
O mundo gerou 65 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos em 2023, o equivalente a 8,1 quilos por habitante. Apesar do volume recorde, apenas 24% desse total foi formalmente reciclado, o que significa que cerca de 50 milhões de toneladas deixaram de retornar às cadeias produtivas, desperdiçando materiais valiosos, como ouro, prata, cobre e paládio, segundo o relatório The Sustainable Development Goals Report 2026, da Organização das Nações Unidas (ONU).
A pesquisa ainda mostra que a pressão sobre os recursos naturais continua aumentando. Entre 2015 e 2022, o consumo doméstico de materiais no planeta cresceu 25%, passando de 92,1 bilhões para 115,1 bilhões de toneladas. O Brasil é o maior gerador de lixo eletrônico da América do Sul e recicla menos do que a média mundial.
Para o presidente da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE), Robson Esteves, embora o país tenha avançado no tema, com a Política Nacional de Resíduos Sólidos e da regulamentação da logística reversa, existem desafios. “Hoje já existe uma cadeia estruturada para receber esses equipamentos. O que precisamos é ampliar a participação das empresas e conscientizar o consumidor sobre o descarte correto”.
Segundo Esteves, muitos consumidores ainda mantêm eletroeletrônicos e eletrodomésticos sem uso dentro de casa, embora existam pontos de recebimento em todo o país. “O grande desafio é o desapego. Se o equipamento não tem mais utilidade, ele precisa retornar ao sistema para que seus materiais sejam reaproveitados”.
“Esse trabalho ocorre por meio da mineração urbana, que recupera metais e outros componentes presentes nos aparelhos descartados. A tecnologia vem evoluindo rapidamente. Hoje conseguimos recuperar materiais como ferro, alumínio e cobre com eficiência, enquanto a extração de ouro, prata e paládio ainda exige investimentos e tecnologias mais avançadas”, acrescenta.
Para facilitar o descarte, a ABREE mantém uma ferramenta que localiza os pontos de recebimento. Basta acessar abree.org.br/pontos-de-recebimento, informar o CEP e consultar o endereço mais próximo para entregar os equipamentos em fim de vida útil. Antes de descartar celulares, computadores e outros aparelhos que armazenam informações, a recomendação é fazer backup dos arquivos, remover contas vinculadas e restaurar o dispositivo às configurações de fábrica.
Transformar sem descartar
A reciclagem não é a única alternativa. Para o CEO da Tinsei, Bernard Martins, prolongar a vida útil dos equipamentos pode gerar resultados ainda mais expressivos para a economia e o meio ambiente. “Reciclar é importante, mas sempre que houver viabilidade técnica, preservar o equipamento gera mais valor do que desmontá-lo. A refabricação recupera o produto por meio de desmontagem, limpeza, substituição de componentes, testes e controle de qualidade”.
Em sua avaliação, o Brasil ainda mantém uma cultura baseada na substituição rápida dos equipamentos. “A economia circular exige que empresas e consumidores avaliem primeiro a manutenção, a atualização e o reaproveitamento”, aponta o CEO da Tinsei.
Martins acredita que um mercado mais estruturado de refabricação pode impulsionar empregos, inovação e competitividade. “A atividade movimenta técnicos, logística, controle de qualidade, vendas e serviços. Também amplia o acesso a equipamentos de alto desempenho por um custo mais competitivo, beneficiando empresas e consumidores”.
Para que esse potencial seja plenamente aproveitado, Martins defende incentivos públicos. “Equipamentos refabricados podem oferecer qualidade e garantia com custos menores. Políticas públicas e compras governamentais podem acelerar essa mudança e fortalecer uma cadeia produtiva mais sustentável”.
Na visão de Esteves, fortalecer a logística reversa também representa uma oportunidade econômica. “Essa cadeia pode gerar empregos, reduzir a dependência de matérias-primas importadas e fortalecer a indústria nacional. A estrutura existe, precisamos ampliar a adesão de empresas e consumidores”, conclui.