Excesso de mineração preocupa autoridades e comunidades

Durante a abertura da audiência pública promovida pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que aborda os episódios de extravasamento nas minas da Fábrica e da Viga, pertencentes à Vale, em Ouro Preto, bem como a falha registrada no Dique do Fraille, na Mina Casa de Pedra, operada pela CSN, em Congonhas, na região Central do Estado, a deputada Bella Gonçalves (PT) sintetizou. “Estamos falando de como podemos adaptar estruturas de mineração para o cenário de chuvas extremas”. De acordo com Sandoval Pinto Filho, diretor de Meio Ambiente e Saúde da União das Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccon), a atividade minerária ocupa cerca de 40% a 50% da área territorial do município de Congonhas, o que, segundo ele, transforma a região em uma “típica zona de sacrifício”. Filho afirmou que há episódios de intimidação dirigidos a pessoas que se mobilizam em defesa da vida. Também criticou a ausência de transparência e as barreiras que dificultam o engajamento da população. Além disso, mencionou problemas nos equipamentos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Os moradores das áreas de risco são sujeitos de direitos e não meros espectadores. Não queremos morar debaixo da lata de lixo da mineração”. “O pavor e o medo tomaram conta dos moradores. Nós nem sequer tínhamos acesso à informação, não sabíamos se a falha na drenagem era na mina, se era no dique. Todos são atingidos”, desabafou a moradora da Comunidade Santa Quitéria, em Congonhas, Aline Soares Marcos. Ela também atua como integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e mencionou ocorrências de problemas respiratórios, além do uso frequente de medicamentos ansiolíticos. “Sofremos diariamente com a poeira contaminando nossa saúde física e com o medo comprometendo nossa saúde mental”. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Extração de Ferro e Metais Básicos de Congonhas, Belo Vale e Ouro Preto, Rafael Ávila, ressaltou que, para além da exploração da mão de obra, marcada por demissões e ampliação das jornadas, as empresas provocam impactos negativos ao meio ambiente. “O trabalhador gera R$ 1 milhão de riquezas por ano e recebe em torno de 5% desse valor”. O sindicalista afirmou que a origem do problema está na relação entre o setor privado e o Estado. Como exemplos desse vínculo prejudicial, citou os incentivos fiscais concedidos e a flexibilização nos processos de licenciamento. “Temos que impor limites a esse sistema”. Na avaliação do secretário de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Congonhas, João Luis de Castro, é preciso estabelecer normas, em nível estadual e federal, para as pilhas de rejeitos e estéreis. Ele também destacou a necessidade de fortalecer a fiscalização dos sumps, estruturas auxiliares da mineração que atuam como pequenas bacias para captação de água e prevenção de alagamentos. Castro apontou ainda como avanço o acordo de reparação firmado entre a Prefeitura e a Vale em 13 de março. Pelo termo, a empresa deverá investir R$ 25 milhões na ampliação do Museu de Congonhas e R$ 200 milhões na construção de um hospital para tratar problemas de pele, respiratórios e de saúde mental relacionados à exposição a danos ambientais. O procurador da República e coordenador do Grupo de Trabalho Rio Doce do Ministério Público Federal, Eduardo Henrique Aguiar, alertou para a proximidade entre as estruturas que se romperam e a Barragem de Forquilha, considerada uma das maiores do mundo em área de mineração e classificada no nível 3 de emergência, o mais alto. No Brasil, apenas outra barragem se encontra nessa mesma condição, localizada em Itatiaiuçu, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Aguiar ressaltou a importância de revisar e atualizar os parâmetros meteorológicos diante dos impactos provocados pelas mudanças climáticas. “As barragens que existem não foram projetadas para suportar os novos volumes de chuvas que estão cada vez mais frequentes”. Segundo o procurador, o episódio da Mina da Viga serve como alerta para evitar o licenciamento fragmentado, que não considera os impactos acumulativos e integrados das atividades ao redor. Ele também enfatizou a necessidade urgente de modernizar a legislação, incluindo normas para a operação de outras estruturas de mineração, como cavas e sumps. “Essas estruturas precisam ter normas rígidas de segurança, não apenas as barragens”.

