Fim das bets desafia o caixa e o planejamento dos clubes de futebol

Foto: Pedro Souza/Atlético

O fim dos patrocínios das casas de apostas representa um desafio financeiro para os clubes de futebol brasileiro, que precisarão rever orçamentos, contratos e estratégias comerciais para compensar a perda de receitas. Com a mudança, equipes terão de buscar novos parceiros, ampliar fontes de arrecadação e ajustar o planejamento para a temporada de 2027, em um cenário de pouca flexibilidade para reduzir despesas no curto prazo. Na Série A do Campeonato Brasileiro de 2026, 14 dos 20 clubes tinham casas de apostas como patrocinadores máster.

Para o diretor financeiro da Force Partners e ex-diretor de Administração e Finanças do Fluminense, Eduardo Paez, a principal consequência da saída dessas empresas será sentida no fluxo de caixa. “Uma vez que os clubes têm compromissos assumidos prevendo essa receita, que é ainda mais importante pela sua característica de ser uma receita recorrente. Na estrutura de custos existe muito pouca flexibilidade com relação aos custos de curto prazo, como a folha salarial e os contratos de uso de imagem com atletas”.

A redução da arrecadação pode afetar diretamente a montagem dos elencos para a próxima temporada. Segundo Paez, os clubes já precisam considerar a perda dos patrocínios na elaboração dos orçamentos de 2027. “Os efeitos já serão sentidos nos próximos meses, com reanálise de contratos e em alguns casos, o aumento de endividamento. Como as equipes estão no processo de planejamento da próxima temporada e na construção do orçamento, veremos um aumento das receitas não recorrentes, como a venda de atletas”.

O especialista acrescenta que a intensidade dessas mudanças dependerá da situação de cada equipe. Clubes que recebiam entre R$ 100 milhões e R$ 200 milhões anuais em contratos com as bets terão perdas maiores em valores absolutos, mas podem apresentar melhores condições para atrair novos patrocinadores. Já equipes com receitas pouco diversificadas e endividamento elevado correm maior risco de enfrentar dificuldades para equilibrar as contas.

Novos parceiros e receitas

A reposição dos valores pagos pelas casas de apostas não deve acontecer integralmente no curto prazo. Para Paez, o crescimento acelerado do setor pode esclarecer a dificuldade de encontrar empresas dispostas a investir quantias semelhantes. “Em 2025, os patrocínios das bets na Série A tiveram aumento de aproximadamente 66% em relação a 2024, passando de R$ 618 milhões para R$ 1,03 bilhão. Esse crescimento ajuda a explicar por que outros setores podem não aceitar os mesmos preços praticados no mercado”.

Entre os segmentos com potencial para ocupar parte desse espaço, ele destaca os setores financeiro, farmacêutico, automotivo, varejista e de tecnologia. A capacidade de recuperação dependerá da força comercial das equipes, do perfil dos anunciantes e das condições do mercado.

Na avaliação do executivo, a saída das bets pode acelerar mudanças estruturais na administração do futebol brasileiro. “Os clubes devem focar no desenvolvimento de receitas recorrentes e/ou relevantes, passando a depender menos de um único setor como patrocinador máster. Também considero fundamental melhorar a gestão dos dados e do relacionamento com os torcedores”, conclui.

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