessoas.

Mulheres e pessoas de baixa renda aparecem entre os grupos mais afetados. O que pode ser feito?

É necessário ampliar o monitoramento eletrônico ativo de agressores, garantindo aplicação em massa de tornozeleiras em casos de violência contra a mulher. Além disso, o poder público deve investir em inteligência policial, tecnologia e identificação imediata de criminosos em áreas de grande circulação, assegurando que o policiamento e a investigação cheguem às periferias e aos centros urbanos.

O programa “Brasil Contra o Crime Organizado” pode trazer resultados concretos?

A iniciativa é necessária, mas o sucesso depende de ultrapassar o papel. O combate à lavagem de dinheiro e o bloqueio de ativos são fundamentais para asfixiar economicamente as facções. O principal desafio é garantir integração de dados entre forças de segurança e entes federativos, além de enfrentar a impunidade.

Quais mudanças estruturais seriam mais urgentes para restaurar a sensação de segurança?

É urgente fortalecer a investigação criminal com investimento em inteligência policial e cibernética, além de revisar regras de progressão de regime e benefícios penais para crimes violentos. A população só voltará a confiar nas instituições quando o risco de cometer um crime for maior do que o benefício obtido com ele.

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