Número de eleitores jovens de 16 e 17 anos aumenta quase 80%

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de jovens de 16 e 17 anos que fizeram o cadastro eleitoral e estão aptos a votar cresceu 78% em comparação com 2020. São 1.836.081 eleitores nessa faixa etária. O crescimento desse grupo superou o do eleitorado em geral, que subiu 5,4% de um pleito municipal a outro. Já nas eleições gerais de 2022, os adolescentes haviam comparecido em número ainda maior, com o alistamento de 2,1 milhões (51,13% acima de 2018). Para entender sobre o impacto desses índices nas eleições, o Edição do Brasil conversou com o cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Raul Magalhães. O que explica o aumento recente no número de eleitores jovens no Brasil? Em 2012, houve forte adesão de jovens menores de 18 anos. Esse engajamento, no entanto, caiu em 2016 e voltou a recuar em 2020, ano marcado por uma queda mais acentuada, influenciada pelo contexto da pandemia. A partir de 2024, observa- -se uma retomada, movimento que se repete em 2026. Isso indica um retorno à normalidade no engajamento político dessa faixa etária. Por outro lado, o atual contexto político também exerce influência direta nesse crescimento. O elevado grau de polarização da sociedade brasileira, marcado por divisões ideológicas e debates morais intensos, tem contribuído para atrair mais jovens ao voto facultativo. Como o ambiente digital e as redes sociais influenciam a decisão desse grupo de votar? O ambiente digital e as redes sociais exercem forte influência sobre a decisão dos jovens de votar, assim como impactam diversos outros aspectos de suas vidas. Apesar de sugerir maior facilidade de acesso à informação, esse ambiente nem sempre cumpre esse papel de forma efetiva. Isso porque, é comum a vivência em “bolhas” de informação e convivência. De alguma maneira, as mensagens são muito retroalimentadas dentro de um caldo de cultura específico, no caso dos jovens e das redes em geral, as informações são muito superficiais, com base em análises fracas. Assim, embora o meio digital tenha potencial para ampliar o acesso à informação, seu uso não necessariamente resulta em maior nível de conhecimento político. Há diferenças relevantes entre o comportamento político dos jovens atuais e de gerações anteriores? As diferenças entre a juventude atual e os das gerações anteriores ainda demandam análises mais aprofundadas, mas, entre os jovens inseridos em um ambiente marcado pela internet e pela formação de grupos, as chamadas “bolhas”, a influência tende a ser mais horizontal. Diferentemente de modelos mais tradicionais, nos quais os jovens tinham os adultos como referência, o cenário atual aponta para uma maior autonomia desses grupos, em que o comportamento dos próprios integrantes das “bolhas” orienta decisões e posicionamentos. No entanto, esse é um processo ainda em curso, cujos desdobramentos futuros são incertos. Além disso, não é possível analisar a juventude apenas como uma faixa etária homogênea. Fatores como classe social, raça, religião e os espaços de convivência continuam exercendo influência significativa sobre o comportamento desse grupo. Os partidos políticos estão preparados para dialogar com esse público? Não, as legendas operam, atualmente, sob uma lógica fortemente orientada pelo financiamento público e pela gestão de recursos institucionais, o que garante aos parlamentares maior margem de manobra para buscar a reeleição. Nesse cenário, não há uma preocupação em estabelecer comunicação com os jovens, nem uma identificação desse grupo com os políticos profissionais. O que precisa acontecer para que o jovem não apenas vote, mas participe mais ativamente da política? Uma reformulação geral na democracia, e isso não se relaciona apenas aos jovens, mas aos eleitores em geral. A distância que o eleitorado tem da política é porque depois do voto, o sistema passa a operar com uma lógica própria, muitas vezes distante e pouco responsiva. Isso gera a sensação de que a participação individual tem pouco impacto real no funcionamento da política.

