País bate recorde e registra mais de 7 milhões de turistas internacionais

Os visitantes estrangeiros movimentaram R$ 32,5 bilhões (US$ 6,044 bilhões) no Brasil, em despesas como hospedagem, alimentação, transporte, lazer e compras, de janeiro a setembro, conforme dados do Banco Central. O valor é o maior já registrado na série histórica para o período e representa uma alta de 11,7% em relação ao mesmo período de 2024, que detinha a marca de US$ 5,4 bilhões. No período, o país alcançou exatos 7.099.237 turistas internacionais, volume 45% superior ao do mesmo intervalo do ano passado. Em apenas nove meses, foi ultrapassado o recorde anual anterior, de 2024, quando 6.773.619 visitantes estrangeiros vieram ao Brasil. O desempenho até aqui também supera a meta anual estabelecida pelo Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024-2027, que previa a chegada de 6,9 milhões de estrangeiros para este ano. “Não há dúvidas de que o turismo é uma potente atividade econômica. Estamos falando de centenas de milhões de dólares injetados por turistas internacionais em nossa economia a cada mês. O resultado disso é geração de empregos, de renda para o povo brasileiro e de desenvolvimento social para comunidades que têm no turismo sua principal atividade. Colocando o Brasil cada vez com mais espaço nas prateleiras do mercado global e nessa tendência de recordes históricos”, destaca o presidente da Embratur, Marcelo Freixo. O mestre em economia, Heldo Siqueira, explica que essa movimentação financeira é fruto do aumento do número de turistas. “O maior índice de visitantes foi da Argentina. Suponho que este fato decorre do câmbio argentino ter permanecido relativamente valorizado ao longo do ano, o que torna as viagens ao Brasil mais baratas”. “São 1,96 milhão de turistas argentinos visitando o país, seguido pelos Estados Unidos, que aparecem com apenas 728 mil. Ou seja, a continuidade da ampliação do turismo depende da expansão da economia argentina, mesmo que a economia americana não apresente resultados positivos ao longo de 2025. Neste sentido, acredito que haja uma relativa saturação que pode fazer os índices de crescimento do setor estabilizarem-se para os próximos anos”, acrescenta. O aumento de 11,7% é bem expressivo, quando se compara com o crescimento da economia como um todo que deve ficar em 2,4%, afirma o economista. “Em uma situação assim, o normal é que haja uma desaceleração. Isso não significa que o avanço não seja sustentável, mas deve retornar ao patamar de expansão do restante da economia brasileira ou dos países que tem no Brasil seu destino turístico”. Forte Avanço Setembro também registrou forte avanço. O mês fechou com receita de US$ 595,6 milhões, salto de 12,3% em relação ao mesmo período de 2024, quando a entrada de divisas do turismo ficou em US$ 530,3 milhões. Também foi registrado o maior número de chegadas de turistas internacionais da série histórica: 570.934 de visitantes, um aumento de 28,2%. Empregos no setor Siqueira ressalta que o turismo representa algo em torno de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), figurando como uma atividade importante para o país. “A maior parte dos trabalhadores têm até o ensino médio, 94,2%, sendo que 14,4%, até o ensino fundamental. O setor é relevante, principalmente para a população que tem menos oportunidades de colocação. Nos 12 meses anteriores a julho de 2025, o país tinha criado 207 mil empregos de carteira assinada. Trata-se de um número bastante expressivo, considerando-se que se trata de uma parte da população de mais baixa renda”, finaliza. Segundo uma pesquisa do World Travel & Tourism Council (WTTC), o setor de turismo deve gerar 8,3 milhões de empregos até o final de 2025, responsável por quase 8% do total de postos de trabalho do país. A contribuição econômica deve atingir US$ 167,6 bilhões, o equivalente a 7,7% do PIB nacional. Para 2035, o WTTC projeta que o segmento chegará a 9,7 milhões de empregos e quase US$ 199 bilhões de participação no PIB.

