Buscando alternativas

A guerra entre Rússia e Ucrânia, cujo conflito já dura mais de 3 anos, está sendo incrementada com ataques chegando agora às capitais Moscou e Kiev, respectivamente. As perdas de vidas estão aumentando e os efeitos econômicos também. Ao mesmo tempo, a recuperação da Faixa de Gaza prevista no acordo de “cessar-fogo” caminha lentamente, em uma crise humanitária sem igual. E a “guerra” entre Estados Unidos e o Irã, prevista pelo presidente Donald Trump para durar dias, vai se estendendo sem solução e afetando os preços do petróleo no mundo. O Papa Leão XIV mantém as críticas às guerras em geral na esperança de que possamos ter a paz de volta e que as relações internacionais se normalizem em benefício da humanidade. Simultaneamente, assistimos a um avanço da “inteligência artificial”, que apesar de trazer mais progresso, informações e simplificações traz também preocupações com o desemprego, com as fraudes e com os limites a que podemos chegar. Daí vem o título do artigo, “Buscando alternativas”. Na área energética vivemos grandes transformações com as energias renováveis, em especial, a solar, a eólica e as baterias que usam as chamadas terras raras para impulsionar motores. Entretanto, os preços continuam afetando todos os países e trazendo conflitos, preconceitos e retrocessos civilizatórios. O ódio entre irmãos e o problema crescente das imigrações não estão sendo enfrentados com iniciativas que possam compatibilizar as demandas. Não basta construir novos muros que já se mostraram ineficazes, e algumas alternativas mundiais lembram tempos de barbáries. Os reflexos na área pública não são exclusivos do Brasil, mas aqui tomaram rumos de radicalização nunca vistos. Nos Estados Unidos, as repetitivas ameaças do presidente Trump transformaram o país, outrora exemplo de liberdade e democracia, em uma nação conturbada mais desigual do ponto de vista social. Sentimos saudades daquele período mundial que possibilitou a abertura das fronteiras, o aumento do fluxo turístico e da troca de ideias, intercâmbio cultural, que permitiu a realização da Copa do Mundo de Futebol na Rússia, em 2018, como um exemplo de paz entre os povos e as nações. Precisamos juntar esforços, não perder as esperanças, enfrentar as mentiras e a demagogia, renovar os quadros e os métodos de trabalho, não aceitar a violência e o descumprimento de leis e regras mínimas de convivência. É hora de buscarmos alternativas factíveis!

Desconfiança e economia

Todos brigam e ninguém tem razão. Esta expressão continua cada dia mais atual. O ânimo de boa parte da população brasileira está baixo, demonstrando desconfiança e desilusão. Se verificarmos os indicadores econômicos, a realidade comparada com outros períodos até que está suportável. A inflação está sob controle aparente, segundo órgãos oficiais como o IBGE, e órgãos acadêmicos como a Fundação Getúlio Vargas, mas os profissionais liberais com receio das novas regras fiscais estão aumentando as contas em percentuais superiores aos 5% do IPCA. O risco Brasil, em outros momentos muito vigiado, está pouco acima de 100 pontos podendo ser considerado bom. Já o desemprego mostra números baixos, mas desconfia-se de eventual manipulação e influência de programas de apoio à baixa renda. O dólar oscila em torno de R$ 5, significando uma normalidade, e o crescimento econômico em 2026 caminha para ficar em 2% ao ano. Ocorre, entretanto, que vivemos uma situação de dívidas públicas e privadas que assusta e desestimula novos investimentos. Não é aceitável que o presidente da República diga em canal nacional de televisão que não se preocupa com a dívida do país. Comparando-se com países em estágio semelhante de desenvolvimento, o Brasil tem posição intermediária. Qual o motivo então de tamanha preocupação? Respondo que o problema é a desconfiança que atinge a todos. Desconfiança com as instituições, com a reforma tributária já em implantação, com os sinais de custo de vida em ascensão, com as novas tecnologias que hora encantam e hora desencantam. Desconfiança com a insegurança que atinge até cidades pequenas outrora tranquilas. Culpava-se a imprensa tradicional, mas hoje a mídia eletrônica perde a credibilidade a cada dia. Volto ao tema Desconfiança, agora para destacar o momento importantíssimo das Eleições Gerais. Daqui a poucos dias, cerca de 150 milhões de eleitores estarão registrando seus votos e em nível nacional com repetição da radicalização dos extremos ideológicos. As acusações de corrupção destroem esperanças de lado a lado e a inacreditável atuação do Banco Master atinge a Justiça. Mais desconfiança e fortíssima. Como somos um país muito extenso, a realidade política varia muito com consequências desiguais. Alguns candidatos clamam por mais transparência, mas na hora dos debates fogem da exposição pública. As promessas fáceis continuam desconsiderando a complexidade da gestão pública, sujeita a regras burocráticas e a um grande número de órgãos fiscalizatórios que aumentam o já enorme custo de governança. Nós mineiros somos desconfiados por natureza, mas costumávamos “dar um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair”. E agora? Um alerta permanece, muito cuidado com os populistas que somam hipocrisia e demagogia. Pesquisar mais, ouvir pessoas experientes e desconfiar, porém, sem excesso, pode ser um bom caminho.