33 milhões de brasileiros vivem sem acesso à água potável

O Ranking do Saneamento 2026, divulgado pelo Instituto Trata Brasil, reforça um cenário de forte desigualdade no país e evidencia que o baixo nível de investimentos segue como principal entrave para a universalização dos serviços até 2033. Segundo o estudo, 51 dos 100 maiores municípios brasileiros investem menos de R$ 100 por habitante, patamar abaixo dos R$ 225 anuais recomendados pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab). Na outra ponta, cidades que já atingiram a universalização lideram a lista. Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos, todas em São Paulo, ocupam as primeiras posições e apresentam indicadores máximos de atendimento, além de baixos índices de perdas. Enquanto os 20 municípios mais bem colocados investem, em média, R$ 176,17 por habitante, os 20 piores aplicam apenas R$ 77,58, cerca de 66% abaixo do necessário. Esse desequilíbrio se reflete diretamente nos serviços: os melhores registram 98,08% de coleta de esgoto, contra apenas 28,06% entre os últimos colocados. De acordo com a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, o problema está na falta de priorização histórica. “Essa quantidade de municípios investindo menos de R$ 100 por ano por habitante demonstra que não está havendo a priorização do saneamento básico, e isso compromete a universalização dentro do prazo”. Luana destaca que o tratamento de esgoto segue como o principal gargalo nacional. “Apenas 51,2% do esgoto é tratado. Estamos falando de milhares de piscinas olímpicas de esgoto lançadas na natureza”. Entre os piores desempenhos do levantamento estão cidades como Santarém (PA), Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC), que apresenta o menor investimento do país, com apenas R$ 8,99 por habitante. Avanço na universalização Para a especialista em gestão de projetos Flávia Pedrotti, o avanço do saneamento passa pela capacidade técnica dos municípios. “Cidades menores não têm equipe capacitada, o que dificulta o entendimento do setor e a própria gestão do saneamento”. Ela aponta que a ausência de projetos estruturados limita o acesso a recursos. “O financiamento exige diagnósticos bem elaborados e projetos consistentes. Sem isso, os recursos não chegam. O plano municipal de saneamento é central no processo de universalização”. Outro caminho citado pela especialista é a regionalização dos serviços, que permite ganho de escala e viabiliza investimentos por meio do subsídio cruzado entre municípios. “Quando há equilíbrio tarifário entre cidades mais avançadas e aquelas com maior déficit, o processo ganha mais celeridade”. Apesar dos avanços, Flávia avalia que o desafio permanece elevado. “As metas são ousadas e existe risco de não serem totalmente cumpridas até 2033, mas a capacitação pode acelerar esse processo”. Para Luana, o tema deve estar na pauta dos candidatos em ano eleitoral. “Faltam sete anos para o prazo final do Marco Legal do Saneamento Básico. Qualquer decisão sobre a priorização desse tema precisa acontecer agora, para que haja alguma possibilidade de universalização do acesso”. Minas Gerais No Estado, o cenário é heterogêneo. Municípios como Uberaba e Montes Claros figuram entre os 20 melhores do país, demonstrando avanços consistentes nos indicadores. Já cidades como Juiz de Fora e Betim se destacaram positivamente na evolução recente do levantamento, com melhora nos serviços e redução de perdas. Apesar disso, Minas Gerais ainda enfrenta desafios importantes, principalmente no tratamento de esgoto, que gira em torno de 45%. Na capital, Belo Horizonte apresenta bons níveis de coleta e tratamento, acima da média nacional, mas sofre com altos índices de perdas de água, fator que impactou sua posição no estudo.

Câncer colorretal é uma doença silenciosa em estágios iniciais

O câncer colorretal, que afeta o intestino grosso e o reto, consolidou-se como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que a doença ocupa a segunda posição entre os tipos mais frequentes em homens e mulheres. Das 781 mil estimativas anuais de novos casos para o triênio 2026-2028, cerca de 26 mil devem ser de cólon e reto, cenário que reforça a prevenção e o diagnóstico precoce. O avanço da doença está ligado a mudanças no perfil da população e, principalmente, no estilo de vida. Segundo o oncologista Matheus Baptista, esse crescimento é multifatorial. “O aumento da incidência do câncer colorretal no Brasil está relacionado a um conjunto de fatores que vêm se consolidando nas últimas décadas. Um dos principais é o envelhecimento da população”. A oncologista Thais Passarini destaca que tem crescido o número de diagnósticos entre adultos jovens. Ela aponta que o fenômeno está relacionado, para além do estilo de vida contemporâneo, a outros fatores. “Há também evidências do impacto do microbioma intestinal, já que alterações na flora podem contribuir para inflamação crônica e desenvolvimento do câncer”. De acordo com Baptista, outro ponto crítico é o diagnóstico tardio. A doença costuma evoluir de forma lenta e silenciosa, o que dificulta a identificação precoce. “Geralmente, o câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos benignos e, nas fases iniciais, pode não causar dor nem alterações significativas. Quando surgem, os sintomas são inespecíficos e frequentemente atribuídos a problemas comuns, como alterações alimentares ou estresse. Por isso, muitos pacientes convivem por semanas ou meses com sinais leves antes de procurar avaliação médica”. Ele alerta que a persistência é o principal indicativo de risco. “Sangue nas fezes, mudança no hábito intestinal, dor abdominal, anemia e perda de peso sem causa aparente devem ser investigados, especialmente quando persistem ou aparecem associados”. Diagnóstico tardio Thais ressalta que, apesar de uma parcela dos casos estar ligada a fatores hereditários, a maioria está associada a hábitos e fatores ambientais. Ainda assim, o diagnóstico precoce segue como o maior desafio no país. “Mais de 80% dos casos são diagnosticados em estágios avançados. O Brasil não possui um programa nacional organizado de rastreamento, e o acesso à colonoscopia ainda é limitado, sobretudo no sistema público. Além disso, há baixa conscientização da população e dificuldades de acesso a consultas e exames”. Entre os mais jovens, a oncologista acredita que o problema pode ser ainda mais grave. “Existe uma tendência de subvalorizar sintomas como sangramento nas fezes ou alteração do hábito intestinal, tanto pelos pacientes quanto por profissionais de saúde. Isso atrasa a investigação e aumenta a probabilidade de diagnóstico em fases mais avançadas”. Alta taxa de cura Apesar do cenário preocupante, os especialistas reforçam que o câncer colorretal tem alto potencial de cura quando identificado precocemente. “Quando diagnosticado em estágios iniciais, as chances de cura podem superar 90%, e o tratamento tende a ser menos agressivo, muitas vezes restrito à cirurgia, com melhor qualidade de vida para o paciente”, afirma Thais. A colonoscopia é considerada o principal exame para detecção e prevenção, pois permite identificar e remover lesões antes que evoluam para câncer. A recomendação é iniciar o rastreamento a partir dos 45 anos, ou antes, em casos de histórico familiar. Para Baptista, ampliar a conscientização é fundamental. “Mais do que tratar o câncer, o objetivo é evitar que ele se desenvolva ou identificá-lo precocemente. Informação, acompanhamento médico e adesão aos exames são essenciais para reduzir a mortalidade”, conclui.