Cerca de 30% dos mineiros atrasam o aluguel por conta de apostas on-line

Uma pesquisa inédita feita pela Loft, em parceria com a Offerwise, mostra que quase um terço dos mineiros que pagam aluguel (cerca de 28%) diz ter enfrentado ou conhecido alguém que enfrentou atraso no pagamento devido a apostas ou jogos de azar virtuais. O problema é ainda mais frequente entre as classes C e D, onde o percentual chega a 38%. Entre os entrevistados que jogam, quase um terço (32%) declara investir até R$ 50 por mês em apostas, enquanto 13% desembolsam até R$ 300 mensais. O levantamento indica ainda que o hábito é novo para muitos: mais da metade (52%) começou a apostar há menos de um ano. Nos últimos 12 meses, 32% dos jogadores afirmam ter perdido até R$ 50, e 10% relatam perdas acima de R$ 500. Apenas uma pequena parcela, 13%, conseguiu não ter prejuízo. Mesmo entre quem não possui renda própria, os efeitos são visíveis: 67% perderam até R$ 50, e 33% chegaram a perder até R$ 100. Outros dados são que, em Minas Gerais, 55% dos entrevistados avaliam que as apostas on-line fazem mal à sociedade. Para 78%, elas são responsáveis por agravar o endividamento das famílias. Apesar disso, 30% acreditam que, com equilíbrio, as apostas podem servir como entretenimento, e 28% as veem como uma alternativa para complementar a renda. A maioria dos mineiros pede mais fiscalização: 83% defendem normas mais severas para o setor e 81% dizem que a maior parte dos apostadores perde dinheiro. A economista Renata Tavares destaca que a falta de regulamentação e monitoramento das plataformas é um fator que agrava o cenário. “Hoje, qualquer pessoa com um celular pode se cadastrar em um site de apostas, depositar dinheiro e começar a jogar em minutos. Não há controle efetivo sobre idade, renda ou limites de gasto. Isso cria um ambiente propício para o endividamento e, em casos extremos, para fraudes e lavagem de dinheiro”. Ela ressalta que o setor movimenta bilhões de reais por ano no Brasil, mas boa parte desse dinheiro circula em empresas sediadas no exterior, sem tributação adequada. “A ausência de fiscalização impede que o Estado arrecade impostos e também que o jogador tenha garantias. Em muitos casos, quando há suspeita de fraude ou bloqueio de valores, o consumidor fica completamente desamparado”. Para a profissional, a popularização das apostas está ligada a um contexto de incerteza econômica. “Vivemos um momento em que o custo de vida é alto e o poder de compra diminuiu. As apostas aparecem como uma ilusão de mobilidade financeira rápida, principalmente para quem tem poucas oportunidades. É um fenômeno social que mistura esperança, desespero e entretenimento”. “É uma armadilha que começa com diversão e termina com desespero, visto que o cérebro é programado para buscar recompensas rápidas e as plataformas usam mecanismos semelhantes aos das redes sociais e até de cassinos físicos para manter o jogador engajado. Quanto mais ele perde, mais sente necessidade de apostar novamente para recuperar o prejuízo”, explica. “Dinheiro fácil” Na avaliação do psicólogo Rogério Menezes, o governo precisa encarar o vício em apostas como uma questão de saúde pública. “Hoje, o acesso é irrestrito, qualquer adolescente com um celular pode criar uma conta, usar o cartão dos pais e começar a jogar. Falta uma política de conscientização e, principalmente, mecanismos de proteção, como limites de depósito e bloqueio de contas para jogadores em situação de risco”. Menezes afirma que é essencial que a população seja alertada sobre os perigos do chamado “dinheiro fácil” e defende campanhas educativas semelhantes às realizadas contra o tabagismo, com mensagens claras sobre os riscos do vício. “As pessoas precisam entender que as chances de ganho são mínimas e esses sites não são um investimento, e sim um negócio criado para lucrar com a perda do usuário. O problema não é apenas econômico, quando o jogo passa a ocupar o lugar do trabalho, do estudo ou da convivência familiar, estamos diante de um problema de saúde pública”.

Sobe o índice de pessoas que convivem com a presença das facções e milícias

Segundo um levantamento encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) ao Instituto Datafolha, 19% dos brasileiros convivem com a presença de facções criminosas ou milícias em seus bairros, o índice cresceu cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior e é mais alto entre moradores de capitais (26%), grandes centros urbanos (26%) e da região Nordeste (28%). Ao menos 28,5 milhões de brasileiros vivem nessa situação. A pesquisa indica que 21% das pessoas entrevistadas relataram a existência em seus bairros de serviços de vigilância privada prestados por policiais de folga. E que 12% afirmaram haver cemitérios clandestinos, quatro pontos percentuais a mais do que em 2024. Além disso, 19% afirmam que notam a presença de “cracolândias” em seus trajetos do dia a dia, especialmente em capitais (27%) e grandes centros urbanos (28%). O professor de Ciências Sociais do UniArnaldo Centro Universitário, Luciano Gomes dos Santos, explica que o fortalecimento das facções e milícias nas periferias resulta de um longo processo histórico marcado pela desigualdade estrutural e pela ausência de políticas públicas efetivas. “Desde a formação das grandes cidades, especialmente a partir da urbanização acelerada do século 20, as periferias cresceram de maneira desordenada e sem a presença constante do Estado”. “Esse vazio institucional foi ocupado, ao longo das décadas, por grupos que passaram a oferecer ‘serviços’ como proteção, justiça informal e até assistência social que deveriam ser garantidos pelo poder público. Além disso, a herança de um modelo policial repressivo, herdado do período autoritário, gerou uma relação de desconfiança entre os moradores e o Estado, criando o ambiente propício para a atuação de grupos armados que se apresentam como alternativas de poder e autoridade local”, acrescenta. A presença de facções e milícias altera profundamente o tecido social das comunidades, pontua Santos. “Elas impõem normas de convivência, controlam o comércio, regulam o horário de funcionamento de estabelecimentos e até definem quem pode circular em determinadas áreas. O medo torna-se um elemento cotidiano, e as relações sociais passam a ser mediadas pela lógica do poder armado. E a juventude é o grupo mais vulnerável ao impacto das facções e milícias. A falta de perspectivas profissionais e educacionais, somada ao desejo de reconhecimento e pertencimento, torna os jovens alvos fáceis do recrutamento”. Violência Ainda segundo o estudo, de cada três brasileiros, dois afirmam terem sido vítimas de algum tipo de violência nos 12 meses anteriores à realização da pesquisa, um percentual de 66%. Roubados ou assaltados em casa, no transporte, na escola ou no trabalho foram 11%. Em um em cada quatro desses casos (25%), houve uso de arma de fogo, com maior incidência entre moradores de grandes centros urbanos e das classes A e B. A pesquisadora associada ao FBSP, Roberta Fernandes Santos, ressalta que a tendência é ter um quadro mais agudo de insegurança nesses territórios. “Pois, para diminuir o índice de pessoas que convivem com facções criminosas tem que ter uma decisão política, e muito trabalho com inteligência integrada, com estrangulamento financeiro, policiamento territorial qualificado, políticas urbanas e sociais de longo prazo, algo que foi feito em Medellín, na Colômbia, que levou anos para ter um resultado positivo”. Roberta cita também uma questão em relação à Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Que é aproximação das facções Comando Vermelho (CV) e do Terceiro Comando Puro (TCP) com as gangues locais. Porque as gangues no passado não iam permitir que essas organizações ficassem nos seus territórios, mas hoje há um interesse extremamente financeiro. Obviamente, não tem ainda esse Estado paralelo que existe no Rio de Janeiro e São Paulo, mas há sinais de fortalecimento e com possibilidade de conflitos armados”. Sobre a megaoperação no Rio de Janeiro, a pesquisadora destaca que esses territórios, predominantemente periféricos, sofrem com esse tipo de ação. “O Estado tem que trabalhar com inteligência e ocupar o local com todos os órgãos que se fazem necessários para atender a comunidade. O Estado não pode fazer essas operações sem as prefeituras. O Rio se tornou a capital dos criminosos refugiados, justamente por essa ineficiência no enfrentamento à essas organizações”.