Momentos decisivos

O processo eleitoral está sendo acelerado e as indefinições permanecem. Nunca é demais lembrar que os votos definirão caminhos que afetam a vida de cada um. Lamentar depois não vale. Mas como escolher as melhores alternativas em um mundo cada vez mais conturbado? Na Grécia antiga, berço da democracia, as decisões eram tomadas pelos senadores escolhidos pela população. Ocorre que a população era pequena e hoje no Brasil são 158.745.463 eleitores, um enorme desafio. Para ouvir essa população tão diversa, as eleições passaram por mudanças constantes até chegarmos às urnas eletrônicas, usadas há 30 anos. Infelizmente, incrédulos e pouco informados insistem em tentar desqualificar um avanço tecnológico que surgiu dos esforços de mentes de visão como a do ministro Carlos Mário Velloso, que em 1994 tomou a decisão de acabar com os vícios e fraudes que caracterizavam a votação manual. A revista Veja em uma matéria recente, que mereceu sua capa, trouxe um raio X, uma descrição séria de todo o processo esclarecendo dúvidas. Evidentemente, os aprimoramentos continuaram sendo feitos desde a versão inicial, que tive o privilégio de acompanhar e apoiar como profissional da tecnologia da informação e como governante e legislador. O Registro Digital do Voto (RDV) foi proposto por mim como senador, em 2003, e transformado em Lei. Este registro individualizado por urna permite a gravação criptografada de cada voto, garantindo a auditagem e preservando o sigilo. Aliás, este é o ponto nevrálgico pouco entendido do sistema eleitoral: o “sigilo do voto”. É uma definição constitucional e, portanto, não se pode imprimir o voto. Temos um sistema eleitoral confuso. O financiamento público de campanha com o Fundo Eleitoral, apesar das boas intenções, acabou por entregar a gestão aos presidentes de partidos que se transformaram em “donos de partidos”. Os deputados federais e estaduais são eleitos pelo sistema proporcional, ocasionando distorções e disputas internas. As emendas parlamentares, antes de pequeno valor, hoje exercem uma influência negativa sobre a renovação parlamentar. Com as novas tecnologias de comunicação, a influência dos programas eleitorais gratuitos pelo rádio e TV diminuiu, mas ainda é importante. Por outro lado, as fake news, as calúnias e agressões crescem à medida em que o anonimato e a inteligência artificial chegam a agredir o senso comum. Os partidos em número exagerado não fazem a seleção necessária de candidatos. Vivemos, portanto, momentos decisivos para a economia brasileira. Quem propõe, discute e aprova leis estará sendo escolhido pelos eleitores e estes eleitores precisam procurar se informar para participar com responsabilidade. Candidatos populistas com críticas fáceis e sem propostas exequíveis só servem para iludir a população. Governar não é fácil, exige preparo, relacionamento, temperança e caráter. Legislar exige formação, capacidade de trabalho em equipe e conhecimento. Cuidado eleitor, uma escolha malfeita redunda em mais dificuldades econômicas, queda da qualidade de ensino e da saúde, insegurança e obras inacabadas. Resulta também em desperdício de dinheiro, inclusive sob a forma de corrupção. O político correto existe em partidos tanto de esquerda, direita ou também de centro. Não caia na armadilha daqueles que se dizem apolíticos, pois a política está em todas as atividades e é uma ciência fundamental para o enfrentamento de desigualdades. Chega de ódio, extremismo e ilusão. Do seu voto pode resultar prejuízo para você, seus filhos e netos.