Fabiano Cazeca destaca projetos e mudança para o Partido Liberal

O empresário e comunicador Fabiano Cazeca fez um balanço positivo de sua atuação na Câmara dos Deputados, com presença ativa no Plenário e apresentação de propostas voltadas a demandas práticas da população. Entre os projetos apresentados, Cazeca destaca iniciativas em diferentes áreas. Uma delas propõe a obrigatoriedade de informar a validade de produtos no momento da compra on-line, alterando o Código de Defesa do Consumidor. “Parece simples, mas evita prejuízo. Tem gente que compra produto caro e perde porque não sabia da validade”. Outro projeto visa proibir o overbooking em voos comerciais. “Você compra, paga, faz check-in e na hora de embarcar descobre que ficou sem lugar. Isso não é justo. A companhia tem que respeitar a capacidade do avião”. Na área jurídica, o deputado propôs que advogados nomeados em casos de justiça gratuita sejam remunerados pelo Estado. “O juiz pode convocar, mas alguém precisa pagar. Ninguém é obrigado a trabalhar de graça”. Também fazem parte do conjunto de propostas mudanças na lei de consórcios e a autorização para instalação de pontos de recarga para veículos elétricos em condomínios. Mudança de partido Com a recente filiação ao Partido Liberal (PL), Cazeca afirma que pretende dar continuidade a esse trabalho e ampliar sua atuação legislativa. A decisão, segundo o parlamentar, foi motivada tanto por afinidade ideológica quanto por estratégia política. “A filosofia do partido sempre me agradou bastante, com defesa de valores nacionais e das pessoas. Além disso, entendi que no PL tenho melhores condições de disputar e continuar esse trabalho que venho fazendo”. Ele também ressalta o peso do convite recebido de lideranças da sigla em Minas Gerais. “Foi um convite especial que recebi com muita responsabilidade. Estou confiante de que foi a escolha certa”. De olho em 2026, o deputado projeta um cenário de fortalecimento do partido e de protagonismo mineiro na política nacional. “Minas Gerais seguirá como peça-chave nas articulações eleitorais, porque tem uma tradição política muito forte, já revelou grandes nomes e continua com parlamentares respeitados. Vai continuar tendo protagonismo nas decisões nacionais”. Sobre o PL, a sua expectativa é de crescimento consistente, impulsionado por lideranças com forte apelo popular. “O partido ganhou uma dimensão muito grande e tende a avançar ainda mais. Isso fortalece a bancada e amplia a capacidade de influência nas decisões do país”. Com a mudança de sigla e foco na continuidade do mandato, Fabiano Cazeca busca consolidar sua atuação em Brasília e ampliar sua relevância no cenário político. “Quero continuar trabalhando para o povo e para o Brasil, com dedicação total”, conclui.

