Número de professores jovens no ensino médio diminui 31,1% em dez anos

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A possibilidade de escassez de professores em diferentes etapas da educação básica brasileira, frequentemente denominada “apagão de docentes”, representa um desafio que vem sendo discutido há vários anos. Um levantamento divulgado em 2022 pelo Instituto Semesp, entidade que representa mantenedoras de instituições de ensino superior, estimou que o Brasil poderia registrar um déficit de aproximadamente 235 mil profissionais da docência até 2040.

Mesmo após quatro anos, a falta de professores no Brasil permanece como motivo de preocupação. O estudo Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, divulgado pelo Instituto Semesp em setembro de 2026, evidencia um desequilíbrio na composição do magistério: apesar do aumento no número geral de docentes, o ingresso de profissionais mais jovens não ocorre em ritmo suficiente para compensar o envelhecimento daqueles que já exercem a profissão.

Os dados referentes ao período de 2015 a 2025 revelam uma mudança significativa no perfil etário dos professores do ensino médio no Brasil. Nesse intervalo, a quantidade de docentes com até 24 anos diminuiu 31,1%, passando de 17,3 mil para 11,9 mil profissionais. Em contrapartida, o contingente de professores com 60 anos ou mais aumentou 104,5%, subindo de 18,2 mil para 37,3 mil.

Essa transformação também pode ser observada na relação entre os dois grupos etários. Em 2015, o número de professores mais jovens era praticamente equivalente ao de docentes com 60 anos ou mais. Uma década depois, a proporção passou a ser de aproximadamente três profissionais mais velhos para cada professor com até 24 anos. De acordo com as projeções apresentadas no estudo, essa diferença poderá se ampliar até 2040, quando a relação poderá chegar a seis docentes com 60 anos ou mais para cada profissional da faixa etária mais jovem.

Segundo a pesquisa, diversos fatores ajudam a explicar esse cenário, como a redução do interesse dos jovens pela profissão, a remuneração pouco atrativa, a desvalorização social do magistério e as condições inadequadas de trabalho. Soma-se a esses aspectos o envelhecimento dos profissionais que já atuam na área, o que pode intensificar a necessidade de novos docentes para atender à demanda das escolas brasileiras.

A coordenadora pedagógica Alessandra Diniz explica que a desvalorização da profissão pesa na decisão dos jovens sobre o futuro profissional. “A escolha de uma carreira envolve perspectivas de crescimento, estabilidade financeira e reconhecimento, quando o jovem percebe que o trabalho docente exige grande responsabilidade, mas oferece condições pouco atrativas, ele pode optar por outras áreas”.

Para Alessandra, a dificuldade de retenção também está relacionada ao início da trajetória profissional. “Professores recém-formados precisam conciliar o planejamento das aulas, a avaliação dos estudantes e a gestão de conflitos, muitas vezes sem acompanhamento sistemático. A ausência de programas de acolhimento e orientação pode aumentar a insegurança e contribuir para o abandono precoce da docência”.

Na avaliação do especialista em educação Ricardo Mendes, a reversão desse quadro depende de medidas que ultrapassem campanhas de valorização simbólica. “É necessário oferecer salários compatíveis com a responsabilidade da função, planos de carreira consistentes e condições adequadas de trabalho. Também é fundamental garantir que os professores iniciantes tenham apoio pedagógico e oportunidades de desenvolvimento profissional”.

“A ampliação de bolsas, a residência docente e as parcerias entre universidades e escolas aproximam os futuros professores da realidade profissional, oferecendo experiências práticas supervisionadas. Além disso, a formação continuada, o acompanhamento inicial e o investimento em infraestrutura e equipes de apoio ajudam a reduzir a sobrecarga e favorecer a permanência dos docentes na carreira”, conclui.

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