94% dos profissionais da educação já sofreram violência dentro das escolas

Segundo o Sindicato Único dos Trabalhadores de Educação de Minas Gerais (SindUte), 94,3% dos profissionais da educação, destacadamente os professores, em determinado momento, já sofreram algum tipo de violência. Na maioria das vezes, as agressões foram de caráter verbal (86,1%), psicológico (73,2%), físico (55,6%) e discriminatório (42,5%), ocorrendo com relativa frequência. Dos entrevistados, 33,7% consideram o local de trabalho pouco seguro e 39,4%, inseguro. Já uma pesquisa do Ministério da Educação afirma que menos de 40% dos alunos valorizam os professores. Para debater o assunto, o Edição do Brasil conversou com a advogada e presidente da Comissão de Direito Digital da Ordem dos Advogados Seção Minas Gerais (OAB/MG), Daniella Avelar. Qual é o impacto da violência recorrente contra professores no ambiente escolar? A violência atinge a pessoa do professor (ansiedade, depressão e burnout), aumenta faltas e evasão docente, e reduz a qualidade das práticas pedagógicas. Além disso, os professores deixam de arriscar metodologias inovadoras por medo. Afeta o coletivo, prejudica a aprendizagem dos alunos, rompe vínculos comunitários e corrói a confiança entre família, escola e rede de proteção. Em resumo, fragiliza toda a instituição escolar e compromete resultados educacionais. Quais fatores sociais ou culturais contribuem para a desvalorização desses profissionais pelos alunos? A erosão da figura de autoridade em ambientes familiares e na mídia, a banalização do conhecimento nas redes sociais, a precarização salarial e profissional que sinaliza desvalorização social, e déficits na educação em valores nas famílias. Quando a profissão é pouco valorizada socialmente, alunos tendem a reproduzir desrespeito, o que por sua vez, prejudica a formação cidadã e pode retroalimentar práticas antissociais. Que medidas as escolas podem adotar para prevenir esses atos contra os educadores? Medidas eficazes incluem: Código de convivência claro e divulgado para toda a comunidade; Programas de educação socioemocional e mediação de conflitos; Formação contínua para professores em gestão de sala e prevenção de violência; Envolvimento ativo das famílias e conselhos escolares; Apoio psicológico e jurídico para vítimas; Registro e protocolo rígido de incidentes para responsabilização; e Parcerias com serviços sociais e saúde mental. A presença de segurança pública pode ser necessária em contextos de risco, mas deve vir acompanhada de políticas preventivas. O que pode ser feito para aumentar a valorização do professor dentro da escola e na sociedade? Remuneração digna e plano de carreira; formação continuada com tempo e recursos pagos; melhoria das condições físicas e de apoio na escola; inclusão dos professores nas decisões de gestão escolar; programas de reconhecimento (prêmios, selos e divulgação de boas práticas) e campanhas públicas que mostrem o impacto da docência. Além disso, fortalecer o diálogo família-escola e inserir os professores em redes comunitárias, aumenta o prestígio local e o respeito. É possível responsabilizar legalmente os agressores, especialmente se forem alunos? Sim. Se o agressor é adulto, responde civil e criminalmente pelos atos. Quando é adolescente, as infrações podem ensejar medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), como advertência, liberdade assistida, prestação de serviços, entre outras medidas. Além disso, os pais ou responsáveis podem responder civilmente por danos causados por menores. A escola deve documentar o ocorrido, comunicar às autoridades competentes e acionar os procedimentos disciplinares previstos no regimento interno. Quais consequências a médio e longo prazo podemos esperar se essa realidade persistir? A médio prazo veremos aumento da rotatividade de professores e dificuldade de recrutamento, sendo que as escolas, sobretudo em áreas vulneráveis, ficarão sem profissionais qualificados. A longo prazo, há risco de queda sistemática nos resultados educacionais, avanço da evasão escolar e reprodução intergeracional de vulnerabilidades. Socialmente, a tolerância à violência escolar pode normalizar comportamentos agressivos e enfraquecer a coesão comunitária, com efeitos econômicos e civis.