ECA Digital amplia a proteção on-line de crianças e adolescentes

O estudo “Práticas de aferição de idade em 25 serviços digitais usados por crianças no Brasil”, de 2025, aponta que 84% das plataformas mais utilizadas por crianças no país, 21 de um total de 25 analisadas, não realizavam verificação etária no momento da criação de contas. Os dados retratam um cenário anterior à entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA) Digital no dia 17 de março. Também conhecido como Lei Felca, o marco jurídico tem como foco a proteção de crianças e adolescentes no ambiente on-line, incluindo redes sociais, jogos, plataformas de vídeo e e-commerces voltados a esse público. A norma veda o uso exclusivo da autodeclaração de idade, como informar a data de nascimento ou apenas marcar uma opção. Na prática, as plataformas não podem mais se basear somente na informação fornecida pelo usuário. A legislação também passa a exigir supervisão parental e a adoção de mecanismos efetivos de verificação etária para acesso a conteúdos e serviços digitais. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a advogada especialista em Direito Digital, Chayana de Rezende. O que muda em relação ao que já existia no Estatuto da Criança e do Adolescente tradicional? O ECA (1990) foi pensado para uma infância no mundo físico, mas a expansão do ambiente digital ampliou riscos sem que a aplicação da lei acompanhasse. O princípio da proteção integral permanece, mudando sua aplicação diante de riscos on-line, que deixam de ser episódios isolados e passam a ser fenômenos estruturais e escaláveis. Exposição de imagem, uso de dados e violência digital tornam-se centrais. O dever de cuidado se amplia, incluindo agentes privados. Assim, o avanço está em fazer direitos já existentes valerem no ambiente digital com maior alcance e rapidez. Quais são as principais responsabilidades impostas às plataformas digitais? A mudança central é que plataformas digitais deixam de alegar neutralidade: quem organiza e amplifica conteúdo é agente ativo e responde proporcionalmente ao seu poder. Isso implica três deveres: prevenir riscos, agir rapidamente diante de danos e não se omitir. Em um ambiente de curadoria algorítmica, a inércia passa a ter relevância jurídica. Essa visão tensiona o modelo do Marco Civil, ao reconhecer que não há neutralidade real. O objetivo não é censurar, mas alinhar poder e responsabilidade. Como a lei contribui para combater algumas práticas antigas como cyberbullying, exploração sexual e aliciamento on-line? A lei corrige a defasagem entre a rápida evolução digital e uma proteção jurídica ainda analógica, reforçando deveres já existentes à luz do princípio da proteção integral. Violências como cyberbullying e aliciamento passam a ser tratadas como fenômenos estruturais e amplificados. A responsabilidade deixa de focar só na autoria e inclui a capacidade de intervenção. A omissão, diante de controle e moderação, deixa de ser neutra. Sem negar a liberdade de expressão, o foco é prevenir danos e reduzir sua propagação no ambiente digital. Empresas de tecnologia podem ser penalizadas caso não cumpram as regras? Sim, o descumprimento deixa de ser apenas reputacional e passa a gerar consequências jurídicas. A responsabilização decorre da ação ou omissão diante de violações, sobretudo envolvendo crianças. As punições são progressivas: medidas corretivas para cessar o dano, multas para garantir rapidez e responsabilização civil com indenização. A lógica segue o Marco Civil, mas reforça deveres de diligência. Assim, a omissão passa a ter custo, sem impedir a inovação, apenas limitando a impunidade. Como o ECA Digital aborda a proteção de dados pessoais de crianças e adolescentes? O Estatuto da Criança e do Adolescente Digital redefine dados de crianças como extensões de sua identidade e vulnerabilidade. Reforça a exigência de maior cuidado, transparência e justificativa no tratamento dessas informações. A lógica deixa de ser coleta ampla e passa a exigir finalidade legítima e necessidade real. Alinhado à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), vai além ao proteger a formação da criança no ambiente digital. Como dados moldam algoritmos e comportamentos, seu uso deixa de ser neutro. O foco é limitar uma lógica de exploração antes pouco regulada. Na sua avaliação, o que ainda precisa avançar na legislação brasileira sobre proteção digital de menores? O Brasil avançou, mas ainda corre atrás de um cenário que evolui mais rápido que a lei. Falta enfrentar o modelo econômico baseado em engajamento, que tensiona a proteção de crianças. Não basta regular condutas se o sistema incentiva exposição e coleta de dados. A legislação ainda trata algoritmos como neutros, ignorando seu impacto na formação e comportamento. Soma-se a isso a lentidão do direito frente ao dano imediato e a falta de educação digital estruturada. O desafio é regular com mais firmeza e responsabilidade.