JK e a Economia – resposta a liberais extremados

O recente livro do vice-presidente do BDMG, Antônio Claret Júnior, apesar de reconhecer os inúmeros méritos de JK, procura imputar-lhe os males fiscais de hoje, não contextualizando os períodos econômicos do Brasil e do mundo nos anos 1950. A inflação é um fenômeno que sempre existiu. A crise de 1929 nos Estados Unidos e a hiperinflação alemã que levou ao surgimento do nazismo são exemplos marcantes. No Brasil, tivemos a troca da moeda de 1000 réis para 1 cruzeiro em 1942. A era JK foi no pós-Guerra Mundial e tínhamos a população majoritariamente vivendo no litoral. Havia carência de energia, de estradas, de empregos e alimentos. O desenvolvimentismo veio para industrializar o país e foi necessária a continuidade de investimentos somados à atração de empresas estrangeiras com financiamento público. O endividamento público se iniciou há cerca de 200 anos quando a “abertura dos portos” por Dom João VI atraiu financiamentos de bancos ingleses e os recursos foram utilizados por Dom Pedro II para infraestrutura ferroviária e para cobrir as despesas da Guerra do Paraguai. Não se pode, portanto, omitir nossa origem colonial. Sem a intervenção estatal, comum em países de grande extensão e grande população, ainda estaríamos muito mais atrasados. A iniciativa privada não assume obras de prazo de retorno financeiro longo pela natureza de sua busca legítima pelo lucro. Trata-se, portanto, de uma discussão sobre liberalismo e a necessidade de integração de todas as camadas populares. Daí surgiu a social democracia que concilia as demandas. O “Programa de Metas” de JK foi concebido pelo também mineiro Lucas Lopes e foi uma iniciativa de planejamento público exequível, distante do populismo imediatista e dos longos planos quinquenais do comunismo soviético. O livro erra e peca enormemente ao dizer que JK atrasou a economia de mercado quando o que ocorreu foi exatamente o contrário. JK criou as condições para um novo país, moderno, democrático e mais justo. É importante lembrar que Brasília foi construída utilizando principalmente investimentos dos Institutos de Aposentadoria e Pensões existentes na época (IPASE, IAPI, IAPC, IAPB, IAPFESP, IAPM, IAPTEC) para a instalação de prédios habitacionais, administrativos e até hospitalares, além da venda de lotes e prédios pela Novacap e não somente recursos orçamentários como costumeiramente desinformam alguns detratores. O maior legado de JK foi a expansão das fronteiras internas que possibilitaram a redistribuição populacional e a riqueza do agronegócio. Brasília é o símbolo deste movimento. Juscelino Kubitschek foi um visionário de sucesso que enfrentou uma oposição interna que chegou a tentar dois golpes militares e pressões externas que o forçaram a romper com o FMI que pretendia tutelar o governo. Até hoje, grandes projetos só se viabilizam com a participação estatal. O BNDES, criado no Governo Vargas, em 1952, é chamado a participar de todas as concessões à iniciativa privada (aeroportos, estradas, usinas elétricas, portos, ferrovias e metrôs). Não é verdade, portanto, que JK endividou o país, criou a inflação ou promoveu estatização demasiada. Ele continua sendo nosso maior estadista. Esta é a verdade histórica.