Estado registra abertura de cerca de 88 mil novos empreendimentos

Minas Gerais está prestes a alcançar um marco histórico na criação de empresas. De janeiro a setembro deste ano, foram formalizados 87.913 novos empreendimentos no Estado, um crescimento de 17,95% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram registrados 74.536 negócios. Apenas em setembro, 9.255 empresas foram abertas, o que equivale a mais de 300 novos registros por dia. As informações fazem parte do relatório mensal de registros mercantis divulgado pela Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg). As regiões dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri lideraram em termos de crescimento proporcional, com aumento de 28,80% no acumulado do ano. Na sequência, destacam-se as regiões Central (20,02%), Norte de Minas (19,86%), Centro-Oeste (18,28%), Zona da Mata (16,94%), Triângulo (14,26%), Sul de Minas (13,62%), Alto Paranaíba (13,12%) e Noroeste (8,65%). Ao analisar os dados por setor, os serviços lideram o crescimento no acumulado do ano, com 65.377 novos empreendimentos formalizados, uma elevação de 20,64% em relação aos primeiros nove meses de 2024. O comércio vem logo depois, com 18.515 registros e aumento de 10,80%, seguido pela indústria, que contabilizou 4.020 novas empresas, representando uma alta de 10,74%. Em 2025, Belo Horizonte já contabiliza 21.495 empresas formalizadas, o que representa um crescimento de 7,94% em comparação ao mesmo período de 2024, quando foram registradas 19.913 aberturas. Apenas no mês de setembro, foram criados 2.573 novos negócios na capital mineira, um aumento de 15,95% em relação a setembro do ano anterior, que teve 2.219 registros. Para o consultor de mercado Fernando Lage, o cenário atual é resultado direto de uma maior confiança dos empreendedores e da simplificação dos processos burocráticos nos últimos anos. “A abertura de empresas em Minas tem sido cada vez mais rápida e menos custosa. A digitalização dos serviços da Junta Comercial, aliada a políticas municipais e estaduais de estímulo ao empreendedorismo, tem feito uma diferença considerável, hoje, o empresário consegue abrir seu negócio com muito mais agilidade e segurança jurídica”. Outro fator determinante para esse avanço, segundo os especialistas, é o fortalecimento da cultura empreendedora no Estado, especialmente após os impactos provocados pela pandemia. “Muita gente perdeu o emprego ou repensou sua vida profissional nos últimos anos, e viu no empreendedorismo uma forma de retomar o controle da própria renda”, analisa Lage. Ele observa que, embora muitos desses empreendimentos surjam da necessidade, há cada vez mais casos de empresas bem planejadas, estruturadas e com boas chances de prosperar. “A gente nota que o perfil do empreendedor está mudando. As pessoas estão mais preocupadas em entender seu público, usar ferramentas digitais, cuidar do marketing e buscar capacitação. Isso é extremamente positivo”. Desafios Apesar dos números positivos, a economista Camila Ribeiro alerta que o desafio agora é garantir que essas novas empresas sobrevivam e prosperem. O índice de mortalidade de empresas nos primeiros anos de atividade ainda é alto no Brasil, especialmente entre os microempreendedores individuais (MEIs) e os pequenos negócios, que costumam enfrentar dificuldades de gestão, acesso a crédito e capacitação. “O número de aberturas é animador, mas é preciso garantir sustentabilidade a médio e longo prazo. Para isso, o apoio técnico é fundamental. Políticas públicas devem estar voltadas não apenas à abertura, mas também à manutenção dos negócios”, alerta. Camila também destaca que o acesso a linhas de financiamento e crédito com juros acessíveis precisa ser ampliado. “Muitos empreendedores iniciam seus negócios com recursos próprios ou empréstimos informais. Se houver mais linhas de crédito específicas para capital de giro, inovação e expansão, a chance de crescimento dessas empresas será muito maior”. Para que Minas Gerais siga atraindo e desenvolvendo novos negócios, algumas ações são fundamentais, segundo Camila. “A principal delas é manter e ampliar as políticas de desburocratização, garantindo mais agilidade e redução de custos para quem empreende. Também é essencial investir na capacitação técnica dos novos empresários, com apoio de instituições como Sebrae, Senac e universidades”. Outro ponto importante é o incentivo à inovação e à digitalização, sobretudo para quem atua nos setores de tecnologia, e-commerce e serviços digitais.

