Mesada pode ensinar educação financeira

Poupar dinheiro deve ser estimulado desde a infância / Foto: Freepik.com

Em um país onde guardar dinheiro ainda é desafio para grande parte da população, especialistas defendem que a educação financeira precisa começar na infância. E uma ferramenta simples, comum em muitas famílias, pode fazer diferença nesse processo: a mesada.

Dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que mais da metade dos brasileiros não possui reserva financeira ou tem recursos suficientes para se manter por apenas um mês. E 31% da população não têm nenhum valor guardado, enquanto 20% contam com uma reserva limitada a até 30 dias.

Para a especialista em comportamento financeiro, Ana Leoni, esse cenário está ligado à ausência de aprendizado prático sobre dinheiro ao longo da vida. “A dificuldade de formar reserva não começa na vida adulta. Muitas vezes, ela é reflexo de hábitos que não foram desenvolvidos na infância”.

Nesse contexto, a mesada pode funcionar como um primeiro contato da criança com noções de planejamento, organização e responsabilidade financeira. Mais do que entregar uma quantia periódica, a proposta é usar esse recurso como ferramenta educativa.

Segundo Ana, ao administrar o próprio dinheiro, a criança aprende a fazer escolhas, lidar com limites e entender que nem todo desejo pode ser atendido de imediato. “A mesada precisa vir acompanhada de orientação. Ela é uma oportunidade para ensinar autonomia e mostrar consequências das decisões”.

De acordo com a especialista, o ideal é que o valor seja compatível com a realidade da família e que exista regularidade no pagamento, para que a criança consiga se planejar. Também é recomendável estimular a divisão do dinheiro em três partes: gastar, guardar e doar.

Outra estratégia importante é criar metas simples. Juntar para comprar um brinquedo, um livro ou outro item desejado ajuda a desenvolver paciência e disciplina, além de mostrar na prática como funciona o hábito de poupar.

Mais pessoas economizaram

Os dados da Anbima revelam que apenas 33% dos brasileiros conseguiram guardar algum dinheiro em 2025, índice superior aos 27% registrados em 2021. Entre quem conseguiu guardar recursos, a principal medida adotada foi reduzir gastos, especialmente com lazer.

Na avaliação de Ana, isso mostra que a reserva financeira não depende apenas de renda alta, mas principalmente de comportamento. “A reserva não é construída só quando sobra dinheiro. Nasce quando a pessoa cria o hábito de separar uma parte do que recebe, mesmo que seja pouco”.

Ela lembra que antes de falar sobre investimentos mais sofisticados, como fundos ou títulos privados, é necessário consolidar a cultura de poupar. Sem esse passo inicial, qualquer estratégia financeira tende a perder força no longo prazo.

“O exemplo dos pais também conta. Crianças observam hábitos cotidianos e aprendem com atitudes simples, como planejamento de compras, controle de despesas e conversas transparentes sobre consumo”, destaca.

Quando esse aprendizado começa cedo, aumentam as chances de formar adultos mais preparados para lidar com imprevistos, realizar objetivos e manter uma relação equilibrada com o dinheiro. “Educação financeira é educação para a vida. Ensinar uma criança a guardar dinheiro é ensinar sobre escolhas, planejamento e tranquilidade no futuro”, conclui Ana.

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