Déficit habitacional cai 14% em Minas e aluguel segue maior vilão

A Fundação João Pinheiro, em parceria com o Ministério das Cidades, apurou que o déficit habitacional em Minas Gerais chegou a 478.756 domicílios em 2023, uma queda de 14% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o número de moradias com algum tipo de inadequação caiu de 1.385.041 para 1.329.725, o que corresponde a 19,1% das residências do estado. No Brasil, o índice foi estimado em 5.977.317 domicílios, queda de 3,8%. Em Minas, o principal fator do déficit é o ônus excessivo com aluguel urbano, quando mais de 30% da renda familiar é destinada à moradia, situação que atinge 366.353 domicílios (76,5%). Em seguida aparecem a coabitação, com 76.154 moradias (15,9%), e a habitação precária, com 36.249 unidades (7,6%). O estudo aponta ainda que 46,6% das famílias afetadas têm renda entre um e dois salários mínimos, e que 62,2% dos domicílios são chefiados por mulheres. Para o cientista social e professor da UniArnaldo Centro Universitário de Belo Horizonte, Luciano Gomes dos Santos, a melhora nos indicadores não significa necessariamente que todas essas famílias passaram a viver em moradias adequadas. “O déficit habitacional é um indicador complexo, a redução pode ocorrer se as pessoas deixam de gastar mais de 30% da renda com aluguel. Isso não quer dizer que novas moradias foram construídas ou que conquistaram uma habitação definitiva e adequada. Em muitos casos, a melhora pode refletir mudanças econômicas ou demográficas e não necessariamente uma transformação estrutural do acesso à moradia”. O especialista acrescenta que a atuação do poder público ainda é considerada insuficiente. “A política habitacional no Brasil enfrenta desafios históricos, como falta de continuidade entre governos, escassez de recursos e dificuldades de articulação entre políticas urbanas, fundiárias e sociais. Embora existam programas e iniciativas relevantes, a escala da demanda por moradia é muito maior do que a capacidade atual de produção de habitações populares. Além disso, a política habitacional não se resume à construção de casas, envolve planejamento urbano”. Futuro A redução observada pode ser um sinal positivo, destaca Santos. “Porém, ainda é cedo para afirmar que existe uma tendência consolidada de queda. O déficit habitacional costuma variar de acordo com fatores econômicos e demográficos. Se houver continuidade de investimentos em habitação popular, melhoria das condições de renda e expansão de políticas urbanas integradas, é possível que a tendência de redução se mantenha. Porém, crises econômicas ou retração de políticas podem interromper esse processo”. Segundo o cientista, os principais desafios para reduzir ainda mais o déficit habitacional em Minas Gerais estão ligados a fatores estruturais. “Um deles é o alto custo do solo urbano nas áreas com maior oferta de emprego e serviços. Outro desafio é o financiamento para famílias de baixa renda. É necessário ampliar políticas de urbanização de assentamentos precários, regularização fundiária e melhoria da infraestrutura urbana, além de integrar a política habitacional ao planejamento das cidades”, finaliza. Investimento A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese) informou, por meio de nota, que tem ampliado as políticas habitacionais com investimento de cerca de R$ 100 milhões nos últimos anos. As ações priorizam famílias em vulnerabilidade inscritas no CadÚnico. Entre os programas estão o Auxílio Porta de Entrada (Apê), que concede subsídio de até R$ 25 mil para compra da casa própria e pode ser combinado a programas federais, e o Moradas Gerais, que promove melhorias habitacionais em municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Outra frente é o Minas Reurb que busca ampliar a regularização fundiária urbana e garantir o título de propriedade às famílias. Desde 2019, o programa viabilizou mais de 85 mil títulos de regularização, sendo mais de 21 mil emitidos em 301 municípios, beneficiando 256 mil mineiros. Para este ano, foram anunciados investimentos de R$ 11,2 milhões, com previsão de regularizar 4.870 imóveis e beneficiar cerca de 15 mil pessoas em 16 cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os recursos são provenientes do Acordo de Reparação do Rio Doce.