Número de trabalhadores por aplicativo avança e soma 2 milhões de brasileiros

O Brasil registrou 2,1 milhões de trabalhadores por aplicativos, segundo o Relatório de Política Monetária referente ao terceiro trimestre de 2025, do Banco Central. Entre 2015 e 2025, essa categoria aumentou 170%, antes eram cerca de 770 mil trabalhadores. De acordo com o Relatório do Fairwork Brasil, nenhum dos principais aplicativos conseguiram evidenciar o cumprimento de padrões mínimos de trabalho decente, como oferecer uma remuneração justa. Já o estudo Plataformização e Precarização do Trabalho de Motoristas e Entregadores no Brasil, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que, entre 2012 e 2015, enquanto o total de motoristas autônomos no setor de transporte de passageiros era cerca de 400 mil, o rendimento médio ficava em torno de R$ 3,1 mil. Em 2022, quando o total de ocupados se aproximava de 1 milhão, o rendimento médio era inferior a R$ 2,4 mil. A proporção desses trabalhadores com jornadas entre 49 e 60 horas semanais passou de 21,8% em 2012 para 27,3% em 2022. “Uberização” No final de setembro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) parecer contrário ao reconhecimento de vínculo trabalhista entre motoristas de aplicativos e as plataformas digitais. A controvérsia é conhecida como “uberização” das relações de trabalho. A data da votação da questão ainda será marcada pelo presidente do STF, Edson Fachin. Serão julgadas duas ações de recursos protocolados pelas plataformas Rappi e Uber. As empresas contestam decisão da Justiça do Trabalho que reconheceu o vínculo empregatício com os motoristas e entregadores. A decisão terá impacto em 10 mil processos que estão parados em todo o país. A advogada especialista em Direito do Trabalho do Escritório Mantuano, Di Mambro, Lopes & Flores Advocacia, Juliene Oliveira Fernandes, ressalta que o impacto dessa pauta é enorme. “Justamente pela quantidade de pessoas que se dedicam a esse modelo de trabalho, bem como para as empresas de plataformas digitais e também na própria sociedade, que já incorporou essa nova forma de consumo dos serviços de transporte por aplicativo”. “Há nessa situação impactos favoráveis e desfavoráveis, em benefício, os motoristas passariam a ter todos os direitos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como férias, 13º salário, FGTS e Previdência Social, o que seria um avanço em termos de segurança e dignidade. Por outro lado, as plataformas poderiam reduzir vagas ou impor regras mais rígidas para compensar os custos, diminuindo a flexibilidade. O ponto central seria o equilíbrio entre proteção social e flexibilidade”, pontua. Juliene afirma que o reconhecimento do vínculo reduziria drasticamente a informalidade para os motoristas, garantindo direitos sociais. “No entanto, há um risco considerável de que essa formalização não atinja toda a categoria, mas sim, apenas uma parte dela. O custo operacional das plataformas subiria significativamente, e as reações das empresas poderiam levar a uma nova forma de exclusão. Por isso, especialistas defendem uma terceira via, que combine proteção social com manutenção da flexibilidade”. A solução mais equilibrada seria adotar uma abordagem com a polarização entre CLT e autonomia pura, com regulação mais equilibrada e moderna, afirma a advogada. “Essa abordagem cria uma categoria intermediária entre empregado CLT e o autônomo, protegendo o trabalhador sem eliminar a flexibilidade do modelo de plataformas. Garantiria direitos mínimos, enquanto preserva a liberdade de ligar e desligar o aplicativo e a autonomia operacional. Em essência, foca em resultados e proteção social”, finaliza. 10 horas de trabalho O motorista de aplicativo Willian Mendes, de 34 anos, presta serviço em tempo integral para três plataformas. “Trabalho como motorista desde 2019, comecei quando saí do meu antigo emprego. São 10 horas de trabalho, em média, e os principais desafios são a baixa remuneração, insegurança, falta de suporte dos aplicativos e jornada exaustiva”. Para Mendes, os direitos trabalhistas fazem muita falta e o vínculo já existe, só falta oficializar. “Pois, são os aplicativos que determinam o valor que os motoristas vão ganhar nas corridas, além de que os trabalhadores são punidos ou banidos sem direito a explicações ou defesa”, destaca.

