22% dos brasileiros já receberam proposta de compra de votos

Cargos municipais são maioria das tentativas – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma pesquisa Ipsos-Ipec, encomendada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), apontou que 22% dos brasileiros já foram abordados por candidatos, cabos eleitorais ou intermediários que ofereciam dinheiro, benefícios ou vantagens em troca do voto. Os dados mostram que os cargos municipais concentram a maior parte das tentativas desse delito. A pesquisa destaca também que muitos eleitores não sabem como denunciar esse tipo de prática ou não se sentem seguros para fazê-lo. Para refletir sobre o tema, o Edição do Brasil conversou com o professor de Ciências Sociais, Luciano Gomes dos Santos.

A compra de votos é um fenômeno isolado ou revela características mais profundas da cultura política brasileira?

A compra de votos não pode ser vista como um fenômeno isolado. Ela está relacionada a fatores históricos da formação política brasileira, como o clientelismo, o patrimonialismo e a troca de favores entre eleitores e lideranças locais. Embora o país tenha avançado significativamente em termos institucionais e eleitorais nas últimas décadas, ainda persistem práticas que aproximam interesses privados da disputa política. Porém, é importante destacar que a maioria dos brasileiros rejeita esse tipo de prática, o que demonstra que há um processo contínuo de fortalecimento da consciência democrática.

O que a persistência desse problema revela sobre a qualidade da democracia do nosso país?

A permanência dessa prática revela que a democracia brasileira enfrenta desafios que vão além da realização periódica de eleições. Uma democracia de qualidade depende de igualdade de condições entre candidatos, liberdade de escolha dos eleitores e confiança nas instituições. Quando existe compra de votos, a competição política se torna desigual e parte das decisões eleitorais pode ser influenciada por interesses imediatos em vez de propostas para o desenvolvimento coletivo. Isso não significa que a democracia brasileira seja frágil, mas mostra que ainda existem obstáculos para consolidar plenamente valores democráticos, especialmente em contextos onde a cidadania e o acesso a direitos são mais vulneráveis.

Existe relação entre vulnerabilidade social e maior exposição a práticas de corrupção eleitoral?

Diversos estudos apontam que existe uma relação relevante entre vulnerabilidade social e maior exposição à corrupção eleitoral. Pessoas que enfrentam dificuldades econômicas, insegurança alimentar ou acesso limitado a serviços públicos tendem a estar mais suscetíveis a ofertas de benefícios imediatos durante campanhas eleitorais. Isso não significa que indivíduos em situação de vulnerabilidade sejam responsáveis pelo problema, mas sim que determinados contextos criam condições mais favoráveis para que candidatos tentem explorar necessidades urgentes.

Por que esse tipo de prática costuma ser mais associada aos pleitos municipais do que às disputas estaduais e nacionais?

As eleições municipais, especialmente para vereador, envolvem uma relação muito mais próxima entre candidatos e eleitores. Em muitas cidades, os candidatos conhecem pessoalmente parcelas significativas do eleitorado e possuem redes locais de influência mais consolidadas. Essa proximidade facilita contatos diretos, promessas de favores e tentativas de compra de votos. Além disso, as campanhas para um candidato ao legislativo municipal costumam ser menos visíveis nacionalmente, o que pode dificultar a fiscalização.

O que precisa mudar para reduzir esse problema de forma efetiva?

A redução da compra de votos exige uma estratégia ampla e de longo prazo. É necessário fortalecer a fiscalização eleitoral, ampliar os canais de denúncia e garantir punições rápidas e efetivas para candidatos e intermediários envolvidos. Ao mesmo tempo, investimentos em educação cidadã e formação política podem contribuir para que os eleitores reconheçam os prejuízos dessa prática para a coletividade.

Também é fundamental reduzir desigualdades sociais e ampliar o acesso da população a direitos básicos, diminuindo a vulnerabilidade que muitas vezes é explorada em períodos eleitorais. O enfrentamento do problema depende, portanto, do fortalecimento simultâneo das instituições democráticas, da cidadania e das condições sociais da população.

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