64% dos jovens adultos dizem não consumir bebidas alcoólicas

De acordo com a pesquisa Ipsos-Ipec, encomendada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) para a sétima edição da publicação “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025”, a taxa de abstinência entre jovens apresentou crescimento. Entre pessoas de 18 a 24 anos, o índice subiu de 46% para 64%, enquanto na faixa de 25 a 34 anos o aumento foi de 47% para 61%. No panorama geral, 64% dos brasileiros declararam não consumir bebidas alcoólicas em 2025, um aumento em relação a 2023, quando 55% afirmaram não beber. Os maiores aumentos ocorreram entre indivíduos com ensino superior (de 49% para 62%), moradores da região Sudeste (de 51% para 62%) e das classes A e B (de 44% para 55%), sendo mais acentuado nos municípios localizados em regiões metropolitanas e capitais. Segundo a psicóloga clínica Karen Lourenço, uma das explicações para essa queda de consumo está em uma mudança de valores entre gerações. “Durante muito tempo o álcool teve um papel central na socialização juvenil, associado à ideia de aproveitar a vida em festas e encontros frequentes. Entre os jovens atuais, vemos uma redefinição desse ideal. Para muitos deles, está relacionado ao cuidado com o corpo e com a saúde mental. Existe ainda uma preocupação maior com a própria imagem e com o desempenho pessoal, algo influenciado pelas redes sociais”. “Nesse cenário, práticas como atividade física, atenção à higiene e as horas de sono, alimentação equilibrada e cuidado com a saúde mental passam a ocupar um espaço importante no estilo de vida, e o álcool deixa de ter o papel central que tinha na socialização de gerações anteriores. Hoje, jovens se divertem indo à academia, praticando ioga, participando de encontros matinais, corridas, entre outras coisas. E isso contribui para a saúde e também para a boa imagem nas redes sociais”, complementa. Para Karen, a redução do consumo de álcool entre os jovens pode trazer impactos sociais relevantes ao longo do tempo. “Podemos esperar uma mudança na cultura de socialização que não foca exclusivamente em festas centralizadas em álcool e em encontros feitos exclusivamente para beber. Além disso, pode haver efeitos positivos na saúde pública, como menor incidência de acidentes e doenças relacionadas ao álcool, e também uma valorização maior de estilos de vida que priorizam autocuidado e equilíbrio emocional”. Saúde física A médica Gastroenterologista e Hepatologista do Hospital Belo Horizonte, Camila Caroline Leal Oliveira, explica que o fígado é o principal órgão responsável por metabolizar o álcool. “Quando o consumo é frequente, pode causar acúmulo de gordura nas células hepáticas e inflamação. Com o tempo, esse processo pode evoluir para fibrose, que é a formação de cicatrizes no fígado decorrentes da agressão crônica. Em estágios mais avançados, podem evoluir para cirrose”. Camila ressalta que essa abstinência dos jovens pode ter um impacto positivo importante na saúde pública. “Quanto menor a exposição ao álcool ao longo da vida, menor a chance de desenvolver inflamação hepática crônica e fibrose. Existe uma preocupação crescente com o aumento de enfermidades hepáticas nesse grupo de pessoas. Por isso, é interessante manter um acompanhamento com exames periódicos, fazer pelo menos um check-up hepatológico, incluindo rastreio para hepatites virais, e receber orientação sobre hábitos de vida, especialmente em relação ao consumo de álcool”. Sem interesse A jovem Thais de Paula, de 29 anos, que atualmente trabalha como babá, conta que não consome álcool. “Já experimentei, mas não gosto do efeito em mim. Na verdade, nunca me interessei, talvez porque meus pais consomem e eu não gosto da forma que eles agem quando bebem. Meu pai já teve problemas com bebidas por causa do vício e isso é algo que não quero para minha vida”. Thais relata ainda que já sofreu pressão para consumir álcool. “Inclusive, nas vezes que provei foram porque as pessoas diziam que eu precisava beber, porém, sempre que provava me sentia estranha. A última vez que tomei metade de um drink passei mal”. Ela destaca ainda que pretende continuar essa abstinência. “Em breve vou completar 30 anos, não faz sentido começar a beber agora”.