Reincidência na inadimplência tem alta e atinge o patamar de 83,95%

O Indicador de Reincidência de Pessoas Físicas, apurado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) revelou que 71,78 milhões de brasileiros estão com o nome negativado, em agosto. Sendo que do total de negativações, 83,95% foram de devedores reincidentes, ou seja, consumidores que já tinham aparecido no cadastro de inadimplentes nos últimos 12 meses. As informações mostram que a maior parte dos reincidentes, 62,63%, ainda não havia quitado as pendências antigas e foi negativada novamente. Outros 21,32% tinham saído do cadastro de devedores nos últimos 12 meses, mas retornaram. Apenas 16,05% dos negativados não estiveram com restrições no CPF ao longo do último ano. O tempo médio decorrido entre o vencimento de uma dívida e o vencimento de demais pendências foi de 75,6 dias. Nos últimos 12 meses, houve um crescimento de 5,18% no número de devedores reincidentes. A faixa etária mais representativa continua sendo de 30 a 39 anos, com 25,81% do total. Quanto à participação por sexo: 53,60% são mulheres e 46,40% são homens. Para o presidente da CNDL, José César da Costa, o alto número de devedores reflete não apenas a dificuldade individual de milhões de famílias em honrar seus compromissos, mas também impacta o consumo, o crédito e o crescimento econômico do país como um todo. “Essa crescente ‘bola de neve’ de dívidas se torna um ciclo vicioso difícil de ser quebrado, deixando o brasileiro em uma situação de vulnerabilidade e fragilizando ainda mais a economia nacional”. A economista e Coordenadora de Ciências Atuariais Econômicas do Centro Universitário FMU, Natalie Verndl, explica que o aumento da inadimplência decorre principalmente de uma combinação de alguns fatores. “Existe uma dificuldade de ter crédito barato, que está muito caro por conta da Selic, a própria renda está estagnada, tem a qualidade dos empregos e os entraves de renegociar essas dívidas, seja por órgãos terceirizados ou pelo próprio banco”. “Embora haja, nesse curto período, deflação, em setembro, tivemos a notícia da conta de luz mais cara, questões da própria inflação retomando novos patamares, o que já levou a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) a decisão de postergar a redução dos juros para 2026. Lembrando que vamos entrar em um ano de eleição, e acaba sendo um período conturbado que eleva esse cenário da inadimplência, uma vez que a renda real e esse peso dessas parcelas atrasadas impedem que as famílias retomem o rumo de uma boa gestão orçamentária”, esclarece. Belo Horizonte Segundo a pesquisa da Fecomércio MG e Confederação Nacional do Comércio (CNC), o índice de inadimplência sobe desde maio e teve mais uma elevação de 2,2 pontos entre julho e agosto, com 59,9% de consumidores com dívidas em atraso na capital. Já o número de consumidores que não terão condições de quitar suas dívidas teve redução, somando 19,8%; eram 20,2% em julho. As famílias superendividadas, que comprometem mais de 50% do orçamento com dívidas, somaram 20,3%. As dívidas no cartão de crédito atingem 96,7% dos consumidores, sendo que as famílias com renda maior ou igual a 10 salários mínimos chegaram a 98,8% de endividamento no cartão. A inadimplência é 12,8% maior entre as famílias que ganham até 10 salários mínimos (61,8%) em comparação com as famílias de renda acima dessa faixa de renda (49,0%). Entre os endividados, 68% ainda não conseguiram honrar seus compromissos e estão com dívidas em atraso. No curto prazo, a expectativa é que se tenha uma estabilidade com viés de alta, ressalta Natalie. “Porque os juros vão permanecer elevados, provavelmente, isso vai ceder apenas no próximo ano por conta de ser uma medida mais eleitoreira. Temos uma renda que vai continuar pressionada, uma inflação que ainda não vai ceder nesse curto prazo, e só será observada a queda consistente na inadimplência quando ocorrer cortes na Selic”. “O próprio Banco Central projeta que esse risco de crédito deve aumentar ainda nesse curto prazo antes que possa, de fato, melhorar. O que podemos dizer é que vai ser uma recuperação ainda muito gradual e lenta. E novamente, há esse componente da eleição que vai acabar pesando nessa condução, nessa retomada da adimplência dos consumidores”, conclui a economista.

