
A indústria de materiais de construção projeta um crescimento moderado de 1,9% em 2026, em um cenário marcado por incertezas econômicas e desafios no acesso ao crédito. A estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) se apoia, principalmente, na expectativa de melhora ao longo do segundo semestre e na continuidade de programas habitacionais.
Segundo o presidente-executivo da entidade, Paulo Engler, mesmo diante de um início de ano mais complexo, a perspectiva é de avanço gradual. “Acreditamos que o segundo semestre vai ser bom, então mantemos a projeção de crescimento de 1,9% para 2026”.
Na avaliação de Engler, os fatores que sustentam essa expectativa está o desempenho de iniciativas como o “Minha Casa, Minha Vida” e o Reforma Casa Brasil. “Há uma perspectiva de um milhão de moradias em 2026, o que, se acontecer, será ótimo para a indústria”.
“Sobre o Reforma Casa Brasil, é um programa bem elaborado, mas a limitação de acesso ao crédito pela população de baixa renda tem restringido a liberação de recursos. Caso isso seja superado, o setor será afetado positivamente”, acrescenta.
Apesar dessas apostas, o cenário segue desafiador. Segundo Engler, a taxa de juros elevada e o alto nível de endividamento das famílias continuam sendo obstáculos importantes. “A taxa continua muito alta, em 14,75%, o que dificulta o acesso ao crédito. Além disso, cerca de 80% das famílias com renda até R$ 3.300 estão endividadas, o que limita o consumo”.
O presidente da Abramat lembra ainda que o ambiente internacional também adiciona pressão. “Esse conflito no Oriente Médio tem impactado os custos de insumos. Os preços, principalmente de combustível, têm afetado fortemente o valor final dos materiais de construção. Já houve repasses, e essa situação ainda é imprevisível”, afirma.
Dentro desse contexto, a trajetória dos juros será determinante. “Se houver uma queda mais acelerada, teremos melhores condições de financiamento. Caso contrário, a tendência é de manutenção do cenário atual, o que pode afetar a nossa projeção”, afirma Engler.
Crescimento em março
Após esse pano de fundo, os dados mais recentes da Abramat indicam um início de recuperação. Em março, a indústria voltou a crescer após nove meses de retração na comparação anual. O faturamento avançou 3,1% em relação a fevereiro, com ajuste sazonal, e 1,6% frente ao mesmo mês de 2025. Apesar do avanço pontual, os indicadores acumulados ainda mostram fragilidade: queda de 4% no ano e de 3,3% em 12 meses.
Mesmo assim, o dirigente evita tratar o resultado como uma mudança consolidada de tendência. “Janeiro, fevereiro e março vieram com um resultado interessante. Imaginávamos que, mantendo essa constância, conseguiríamos ter uma mudança de cenário. Porém, a guerra no Oriente Médio mudou muita coisa”.
O desempenho do mês foi puxado pelos materiais básicos, que cresceram mais que os de acabamento, comportamento que reflete a realidade das famílias. “A venda de material básico mantém uma constância, porque envolve obras essenciais. Já o acabamento depende mais de financiamento, e as famílias estão muito endividadas e com juros altos”, conclui Engler.