Escolha de um nome para vice-governador tem sido um desafio

A janela partidária, período quando se permite a mudança de sigla, está em sua reta final, cuja data- -limite será em 31 de março. Na Assembleia Legislativa, aconteceu uma intensa dança das cadeiras. A surpresa maior recaiu na decisão do deputado João Magalhães em deixar o MDB para se filiar ao PSD, partido do vice-governador Mateus Simões, pré-candidato ao Governo de Minas Gerais. Desde o final do ano passado, Magalhães se queixava do desconforto de conviver com o presidente do MDB, o influente deputado federal Newton Cardoso Júnior, a quem o parlamentar acusa de não ser democrático em suas decisões cotidianas no âmbito do partido. Decisão sobre vice Para além de especulações citando nomes já conhecidos como possíveis opções ao cargo de vice-governador, uma novidade surgiu na semana passada: a chance do atual presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Leite (MDB), ser escolhido na qualidade de vice na chapa a ser encabeçada pelo senador Rodrigo Pacheco. Juridicamente, estaria tudo certo. Vale dizer, Tadeu, já eleito Conselheiro do Tribunal de Contas, não está impedido de disputar qualquer cargo, enquanto não acontece a sua efetiva posse naquela Corte. No momento, a lista de postulantes como companheiro de chapa do pré-candidato, senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), já conta com três sugestões: presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão (Republicanos); presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe; e o empresário Vittorio Medioli. O curioso é que o nome do presidente da Fiemg faz parte ainda da preferência do candidato Mateus Simões (PSD). Também está no âmbito de Simões a possibilidade de convencer seu amigo e secretário de Governo, Marcelo Aro (PP), em desistir de disputar o Senado para ser o número dois em sua chapa ao Palácio Tiradentes. Já na porta do Café Nice, no Centro de Belo Horizonte, onde temas políticos fazem parte do bate-papo cotidiano, frequentadores comentam que o pré-candidato ao governo, Alexandre Kalil (PDT), diante da dificuldade de convencer alguém para ser seu vice nesta peleja, deve convidar a companheira de partido, a deputada federal Duda Salabert. Mas tudo não passa de conversa de populares, sem avaliação ou confirmação do partido e coordenadores de campanha do ex-prefeito.

Feminicídio em alta pode revelar falhas na proteção às mulheres

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, o maior número da última década e um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na prática, isso significa que quase quatro mulheres foram assassinadas por dia em razão de sua condição de gênero. Os dados apontam que maioria das vítimas são mulheres negras e em muitos casos, os crimes ocorrem dentro do ambiente doméstico e frequentemente cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Para combater o crime, o governo federal lançou em fevereiro o Pacto Nacional contra o Feminicídio, com a proposta de integrar ações entre Executivo, Legislativo e Judiciário, ampliando a proteção às vítimas e a responsabilização dos agressores. Para analisar os dados, apontar entraves e discutir caminhos para transformar compromissos institucionais em proteção real, o Edição do Brasil conversou com a advogada e professora Laura Eliza Nascimento. O Brasil voltou a registrar números elevados de feminicídio em 2025. O que explica esse cenário? O aumento se dá por uma combinação de fatores culturais, institucionais e estruturais. Fica evidente a insuficiência das políticas públicas e a falência da rede de proteção à mulher. O Estado não consegue assegurar uma resposta eficiente para quem está sob ameaça. Há também o machismo estrutural e dificuldades orçamentárias. Por outro lado, há maior conscientização e melhor tipificação do crime, o que reduz a subnotificação e faz os números aparecerem mais. Os dados ainda podem ser maiores devido à subnotificação? Sim. Isso ocorre principalmente pela ausência de denúncias. As mulheres têm medo, dependência econômica ou não confiam no Estado e pela tipificação inadequada. Muitos homicídios motivados por gênero ainda são registrados como crimes comuns, o que distorce a realidade. O Pacto Nacional contra o Feminicídio pode ajudar a reverter esse quadro? O pacto tem como foco tornar as medidas protetivas mais ágeis e eficazes, além de integrar dados entre segurança pública, Judiciário e redes de assistência. Isso permite acompanhar os casos e evitar que a violência evolua. Também prevê o fortalecimento da rede de acolhimento, com delegacias 24 horas, casas-abrigo e monitoramento mais rigoroso dos agressores. Quais são os principais entraves para que essas medidas avancem? Existem entraves políticos importantes, como a pouca representatividade feminina e resistências ideológicas. Além disso, há baixa execução orçamentária. Mesmo com avanços legais recentes, ainda existem desafios estruturais, especialmente pela predominância masculina nos espaços de decisão. O problema hoje está na falta de leis ou na aplicação delas? O principal desafio está na execução e fiscalização. O Brasil já possui legislação relevante, mas ela não gera resultados na ponta. As políticas públicas precisam ser efetivamente implementadas. Como garantir que essas políticas saiam do papel? É essencial investir no monitoramento em tempo real, transparência e responsabilização. O uso de tecnologias, como tornozeleiras eletrônicas com alerta à vítima, pode salvar vidas. Além disso, iniciativas baseadas em evidências, como programas de monitoramento de agressores e estudos sobre feminicídio, ajudam a antecipar riscos e qualificar a resposta do Estado. O combate exige ações integradas entre governo e sociedade, com foco em prevenção, proteção e punição.