Desafios

As eleições gerais se aproximam e novamente se repete a polarização de 4 anos atrás. O clima demonstra não uma disputa democrática, mas sim uma disputa de versões, de Tik Toks, de fake news e agressões. Passaram- -se quatro anos e o desafio permanece. Como conciliar um país gigantesco com realidades tão distintas e tão díspares? Não viramos uma nova Venezuela, como alguns defensores do apocalipse pensavam, mas também não avançamos como podíamos ou deveríamos. Os índices econômicos, justiça seja feita, mostram um desemprego relativamente baixo, um risco também reduzido, um dólar e a inflação sob controle. Porém, o custo fiscal explode, os juros ainda continuam estratosféricos e o futuro incerto. Não é muita novidade para quem viveu períodos de inflação descontrolada, onde o planejamento era quase impossível e o remédio da correção monetária matava o paciente. Vivi como prefeito de Belo Horizonte um período de altíssima inflação e como governador do Estado um período de adaptação a novos tempos que passaram a exigir aumento de produtividade e reorganização administrativa. O pós-Real trouxe a hora da verdade e os desafios econômicos mudaram. As privatizações e concessões modernizaram nossa comunicação, siderurgia e mineração, e trouxeram bilhões de investimentos estrangeiros no setor automobilístico. Não se discutia ideologia de direita ou de esquerda. Discutia-se desenvolvimento. Em apenas 4 anos, recebemos em Minas Gerais seis presidentes ou chefes de Estado entre os quais o Imperador do Japão e os presidentes de Portugal e do Líbano. Qual foi o último dirigente internacional que veio a Minas nos últimos 11 anos? O desafio permanece apesar do bom desempenho da atração de investimentos nos anos mais recentes. Minas Gerais necessita avançar e se impor nas discussões nacionais para exatamente fazer valer nossa tradição de serenidade e de entendimento. Não é impossível conciliar liberdade econômica com benefícios sociais e presença do poder público. Os países europeus demonstram isso até hoje, mesmo enfrentando um acelerado crescimento das imigrações. O acordo Mercosul e União Europeia finalmente está se iniciando e as perspectivas delineadas desde a histórica reunião de criação do Mercosul em Ouro Preto, em 1994, obviamente nos trazem esperanças assim como a reforma tributária. Ambas trazem também preocupações e dúvidas, mas sinalizam uma saída do imobilismo. Resta outra enorme tempestade, a corrupção. Muitos estão ficando ao lado da estrada. Não se pode condenar todos a priori, mas temos insegurança e desrespeito inimagináveis. Os desarranjos e até abusos entre os Três Poderes da República se multiplicam. A desconfiança traz um enorme custo financeiro e a burocracia fiscalizatória atrasa o inadiável avanço necessário na infraestrutura. A História está repleta de exemplos de supostos salvadores da pátria, bastando lembrar de Jânio Quadros, e não podemos incorrer em novos erros que nos deixem atrás de antigos concorrentes como Coreia e Índia. Enfim, os desafios aí estão, reciclados, a inteligência artificial e as redes sociais com suas vantagens e desvantagens estão cada vez mais presentes e a segurança pública é um desafio assustador. O agronegócio e a descentralização populacional são grandes aliados. Até mesmo por instinto de sobrevivência precisamos enfrentar os desafios com coragem, sem demagogia, sem oportunismo, com objetividade, verdade e conhecimento.

