
A Ásia segue como a principal origem dos calçados importados que pressionam a indústria brasileira. A região responde por 87,2% dos pares importados pelo Brasil. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), no primeiro semestre, foram enviados 25,9 milhões de pares, pelos quais foram pagos US$ 307 milhões, incrementos de 15,9% e 13%, respectivamente, ante o mesmo intervalo de 2025.
Se por um lado, as importações seguem tendência de elevação, as exportações assumem o caminho contrário. Combinação que resultou em uma queda de 55,1% na balança comercial do setor entre janeiro e junho, o menor resultado para o período na série histórica da base, iniciada em 1997.
No primeiro semestre, as exportações somaram 49 milhões de pares e US$ 408,2 milhões, quedas tanto em volume (-7%) quanto em receita (-17,9%) em relação ao mesmo período do ano passado. Em junho, foram embarcados 8,1 milhões de pares por US$ 59,16 milhões, incremento de 18,1% em volume e queda de 15,7% em receita.
O presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Calçados do Polo de Nova Serrana (Sindinova), Rodrigo Martins, avalia o atual cenário da indústria calçadista brasileira como desafiador. “O momento preocupa mais do que de anos anteriores, porque ainda existe uma perspectiva limitada de recuperação no curto prazo”.
“As empresas estão sendo pressionadas pelo enfraquecimento do mercado interno, pelo crescimento das importações e pelas dificuldades enfrentadas nas exportações. Em outros momentos, quando um mercado apresentava dificuldades, havia a possibilidade de compensação em outra frente. Atualmente, os desafios estão presentes tanto no mercado interno quanto no externo”, acrescenta.
Impacto em Nova Serrana
O polo calçadista de Nova Serrana possui uma importância muito grande para a economia do Estado de Minas Gerais como um todo, segundo analisa Martins. “Tomando como referência a produção regional, estimada em aproximadamente 100 milhões de pares por ano, o polo liderado pelo município representa, em termos aproximados, cerca de 12% da fabricação brasileira de calçados”.
O economista Ricardo Paixão explica que o impacto em Nova Serrana pode ser relevante. “A cidade possui uma economia fortemente vinculada à cadeia calçadista. E o efeito não fica restrito às fábricas, se espalha pelo comércio, pelo serviço, pela arrecadação municipal e pela renda das famílias”.
O setor
Paixão destaca que o crescimento das importações de calçados pode ser explicado principalmente pela elevada competitividade dos fabricantes asiáticos, especialmente países como China, Vietnã e Indonésia. “Essas economias operam com grande escala de produção, cadeias produtivas integradas, com elevada produtividade e custos unitários mais baixos, o que permite oferecer calçados a preços bastante competitivos”.
“Também contribui para esse movimento, o avanço das plataformas internacionais de comércio eletrônico, a facilidade de acesso aos produtos estrangeiros e a busca dos consumidores brasileiros por preços mais baixos, sobretudo em um contexto de renda familiar limitada e um elevado endividamento”, complementa.
Para o economista, o principal desafio do setor é o Custo Brasil. “Que envolve tributação complexa, infraestrutura insuficiente, elevados custos logísticos, crédito caro, insegurança regulatória e burocracia. Todos esses fatores aumentam o custo final do calçado nacional, assim como a necessidade de investimentos, a diferença de escala em relação aos concorrentes internacionais e as práticas desleais de concorrência”.
Perspectivas
O especialista acredita que esse momento apresenta características de uma tendência mais estrutural. “As importações vêm crescendo há vários anos e esses aumentos recentes ocorrem sobre bases que já eram elevadas. A tendência é que se prolongue enquanto houver uma diferença significativa entre os custos de produção nacionais e asiáticos”.
“As perspectivas são de crescimento bastante moderado, acompanhado de elevada incerteza. O futuro dependerá da capacidade de modernização das empresas, da abertura de novos mercados e da exigência de políticas que reduzam custos sistêmicos e preveem condições justas de concorrência”, finaliza.