Consumo de alimentos e bebidas pode bater R$ 1,1 trilhão até o final do ano

Neste ano, as famílias brasileiras devem desembolsar aproximadamente R$ 1,1 trilhão com gastos em alimentação e bebidas, tanto dentro quanto fora de casa, um aumento de 11,3% em comparação ao ano anterior. Os dados são da pesquisa IPC Maps, que há mais de três décadas analisa o potencial de consumo no país com base em informações oficiais. De acordo com o levantamento, os gastos com alimentos e bebidas consumidos em casa devem ultrapassar R$ 780 bilhões. Já as despesas com refeições feitas fora do lar estão estimadas em R$ 350,4 bilhões. Os cálculos consideram tanto os gastos com alimentos e bebidas consumidos em casa, como produtos in natura, industrializados, preparados e itens adquiridos em feiras e varejões, além de bebidas como sucos artificiais, cafés (moído e solúvel), chás, refrigerantes, cervejas, vinhos, destilados e outras bebidas alcoólicas, quanto os consumidos fora do lar, incluindo refeições, lanches, cafés da manhã, caldos, refrigerantes, cafés expressos, cervejas, chopes e similares. Entre os estados com maior volume de consumo, São Paulo lidera com R$ 284,3 bilhões destinados à alimentação. Em seguida, aparecem Minas Gerais, com R$ 123,8 bilhões; o Rio de Janeiro, com R$ 95,5 bilhões; e o Rio Grande do Sul, que ocupa a quarta posição, com R$ 71,8 bilhões em gastos das famílias nesse setor. Segundo o economista Rafael Gomes, o aumento reflete uma normalização dos hábitos de convivência e lazer. “Com a redução do desemprego e o avanço da renda média, muitos brasileiros voltaram a frequentar bares, restaurantes e lanchonetes. Isso gera uma pressão natural por mais gastos fora de casa, especialmente nos grandes centros urbanos”. O setor de alimentação e bebidas é um dos mais relevantes para a economia brasileira. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e é responsável por mais de 2 milhões de empregos formais diretos. Para Gomes, o crescimento nos gastos com alimentação deve ser interpretado como uma boa notícia para a economia, desde que acompanhado por políticas públicas que assegurem o acesso à alimentação de qualidade para todos. “O aumento nos gastos mostra que o consumo está ativo e que há movimento na cadeia produtiva, desde o campo até os pontos de venda. O desafio está em equilibrar isso com o combate à insegurança alimentar, que ainda atinge milhões de brasileiros”. O consultor de varejo e especialista em consumo, Eduardo Naves, aponta que há uma busca crescente por alimentos mais saudáveis, o que também pesa no orçamento. “Muitas famílias estão trocando alimentos ultraprocessados por itens mais naturais e orgânicos. Embora seja um movimento positivo do ponto de vista nutricional, essa escolha costuma ter um custo mais elevado”. Além disso, Naves destaca que fatores climáticos, como as recentes quebras de safra em algumas regiões do país, impactam diretamente o preço de produtos como arroz, feijão, hortaliças e frutas, pressionando o orçamento doméstico. “Outro fator relevante é a expansão do acesso a canais digitais de compra, como aplicativos de entrega, supermercados on-line e marketplaces especializados em alimentação. Com a digitalização do varejo alimentar, mais consumidores têm optado por soluções rápidas e convenientes para abastecer suas casas ou realizar refeições, o que também tem contribuído para o crescimento do setor como um todo”. A expectativa é de que o setor continue crescendo nos próximos anos, ainda que em ritmo mais moderado. O comportamento do consumidor deve seguir em transformação, com mais ênfase na qualidade, na origem dos produtos e na conveniência, especialmente nas grandes cidades. “Veremos cada vez mais o consumidor disposto a pagar mais por praticidade, sabor e saúde. O mercado de alimentação fora do lar está se adaptando rapidamente a essas novas exigências”, conclui Naves.

Receita estimada do crime organizado no Brasil chega a quase R$ 350 bilhões

De acordo com dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a receita estimada do crime organizado no Brasil é de R$ 348 bilhões. Entre esses números, destacam-se os R$ 186 bilhões provenientes de cybercrimes e roubos, os R$ 146 bilhões ligados a produtos como combustíveis, bebidas, cigarros e ouro ilegais, e os R$ 15 bilhões do tráfico de cocaína. Sobre o assunto, o Edição do Brasil conversou com a advogada criminalista Thays Murta. Quais são os principais desafios legais no combate ao crime organizado no Brasil? No aspecto normativo, verifica-se a existência de lacunas em relação à tipificação de novas modalidades de crimes praticados por organizações, como os cibernéticos, lavagem de criptomoedas e fraudes digitais. Em âmbito institucional, nota-se que o combate à atuação das organizações criminosas é dificultado pela fragmentação das ações inibitórias que são coordenadas pelas autoridades policiais, Ministério Público e por órgãos de fiscalização. A ausência de integração plena leva a sobreposição de esforços ou falhas de comunicação. A Lei das Organizações Criminosas é suficiente para lidar com esse cenário? É incontestável que a lei foi um avanço essencial no combate à atuação das organizações criminosas, mas isoladamente, não é suficiente. Além da necessidade de atualização constante do diploma legal para que abranja novas modalidades de crime, é fundamental que sejam fomentados investimentos voltados à efetivação dos mecanismos de concretização dos ditames legais, logo, em estrutura investigativa, inteligência financeira e cooperação internacional para torná-la realmente eficaz. Há punições adequadas para quem financia ou movimenta recursos ilícitos ligados ao crime organizado? Sob um viés estritamente formal, é possível se concluir que o ordenamento jurídico brasileiro é suficiente e adequado na previsão de punições. Contudo, sob um enfoque material, a concretização das punições previstas legalmente encontra obstáculos práticos que inviabilizam sua aplicação efetiva, como a sofisticação das organizações criminosas, a morosidade processual e a dificuldade de cooperação internacional. Quais são os principais entraves legais para combater o comércio ilegal de combustíveis, bebidas, cigarros e ouro? A falta de harmonização tributária, que dificulta o controle e gera brechas exploradas pelo crime organizado. A tributação de combustíveis, bebidas e cigarros, por exemplo, envolve tributos federais, estaduais e municipais. No caso do ouro, há a regra de que ele pode ser considerado “ativo financeiro” ou “bem mineral”, criando dúvidas jurídicas sobre a fiscalização e tributação do mineral. Nota-se que no comércio de combustíveis, fraudes em notas fiscais e uso de empresas de fachada dificultam a identificação da origem e destino. No setor de bebidas e cigarros, por sua vez, o contrabando internacional é um desafio que exige não apenas lei, mas cooperação internacional efetiva. O ouro sofre com o uso de declarações de origem falsas em garimpos ilegais, o que permite a “legalização” de produto extraído de forma criminosa e ambientalmente devastadora. Como o sistema de justiça pode ser mais eficiente na repressão aos crimes ligados ao tráfico de cocaína? Embora existam normas rígidas, a repressão ainda enfrenta obstáculos. A eficiência do sistema de justiça no combate a esse tráfico depende de uma ação coordenada entre repressão penal, estrangulamento financeiro e medidas estruturais no sistema prisional, aliada a políticas sociais que reduzam a base de recrutamento do crime organizado. Que avanços jurídicos seriam essenciais para reduzir esse impacto bilionário do crime organizado? O enfrentamento jurídico do crime organizado deve combinar o enlace entre um ordenamento jurídico que contemple tipificações penais compatíveis com o dinamismo imposto pelos avanços tecnológicos, a eficiência processual através da criação de varas e câmaras especializadas em crime organizado e lavagem de dinheiro, o fortalecimento da cooperação internacional e por meio do reforço legal nos programas de proteção a testemunhas e delatores. É essencial aumentar a efetividade da persecução penal e da recuperação de ativos, de modo a atingir o coração das organizações criminosas: o patrimônio.