Defesa Nacional

O Brasil está preparado para se defender de ameaças externas? Esta é uma pergunta que normalmente nunca nos preocupou apesar do enorme território, a quinta maior área entre os mais de 200 países do mundo. Entretanto, ocorre que o clima de beligerância e radicalização que tem preocupado a todos aumenta a cada dia. Depois da Guerra do Vietnã, os Estados Unidos pareciam ter ficado mais cautelosos antes de iniciar uma nova ação que pudesse repetir o drama vivido com a resistência que tanto desgaste e perdas trouxe aos americanos. A morte de Saddam Hussein foi um objetivo atingido com sucesso, assim como a recente captura de Maduro na Venezuela. O apoio a Israel sempre foi uma realidade norte-americana e a reação aos terroristas do Hamas que mataram covardemente mais de 1.200 jovens israelitas teve um apoio inicial forte. No entanto, a demora da reação levou a uma destruição enorme na Faixa de Gaza com milhares de perdas de vítimas civis e a volta da defesa de dois Estados, Israel e Palestina, pela maior parte dos países desenvolvidos. Calcula-se em bilhões e bilhões de dólares a necessidade de recursos para a reconstrução da Faixa de Gaza. O terrorismo continua ativo no Oriente Médio e o financiamento das atividades do grupo Hezbollah justificou a nova entrada dos Estados Unidos em uma guerra associado a Israel. O assassinato de Aiatolá Khamenei, líder religioso do Irã, foi o início de uma nova frente de batalha, desta vez contra um país milenar, rico em petróleo, com uma população de 92 milhões de habitantes, com localização estratégica e com secular tradição guerreira. Sem respeitar as regras de seu próprio país, o presidente Donald Trump tem tomado decisões à revelia do Congresso, atacando seus aliados e cometendo uma série de idas e vindas, de ameaças e recuos que trazem insegurança a todo o mundo. Por outro lado, a Guerra da Rússia contra a Ucrânia, iniciada com a invasão de parte do país, continua sem uma solução a curto prazo. Neste caso, Trump vacila e exibe sinais de inconstância, preferindo ter ganhos econômicos. O fato das perdas materiais e humanas em um país conhecido por sua produção agrícola e mineral, além da tradição de belezas arquitetônicas, religiosas e alta tecnologia não consegue sensibilizar o presidente Vladimir Putin, que já está no poder há cerca de 20 anos. Saudades dos tempos da Copa do Mundo de Futebol realizada na Rússia, quando o país se abriu para o mundo. O Papa Leão XIV tem se apresentado como um grande defensor da paz mundial. Sua atuação alerta a todo o mundo da necessidade de entendimento e de esforços para se evitar a piora das relações internacionais, atingidas por uma polarização que em nada contribui. Mesmo assim, seu compatriota Donald Trump investiu contra a figura maior da cristandade com deboche e colhe agora a reprovação majoritária daqueles que não aceitam a volta dos tempos da “Lei dos mais fortes”, dos impérios transnacionais. Esta é a realidade que se apresenta aos responsáveis pela segurança e defesa do Brasil. Aqui em nosso país, pacífico por natureza, a radicalização também tem campeado e a nossa renomada diplomacia relegada a segundo plano. Precisamos de coerência para enfrentarmos ditaduras de esquerda ou de direita. As nossas Forças Armadas precisam de recursos e de apoio para continuarem a expandir seu trabalho de proteção de nossas fronteiras, esforço hercúleo que tive a oportunidade de conhecer como presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal. O “Livro Branco da Defesa Nacional”, divulgado na época do ministro Nelson Jobim, traz as linhas mestras desta ação de dissuasão, termo que reflete a máxima romana: “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) precisa ser acelerado e o uso de drones e veículos não tripulados é urgente, inclusive no combate às facções criminosas que têm assustado o país. A Marinha tem mostrado avanços no programa de submarinos convencionais e nucleares, porém, com atrasos que levaram também ao adiamento da Base Naval do Nordeste, mantendo até hoje a concentração no Rio de Janeiro. A Aeronáutica tem como projeto permanente a necessidade de renovação de equipamentos e a incorporação dos novos jatos Gripen, projeto iniciado ainda no Governo FHC e que teve grande participação do Senado Federal na garantia de absorção tecnológica. Os novos aviões de transporte fabricados pela Embraer, os KC390, são um avanço. Porém, todos os projetos também estão atrasados. O Exército tem renovado seus veículos blindados, produzidos pela Iveco em Sete Lagoas, mas também carece de mais recursos que possam acelerar nosso preparo para ação em terra. A preparação de novos militares significa estarmos atentos para dissuadirmos possíveis ameaças que há tempos atrás se mostravam impensáveis. A vizinha Venezuela ameaçou invadir a parte mais rica da Guiana e espera-se que a troca de comando com a saída do ditador Maduro possa significar uma mudança de rota. Com um presidente dos Estados Unidos que ameaça até os aliados e diz querer anexar Canadá, Groenlândia e até o México, é importante entendermos que a segurança que tínhamos, no qual armas nucleares e ações bélicas estavam distantes, não pode mais prevalecer. Pode parecer incoerência, porém, com uma Defesa Nacional respeitada seremos mais respeitados, sem esquecermos nossas tradições pacíficas e de preocupações sociais urgentes.

