Rodovias precisam de R$ 49,93 bilhões em obras para manutenção e reconstrução

Orçamento prevê R$ 12,46 bilhões para o modal em 2027 – Foto: Ministério da Infraestrutura

A infraestrutura de transportes brasileira enfrenta o desafio de manter e ampliar sua capacidade em meio à redução dos recursos públicos destinados ao setor. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 prevê R$ 16,07 bilhões em investimentos na área, queda de 4% em relação à proposta de 2026. O recuo contrasta com o crescimento projetado de 12,8% para os investimentos públicos federais totais, segundo levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Conforme a gerente-executiva de Economia da CNT, Fernanda Schwantes, o volume de recursos aplicado nas últimas décadas é insuficiente até para conservar a infraestrutura existente, além de limitar a construção de novas rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. “A insuficiência de recursos compromete a conservação da infraestrutura existente, acelera a sua deterioração e aumenta a necessidade de intervenções mais caras no futuro”.

A diferença entre o orçamento e a demanda é expressiva nas rodovias. Para 2027, estão previstos R$ 12,46 bilhões em investimentos da União no modal rodoviário. Já a Pesquisa CNT de Rodovias 2025 estimou em R$ 49,93 bilhões o necessário para manutenção, restauração e reconstrução das estradas federais sob gestão pública, sem considerar a expansão da malha. O valor previsto corresponde a aproximadamente um quarto da necessidade estimada.

“A falta de integração dos modais amplia custos internos e também dificulta a exportação. O transporte rodoviário, além de ter custo maior, amplia os riscos de acidentes e gera escala menor e menor rentabilidade no escoamento da produção”, avalia o economista Gelton Pinto Coelho Filho.

A precariedade da infraestrutura também aumenta o desgaste dos veículos, o consumo de combustível e os custos operacionais das transportadoras. Para Fernanda, a deterioração dos ativos eleva a necessidade de intervenções futuras mais caras. Ela destaca ainda que a tramitação do orçamento no Congresso Nacional representa uma oportunidade para priorizar obras com maior impacto sobre a eficiência logística e a segurança.

Novas fontes de recursos

A aprovação dos valores no orçamento não garante que todo o montante será aplicado. Por serem despesas discricionárias, os investimentos em infraestrutura estão sujeitos a contingenciamentos e cortes ao longo do ano, especialmente em períodos de restrição fiscal. A CNT defende a recomposição dos recursos e a continuidade do planejamento logístico entre diferentes governos.

Filho considera que a descontinuidade das políticas públicas prejudica a execução de projetos de longo prazo. “Infelizmente, vivemos de ciclos eleitorais e não há um projeto de país entendido como prioritário pelos partidos que vencem as eleições. É necessário definir os modais prioritários e evitar interrupções que atrasem a expansão da infraestrutura”.

Diante das limitações do orçamento público, a CNT defende a combinação de recursos estatais e privados. A gerente da entidade avalia que concessões e parcerias público-privadas (PPPs) podem ampliar a capacidade de investimento e melhorar a prestação dos serviços. “Desde que os projetos tenham consistência técnica, segurança jurídica e regras claras. O capital privado deve complementar os investimentos públicos e não substituí-los”.

Entre as alternativas de financiamento, a entidade aponta o uso mais eficiente dos recursos da CIDE-Combustíveis, empréstimos de instituições multilaterais, debêntures de infraestrutura e fundos destinados ao setor. Por sua vez, Filho defende ampliar a atuação dos bancos públicos de fomento. “A recuperação do BNDES como banco de investimento tem sido produtiva, mas seria necessário termos vários outros bancos públicos de fomento semelhantes”.

Para o economista, a retomada dos investimentos exige uma atuação estatal contínua, capaz de articular diferentes modais e sustentar projetos de longo prazo. “O Estado enquanto investidor e garantidor precisa atuar de forma mais plena e constante”, conclui.

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