Contratos de trabalho intermitente totalizam mais de 400 mil vínculos

Sendo uma alternativa viável para ampliar as admissões, com uma jornada flexível e a contratação de profissionais formais por hora, os contratos de trabalho intermitente cresceram quase 60 vezes entre 2017 e 2023, passando de 7,3 mil para 416 mil vínculos, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Na Alimentação Fora do Lar (AFL), o crescimento também foi expressivo: de apenas 315 contratos para 15,8 mil no mesmo intervalo de tempo. A taxa média anual no setor foi de 92,1%, consolidando o AFL como um dos principais usuários da modalidade. Dentre os diferentes tipos de estabelecimentos, os bares, em especial, quadruplicaram sua participação, passando de 2,5% para 24,2% dos vínculos intermitentes. O economista e docente no Centro Universitário Una, Fernando Sette Júnior, destaca que esse crescimento se deve, principalmente, à mudança na lei trabalhista de 2017, que abriu espaço para esse tipo de contrato. “Esse avanço reduz um pouco a taxa de desemprego, porque mais pessoas passam a ser registradas, mas aumenta a estatística de subocupação, já que muitos trabalham menos horas do que gostariam”. Para Júnior, essa ampliação faz com que a massa salarial cresça de forma mais lenta. “Eles aumentam o número de pessoas com carteira assinada, mas como a maioria trabalha menos horas, o valor final recebido todo mês tende a ser menor. Como o consumo das famílias é um dos motores do Produto Interno Bruto (PIB), o efeito desses contratos sobre a economia pode ser positivo, porém, limitado. No caso de bares e restaurantes, por exemplo, o impacto existe, contudo, não é tão forte quanto o de setores que pagam salários mais altos”. Ele acrescenta ainda que pode aumentar a desigualdade de renda. “De um lado, esses contratos dão chance para trabalhadores que antes estavam totalmente na informalidade. Mas, de outro, a renda instável e mais baixa pode reforçar desigualdades, especialmente se essas vagas se concentrarem em pessoas com menor escolaridade ou em regiões com menos oportunidades. Sem políticas que incentivem qualificação e proteção social, o risco é aumentar a distância entre os que têm empregos fixos e bem pagos e os que dependem só de contratos temporários”. Vagas temporárias Segundo um levantamento da Robert Half, 24% das empresas brasileiras apontam o crescimento nas demandas temporárias. As principais razões que impulsionam essa tendência, entre os recrutadores, a oportunidade de projetos pontuais extras (32%) é o motivo mais citado para a expansão da modalidade, seguida pela imprevisibilidade do cenário político-econômico (29%) e pela demanda urgente por profissionais com características técnicas específicas (25%). Já entre os profissionais, a adesão ao modelo também é crescente. Quase 40% dos trabalhadores ouvidos esperam participar de mais projetos temporários ainda em 2025, e 22% percebem que há mais facilidade na contratação por essa modalidade do que na ampliação de quadros fixos nas empresas. O diretor regional da Robert Half, Lucas Nogueira, afirma que a contratação por projetos se consolidou como uma alternativa estratégica. “Ela oferece às empresas agilidade, especialização e flexibilidade para responder rapidamente a desafios específicos. Isso é especialmente importante em momentos de transição ou mudanças regulatórias, como o atual contexto da reforma tributária, que exige adaptações rápidas e conhecimento técnico apurado”. Apesar do crescimento dessas modalidades de contratos, o economista não acredita que esses modelos se tornem predominantes no país. “Pelo menos não em curto prazo. Eles são importantes e estão crescendo, mas servem mais como complemento. A maior parte dos trabalhos no Brasil ainda precisa de gente presente todos os dias, em horários regulares, para garantir continuidade e estabilidade. O intermitente e o temporário funcionam melhor em setores que precisam de reforço em períodos específicos”. Ele finaliza dizendo que essas formas de contratação são sustentáveis em longo prazo. “Desde que sejam usadas de maneira equilibrada. Se o trabalho temporário ou intermitente for usado para completar o quadro em momentos de pico, pode ajudar bastante. Mas se virar regra em áreas que precisam de estabilidade, o risco é de criar empregos frágeis, com pouca segurança e menos perspectiva de crescimento profissional”.