Demagogia e contradição

A narrativa, palavra que entrou na moda, procura dar uma determinada versão aos fatos. Na economia e na política são inúmeros os exemplos de exploração de acontecimentos com objetivos populistas, demagógicos ou oportunistas. Nas recentes chuvas e desmoronamentos ocorridos na Zona da Mata, vi matéria de um jornal diário distorcer fatos que ocorreram no já longínquo ano de 1997. No início de janeiro daquele ano, era eu o Governador do Estado e, após dois anos de intenso trabalho, tirei alguns dias de descanso e aproveitei o final de ano e fui com minha esposa e filhos à Itália, onde recebi a benção do Papa São João Paulo II. Como prevê a Lei, na ausência do vice-governador que também havia viajado, assumiu o governo o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Agostinho Patrus. Mas houve o aumento da intensidade das chuvas que, infelizmente, resultaram em mortes, mesmo que o governador em exercício tivesse tomado todas as providências necessárias para prestar os atendimentos emergenciais, com a mobilização da Defesa Civil, das polícias e órgãos de saúde pública, como deve ocorrer em um Estado organizado. Em Roma, onde estava naquele momento, fui procurado em um hotel por uma jornalista correspondente do mesmo jornal, e como democrata que sempre fui, não me furtei a conceder uma entrevista. Expliquei todas as providências tomadas e comuniquei que, apesar disso, anteciparia a volta para Belo Horizonte na tarde daquele mesmo dia, após a benção do Santo Padre e a mudança das passagens aéreas, obviamente foram pagas por mim, pessoalmente. Na época, ainda não existia a facilidade dos telefones celulares, e eu recebia as notícias através de fax. Para minha surpresa, vi, porém, que a manchete do jornal no dia seguinte explorou de forma maldosa a minha ausência do Estado. Embora eu nada precisasse acrescentar às providências diligentes já tomadas pelo governador em exercício, ao chegar ao Aeroporto da Pampulha, de lá mesmo fui diretamente ver in loco a situação em Governador Valadares e em outras cidades, como Moeda, Jequitibá e Ponte Nova. Em seguida, reuni minha equipe de governo e dei entrevista no Palácio da Liberdade ao lado do então ministro da Saúde, e relatei as providências que já tinham sido tomadas e que mereceram os cumprimentos do ministro. Quando chegaram as eleições de 1998, vi com tristeza o meu principal adversário associar politicamente o desastre das chuvas com os números das pesquisas que mostravam um empate, registrado por outro jornal diário, em 7 de setembro de 1998, com a manchete “Pau a Pau”. Mera coincidência? Agora neste ano, durante as fortes chuvas, deslizamentos de encostas e desabamento de casas na Zona da Mata, vimos novamente grande número de políticos e antipolíticos correr para filmar as cenas do desastre e colocar nas redes sociais imagens posadas, para demonstrar ou cobrar ações já tomadas pelos órgãos públicos, que de alguma forma até atrapalhavam as ações da Defesa Civil, como registraram as próprias mídias tradicionais e digitais. Críticas de uns a outros não faltaram, repassando as culpas recíprocas. Em conclusão, os mesmos que no passado criticaram a ausência de governo, agora criticam a presença. E os mesmos que criticam a interferência política, agora buscam ganhar dividendos políticos. As perdas humanas, as perdas econômicas e a superficialidade infelizmente permanecem, tanto da parte dos novos políticos quanto dos seguidores de que notícia ruim dá audiência. Da minha parte, continuo avesso à demagogia e ao oportunismo, sobretudo em situações de calamidade pública.

