Uso de rebite por caminhoneiros expõe riscos nas rodovias do país

As apreensões dispararam quase 450% – Foto: Magnific.com

Cerca de 27% dos caminhoneiros admitem utilizar algum tipo de substância psicoativa para enfrentar a jornada. Entre esses usuários, 35,4% citam o rebite. A 3ª Pesquisa Nacional da CNTA – Realidade do Transportador Autônomo de Cargas (2025) aponta também que o uso dessas substâncias está diretamente ligado às condições de trabalho.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) fez a maior apreensão de anfetaminas registrada pela instituição em 2026, no final de julho. Aproximadamente 93.753 comprimidos de rebite foram confiscados durante fiscalização na BR-153, em Tocantins. Até então, a maior ocorrência do ano havia sido registrada em junho, cerca de 45 mil comprimidos, da mesma substância, na BR-153, em Goiás. Dados da PRF apontam também para um aumento de quase 450% nas apreensões no primeiro semestre.

O coordenador-geral de Segurança Viária da PRF, Stênio Pires Benevides, salienta que um dos desafios da fiscalização é que esse problema possui várias dimensões. “Existe a questão da circulação e comercialização irregular dessas substâncias, que exige atuação policial, inteligência e fiscalização. Mas há também o consumo pelo próprio condutor”.

“Por isso, nossa atuação precisa olhar não apenas para a substância encontrada, mas também para os fatores de risco. Para a segurança viária, é fundamental identificar situações de fadiga, excesso de jornada e outras condições que possam comprometer a capacidade do motorista de conduzir com segurança”, acrescenta.

O Médico do Tráfego e Diretor de Qualidade Profissional da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Alysson Coimbra, ressalta que esses números são um sinal de alerta. “O problema vai muito além da droga em si. O chamado rebite é utilizado de forma indevida para prolongar o estado de vigília. E isso transforma a saúde do motorista em uma questão de segurança coletiva”.

Coimbra destaca ainda que o aumento nas apreensões não significa automaticamente um crescimento do consumo. “Pode existir maior circulação da substância, mas também mais operações, melhor inteligência policial ou grandes apreensões pontuais que elevam muito o total”.

Incentivo perverso

Segundo Coimbra, estudos com caminhoneiros relacionam o uso de anfetaminas justamente à tentativa de permanecer acordado durante as viagens. “Quando a remuneração ou a pressão econômica estimula jornadas excessivas, temos um incentivo perverso: o motorista passa a lutar biologicamente contra o sono para conseguir cumprir uma exigência profissional”.

Para o especialista, o enfrentamento do problema passa pelo combate à fadiga do caminhoneiro. “Com fiscalização da jornada e das substâncias psicoativas; cumprimento efetivo dos períodos de descanso; saúde integral do motorista profissional; e responsabilização de toda a cadeia de transporte por condições seguras de trabalho”.

Saúde do profissional

O diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL), Litti Dahmer, explica que encontrar alternativas para a resolução desse problema é difícil. “É uma decisão e uma pressão individual influenciada por vários fatores, que envolvem a jornada de trabalho, a dificuldade econômica e questões emocionais e pessoais”.

Precisamos de uma política pública realmente eficaz no âmbito da saúde, afirma Dahmer. “Esses programas precisam visualizar essa categoria para oferecer condições de atendimento médico e psicológico, para uma assistência em conjunto com a família”.

O acesso a esse público é difícil, porque o usuário precisa admitir o problema e querer fazer uma mudança no seu comportamento, complementa o diretor. “A solução tem que envolver tanto políticas públicas de saúde quanto questões econômicas, e ainda um suporte da família. É tratar o profissional, dar condições adequadas de tratamento, de auxílio e de ajuda para quem precisa. A luta é de todos”.

“O rebite não vence o sono, apenas mascara temporariamente um sinal de que o organismo precisa parar. Quando discutimos esse problema, não estamos falando somente da vida do caminhoneiro. Existem famílias que viajam ao lado de veículos que podem pesar dezenas de toneladas. Precisamos substituir a cultura de chegar a qualquer custo pela de chegar com segurança”, finaliza Coimbra.

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