Denúncias de agressão contra pessoas idosas avançam quase 30%

Foram registradas 1.189 notificações em Minas Gerais – Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Nos quatro primeiros meses de 2026, foram registradas 75.701 denúncias de violência contra pessoas idosas pelo canal Disque 100, de acordo com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Isso representa um aumento de 29,85% frente ao mesmo período de 2025 (58.296).

Entre 1º de janeiro e 9 de junho de 2026, o Disque Denúncia Unificado (DDU) recebeu 1.479 queixas anônimas de crimes e violações contra pessoas idosas, sendo 1.189 em Minas Gerais e 290 em Belo Horizonte. O volume representa uma média mensal de 224 apontamentos no estado e 55 na capital.

Embora esses números sejam elevados, existem indícios de grande subnotificação, muitas vezes por medo de retaliações. De janeiro de 2024 a abril de 2026, foram registradas mais de 435 mil denúncias relacionadas a violações de direitos de pessoas idosas.

Dados do Observatório Nacional dos Direitos Humanos mostram que os tipos mais recorrentes de violência são as violações físicas, psicológicas e a negligência, cometidas em sua maioria contra mulheres, de idades entre 70 e 74 anos. Os principais suspeitos são membros da família.

A coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa das Pessoas Idosas e das Pessoas com Deficiência, Erika de Fatima Matozinhos Ribeiro, avalia que o cenário atual é preocupante e exige leitura social, jurídica e institucional integrada. “A alta nas denúncias reflete o envelhecimento populacional brasileiro, mas também revela a persistência de violações naturalizadas no âmbito familiar, comunitário, institucional e patrimonial”.

Conforme a promotora, a pessoa idosa, embora seja sujeito de direitos e de proteção integral, ainda é frequentemente tratada como dependente, improdutiva ou sem autonomia, o que reforça práticas de negligência, abandono, discriminação, violência psicológica e exploração financeira. “O aumento dos registros não significa apenas maior ocorrência, mas também maior visibilidade institucional de uma violência historicamente subnotificada”.

Consequências à saúde

Segundo a geriatra da Unimed-BH, Bárbara Correa de Oliveira, além de causar lesões físicas graves e a perda de autonomia para realizar as atividades do dia a dia, a violência recorrente pode ser um gatilho para uma piora da cognição, e às vezes desencadear depressão.

“Estudos indicam que a violência reduz drasticamente a expectativa de vida e pode provocar o surgimento ou agravamento das doenças de base dessa pessoa idosa. Devido ao estresse e à falta de cuidado, os sinais começam a aparecer na saúde física daquele paciente”, afirma a geriatra.

Bárbara destaca também a agressão verbal. “É uma forma de violência, pode ser até mais comum do que a física. Tratar aquela pessoa idosa de forma muito ríspida, com agressividade no tom de voz, às vezes, infantilizá-lo, é um sinal indireto de violência”.

Como prevenir e denunciar

Erika explica que a população deve estar atenta a sinais físicos, emocionais, patrimoniais e ambientais. “A prevenção exige convivência respeitosa, escuta ativa, fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Diante de suspeita, não se deve confrontar o agressor de forma imprudente, quando houver risco à vítima”.

“O correto é acionar a rede de proteção e formalizar a denúncia. A omissão social contribui para a continuidade da violência. Denunciar é medida de proteção, não de exposição”, acrescenta.

Para realizar uma denúncia, existem os seguintes canais: Disque 100; o aplicativo Direitos Humanos Brasil; a Polícia Militar, em situação de urgência pelo 190; delegacias da Polícia Civil; e delegacias especializadas de proteção à pessoa idosa, quando existentes.

Além disso, o cidadão pode procurar o Conselho Municipal da Pessoa Idosa, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), serviços de saúde, Ministério Público e Ouvidoria do Ministério Público, pelo 127. Em Minas Gerais, também pode ser utilizado o Disque Denúncia 181, especialmente para relatos anônimos.

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