Aprendizado digital para idosos

Nos anos 1970, quando iniciei o aprendizado da computação, as perspectivas de introdução das novas tecnologias digitais eram muito incertas e até improváveis. Não existiam cursos nas faculdades e as grandes empresas como IBM e Burroughs tinham seus centros educacionais próprios. Com uma rapidez incrível, o crescimento aconteceu em escala geométrica. O que era exclusivo e limitado ao meio acadêmico e aos escritórios de contabilidade foi se expandindo até atingir praticamente todas as atividades econômicas do mundo atual. As palestras buscavam mostrar o que era a nova ciência de processamento de dados, de informática, de computação, de tecnologia e enfim demonstrávamos as potencialidades de crescimento de novas carreiras profissionais com suas modificações no perfil dos profissionais, com a melhoria nos procedimentos administrativos, com a rapidez nas demonstrações contábeis, com a segurança das informações, com o cruzamento de informações para combater a corrupção, com a modernidade. Atividades e profissões surgiram e desapareceram em curto espaço de tempo, como ocorreu com os digitadores, datilógrafos, taquígrafos, operadores de telefonia e telex para ficar em alguns exemplos. O primeiro emprego que surgiu com a digitalização de dados passou para os “call centers” de atendimento telefônico e gravações. Chegamos a uma digitalização excessiva? Caixas automáticas, códigos de barras, QR Codes, senhas eletrônicas, leitores biométricos, tudo foi sendo introduzido sem uma educação abrangente e diversa. Algumas regras e dispositivos foram incluídos no nosso dia a dia com uma assimilação rápida pelas novas gerações, mas e os idosos? Como atendê-los? E como enfrentar as fraudes em ambientes onde as pessoas de mais idade são as mais visadas e atingidas? Surge então uma nova profissão que exige antes de tudo muita paciência: os técnicos de computação, de telefones celulares e de meras atividades informatizadas voltados para a chamada terceira idade. Muitas destas “modernidades” desempregaram atendentes e dificultaram a assimilação pela parte da população que vai sendo superada pelas “novidades”. Ficou famosa a publicidade na qual os pais ou avós pedem socorro aos filhos e netos para fazerem uma atividade para a qual não foram preparados. A quantidade de informações e dados e sua velocidade de transmissão são fantásticas, porém, “devagar com o andor que o santo é de barro”. O “gap” tecnológico pode ou já está aumentando desigualdades sociais e econômicas. A inteligência artificial é outro fenômeno que surpreende e até confunde. Até nós, os dinossauros dos computadores de grande porte, dos cartões perfurados e dos relatórios em formulário contínuo, por vezes nos sentimos meio perdidos sem conseguir acompanhar as exigências de novas expressões, de menus, de versões de software e hardware. Daí a importância da nova profissão: técnicos especializados no atendimento digital para pessoas com mais de 60 anos. E viva os novos tempos!

