
Adiar frequentemente a micção pode contribuir para o surgimento de infecções urinárias, desconfortos e alterações na função da bexiga. Em situações ocasionais, esse hábito normalmente não causa prejuízos, pois o organismo é capaz de armazenar a urina por determinado período até que seja possível realizar o esvaziamento da bexiga. No entanto, quando essa prática se torna recorrente, pode comprometer o funcionamento adequado desse órgão e aumentar o risco de problemas no trato urinário.
A bexiga é um órgão muscular que atua como um reservatório para a urina produzida pelos rins. À medida que a urina se acumula, ocorre a distensão de sua parede, ativando receptores sensoriais que enviam sinais ao cérebro, desencadeando a percepção da necessidade de urinar. Em adultos saudáveis, essa primeira sensação costuma ocorrer quando a bexiga contém aproximadamente entre 150 e 250 mililitros de urina.
Segundo o urologista Marcos Silva, a bexiga foi projetada para alternar ciclos de enchimento e esvaziamento. “Quando a pessoa segura o xixi de forma esporádica, o organismo geralmente consegue lidar com essa situação sem grandes consequências. Entretanto, quando isso acontece repetidamente, a musculatura da bexiga passa a trabalhar sob maior pressão e pode perder parte de sua eficiência ao longo do tempo”.
O especialista afirma que, “ao permanecer cheia por períodos prolongados, a bexiga sofre um estiramento contínuo de suas fibras musculares, embora esse processo não cause danos imediatos na maioria das pessoas, a repetição frequente pode comprometer a capacidade de contração durante a micção, dificultando o esvaziamento completo do órgão e como consequência, pequenos volumes de urina podem permanecer na bexiga após a micção, criando um ambiente mais favorável para a multiplicação de bactérias”.
As infecções urinárias estão entre as complicações mais conhecidas associadas ao hábito de adiar a micção, embora segurar o xixi não seja, isoladamente, a causa dessas infecções, o esvaziamento incompleto da bexiga e a permanência prolongada da urina podem favorecer a proliferação de microrganismos, especialmente em pessoas que já apresentam outros fatores de risco.
Além das infecções, o médico alerta para alterações funcionais da própria bexiga. “Com o passar do tempo, algumas pessoas podem desenvolver dificuldades para perceber corretamente a vontade de urinar ou apresentar alterações na frequência das micções, em casos mais graves, também podem surgir episódios de retenção urinária, condição em que a pessoa encontra dificuldade para eliminar a urina de maneira adequada”.
O nefrologista Eduardo Vasconcelos, destaca que a saúde urinária depende de um funcionamento coordenado entre rins, bexiga, nervos e músculos do assoalho pélvico. “Quando alguém ignora constantemente os sinais enviados pela bexiga, acaba interferindo em um mecanismo fisiológico bastante complexo. Em algumas situações, isso pode alterar a sensibilidade do órgão e prejudicar seu funcionamento normal”.
Ele ressalta que grupos profissionais, como motoristas, professores, profissionais da saúde, operadores de máquinas e trabalhadores que possuem poucas oportunidades para fazer pausas ao longo do expediente, costumam estar mais expostos a esse comportamento. “A rotina intensa faz com que muitos adiem repetidamente a ida ao banheiro, transformando uma situação excepcional em um hábito diário”.
Muitas pessoas acreditam que treinar a bexiga significa suportar a vontade de urinar pelo maior tempo possível. No entanto, o treinamento vesical é uma técnica indicada apenas em situações específicas, como casos de bexiga hiperativa ou incontinência urinária, e deve ser realizado com orientação profissional, além disso, a frequência considerada normal para urinar varia de pessoa para pessoa, de acordo com fatores como idade, hidratação e condições de saúde. Em geral, urinar entre quatro e oito vezes ao dia é considerado compatível com um funcionamento saudável.
Vasconcelos também destaca que manter uma boa hidratação é essencial para a saúde do sistema urinário, enquanto reduzir a ingestão de água para evitar idas ao banheiro pode favorecer infecções e cálculos renais em pessoas predispostas. “Caso surjam sintomas como dor ou ardência ao urinar, sangue na urina, dificuldade para esvaziar a bexiga, perdas involuntárias de urina ou aumento da frequência urinária, é importante procurar avaliação médica”.