Sul de Minas

A economia sul-mineira que já era forte aumentou significativamente depois da duplicação da rodovia BR-381 Fernão Dias, com 576 km ocorrida nos anos 1990. Os dados demonstram com clareza como a atração de empresas aumentou graças à melhor logística. Este bom exemplo de ação conjunta e de continuidade administrativa deve servir de modelo para todos os administradores públicos. O movimento de defesa da duplicação praticamente começou a partir de um projeto bem elaborado pelos governos Fernando Collor e Hélio Garcia, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e contrapartidas do governo federal e do governo mineiro. Collor saiu, mas o seu vice, Itamar Franco, continuou. Hélio Garcia manteve a prioridade e após a eleição de Fernando Henrique Cardoso para presidente da República e Eduardo Azeredo, este autor que registra a história, para governador, as obras foram executadas até a inauguração total. Mas não foi tão simples, pois em julho de 1994, tivemos a implantação do Plano Real e após paralização das obras tivemos que voltar aos Estados Unidos, sede do BID, para retomar e adaptar os contratos à nova realidade financeira. Pelo menos dois problemas ameaçaram a execução: o contorno de Betim e a ocorrência de “terra podre” em trecho no Sul, o que exigiu novas negociações e um voto de confiança pessoal do presidente do BID na minha pessoa. Pelo lado paulista, o governador Mário Covas foi também eficiente e as obras delegadas aos governos estaduais para execução foram concluídas com benefícios permanentes para a população. O pedágio deveria pagar o financiamento que tinha 75% de responsabilidade federal e 25% de responsabilidade estadual, ou seja, quem usasse a estrada pagaria as parcelas da dívida. Engenharia financeira de sucesso que acabou não sendo usada nas duplicações ainda pendentes em nosso Estado, como a BR-262 para o Triângulo, e a BR-381 Norte, para o Leste mineiro e o Espírito Santo. A BR-040 também ainda não está inteiramente duplicada e as concessões à iniciativa privada ainda não conseguiram atender a necessária demanda. As rodovias federais tinham sido delegadas ao Governo de Minas, mas em um ato de descontinuidade administrativa, o então governador Itamar Franco optou por desfazê-las. A infraestrutura foi e é fundamental, inclusive no atual governo do Estado, para termos o crescimento que qualquer um pode verificar pelo movimento de caminhões, ônibus e automóveis na estrada. O índice de desenvolvimento humano do Sul de Minas demonstra o acerto dos esforços de tantos, passados quase 30 anos. É gratificante ver o desenvolvimento do Sul de Minas, com a geração de milhares de empregos e a melhoria da qualidade de vida influenciada pela instalação de centenas de empresas, muitas delas atraídas pela proximidade com o mais industrializado estado brasileiro, São Paulo.

E agora, o que fazer?

Em uma democracia clássica, a vontade da maioria deve prevalecer, e no nosso mundo ocidental, permanece a estrutura de poderes independentes no sistema de pesos e contrapesos. Ocorre que como bem escreveu Steven Levitsky no interessante livro “Como as Democracias Morrem”, a tentação do poder, as ideologias e as fake news ameaçam o funcionamento normal de uma sociedade moderna civilizada. Em 2009, exercendo o cargo de senador da República por Minas Gerais, já alertava para os riscos dos crimes cibernéticos e suas consequências para o mundo. Conseguimos aprovar alguns avanços na tipificação de crimes, especialmente na obrigatoriedade de guarda do IP (internet protocol), que mostra a localização das postagens; e a entrada do Brasil na Convenção de Budapeste, que possibilita intercâmbio de ações entre os países signatários para o combate aos crimes transfronteiras. Não foi fácil e ainda precisamos de novos complementos mesmo com a aprovação do Marco Civil da Internet. Nos Estados Unidos, o debate sobre o uso do aplicativo TikTok tem forte defesa do governo para proteger as informações dos cidadãos e das empresas em virtude da origem chinesa da rede. No Brasil, quando se fala em regulamentar o funcionamento das redes sociais, a discussão é distorcida para o campo do risco de censura. As sobretaxas impostas pelo presidente Donald Trump em nome dos Estados Unidos da América podem ter um valor interno de combate ao gigantesco déficit fiscal americano buscando elevar receitas. Ocorre, entretanto, que no caso brasileiro os dados não são de déficit e sim de superávit norte-americano. A inclusão de aspectos políticos baseados em informações particulares, distorcidas sobre a realidade do nosso país, trouxeram uma quebra de confiança sobre o sistema de notícias que chegam ao atual governo a respeito de muitas regiões de conflitos pelo mundo afora e aqui se transformaram em argumentos para que o governo Lula “saísse das cordas” e aproveitasse para tirar benefícios políticos ao defender a soberania nacional. Daí que veio o título deste artigo: E agora, o que fazer? Evidentemente, a nossa tradicional e reconhecida diplomacia precisa se libertar dos ranços ideológicos sem, entretanto, abdicar da defesa dos nossos interesses. Quanta saudade do embaixador mineiro Paulo Tarso Flecha de Lima! As fake news prosperam, a leitura seletiva permanece e os extremos se exacerbam. Maus brasileiros incorrem em traição ao exagerar pelos dois lados do espectro ideológico e mais do que nunca precisamos de paz, entendimento, serenidade e bom senso.